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Senhoras e senhores, para brindar esta noite de brilho e emoção, vem aí a
vencedora da noite.
Nesta noite maravilhosa, vamos apresentar em primeiro lugar a simpática
maravilhosa Sueli Oliveira. Nossos aplausos que ela merece.
Tchau.
Sua amiga caiu lá embaixo.
Que amiga?
Aquela que morava aqui.
Não!
Não!
Não!
Os que vêm à casa do Senhor, pois aqui encontrarão a paz.
Bem -aventurados os mansos de espírito, pois esses verão a
Deus.
Bem -aventurados os limpos, pois esses entrarão no reino dos céus.
Quem de nós tem o direito de tirar a vida dos outros?
Quem de nós tem o direito de tirar a própria vida se na verdade ela não nos
pertence?
Contra todos aqueles que blasfemam.
Contra todos aqueles que ousam contrapor -se ao grande pai.
Descerá o braço da justiça divina. E ai desse dia!
Pois não adiantará chorar.
O demônio tomou conta do corpo dessa mulher.
O senhor é meu pastor e nada me faltará.
Ele me faz repousar em pastos verdejantes.
Guia -me pelas veredas da justiça.
Ainda que eu ande pelo vale das sombras... da morte não temerei mal
Porque tu estás comigo.
Tua paz e o teu cajado me consolam.
Bondade e misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida.
E eu habitarei a casa do Senhor para todos sempre.
Fernanda, a barra pesou. Vou viajar.
Precisando, me procure.
Beijo.
Isso demora uma coisa para resolver rápido.
Coisa fácil.
Olha ela lá.
Assassina.
Assassina. Assassina. Calma, calma.
Calma. Vamos.
Eu não quero ver essa mulher.
Moravam juntas.
Você gostava dela?
Gostava?
Quer dizer que a senhora Nanga que matou Sueli.
A senhora tem provas que não matou a moça?
Nunca matei ninguém. Então quem matou Sueli?
Ela morava num apartamento?
Ela não tinha onde ficar e às vezes me procurava.
Satanás! Mentira! É um insulto! Por que você vinha chamando ela?
Um momento!
Está aqui, belezinha. Se está pensando que pode me enganar, está perdendo seu
tempo. Eu quero saber quem matou Sueli.
Vai me dizer por bem ou por mal.
Essa mulher corrompeu e matou a minha filha.
Ela tem corrompido outras mocinhas.
Ela não tem respeito por seus semelhantes. Nem tem, minha mãe de Deus!
Tempo escutado, senhor Daniel.
Obrigado, Meretíssimo.
Por ter concedido a palavra ao meu cliente.
Como pai religioso, ele tem outra maneira de focar o problema.
Um problema que se alasta na sociedade e ameaça a integridade das famílias.
Seja mais objetivo.
Refiro, minha excelência, ao homossexualismo.
A essa coisa que muitos costumam tratar com panos quentes.
Mas que eu, perdoe minha expressão, considero imundice.
Falta de vergonha!
Essa mulher que aqui está é mais uma criminosa fria e calculista.
Ela corrompe as pessoas daquilo que é de mais nobre.
O amor!
Por isso, para não me alongar, peço -lhes que considerem bem seu
E atribuo a ela a pena máxima.
O senhor está reincidindo em subjetividades.
Com a palavra, defesa.
Obrigado. Meritíssimo.
Eu gostaria apenas de fazer uma pergunta a Fernanda.
Estou certo de que respondendo... os senhores jurados vão saber que ela seria
incapaz de matar Sueli.
De que ela não é um monstro corruptor da sociedade... como deseja o meu nobre
colega da acusação.
Fernanda, como você e Sueli se conheceram?
Conheci Sueli no escritório da firma onde eu trabalhava.
Boa tarde. Eu queria falar com o responsável. Quem gostaria de falar?
Sueli.
Dona Valda, Dona Sueli aguarda na recepção.
Obrigada. Boa tarde. Tudo bem, pode me acompanhar.
Dona Fernanda, há uma pessoa aí fora que quer lhe falar.
Pode mandar entrar.
Pode entrar. Com licença, boa tarde.
Sempre. Obrigada.
Será que você ficaria com alguns convites para me ajudar num desfile?
Desfile de moda?
Não é que eu sou candidata, Miss.
Agora, quem vender mais convites ganha uma melhor torcida. E eu vou precisar
muito de torcedores.
Legal.
Mas vem cá, esses convites têm direito a comes e bebes?
Claro, depois do desfile vai ter um coquetel maravilhoso.
Bem, então eu vou ficar com cinco.
Cinco?
Que bom.
Depois eu assino.
É, rifa de quê?
Não, Pedro, não é, Rifa.
