All language subtitles for Bajo.La.Rosa.2017.SPANiSH.BDRip.x264-DESPACiTO

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Original subtitles

Não há nada oculto que não venha a ser revelado,

e nada escondido que não venha a ser conhecido

e trazido à luz.

Bem, amigo...

Disseste-me que querias uma coisa pequena e fiável.

Está contigo?

- Tenho aqui na mochila. - Pode ver-se?

Dá uma vista de olhos e diz-me o que achas.

É verdadeira?

Claro que é, só trabalho com produtos de boa qualidade.

É uma 9mm semiautomática. Está oleada e funciona na perfeição.

É maior do que eu pensava.

Disseste-me que ainda não tinha sido usada, pois não?

Não. É limpa porque tem o número de série.

Vês aí?

Uma suja tem o número de série apagado.

Se te apanham com uma não sabem o que ela já fez.

Pode ser um roubo ou um assassinato. Vais logo preso.

Limpa, é como estão as armas legais. Ou seja, sem problemas.

E esta veio de onde? Onde a arranjaste?

A que propósito vem essa pergunta?

És um chibo? O que foi?

Queres lixar-me?

Estás interessado na arma ou não? Senão vou-me embora.

Claro que estou interessado.

- Então dá-me o dinheiro que falta. - E as balas?

Não te preocupes. Eu ofereço-tas.

Está tudo incluído no preço.

Aqui tens o dinheiro. Toma, conta-o.

Perfeito.

Isto é para ti.

O negócio está fechado.

Agora o que fizeres com ela é problema teu.

Não me voltes a contactar e esquece-te da minha cara.

Está bem.

O ENIGMA DA ROSA

Vamos! Levanta-te já!

Não sei para que queres o despertador se não fazes caso quando toca.

Ia levantar-me agora.

Sim, estou mesmo a ver.

Filha, o que fazes com as meias?

Não tens duas iguais, Sara.

Deixa, eu depois procuro-as.

Calça estas.

Mãe, deixa-me escolher a roupa.

Não querida, não temos uma hora para estares a escolher roupa.

Já estamos atrasadas.

Hoje, levo-te eu à escola.

Amanhã, quando o despertador tocar, levantas-te

e vestes o que quiseres, está bem?

Isto não é teu.

Não. É da Lucia. Deixou-a cá quando ficou cá a dormir.

Bem, então...

Levas para a escola e dás-lhe.

Vou pô-la na tua mochila.

Não. Não é preciso. Eu ponho.

Quando te deram as notas?

Sara, fiz-te uma pergunta.

Na sexta-feira.

Há uma semana que tens as notas aqui metidas?

Estás, de castigo. Ficas sem telemóvel e sem sair até te dizer.

- Mas é um suficiente, mãe! - É um suficiente!

Achas pouco?

Que achas que vais ser no futuro se começas a baixar as notas, Sara?

Que queres ser?

Caixa de supermercado? Empregada de mesa?

- Não. - Não?

São os trabalhos que as meninas que não estudam têm.

Como achas que a mãe chegou a chefe do escritório?

Com suficientes?

Não, estudando muito.

E esforçando-se todos os dias para ser a melhor do escritório.

Se queres ser alguém na vida

é melhor começares a aplicar-te.

Percebeste, não percebeste?

Não é justo!

Azar!

Veste-te e desce para o pequeno-almoço.

Daqui a 15 minutos estou a sair com o carro.

Por isso, é melhor que te despaches.

Olá!

Não aguento, a sério!

Que aconteceu?

Estes sapatos, é o que aconteceu.

Se pudesse ia todos os dias de chinelos de quarto.

Que suplício!

Para isso têm de te promover mais umas duas vezes,

no mínimo.

Ou isso, ou ser dono da Playboy e passar o dia todo em casa

de roupão e rodeado de mulheres.

Prefiro a primeira opção, obrigada.

Eu prefiro a segunda, sem dúvida.

Ainda ficas sem jantar!

A Sara mostrou-te as notas?

Não. Quando lhas deram?

Encontrei-as esta manhã. Tinha-as escondidas na mochila

desde sexta-feira.

E por que não nos disse nada?

Porque tirou um suficiente a matemática.

Um suficiente?

Sim, já conversei com ela e já a castiguei.

Está sem telemóvel e não pode sair.

Julia, não é um pouco exagerado?

- Um suficiente não é um chumbo. - Mas está muito perto.

Mais vale prevenir agora, antes que seja tarde.

Está no quarto?

Não. Ainda não chegou.

Como é que ainda não chegou?

Tu tinhas de a ir buscar, Oliver.

Esta semana é a greve do transporte escolar, eu disse-te!

- Desculpa, esqueci-me. - Fantástico!

Vou já buscá-la. Desculpa, não sei onde tenho a cabeça.

Que estás a fazer?

- A ligar para a escola, o que achas? - Sim.

Olá, sou a mãe da Sara Castro Francés do 3°B.

Estou a ligar porque nos esquecemos da greve do transporte

e não fomos buscar a menina.

Deve estar à espera.

- Pode dizer-lhe que vamos já buscá-la? - Sim.

Sim, eu espero.

Está tudo bem.

Sim.

Deve estar com a professora.

Podia fazer-me o favor de...

Como é que já não está ninguém? Nalgum sítio tem de estar.

Não se pode ter ido embora sozinha.

Não foi com ninguém porque ninguém a foi buscar.

Percebe?

Ouça, já sei o que me disse,

estou a pedir-lhe por favor

que veja se a minha filha está aí em algum lado!

O que foi?

Ela ainda estava a dormir

e tivemos uma discussão.

Por isso, saímos de casa muito tarde.