É um concurso de Miss.
E a moça aqui se candidatou.
Quem compra os convites ganha o quê?
Você acha que você ganha a Miss?
Depois desse dia dos convites, vocês se encontraram de novo?
Canastra!
Sim,
sim, sim.
Fernanda, você se lembra de mim?
Sueli, a Miffy.
Claro.
Estamos jogando um buraco ali. Vamos?
Vamos.
A água está gelada.
Você
conhece
a Miffy?
E aí, Sueli, como foi o concurso?
Pois é.
Eu ganhei o concurso, mas em compensação fui expulsa de casa.
Nossa, mas ainda acontece esse tipo de coisa?
Que loucura, hein?
Acontece.
Vamos dar uma volta?
Para a gente conversar melhor?
Vamos, Sueli?
Vamos.
E você se prontificou a ajudar Sueli?
Fiquei com pena.
Ela estava aflita, sem ter para onde ir.
Eis a tenda, paz e amor.
Esteja à vontade. A casa é sua.
Muito obrigada.
Pois é, você sabe que desde que eu fui expulsa que eu carrego essa bolsa cheia
de coisas?
Miss, é, ganhando concurso.
O que acontece quando se ganha um concurso de beleza em uma faixa como
A gente perde o sossego, é expulso de casa.
Eu já te falei para você não se preocupar com isso.
Pode ficar aqui o tempo que quiser.
Família, minha filha, é assim mesmo.
É mesmo. Vou incomodar o mínimo possível.
Esquece. Vamos tomar um banho?
Vamos.
Chorando.
Vem cá.
Calma.
Cada um de nós termina sendo expulso de casa de uma forma ou de outra.
Na minha casa, eles não alcançavam muito a minha cabeça.
Eu não aguentei a pressão. Resolvi por um ponto final.
E disse tchau.
Sabe o que meu pai respondeu?
Nada.
Seu silêncio me dizia, te manda, Fernanda, já vai tarde.
Aí eu dei um beijo no velho e até hoje, nunca mais.
Sabe o que eu penso caso nada dê certo comigo?
Pego um avião e desapareço.
Por que avião?
Sei lá, porque toda vez que imagino viajar, só me lembro de avião.
Que loucura!
Que tal um dia a gente pegar um avião e fazer uma grande viagem?
Meritíssimo! Tudo que a acusação tem dito dessa jovem não passa de mentira. A
amizade de Fernanda e Sueli era sincera e pura.
Sueli sabia que você morava sozinha?
Ou você se aproveitou disso para atraí -la mais fácil?
Como...
A aranha atrai a sua presa.
Disse que morava sozinha quando estava na praia.
Acha que acredito nessa versão de amizade pura por Sueli?
A ré é meritíssima.
Agiu de forma premeditada.
Percebendo a presa indefesa e com problemas, tratou de atraí -la.
Pessoas como a ré são um câncer que deve ser extirpado da família cristã para
que não dissemine as suas raízes malditas.
na sociedade em que vivemos, livremente.
Somente com a punição de mulheres como essa é que a família poderá vir a ter
dias mais felizes.
Eu lhes garanto, senhores jurados, sem medo de errar, essa mulher é culpada.
O que mais que você pediu?
Nada, é segredo.
É segredo? É. Que mistério.
O que foi?
Eu queria ser Miss outra vez.
Que loucura.
Loucura por quê?
Se eu conseguisse ser Miss outra vez, tudo seria mais fácil.
A gente acaba virando artista, aparecendo em revista para homem.
E, de repente, até na televisão.
Poderia ficar famosa, ser admirada.
Vamos para mim?
Senhor advogado da defesa, queira pronunciar -se.
A etapa anterior encerrou -se quando o nobre advogado da acusação... batia -se
pela culpabilidade de Fernanda Maia.
Senhores jurados, acusar foi sempre uma tarefa fácil.
Principalmente quando essa acusação resvala para o terreno da subjetividade.
Dizer -se que essa moça é a pior criminosa que já entrou nesse
mesmo que nos declararmos santos.
E que sobre esta criatura devemos lançar nossas pedras.
Menecício! A defesa não esclareceu a minha indagação anterior.
Eu perguntei se no dia em que Sueli foi morta, a acusada esteve com ela,
como costumava fazer todos os dias.
Eu perguntei coisa objetiva, já que o nobre colega citou a minha...
Subjetividade.
Fernanda Maia.
A senhora esteve com Sueli Marins antes de ela tirar -se do quinto andar do seu
apartamento?
Eu estava dormindo quando ela chegou.
Quer dizer que ela entrou no seu apartamento? Um pequeno quarto e sala.
Andou de um lado para o outro e você não acordou.
Tenho sono pesado.
Talvez não seja sono pesado, senhores jurados.
Fernanda tem o sono de todos aqueles que deitam de consciência tranquila. E
estes, posso lhes afirmar, são cada vez em número menor nessa desumana sociedade
em que vivemos.
Se a senhora dormia tão profundamente, como conseguiu finalmente acordar e ir
até a janela por onde a sua colega pulara?
Acordei com um síndico batendo na porta.
A acusada pode provar o que disse?
Meritíssimo! Peço que entre a primeira testemunha.
O senhor esteve no apartamento de onde a jovem caiu... quanto tempo após o fato?
Responda com precisão.
Quando ela estava morrendo e começou a aparecer os primeiros vizinhos.
Talvez uns cinco minutos depois que ela pulou da janela.
Não tente conduzir as coisas.
Eu perguntei a que horas foi chamar a acusada. E não se a jovem caiu do quinto
andar. Pois eu não encampo a versão de suicídio.
Creio que ela caiu um pouco antes das duas da madrugada.
O senhor subiu e bateu no apartamento.
Bateu com força ou bateu normalmente?
Creio que bati com força. Eu estava muito nervoso.
A porta demorou a abrir?
Alguns instantes.
Mas como eu repeti as batidas, a dona Fernanda apareceu.
Aí eu disse, sua colega tirou -se lá embaixo.
A testemunha está instruída, meritíssimo.
Insiste em antecipar -se na afirmação.
Diz que a vítima assaltou a janela pela morte.
Senhor Escrivão, deixe sem registro o último esclarecimento da testemunha.
Meritíssimo, a acusação está tentando conturbar os trabalhos.
A acusada não está aqui para ouvir as explosões de ódio da acusação.
Se ela diz que dormia quando a colega entrou no apartamento e se atirou pela
janela, ou a acusação encontra a maneira adequada de contestá -la... ou não pode
partir para insinuações malévolas.
Peço, meritíssimo, que a acusação se conduza com mais isenção.
Concedido. Senhor advogado de acusação, o objetivo e o debate.
Quando eu argui o síndico, e ele disse que acredita ter batido com força no
apartamento da acusada, fica explícito, pelo emprego do verbo acreditar,
que não se recorda, não tem certeza.
Logo assim, para mim, para nós, patronos da vítima, uma jovem que despontava
para a vida, seu testemunho anulo.
Por afirmar que a vítima assaltou da janela e não caiu, seu testemunho torna
fruto de uma trama arquitetada naturalmente pela astúcia da defesa, que
tirar dos braços da lei uma criminosa, pouco se incomodando com as repercussões
futuras. Que esse ato impensado possa ter?
Senhor advogado da acusação.
Não permita insinuações quanto ao desempenho do nobre colega da defesa.
Retire a palavra astúcia que considero ser ofensiva ao decoro deste tribunal.
Senhor Antônio.
Quando o senhor bateu na porta, Fernanda abriu.
Como estava ela?
Despenteada e com roupa de dormir.
Era isso que desejava ouvir. Para mim, basta.
É seu.
Senhores jurados.
Este caso é tão claro que não comporta sofismo.
Neste momento, vou exibir um documento que dará a questão por encerrada.
Nada de levantar detalhes sem importância.
O fato, o lógico que na verdade aconteceu, é que a acusada, sentindo que
Sueli Oliveira Marins fugia do seu convívio, tratou de eliminá -la.
O ciúme do entil nasceu porque Fernanda Maia era marido, marido de Sueli.
Se é assim que se pode dizer.
E sabe que me baseio para fazer tal afirmação?
Isso aqui, senhores jurados, É a prova material do que acabei de dizer.
É a certidão de casamento entre Fernanda Maia e Sueli Oliveira Marins.
Dona Fernanda Maia, promete tudo fazer para proteger Sueli Oliveira?
Eu, Jorge Ascioli, caso neste momento Fernanda Maia e Sueli Oliveira.
Testemunhando Vera Oliveira.
A
cerimônia,
senhores jurados, foi celebrada na presença de conhecidos.
E degenerou numa das maiores orgias que a acusada já promoveu.
O papel está assinado por um tal de Jorge Ascioli, que funcionou como juiz.
para espanto geral, a acusada envolveu a irmã de Sueli, senhorita
Vera Oliveira, quase com a gingua a servir de testemunha de tamanha
Pelo que sabemos, a senhora participou da festinha comemorativa do casamento de
Fernanda Maia e de Sueli Oliveira Marins.
Essa festinha degenerou o senhor Gia.
Está gostando, Verinha?
Vamos dançar?
Vamos.
Espera aí.
A dona do 506 está reclamando do barulho.
Está bem.
Por favor, eu sei que a minha presença hoje aqui é surpresa. Acontece que eu
assessorar o nosso juiz de paz.