Eu tinha uma audiência muito importante à primeira hora

para um julgamento e estava cheia de pressa.

Quando estávamos a chegar à escola

apanhámos um engarrafamento e ficámos paradas no carro.

Como só estávamos a duas ruas da escola, pedi à Sara

para sair e ir a pé.

Assim, eu podia voltar para trás e chegar a tempo.

Depois da Sara sair a senhora foi-se embora.

Sim.

Mas ela não...

A professora dela disse que ela não tinha chegado a entrar na sala.

Ou seja, pudemos supor que nem entrou na escola.

Percebo.

Julia, disse-me que tinha tido uma discussão com a Sara esta manhã.

Podia dizer-me, exactamente, o que aconteceu?

Foi por causa das notas.

Ela tinha-as escondido porque tinha tirado um suficiente.

E eu encontrei-as.

E aborreci-me e castiguei-a.

Um suficiente.

Sim, eu sei que pode parecer um pouco excessivo

mas ela sempre tirou notas muito boas.

Acha que por causa disso podia não querer voltar para casa e fugiu?

Não, não me parece.

Não. Para aonde ia?

É uma boa menina, sempre foi obediente.

Nunca nos deu nenhum problema.

Os filhos são obedientes até deixarem de ser.

Um castigo que lhe possa ter parecido injusto ou desproporcionado

podia ser a razão para ela pensar

em se revoltar

e não voltar para casa.

Bem, tem razão.

Também pode ser para chamar a atenção.

Tem andado mais rebelde.

Alex, não digas disparates. A tua irmã está como sempre esteve.

Aqui, o único que saiu rebelde foste tu.

De qualquer forma, alguém tinha de a ter visto.

É impossível que tenha desaparecido assim.

Se a sua filha fugiu, o mais provável é que esteja em casa

daqui a umas horas.

Ou porque voltou para casa ou porque a encontraram.

Há umas patrulhas à procura nos arredores.

Acredito que rapidamente a vamos encontrar.

É mais comum do que parece.

Muito bem...

E se não fugiu?

E se alguém a levou?

Aconselho-os a não pensarem nisso, por enquanto.

Que mantenham a calma, está bem?

É muito cedo para tirar conclusões.

Há mais alguma coisa que eu deva saber?

Alguma coisa que não me tenham contado?

Está a insinuar que temos alguma coisa a ver com isto?

- Não estou a insinuar nada. - Somos suspeitos?

Pai, não está a dizer nada disso.

Senhor Castro, acalme-se. Por favor.

Só queria saber se havia mais alguma coisa

que me pudesse ajudar a localizar a sua filha.

Mais nada.

A Sara tem telemóvel?

Tem, mas hoje não o levou.

De certeza?

Tirei-lho, foi o castigo.

Bem...

Acho que por agora é tudo.

Deixo o meu cartão com o meu número, se acontecer alguma coisa

ou se se lembrarem de alguma coisa não hesitem em ligar-me.

Farei tudo o que estiver ao meu alcance para encontrar a Sara.

Mãe?

Mãe, estás bem?

Estou filho, volta para a cama.

Não, não consigo dormir.

Queres alguma coisa? Um chá?

A tua irmã desapareceu por minha culpa.

Não digas isso.

É verdade!

É verdade!

Sempre fui muito exigente, muito dura convosco.

Passei muito mais tempo a ralhar e a exigir

do que a dizer que vos amo muito.

E para quê?

Não é preciso estares sempre a dizer que gostas de nós.

Está bem? Eu sei e a Sara sabe.

Quando nasceram prometi a mim mesma

que nunca me comportaria convosco

como a minha mãe se comportou comigo.

E acabei a ser exactamente igual a ela.

Não.

Não vejas as coisas assim, está bem?

Está tudo bem.

Gosto muito de ti, Alex.

Gosto muito dos dois.

São o que de mais bonito tenho na vida.

Não vos quero perder.

Está tudo bem, mãe.

Não, você disse-nos que de certeza estaria de volta ao fim de umas horas,

que era uma coisa normal.

Não me parece normal que já tenham passado mais de

24 horas e que não tenhamos nenhuma notícia sua.

Por isso, faça o favor de não me voltar a dizer que a minha filha

fugiu, está bem?

Não senhor, isso não está bem. Eu, eu, eu...

Não sei como lhe hei-de dizer.

Ouça bem!

Alguém a levou, ouviu?

Alguém a levou!

Perceba de uma vez por todas e comece a procurá-la a sério.

Ouça...

Nós os três prestámos declarações, contámos-lhes a mesma história,

uma e outra vez, demos-lhes as fotos,

demos-lhes os contactos dos outros pais.

Que quer que façamos mais?

Não, não lhe quero ensinar a fazer o seu trabalho.

Só estou a dizer que acho que não estão a fazer

o que é preciso.

Por favor, a minha filha está por aí, presa nalgum sítio contra a sua vontade.

Só lhes peço...

Só lhes peço que a tragam para casa

e que prendam quem a levou, mais nada!

"Tenho a Sara.

"Quero ir a vossa casa esta noite falar com os três.

"Se estiverem de acordo

"deixem acesa a luz do alpendre e eu estarei aí à meia-noite.

"Se tiver alguma suspeita que chamaram a polícia

"não voltam a ver a menina com vida."

Que é isto, meu Deus? O que é isto?

É uma brincadeira, não é? Só pode ser.

Sei lá, talvez alguém tenha visto os cartazes e esteja a brincar.

Por favor, Alex. Por favor, Alex. A sério.

Não te enerves, temos de estar calmos. Temos de

pensar no que podemos fazer. A quem podemos ligar.