Gente, um minuto.
Um grande deboche.
A instituição sagrada do casamento.
E aí, com bastante champanhe na cabeça, Fernanda Maia
decidiu mostrar que é violenta.
Espancou a noiva na frente dos convidados.
Verdade ou mentira?
Verdade ou mentira?
Verdade.
O
que
foi?
Faz bem -gadinha, tá?
Você beija que eu não vi você beijando jornalista, é?
Imagina, eu beijo o que eu quero.
Meritíssimo. O que o nobre colega está fazendo com a testemunha é mais que um
ato de coação.
É o próprio pavor que ele pretende disseminar a fim de lograr o seu
Queira proviser que o restringiste aos fatos.
É o que eu estou fazendo, Meritíssimo.
Na festinha de casamento de Dona Fernanda Maia Sueli Oliveira Marins, as
começaram numa boa, como eles costumam dizer.
E terminou com a vizinhança, exigindo do síndico que chamasse a polícia.
A esta altura, Dona Fernanda já havia feito valer seu temperamento explosivo e
violento.
Verdade ou mentira, Dona Fernanda, marido... Marido de Sueli
Oliveira Marins.
Houve uma festa no meu apartamento, como havia sempre.
E em todas elas, na mais calma e na mais barulhenta, fomos incomodados pelos
vizinhos. Isso porque alguns vizinhos não gostavam de mim.
Meritíssimo.
Solicito a presença do síndico neste tribunal.
Senhor Antônio.
Dona Fernanda Maia alguma vez infringiu o regulamento interno do prédio?
Dona Fernanda logo que se mudou, criou um pequeno problema deixando cair um
de planta em cima do carro do vizinho do 201 que estava estacionado na área
interna.
Silêncio! Silêncio!
Dona Fernanda!
A queda do vaso de plantas foi intencional?
Jamais jogaria meu vaso de samambaia pela janela.
Muito menos em cima de um gordinho.
Ela não respondeu, meritíssimo.
Invesista uma postura de quem está debochando desse tribunal.
Que entre a testemunha.
O que a senhora via de anormal no apartamento de Fernanda Maia?
Olha, o que mais me deixava irritada... era a quantidade de homens que entrava e
que saía.
Como eram esses homens?
Sei lá.
Um pessoal muito escondido.
Eu acho que era gente de cinema ou de televisão.
É mais do que certo, meritíssimo.
Que as orgias no apartamento de Fernanda eram frequentes.
Orgias. Essa hipótese não se configura.
Eu nunca vi nenhuma lá.
O que havia, às vezes, eram festinhas para as minorias injustiçadas.
O senhor compreende, não?
O senhor sabe, por acaso, o que vem a ser a virtude da moral?
Acho que posso arriscar.
É, pois então diga.
É a virtude de imaginar as piores coisas que não se pode fazer.
Que inculcação da grossa!
Eu também sou gente.
Eu pago imposto. Eu quero falar.
A justiça é cega, mas não é surda.
Resposta sem registro.
Senhor policial, retire a testemunha.
Vamos. Me solta.
Meritíssimo. Creio ser oportuno lembrar que não estamos aqui julgando a nós
próprios. E sim, tentando encontrar a verdade que situa Fernanda Maia num
adverso a ela.
E nós, por mais de uma vez, já demonstramos aqui que esse mundo é de
contrário a ela.
Senhor advogado da defesa, no que me toca a sua argumentação, digo -lhe que
tolero indiretas.
A explicação de moral que sua testemunha apresentou fere aos ouvidos de qualquer
um. Apoiado, meritíssimo.
Que entre a próxima testemunha.
Sr. Jorge Ascioli.
Brasileiro, casado, jornalista.
Jura dizer a verdade, somente a verdade?
Juro.
Sabe, senhor, de onde surgiu a certidão de casamento assinada por Fernanda?
Estava com Angela, que é uma amiga de Fernanda.
Sr. Jorge Ascioli, sua posição coloca o inconfronto com o que de mais estranho
possa haver na sociedade.
Acredita o senhor que Angela tem premeditado a morte de Sueli através
casamento forjado?
Não entendi.
Acho, senhor, em termos mais claros, que a separação de Fernanda e Angela foi
coisa de momento, podendo ser reatada mais adiante. Ou seja, acha que Fernanda
admitiu Sueli como esposa, com claro intuito de ferir os brilhos de Angela?
Difícil dizer.
Conheci Angela poucos dias antes da festa na casa de Fernanda.
Me disse que ia ver uma brincadeira.
Sendo surpresa para mim.
Chegando lá, ela me entregou a certidão.
Logo depois, apareceram Fernanda e Sueli de mãos dadas.
Senhores jurados.
Em nenhum momento, Fernanda Maia tentou negar seu relacionamento com pessoas do
mesmo sexo.
Discute -se aqui a razão da morte de Sueli Oliveira Marins e não os problemas
pessoais da acusada.
Senhor jornalista, diga -me objetivamente.
O senhor conhecia Fernanda Maia?
O senhor já conhecia Sueli Oliveira Marins? Ou teve algum contato com ela
festa do casamento?
Não conhecia Fernanda.
Fui apresentar ela durante a festa. E mesmo assim, muito rapidamente.
Quanto a Sueli Oliveira, falamos bastante durante a festinha.
E uma semana depois ela me procurou, precisando de emprego.
E eu tratei de ajudá -la.
Se não me engano, ela permaneceu no emprego.
Sr. Jorge Ascioli, o senhor era noivo de Sueli?
Noivo? Jamais, Excelência.
Conheci essa moça numa festinha.
Almoçamos uma ou duas vezes juntos e nada além disso.
Ela era uma moça fantasiosa.
Vai ver, confundiu isso com um caso amoroso.
O senhor teve algum contato íntimo com a vítima?
Nunca, excelência.
Sou um homem casado, pai de quatro filhos.
Eu não me envolveria com uma moça como Sueli.
Sempre fui zeloso com a minha família.
Senhores, o crime de Fernanda foi não esconder o seu amor.
Foi assumir -se.
Suas cartas.
cujas cópias deverão estar em poder do nobre colega da acusação, nada escondem.
Sueli era sua paixão.
E por isso, dificilmente ela a mataria.
Mas vejamos o que vai nos dizer sua mãe, a parecida Oliveira Marins.
Sueli era uma boa moça.
inteligente, delicado.
Quando chegou a maior idade e quis viver a sua própria vida, eu e o pai dela
aconselhamos muito.
Mas essas moças de hoje são muito teimosas, não é?
Não houve os conselhos dos pais.
Então ela decidiu morar sozinha e vinha nos visitar de vez em quando.
Uma vez fiquei sabendo que ela andava em más companhias.
Então procurei saber a verdade e as denúncias se confirmaram.
Ela estava sendo desencaminhada.
Desencaminhada por essa coisa aí.
Essa coisa de quem os moradores do conjunto onde ela morava diziam as
piores coisas.
O nobre colega permite?
Dona Aparecida.
O que foi realmente que uma das pessoas do prédio disse que mais a chocou?
Que elas, essa mulher e a minha filha, dormiam na mesma cama juntas.
Mas eu estou certa que ela obrigava a minha filha a isso.
Sueli sempre foi uma boa moça.
Obediente.
Religiosa.
Fernanda é ótima pessoa.
Trabalhávamos juntas no mesmo escritório.
Quando ela saiu da firma, todo mundo ficou com pena.
A senhora sabia do relacionamento dela com Sueli Oliveira?
Sabia. E como se sentia?
Cada um tem sua vida.
Eu perguntei como se sentir.
Cada um tem sua vida.
Eu perguntei como a senhora se sentia. Eu acho isso sendo claro.
Nem melhor nem pior do que sou.
Não tenho nada com os problemas particulares dos outros.
Sabe o que eu tinha vontade de perguntar?
Dona Valda Salles.
Vamos falar francamente.
Quantas vezes a senhora viu Fernanda e Sueli trepando?
Sabe o que aconteceu?
O doutor juiz até desmaia.
Quando é que ele se aposenta?
Você não imagina as fotos que eu vi.
Tudo batido por aquele jornalista que agora está dando uma de santinho. Que
fotos? Da Sueli.
Que gata, meu Deus, que gata.
Como é que pode se matar sem tombo? Deixa eu ver.
Olha só.
Meritíssimo.
Senhores jurados.
Eu gostaria de lembrar...
Que Dona Fernanda Maia, aqui presente, é muito mais desinibida do que possa
parecer.
Concordo plenamente com o depoimento da mãe da vítima.
Senhora Aparecida Oliveira, quando afirma que sua filha foi desencaminhada,
arrastada à perversão sexual, ela foi desencaminhada!
Essa pobre menina foi desencaminhada. Ela foi arrastada à perversão sexual.
Porque eu tenho provas a apresentar. E elas estão aqui.
Mas... Antes de exibí -las aos senhores jurados... Eu...
Gostaria de submetê -las... A apreciação de vossa
excelência.
Solicito a entrada da próxima testemunha.
Silêncio.
Dona Lídia Perdigão, brasileira, casada, residente da rua Aquilino Ribeiro, 580,
Novo Mundo.
Juro a dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade.
Juro.
Dona Lídia, conte -nos como a senhora conheceu Sueli Oliveira.