- Liga à polícia. - Não. A polícia, não.

Ele diz que não, escreve aqui.

Mãe, se isto é a sério temos de ligar à polícia.

Não podemos chamar a polícia, Alex!

- Estão malucos? - Calma, querida.

Alex,

olha como está a tua mãe, olha como estamos nós.

Vamos pensar no que podemos fazer.

E já pararam para pensar se este tipo não é um louco?

Não sabemos. Não temos ideia de quem é.

Por isso mesmo, pode ser um maluco.

- Mas tem a tua irmã. - Deixa-nos...

Vamos lá ver Quando vier...

Não, não, não. Como quando vier, pai?

Quero saber quem é, quero conhecê-lo, ver-lhe a cara.

Vais trazer o tipo cá para casa?

Não o vou trazer para casa, vou recebê-lo à porta.

Não sei O que vou fazer.

E se é um louco, pai?

Só pode ser louco, para fazer isto só pode ser louco.

- Mas tu... - Então, quero vê-lo.

E se traz a tua irmã?

E se a traz? E se vem com ela?

- E se não a tem? - Não sabemos que fazer!

- E se não a tem? - Então, onde está?

Onde está? Desapareceu há dois dias.

Ela não foi sozinha alguém a levou.

Senão, com quem estaria?

Alguém teve de a levar! Alguém a levou!

- Tem calma, querida. - Vamos lá ver...

Vamos esperar.

Não, não vamos esperar.

- Temos de chamar a polícia. - Ouve o teu pai.

Agora somos mais espertos do que a polícia?

Alex, não fales comigo assim.

Não vamos chamar a polícia. Eu decido o que vamos fazer.

Tem calma, por favor!

Não voltes a levantar-me a voz!

Então, não contem comigo. Vão à merda!

Alex. Alex!

Está a demorar muito tempo.

Que horas são?

É quase meia-noite e meia.

- Isto é alucinante. - Não, isto é uma brincadeira.

Eu disse-lhes que isto era uma brincadeira.

Somos uns parvos, deixamos a luz do alpendre acesa e agora achamos...

Alex, por favor!

Por favor, cala-te.

A sério, filho. Ajuda-me. Ajuda-nos.

Já disse que devíamos chamar a polícia.

Devíamos ter chamado a polícia e se fosse uma brincadeira

tinham feito alguma coisa a esse tipo.

Vamos esperar. Vamos esperar.

Não faz sentido.

Estou?

Boa noite. Oliver?

Sim, sou eu. Boa noite.

- Diga. - Fui eu quem enviou a carta.

Já vi que aceitaram a minha proposta, quero agradecer-lhes.

Deixámos a luz acesa. Ouça, por favor...

Tem a minha filha, por favor?

A Sarinha está muito bem, tenham calma.

A minha menina!

Traga-a!

Diga-me, o que...

Antes de ir a tua casa queria ter a certeza...

Ouçam bem...

- Sim. - A certeza que

tudo vai estar calmo e sereno.

Que ninguém se vai enervar que vamos poder ter uma conversa

como pessoas civilizadas.

- Sim, não se preocupe. - Não quero que ninguém faça

nenhum disparate.

Porque senão vou-me embora e está tudo acabado.

Não se preocupe, vamos estar calmos. A sério!

Estamos disponíveis para falar consigo do que quiser.

Estamos à sua espera desde a meia-noite.

Estamos aqui à sua espera.

Quero saber se a minha filha está bem, por favor.

Preciso que prometas que vai estar tudo calmo.

- Quero que a tua família prometa... - Juro.

Dou-lhe a minha palavra que tudo vai estar tranquilo.

Estamos serenos, tranquilos e queremos falar consigo.

A menina? Traz a menina?

Traga-me a menina, por favor.

Se todos colaborarem isto vai ser muito rápido.

E tudo voltará à normalidade.

- É isso que queremos. - Acredito que não chamem

a polícia, porque se me detiverem

não voltarão a Vera menina com vida, e nada poderão fazer para o evitar.

Estamos de acordo?

- Isso não vai acontecer. - De acordo, não chamamos a polícia.

Dou-lhe a minha palavra que não chamaremos a polícia.

Por isso, pode vir tranquilamente. Estamos à sua espera.

Traga a menina.

- Ouviu-me? - Ouça!

Desligou?

A minha menina!

A minha menina!

Espera, espera, espera!

Calma, calma.

Calma, calma. Julia!

Mãe, por favor. Mãe, por favor!

Mãe, mãe. Já chega, está bem?

Espera! Espera! Espera! Espera!

Não, não! Por favor...

Vou abrir. Temos de fazer o que nos disse.

Temos de fazer o que nos disse.

- Tem calma! - Tem cuidado, por favor!

Está bem! Mãe, estou aqui!

Fica com a tua mãe.

Boa noite.

Posso entrar?

Julia.

Alex.

Oliver.

Muito obrigado por me receberem esta noite.

Quero que saibam desde já que compreendo muito bem a situação

que estão a viver.

E lamento!

Mas tenho a certeza que se me ouvirem com atenção

e estiverem dispostos a colaborar

tudo correrá bem.

Onde está a Sara?

Como sabemos que tens a Sara?

Filho da puta! Que fizeste com a minha filha?

Cabrão!

Quero que tu te lixes!

Onde está a minha filha? Onde está a minha filha?

- Por favor. - Desgraçado!

Que lhe fizeste?

Por favor, Julia. Tem calma, querida!

Calma!

Senta-te.

Senta-te, senta-te. Amor, senta-te.

Calma.

Muito bem, queres falar de quê?

Que merdas queres falar connosco?

- Que queres? - Alex!

Alex, deixa-me falar. Tem calma.

Que quer de nós?

Um dos três tem um grande segredo escondido.

Uma coisa muito...

Muito má que prejudicou alguém.

Uma coisa que nunca contou a ninguém

e que por isso acha que mais ninguém sabe.

Mas eu sei.

Só quero

que essa pessoa confesse o que fez à frente de toda a família.

Mais nada.

Quando isto acontecer

a Sara ficará livre e poderá voltar para casa.

É fácil.

O quê?

Não vale a pena inventar uma história nem mentir.

Só iriam perder tempo.

E o tempo é fundamental.

Porque às 6h00 da manhã,

a pessoa que está a tomar conta da Sara

vai ligar-me.

E se ainda não tiver ouvido a confissão

que quero ouvir

podem despedir-se da menina.

Não sei qual é o segredo. Que segredo?

Conhecem a expressão "Sub Rosa"?

Não.

É uma expressão latina que significa: Por baixo da rosa.

A rosa era o emblema de Horus, o deus do silêncio do antigo Egipto.

E desde então,

foi considerada um símbolo de confidencialidade por muitas culturas.

Por isso, os romanos costumavam pintar uma grande rosa de 5 pétalas

no tecto da sala do conselho,

para lembrar todos os presentes

que tudo o que se dissesse

por baixo da rosa

deveria ficar em segredo.

Era um pacto tácito.

Comprometo-me que tudo o que for dito esta noite

não sairá das paredes desta casa.

Alguém tem alguma coisa a dizer?

Pai?

Oliver...

Que fizeste?

Responde!

Vou...

Vou contar o que

você quer que eu conte.

Se vais fazê-lo, peço-te que o faças ali.

À frente do televisor.

À frente de todos.

- De que estás a falar? - Pai, sabes o que é?

Vamos acabar com isto de uma vez.

Bem...

O que...

Antes de começares gostava de te conhecer um pouco mais.

Saber algumas coisas do teu passado, por exemplo.

Onde cresceste?

Cresci numa aldeia,

numa família humilde.

Por que queres saber isto?

Como era a vida familiar?

Era uma família normal, humilde, trabalhadora.

Os meus pais

lutaram muito para eu ser alguém, para estudar.

Enfim...

Custou-te muito ser alguém?

Sim.

Custou-me, sim.

O que fazes?

Sou dentista.

Tenho uma clínica dentária.

Tens irmãos?

Tenho dois irmãos.

E como te dás com eles?

Com a minha irmã Elena,

há muito tempo

que a relação...

Enfim, deteriorou-se.

Porquê?

Não sei, problemas de comunicação.

Problemas entre irmãos.

Coisas que aconteceram e que foram crescendo.

Coisas que não foram discutidas.

Não sei.

Muito bem, podes continuar com o teu segredo.

No ano passado um amigo disse-me que queria mudar de casa

porque a mulher ia dar à luz e queriam mudar para uma casa maior

e melhor. O normal.

Como se chama o teu amigo?

Roberto.

Por acaso, comentei com um amigo que tem

uma imobiliária e que me disse

que tinha acabado de entrar uma pechincha.

Um andar que tinha sido embargado e que,

por ser para mim Podia consegui-lo

por metade do preço.

Se...

Se lhe desse um sinal.

Na verdade queria o sinal para ele, era o dinheiro que

ele iria receber por fazer o favor.

Contei ao meu amigo, ele viu o andar, gostou muito

e concordou...

Bem, concordou em pagar esse sinal.

Quanto era o sinal?

3.000 euros.

Disse-lhe para me dar o dinheiro a mim porque...

Enfim, era um assunto delicado por causa do...

Com a imobiliária e por causa do embargo.

Bom, no dia seguinte, encontrei-me com o meu amigo e ele deu-me o dinheiro.

Naquela altura estava a passar por um mau momento na clínica,

estava com problemas. Tinha-se estragado um aparelho

importante de que eu precisava.

E não tinha dinheiro para...

Não tinha dinheiro para comprar um novo porque tinha gastado

muito dinheiro num carro novo.

E fiquei com o dinheiro do meu amigo.

Fiquei com o dinheiro

e fingi que tinha sido assaltado na rua.

Estás arrependido do que fizeste?

Estou.

E achas que tens de pagar pelo que fizeste?

Claro.

Posso devolver os 3.000 euros.

Não sei, se precisar de mais dinheiro posso dar mais dinheiro.

De certeza que conheces a lei de Talião.

Basicamente é pagar um erro com a mesma moeda.

Um castigo do tamanho

do delito que se cometeu.

Olho por olho.

Dente por dente, mão por mão, pé por pé.

Êxodo 21:24.

Mas eu devolvo-lhe o dinheiro, a sério!

É irónico, não é?

Roubaste 3.000 euros ao teu amigo para continuares a tirar dentes.

Quanto cobras na tua clínica?

Para fazer um...

Como se chama? Um implante dentário.

Não sei, 900 euros por implante.

O implante...

Depois, 600 por uma coroa.

Ou seja, uns...

Uns 1.500 euros.

Ou seja,

dois implantes dentários são uns 3.000 euros?

Está a dizer para eu tirar um dente?

Não, dois.

3.000 euros.

Acho que é um pagamento justo.

Não acham?

O que é que quer? 3.000 euros, 6.000 euros, 12.000 euros?

Damos-lhe já!

- Julia. - É o que quer?

Julia.

Deixa-o.

Não, pai!

Pai!

- Por que vais tirar os dentes? - Não temos outra saída, filho.

Tem de haver outra maneira.

Queria um segredo? Aqui o tens.