Sou manicure e a Sueli era minha freguesa.
Sempre ia a minha casa fazer as unhas.
Anda assumida, hein?
É, eu não moro mais aqui desde o ano passado.
Eu venho por aqui porque eu sou sua freguesa.
E tem alguns amigos aqui também.
Poxa, pensei que você ainda morava aqui do lado.
É, às vezes eu até moro, viu?
Agora sabe que eu não vou me acostumar mesmo a fazer unha com outra pessoa?
Eu adoro aqui.
Preciso falar com você.
Hoje eu não posso. Tenho um encontro e estou muito atrasada.
Que encontro tão importante é esse que você não pode se atrasar um pouco?
É sua amiga? É.
A gente dividia apartamento.
Dona Lydia, procure se lembrar.
Ao sair de casa... Essa mulher que está aqui...
agrediu Sueli ou não agrediu?
Não.
Elas não brigaram.
Respeitaram minha presença.
Você pode me ouvir um instante? Para quê?
Sueli, me dê um tempo, Sueli.
Eu escrevi isso para você.
O que eu tenho para te falar é muito importante.
Vê se me esquece.
E o que de tão importante você queria dizer a Sueli?
Eu sabia que ela não tinha para onde ir.
Sabia que estava grávida.
E estava pernoitando na casa de um e de outro.
Enquanto acreditava no noivado com o tal jornalista.
Verdade, pelo menos foi o que ela me disse.
Estava noiva de quatro meses.
Até agora as pessoas que passaram por este tribunal, senhores jurados, usaram
todos os meios.
Procuraram humilhar e agredir esta mulher.
Mas eis que surge Dona Lídia e a verdade pouco a pouco vai se reconstituindo.
Cai por terra a insinuação da acusação de que nesse dia no apartamento de Dona
Lídia, Fernanda destratara sua companheira Sueli.
Ao contrário.
Vamos ver agora o que vai nos dizer Dona Lydia.
A verdade é que elas não brigaram, nem discutiram.
Respeitaram minha pretéria.
Parecia que Fernanda queria conversar um pouco com Sueli, mas Sueli se negou.
Acho que estava zangada, não sei por que motivo.
Depois foi embora sem ouvir Fernanda.
E quando foi que Sueli retornou ao seu salão? Em duas semanas, bem abatida.
Sabe, Lydia?
Eu realmente não tenho sorte.
O noivo já não quer nada mais comigo.
Eu tenho que me arranjar sozinha mesmo.
Não se aflija.
De repente tudo melhora.
Por que você não procura aquela sua amiga?
Sei lá.
Acho que não daria mais certo.
A gravidez atrapalha muito.
Eu não quero fazer aborto.
Meu noivo queria me oferecer o dinheiro e eu não posso fazer isso.
Sueli não tinha como retornar à casa dos pais.
E o pior é que eu não posso voltar para a casa dos meus pais.
Eles jamais me perdoariam.
Sueli não tinha como retornar à casa dos pais.
Que história é essa?
Mas que história é essa?
Se a mãe dela afirmou aqui, sob juramento, que o sonho dela e o sonho do
marido era ver a filha ao seu lado.
Dona Lídia, procure falar -nos com exatidão sobre o temor de Sueli voltar
sua casa.
Bem, o pai a maltratava.
A mãe não a defendia.
Cansou de me dizer que o pai era uma pessoa violenta, que a explorava.
Forçava -se ele a arranjar emprego.
Onde... Onde pudesse transar com os patrões.
Transar?
É.
Ter relações íntimas com os patrões.
Mentira!
Mentira!
Eu vou processar essa mulher.
Satanás! Satanás!
Um momento!
A senhora enlouqueceu?
Isso que está afirmando é uma calúnia!
Eu exijo, meretíssimo, que nada do que a testemunha disse seja anotado.
Contenha -se, senhor advogado de acusação. Que a testemunha prossiga.
Não é verdade.
Silêncio!
Não a conheço!
Nunca a vi!
Não sei em que se baseia para me fazer esse tipo de acusação.
Exijo que seja posta para fora desse tribunal.
Sob pena desse julgamento se transformar em uma massa.
Mantenha o decoro desta casa, ou será expulso do recinto.
O que eu disse é verdade.
E mais, a Sueli disse que enquanto ela ia trabalhar, o pai ficava em casa
curtindo o sol.
Mentira! Eu vou processá -la, Satanás!
Guarda, queira retirar o seu Daniel do recinto.
A sessão está suspensa por 20 minutos.
Preto, branco, preto, branco, preto, branco...
Estão reabertos os trabalhos.
Recomendo aos presentes que observem as normas deste tribunal a fim de que não
se verifique nova interrupção.