Oliver.

Meu amor.

Muito bem.

Mas esse não era o segredo que eu queria ouvir.

O quê?

Você é um sádico. O que é isto?

Então por que o deixou fazer aquilo?

Eu não o deixei fazer nada.

Ele decidiu pagar e pagou. E vocês estiveram de acordo.

Não, disseste dois dentes. Aqui tens dois dentes.

Vim ouvir um segredo e não é esse.

Disse que assim que o ouvisse

a Sara ficaria livre e poderia voltar para casa.

São vocês que andam às voltas e não o contam.

Que segredo? Que merda de segredo queres?

Alex, Alex.

- A minha paciência esgotou-se. - Não, por favor.

Não se vá embora! Por favor.

Não tem provas que cheguem?

Por favor.

Todo o castigo tem um prémio.

Vou dar-lhes um dado que pode ajudá-los a refrescar a memória.

Foi de noite.

Que está a dizer?

Isto não faz sentido nenhum.

Já sei do que está a falar.

Alex, tens de fazer um favor. Vai para o teu quarto.

Não.

- Por favor. - Não.

- Por favor. - Não vou.

- Alex, obedece-me. - Não vou.

- Obedece-me, por favor. - Não vou!

Alex! Alex.

Faz o que a tua mãe está a dizer.

Alex.

Ficas aí sentado.

O que vais dizer,

dizes para a família toda.

Muito bem.

Ali, também?

Perfeito.

Gostava de te conhecer um pouco melhor, Julia.

Em que tipo de família cresceste?

Numa família

abastada. É isso que quer dizer?

Sim, numa família abastada.

Como foi a tua infância?

O meu pai morreu quando eu tinha seis anos. Ou seja...

Houve um antes e um depois.

Daquilo...

Como conheceste o Oliver?

Numa festa.

Conhecemo-nos numa festa em casa de um amigo comum.

Eu vivia sozinha

estava a trabalhar como assessora num escritório.

Tinha acabado de terminar os estudos

e tinha-me tornado independente.

E depois o que aconteceu?

Pouco tempo depois casámos

e a seguir veio o Alex.

E uns anos depois a Sara.

E como achas que está o teu casamento?

Bem.

Está bem.

Podes dizer

que continuas apaixonada por ele?

Sim.

Continuo apaixonada por ele.

Muito bem.

Agradeço a tua sinceridade, Julia.

Que tens para nos contar?

Há uns sete anos

que trabalho num escritório de advogados internacional.

Muito importante.

Há uns dois meses

foi reestruturado,

o meu departamento.

Porque o meu chefe directo ia ser promovido

a director da sucursal.

Assim, o seu lugar ficava livre,

e seria provavelmente ocupado por um dos meus colegas

ou por mim.

Eu...

Era a advogada que tinha resolvido mais casos

desde que entrei no departamento

e tudo indicava que

o lugar seria meu.

Mas umas semanas antes,

apareceu uma colega nova

no escritório.

Que, por acaso, era a mulher do meu chefe.

Logo a seguir, espalhou-se o rumor que seria ela

quem subiria.

Por razões óbvias.

E a mim isso pareceu-me muito injusto

porque eu tinha trabalho muito.

Muito.

E queria ser promovida.

Às sextas-feiras, depois do trabalho, o meu chefe e uns sócios costumavam

ir, a um sítio que estava na moda, tomar uns copos.

Eu sabia que a mulher

não o costumava acompanhar, que ia para casa.

Assim,

contratei uma

cliente que tinha representado.

Uma acompanhante de alto nível.

Contactei-a e paguei-lhe

para seduzir o meu chefe.

Assim,

uma destas sextas-feiras,

ela

estava lá.

E

não demorou muito tempo

para fazer o seu trabalho.

Era uma mulher impressionante.

E

pouco depois saíram dali.

Ele levou-a

para a garagem onde costumava deixar o seu BMW.

E...

Bem, quando entraram

começaram a beijar-se

e ela acabou por fazer sexo oral.

Na véspera,

a mulher do meu chefe,

recebeu uma mensagem anónima.

Por isso, naquele dia, não foi para casa.

Estava no parque de estacionamento e viu tudo.

Na segunda-feira...

Na segunda-feira a seguir, não apareceu no escritório.

E nunca mais apareceu.

E umas duas semanas depois,

promoveram-me e eu consegui subir.

Arrependeste-te do que fizeste?

Sim.

E achas que tens de pagar pelo que fizeste?

Sim.

Chega, por favor. Deixa-a em paz.

Faça o que quiser comigo mas deixe-a.

- Repete, Julia. Repete. - Deixe-a em paz!

- Sim. - Já chega, não?

Queres ir para ali? Tens algo importante para nos dizeres?

Vamos fazer uma coisa.

O que achas se mudarmos a dinâmica?

Por que não escolhes tu o teu castigo exemplar?

Desde então não consigo dormir, se lhe serve de consolo.

Metade do mundo não consegue dormir.

Vamos, Julia. Pensa.

Fiquei surpreendido, tens uma criatividade incrível.

Queria que contasse à frente deles

e já contei.

E acabou?

Não me vem nada à cabeça.

Que decepção?

Que decepção.

Por favor! Vamos, Julia.

O tempo está a passar.

A Sara quer vir para casa.

Não me vem nada à cabeça.

Tanto esforço e tanta criatividade para conseguir um posto de trabalho

e és incapaz de usar essa criatividade para teres a tua filha de volta.

Que pena! Pobre Sara! O tempo está a passar.

Não me vem nada à cabeça.

Bem...

Que decepção.

Talvez eu te possa ajudar.

Olá mamã, estou bem. Tenho saudades tuas, um beijo.

- Olá, mamã, estou bem... - Por favor!

Por favor, traga-a para casa.

Olá mamã, estou bem. Tenho saudades...

Faço o que quiser.

Por favor!

Queres despachar-te a mijar!

Meu Deus.

Olá, dás-me um cigarro, por favor.

Sim.

Que cão tão engraçado.

É uma cadela.

- Como se chama? - Thor.

Dás-me lume?

Muito obrigada.

Vives por aqui?

Ali acima, com a minha mãe.

Como te chamas?

Bruno.

E tu?

Chamo-me Julia.

E em que trabalhas, Bruno?

Sou informático.

Que interessante.

Ouve, Bruno.

Estou a pensar...

Queres vir a minha casa?

Gostavas?

- Vamos. - Agora?

Sim.

Está muito frio, não está?

- Anda. - Está bem.

Anda. Moro ali ao lado.

Não te assustes, não há problema. Não te vão fazer nada, prometo.

Não te vão fazer nada, só vais estar comigo.

Só vais estar comigo.

Está bem?

Juro.

Tem calma.

Dá-me o teu casaco.

Não te assustes, a sério.

Não olhes para eles.

Não olhes para eles.

Estás muito longe, Julia.

De frente para o Oliver.

Tem calma, tem calma.

Eu sei que isto está a ser muito difícil para ti, Alex.

Mas está tudo a correr bem.

Tem calma.

Há momentos na vida

que nos marcam para sempre.

Todos. Uns mais, outros menos,

já passámos por situações

lixadas, traumáticas.

Mas são precisamente essas

que formam o teu carácter e a tua personalidade.

As que te fazem ser quem és.

Quando tinha a tua idade, talvez um pouco menos.

Ao lado da minha casa

havia uma fábrica de açúcar. Um sítio onde

chegavam todos os dias

camiões carregados de açúcar a granel.

Lá dentro, empacotavam-no e vendiam-no.

Ao lado da fábrica havia uma casa, uma vivenda

onde viviam três irmãozinhos

com os avós que era quem cuidava deles.

Lembro-me de estar sentado

no passeio a fazer não sei o quê, talvez à espera do autocarro.

Era meio-dia.

O avô saía todos os dias a essa hora porque era quando

os irmãos mais velhos vinham da escola com a avó.

E ele saía com o mais pequenino que tinha uns cinco ou seis anos.

Loiro... Bonito.

Ia esperar os irmãozinhos.

E nesse dia, não sei porquê,

o avô pôs-se a conversar com um vizinho, acho eu.

E quando chegaram os irmãos

do outro lado da avenida,

com a inocência das crianças,

sem ter noção do perigo,

começou a correr.

Quando ia a atravessar a estrada

não viu

que vinha um camião cheio de açúcar

para a fábrica.

E de repente,

o universo parou.

O espaço e o tempo ficaram suspensos.

E ouvi o som mais assustador, mais sangrento, mais indescritível...

Que até ao dia de hoje me continua a tirar o sono.

O crânio de uma criança

esmagado por um pneu.

No asfalto.

Posso pedir-te um favor?

Fazes-me uma sandes?

Estou com fome.

Se puder ser de queijo e marmelada.

E tira a côdea que não gosto, está bem?

Obrigado.

Bem...

Agora, traga-me a minha filha, por favor?

O segredo não era esse.

Por favor! O que quer mais?

Por favor, suplico-lhe. Traga-me a minha filha.

Traga a minha filha. Já lhe disse que faço o que quiser.

- Por favor. - Está a brincar connosco.

Não aguento mais.

Vou dar-lhes mais uma pista.

Vamos ver se vos ajuda.

Foi uma dor física.

Nunca toquei num cabelo de ninguém em toda a minha vida.

Não fizemos mal a ninguém, nunca! Que mal?

Por favor, acabe já com isto!

Não te mexas!

- Alex! Alex! - Alex! Alex, a menina!

Alex, a menina. Não lhe faças mal, a menina.

- Vamos atá-lo! - A menina!

Alex, Alex!

- Vamos atá-lo. - A menina! A menina!

- A menina! A menina! - Cala-te!

Alex!

Obedece-me e solta-o!

- Ouve a tua mãe, Alex. - Solta-o já.

- Solta-o! - Vai buscar lá acima.

- Vai buscar lá acima. - Já te disse para o soltares.

Tenham calma!

Não lhe faças mal.

Não encontras?

- Procura nos arquivos. - Estou à procura, pai.

- Nos arquivos de som. - Estou à procura.

Deve tê-lo apagado.

Como te atreves! Como te atreves!

Que fizeste?

Que fizeste? Que fizeste?

Tens noção do que fizeste? Tens noção do que fizeste?

Como te atreves a brincar assim com a vida da tua irmã

depois de tudo o que eu e o teu pai fizemos?

O que te passou pela cabeça, Alex?

O que te passou pela cabeça, por amor de Deus?

É a vida da Sara que está em jogo, porra.

Nós sabemos.

Temos de mudar de estratégia, fazer alguma coisa.

Não pode continuar a humilhar-nos assim.

- Temos de chamar a polícia. - Esquece a polícia, por favor.

Este tipo não se incomoda nem com a polícia nem com nada.

Está a rir-se de nós.

Apontaste-lhe uma faca e riu-se, porra!

Querem dizer-me o que vamos fazer quando ligar

a pessoa que tem a Sara?

Podemos obrigá-lo a falar.

Podemos fazer uma coisa que vi num documentário sobre Guantánamo.

- Tu não o viste? - E funciona, põem-lhes uma toalha

na cara e deitam muita água. Funciona. Todos falam, mãe.