Dona Lídia Perdigão, tenha bondade. Senhor Daniel Oliveira, tenha bondade.
Lembre -se de que o senhor ainda está sob juramento.
O mesmo prevalece para a senhora.
Senhor Daniel,
ainda há pouco Dona Lídia dizia de seu comportamento em relação à sua filha
Sueli.
Procure compreender que ela não está miscuindo -se na sua privacidade.
Ela, por força do juramento...
Respondeu ao que lhe foi perguntado.
Logo assim, recomendo -lhe que não procure reincidir em agressões verbais,
por outros motivos tumultuar a sessão.
Dona Lídia, tenha bondade. Senhor Daniel.
Estranho muito que o senhor Daniel não se lembre de mim.
Eu estive em sua casa para pedir que fosse mais humano com a filha. Afinal, a
menina estava grávida.
No dia que lá estive, fui expulsa. O senhor Daniel disse -me que não tinha
e que Satanás a tinha levado para o inferno.
Pois não. O senhor é o pai de Sueli?
O que a senhora quer?
Eu queria falar sobre Sueli.
Eu não quero ouvir falar dessa mulher.
Eu não quero ouvir falar.
Saia daqui!
Saia daqui!
Rua, minha senhora!
Rua! Rua!
Senhor Daniel, é possível negar com bases sólidas o que Dona Lídia acaba de
afirmar sobre o juramento?
Absolutamente, meu letício.
Nunca vi essa senhora.
Ela está me confundindo com outra pessoa.
Ou foi destruída para tentar me arruinar?
Dona Fernanda, Sueli lhe procurou pela última vez... com o propósito de se
hospedar de novo em seu apartamento?
Não sei.
Era madrugada e eu estava dormindo.
Por favor, senhora, me diga.
Como pôde ela entrar tão facilmente em seu apartamento?
Tinha uma chave.
Dona Fernanda.
Sueli queixou -se alguma vez do noivo?
Nunca me falou nada sobre isso.
Embora eu soubesse que estava grávida.
Belitíssimo.
Como pastor evangélico, sou um homem respeitado.
Como pai, talvez não seja um exemplo.
Sou severo.
A palavra de Deus é linguagem corrente em minha casa.
Se Sueli deu no que deu, eu não a culpo por isso.
Ela foi atraída por Satanás.
Ela se deixou consumir nas labaredas do inferno.
Bravo!
Bravo!
Minhas senhoras, queiram observar o devido decoro deste tribunal.
Senhor Daniel, se me permite, esqueçam um pouco os padrões religiosos.
O senhor expulsou ou não expulsou sua filha, Sueli, de casa?
Ao descobrir que ela não era mais virgem.
Eu... Eu não expulsei, Excelência.
Ela pediu que eu deixasse ir e eu deixei.
Era a moça maior.
Eu não podia fazer mais nada.
Peço que a próxima testemunha seja a irmã de Sueli.
Que se aproxime a senhorita Vera Oliveira.
Vamos esclarecer.
Senhores jurados.
Esta jovem vai tentar nos contar como era sua irmã Sueli.
Como era seu relacionamento com os pais.
Tenha bondade, senhorita Vera.
Bom, ela era dois anos mais velha que eu.
E até mais bonita. Porque se cuidava. A mãe dava tudo o que ela queria.
Por isso ela tinha arroz de batom, talco de pó de arroz. Essas coisas que ela
tinha, eu não tinha.
Um dia quando eu pegava escondida, ela brigava. Dizia que era mais velha, que
tinha que respeitar.
Aí, quando ela fez 15 anos, eu estava com quase 13.
O pai deu um presente que ela não gostou.
Sueli era assim. Às vezes ganhava um presente e não gostava.
Eu sempre gostei dos presentes que me davam.
Senhorita Vera.
Que presente seu pai deu a Sueli?
Uma bíblia, das grandes, encadernada a couro.
Sabe o que ela fez nesse dia?
Jogou a bíblia na cadeira e saiu chorando da sala.
Aí o pai disse que ela estava ficando meio maluca.
O que ela queria era desfilar, ser nice e depois artista.
Aí eu fiquei sabendo e descobri que ela só cantava no couro da igreja.
Porque estava treinando para ser caloura de programa de televisão.
É, ela queria ser cantora. Caso não conseguisse ser missa.
No dia do presente, aquela bíblia. O que fez o pastor Daniel, senhorita Vera?
Ele tacou a bíblia na cabeça dela.
Aí ela chorou opaca.
Até que a mãe chegou e eu saí correndo da sala.
Eu queria que o pai soubesse que eu estava do lado da Sueli.
Eu sempre gostei muito do pai.
Ele não fazia nada de mal com a Sueli.
Mas ela era temosa.