E se te descontrolas? E se o afogas?

Por favor, não nos pode ouvir.

E se te descontrolas?

Quem vai atender o telefone quando ligarem?

Diz-me!

Mas ainda não perceberam? Isto é uma loucura. Uma loucura.

Põem-lhes uma toalha na cara e deitam muita água.

Funciona porque todos falam, mãe. Todos falam.

Está a ouvir-nos, porra! Está a ouvir-nos.

Não sei que fazer com ele.

Pedir-lhe desculpa, soltá-lo e fazer o que pedir.

Julia, já fizeste muito, querida. Já fizeste muito.

Podemos fazer isto, é uma hipótese.

Nem pensar nisso, nem pensar nisso.

Oliver, não pode ser, não olhes assim para mim.

E que fazemos?

- Não contem comigo para isso. - Claro que não.

Claro que não.

Vamos tentar.

- Querida, temos de tentar. Pela Sara. - Não quero ter nada a ver com isso.

Não te preocupes.

Não te preocupes.

Onde está a minha filha?

Onde está a minha filha?

Se não me diz onde está a minha filha vamos ter de magoá-lo, ouviu?

Está bem?

Vou perguntar-lhe pela última vez: Onde está a minha filha?

Traz a água.

Traz a água! Vamos lá!

Vamos, deita, deita.

Deita, deita. Deita toda.

Onde está a minha filha?

Diga-me onde está a minha filha.

Vou ter de continuar. Diga-me onde está a minha filha!

Está com quem?

Enche a garrafa.

Vamos lá!

Onde está a minha filha?

Deita.

Toda! Toda!

Onde está a minha filha?

Quem tem a minha filha?

Por favor!

Por favor!

Por favor!

Por favor, diga-me.

Isto não resulta.

Pai, temos de fazer outra coisa.

- O quê? - Uma coisa pior.

Uma coisa pior como o quê?

Que estás a dizer?

Tapa-lhe a cara.

- Para quê? - Tapa-lhe a cara.

- Vamos lá! - Alex, tem cuidado.

Que estás a fazer?

Filho, por favor!

Não o podemos matar.

Não, Alex. Não, não. Alex.

Larga isso. Larga isso.

Não o podemos matar. Pensa na tua irmã, porra.

Alex!

Pára já! Pára já!

Ainda o matas!

Meu Deus!

Como te lembraste?

- Às 6h00 a menina estará morta. - Vês o que fizeste?

Que queres, que a tua irmã morra para não falares?

Era isso que estavas a fazer, não era?

Era isso que querias fazer não era?

Esconder tudo com toda esta encenação.

Acabou-se, ouviste? Acabou-se!

Se tens alguma coisa para dizer, diz já!

Julia, tem calma. Por favor.

Vão matar a Sara.

Nenhum dos dois está a perceber?

Aonde vais?

Alex.

Lamento imenso.

Lamento.

Eu não queria que isto acontecesse.

Se o solto...

Podemos regressar ao nosso acordo?

Onde está o meu telefone?

Trá-lo!

Quero saber um pouco mais de ti.

Estudas?

Sim.

Que estudas?

Belas-Artes.

Belas-Artes?

Tens namorada?

Não.

Tens pouco sucesso com as mulheres?

Sim.

São mais de usar e deitar fora?

Que tens para nos contar?

Foi numa noite que fui para os copos com uns amigos.

Bebemos muito e quando fechou o sítio

onde estávamos fomos

para a paragem apanhar o autocarro para casa.

Estávamos num sítio afastado, onde só há

terrenos e uma estrada.

Fomos a pé até à paragem do autocarro e estava lá um rapaz sozinho à espera.

Era...

Era um rapaz da universidade.

Um tipo gay que anda sempre com as miúdas da turma.

Tínhamos bebido muito e eu pensei

que seria divertido metermo-nos com ele.

Então,

aproximei-me e comecei

a insultá-lo.

Chamei-lhe maricas e brochista.

E...

os meus amigos

riam-se e incentivavam-me a continuar.

Como não olhava para mim,

nem falava comigo,

perguntei-lhe se era surdo.

Fez-me um manguito e os meus amigos começaram a rir-se de mim.

Então,

agarrei nele e dei-lhe um murro que o atirou ao chão.

Dei-lhe...

Dei-lhe pontapés e cuspi-lhe

até que lhe disse que lhe ia dar uma lição.

Então, disse-lhe para se despir.

Como não se despiu continuei a bater-lhe

e a cuspir-lhe.

Quando por fim se despiu obriguei-o

a pôr-se de gatas.

Nu, na estrada.

Enquanto os carros passavam e apitavam

nós tirávamos fotos e ríamo-nos dele.

Disse-lhe que se contasse isto a alguém

mostrava as fotos a todos na universidade.

Então, agarrou nas suas coisas,

vestiu-se e desapareceu a correr.

Estás arrependido do que fizeste?

Sim.

E achas que tens de pagar pelo que fizeste?

Vamos até à cozinha.

Senta-te aí!

- Para a cozinha. - Por favor, não lhe faça mal.

Por favor, é uma criança! Por amor de Deus!

Por favor!

Dá-me o teu telemóvel.

Abre o frigorífico e vê que legumes há.

Tomates. Pimentos.

- Cebolas. - As cebolas não vão para o frigorífico.

- Mais o quê? - Cenouras.

Podem ser as cenouras.

Há manteiga ou margarina?

Há?

Muito bem, tira-as.

Muito bem.

Despe-te.

As cuecas também.

Agarra na cenoura e unta-a com margarina.

Não, com a mão.

Com a mão.

Isso, bem untada. Muito bem.

E agora...

Que vamos fazer?

Que achas que podemos fazer com isto?

Que gostavas de fazer com essa cenoura?

Então!

Vamos lá!

Faz o que quiseres. Tiro uma fotografia

e partilhamos com os teus amigos e com as tuas amigas.

Vamos lá! Diz-me!

Que achas que podias fazer com isso?

Quando vais sair do armário, miúdo?

Sim, sim!

Põe isso aí!

Toma.

Veste-te e desaparece da minha vista.

Alex... Alex! Alex!

Que lhe fez?

- Que aconteceu? Que lhe fez? - Responda-me.

Que lhe fez?

O segredo que revelou não era o que eu estava à espera.

Vejam que horas são.

Faltam uns minutos para as 6h00. Vou dar-lhes a última pista.

Aconteceu nesta casa.

Nesta casa mesmo.

Portanto, pensem

porque não há muito tempo.

Não sei.

O Alex costuma trazer miúdas para casa.

É isso?

Não sei.

Alex.

Alex, abre a porta.

Alex, por favor. Abre a porta.

Não é do meu filho que está à espera de uma confissão, pois não?

Nem da minha mulher.

Não é deles.

Alex, tens de falar. Por amor de Deus! Conta-me, seja o que for!

Abre!

Abre, Alex. Por favor.

Alex, não temos mais tempo. Por favor.

Eu sei o que quer ouvir.

E vou contar-lhe.

O que aconteceu aqui,

naquela noite.

Este é o meu segredo.

É a minha confissão.

Mas tem de me prometer uma coisa.

Não diga à minha família nada do que lhe vou contar.

Vamos combinar assim. Por favor!

As regras não são essas.

Não foi o que acordámos.

Eu sei que não foi o que acordámos,

mas faça-me só este favor.

Não lhes conte nada.

Então, o pagamento terá de ser mais alto, não achas?

Pagarei o que for preciso.

Pagarei o que for preciso, mas não conte nada à minha família.

Falta pouco tempo.

Prometa, por favor.

Tem a minha palavra.

Há duas semanas,

a minha filha Sara pediu-nos autorização

para a sua amiga Lucia ficar a dormir cá em casa no sábado.

Ligámos à mãe dela, estava de acordo

e trouxemo-la para casa.

Almoçámos no jardim,

e depois as meninas estiveram no quarto a brincar toda a tarde.

Quando anoiteceu,

o Alex

saiu com os amigos, como de costume aos fins-de-semana.

A Julia foi

tratar da mãe porque sofre do coração e naquele dia

tinha tido uma crise e precisava que a filha estivesse com ela.

Por isso, fiquei sozinho a tratar das meninas.

Fiz-lhes o jantar e depois estivemos a ver um filmo na televisão até que

adormeceram.

Deitei a minha filha no quarto,

e levei a Lucia para o quarto de hóspedes.

E fui para a cama.

Ao fim de uma hora levantei-me

e...

Tenho em casa um anestésico muito forte que uso nas consultas.

Levei-o para o quarto da menina, fechei a porta à chave

e dei-lhe uma dose desse anestésico, uma dose muito forte.

E depois abusei dela.

Abusei da menina.

Na manhã seguinte tomámos o pequeno-almoço todos juntos

como se não se tivesse passado nada.

Veio cá a mãe da Lucia

e levou-a.

Foi isto que aconteceu.

Estás arrependido do que fizeste?

Sim. Claro que estou arrependido.

E achas que tens de pagar pelo que fizeste?

Sim.

Corta-a.

O quê?

Corta-a.

Não.

Não posso fazer isso.

Olha que horas são.

Não posso fazer isso.

Não valho nada.

Não consigo.

Preciso de uma resposta.

Que lhe digo?

Que lhe digo?

Diga-lhe que sim.

Diga-lhe que sim.

Dá-me mais dez minutos.

Na segunda-feira de manhã acordou com dores de barriga.

E encontrámos sangue na roupa interior.

Decidimos levá-la ao hospital.

E depois de o médico a ter visto

concluiu que tinha sido penetrada.

Por sorte, não se lembra de nada.

De absolutamente nada.

E na verdade,

as análises

indicavam vestígios

de sevoflurano,

um anestésico odontológico.

Vou buscar a tua filha.

Oliver.

Que aconteceu?

Oliver! Oliver!

Oliver, o que te fez ele?

O que aconteceu?

Vou chamar uma ambulância.

- Não. - Põe a mão aqui.

- Não chames ninguém. - Põe a mão aqui.

Ele vai trazer a Sara.

Olá.

- Querido, que te aconteceu? - Nada.

Nada.

Está tudo feito.

Como está a menina?

Bem, esteve sempre a dormir.

Está calma.

Coitadinha.

Vou levá-la.

Está bem.

Adeus.

Aguenta, meu amor. Aguenta, Oliver.

Aguenta um pouco, querido.

Mamã?

Sara?

Sara!

Sara!

Sara.

Estás bem?

- Estás bem? - Estou.

Saia da minha casa.

A tua filha tem uma coisa para te contar.

Como pudeste fazer uma coisa daquelas?

À tua própria filha.

Perdoa-me.

Desculpa.

Perdoa-me.

Perdoa-me!

Perdoa-me.

Perdoa-me.

Desculpa.

Desculpa.

Desculpa.

Perdoa-me.

Perdoa-me.

Querida, perdoa-me!

Desculpa.

Desculpa.

Desculpa.

Argumento e Realização

Tradução e Legendas: Cinemundo, Lda por Luís Zanguineto

FIM

Transcritas e sincronizadas por: RicardoB/2022

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