Compreende?
Senhorita Vera.
A senhorita confirma ou nega... que participou da cerimônia de casamento de
Fernanda e Sueli?
No começo eu não estava sabendo direito que aquilo era casamento.
A senhorita nega ou confirma?
Nega ou confirma?
Benetíssimo.
Peço a palavra.
Concedida.
Senhores jurados, todos nós ouvimos atentamente o que nos disse essa jovem.
As recordações poderiam constar de um belo diário.
São tão ingênuas e puras... que não compreendo o uso que poderão ter para o
nobre colega da defesa.
O que nos disse a senhorita Vera... não imprimindo o pastor Daniel, muito pelo
contrário. Dar com a Bíblia na cabeça de alguém... pode ter sido, inclusive, um
ato de carinho.
Não, não foi de brincadeira, não. O pai estava muito zangado nesse dia.
Senhorita Vera, veja bem.
O que eu estou querendo dizer aos senhores jurados é que não foi por causa
batida da Bíblia na cabeça de Sueli que ela se tornou uma jovem desgarrada.
A perdição dela decorreu da má amizade com essa mulher que a própria depravação
em pessoa.
Protesto, meritíssimo.
O nobre colega volta a ofender moralmente a minha cliente.
afastando -se do processo e tomando caminhos pessoais.
O que eu quis provar com o depoimento de Vera Oliveira Marins foi simples.
E os senhores jurados devem ter compreendido.
O pastor Daniel não gostava de Sueli.
O pastor Daniel a discriminava. E por quê?
É isso, senhores jurados, que temos de saber.
Vítima do ódio do próprio pai.
Meritíssimo. O que acaba de dizer o nobre colega... é um elogio à
Um elogio da destruição da Sagrada Família.
Eu estou perplexo de a distante audácia.
Senhores jurados... se alguns dos senhores acreditaram nas palavras... que
nobre colega acaba de pronunciar... estará compactuando criminosamente... no
sentido de desmoralizar a própria sociedade.
As palavras do nobre colega...
Senhorita Fernanda, na misteriosa noite que Sueli foi ao seu apartamento,
a senhorita estava dormindo sozinha ou acompanhada?
Sozinha. Dona Fernanda, como a senhora encara a acusação do pastor Daniel que a
aponta como o demônio destruidor da jovem Sueli?
Me acostumei às acusações, meretíssimo.
Eu sou o outro lado da moeda.
O lado falso, como diria o senhor pastor.
Em mim a verdade soa como mentira.
Eu quero deixar bem claro que os insultos não aderem à minha pele.
Não se aprofundam no meu sangue.
Eu sou uma mulher assumida.
Jamais menti para cobrir as minhas fraquezas.
Talvez tenha chegado a isso por não professar religiões.
Por não estar preocupada em ir ou não ir para o céu.
Eu amava Sueli.
Eu gostava...
Morte é um pouco da minha própria morte.
Silêncio! Silêncio!
Senhor advogado da defesa, queira formular suas perguntas.
Meritíssimo. Confesso nada mais ter a perguntar a Fernanda Maia.
Depois desse depoimento simples e tocante.
Nem mesmo o pastor Daniel ousaria fazer novas perguntas.
Ele que colocou sua fé... acima do amor dos seus próprios filhos.
Pois eu tenho uma argumentação a fazer.
É no sentido de obter o dissimulho dos senhores jurados... para a tentativa que
se fez aqui de aturdir um pai bem intencionado. Um homem temente a Deus.
Se Fernanda Maia não receber a pena máxima... o que aconteceu com Sueli?
Vai se repetir cada vez com mais frequência. E tomara que eu esteja
até mesmo com as nossas filhas.
Não sou pastor.
Mas soltamente adeus, senhores jurados.
Eu não brinco com a felinha... como fez ainda há pouco Fernanda Amália.
Ela não quer ir para o céu e declara isso... em tom de pilhélia.
Mas embora não seja autorizado a dizê -lo...
Mesmo assim, senhores, eu arrisco.
Dona Fernanda.
O céu... está reservado para aqueles que nesse atribulado mundo... fez alguma
coisa em prol do próximo ou do bem comum.
Depravar e destruir.
E essa me parece ser... a sua lamentável missão.
Senhores jurados, esta corte lhes dá 20 minutos para o veredito.
O senhor teve algum contato íntimo com a vítima?
Nunca, excelência.
Sou um homem casado, pai de quatro filhos.
Eu não me envolveria com uma moça como Sueli.
Sempre fui zeloso com a minha família.
De conformidade com a decisão dos senhores jurados, por cinco votos a
dois contra, este tribunal absolve Fernanda Maia...
da acusação que ele foi imputado.
Eu pego um avião e desapareço.
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