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- Então esse almoço? - Já está quase.
Vá, despacha-te, a Ana Maria está a chegar e sabes que ela não espera.
Não espera, não.
Se queres que te leve à escola, avia-te, menina.
Se chego tarde à praça, a tua avó deita-me o fogo.
Vês como bebeste o leite num instante?
Claro, basta a fidalga aparecer, e tudo muda de figura.
Olha como te mexes agora! Sempre na brincadeira, menina...
- Já estou pronta! - Não te esqueces de nada?
- Que me lembre, não. - Nada com certeza?
E verdade, a flor para o meu paizinho.
- Olha lá, quem te fez esses laços? - Foi o Júlio.
Logo vi. Anda cá.
Ai, Júlio, tenho tanto medo de cantar logo à noite..
Porquê?
Cantar para a gente é uma coisa, mas em público é de responsabilidade.
É e não é.
Aguenta tu o final que eu trato do resto.
Ai Júlio, se eu agrado...
Canta como te disse, que agradas com certeza. Olha assim.
Fado é sorte...
E do berço até à morte
Ninguém foge, por mais forte,
Ao destino que Deus dá.
- Tens razão. - Ora, bom dia!
Olá.
- Então, está tudo pronto para logo? - Comigo nunca falha!
Temos lá um fotógrafo e um redactor do Século.
Tenho cá ideia que a rapariga se faz uma grande artista.
- Cá eu não me dava de a contratar. - Contratar? E o dinheirinho?
Dinheirinho? Um homem superior não liga a essas porcarias.
Era a crédito como os outros.
Enche um copo de três decilitros, faz favor.
- Para que sou empresário? - Crédito?
Então esses três decilitros?
Ah, "hoje não se fia". Então não bebo.
Não bebes, não!
Não bebes!
- Bom dia, Sr. Joaquim! - Bom dia!
- Bom dia. - Bom dia!
- Está a baixar o prego ao vinho? - A baixar? És doida, rapariga?
- Ainda ontem estava no prego de cima. - Que graciosa!
- Logo à noite lá estamos. - Nem me fale nisso.
Se me livro desta, não é tão cedo que me meto noutra.
Lérias, rapariga, Lérias. Tão certo como eu ser o Chico Fadista
que vai nascer esta noite a maior cantadeira de Portugal.
Credo, Sr. Chico. Esteja calado que ainda me dá azar.
Nem dormiu com o susto. Passou a noite a rezar à mãe para a ajudar la do céu.
E olha que rezavas a uma infeliz que foi o maior coração
e a melhor garganta que a Alfama conheceu em muitos anos.
Mas não tenhas medo.
Assim eu tivesse tão certa a taluda do Natal como vai ser um sucesso
que esmaga a canalha.
E digo-to eu, que era garoto de escola e já sabia o que era o Fado.
Não há quem possa ir fora disso.
Uma aluna do mestre dos mestres, tem por força que ser de arromba.
Tem cautela com a língua, Peixe Espada. Vê lá se o arrombada és tu
e mais depressa que julgas.
Credo, havia de ser bonito. Espalhava-se por aí veneno,
nem os gatos escapavam cá no bairro. - É isso, a fadista, uma cana.
Este Peixe Espada anda a tentar, mas qualquer dia, quinas. Ah, quinas!
Deixa-o lá morder-se de inveja, toda a gente sabe onde lhe dói.
- Bem, rapaziada, vou à vida. - Até logo.
- Até logo, se Deus quiser. - Até logo.
Anda, Luisinha!
- Olá, Pai Damião! - Olá, meu pintassilgo!
Aqui tens para a merenda.
- Então esse ânimo, rapariga? - Nem me fale nisso, Pai Damião.
- Está cheiinha de medo. - Olha o valentão!
Nem quero pensar no que vai acontecer logo à noite.
Não te aflijas, rapariga. Tu hás-de agradar, cantas bem.
- Deus o oiça. Até logo. - Até logo!
Ó lingrinhas. Dá cá o grude.
Vai buscar as cordas que se encomendaram ontem à tarde.
Olha, Júlio.
Eu não tenho nada com atua vida, mas sou teu amigo.
Andei na escola com o teu pai, que Deus haja. Quase te vi nascer.
Ando há uns dias para te fazer uma pergunta.
- Se não quiseres, não respondes. - Por que não havia de responder?
Sei lá.
As palavras, às vezes, custam mais que as acções.
Tens na tua ideia vir a casar com a Ana Maria? Tens ou não tens?
Eu cá tenho, sim senhor.
E achas que isto de a levar a cantar por retiros é acertado?
Oh, Pai Damião, é só esta noite.
Eu sei. Mas no rir e no chorar, o mal está no começar.
Não vás tu e ela fazer do fado uma negociata como os outros.
Que ideia, não pense nisso!
Ora viva, quem é uma flor! Aqui tem as laranjas, Mãe Rosa.
- A estas horas é que chegas? - Não se zangue!
E que toda a gente me queria dar uma palavrinha por causa de logo à noite.
- Hoje à noite é que é o grande dia? - E se não me falassem nisso?
- Estou aqui, parece que nem respiro. - Não te atrapalhes, rapariga.
Tudo há-de correr bem, se Deus quiser.
- Ó tiazinha! A como são estas rosas? - É como te digo.
Sabes como faço com as couves? Enquanto não as impinjo, não descanso.
- Que comparação! - E preciso é impingir a mercadoria.
-Tanto faz se são couves ou cantigas. - Se o Júlio a ouvisse...
E verdade, Mãe Rosa.
Não se esqueça dos laços para a Luisinha logo à noite.
Já cá faltavam os laços! Parece que a miúda é tua filha!
E é quase. E tão minha filha como eu sou filha do bairro.
Filha? És uma ralação que nos apareceu no bairro num dia de azar!
Por que está com essas coisas?
Toda a gente sabe que é só da boca para fora!
Então quando a minha mãezinha fechou os olhos e eu fiquei sozinha no mundo
não foi na sua casa e da Sra. Augusta que eu cresci e me fiz mulher?
E sabes porquê? E o disparate que duas velhas podem fazer!
E agora deixa-te de conversas. Tira esse avental!
Pega. E para a tua mãe.
Ó, Mãe Rosa...
como lhe hei-de agradecer tudo o que faz por mim?
Cantando, como sabes cantar. Para dar alegria ao Júlio.
E agora vai-te embora que ainda me fazes chorar.
Tu não ou viste? Vai-te embora, rapariga!
- Vamos ver como a moça se aguenta! - Bem, quem já não se aguenta, sou eu.
- Então os jornalistas? - Ainda não vieram?
- Não e acabando este, é a nossa vez. - A nossa vez? Você também canta?
- Quem está a cantar agora? - E o Carlos Ramos.
- Lá estão os homens, Sr. Chico. - Até que enfim...
- Boa noite, cavalheiros. - Boa noite!
-Já julgava que não vinham atempo. - Chegámos tarde?
Não, mas também não chegaram cedo.
Mas chegaram. Vossas excelências, tenham a bondade. Por aqui.
Nem só o tempo domina, Nosso viver, nossa lida.
Quanta vez...
... o que nos mina
são os desgostos da vida.
Quanta vez o que nos mina são os desgostos da vida.
Pronto.
- Não acha melhor fazer um boneco? - Um boneco?
Quanto estiver no estrado. Não lhe parece?
Está visto!
O senhor há-de me dar uns elementozinhos para a notícia.
Uns elementozinhos? "Concertezamente".
Não "mente". Com certeza, só.
Que a memória da tua mãe seja a tua grande inspiradora.
Minhas senhoras e meu senhores.
A grande fadista Maria do Rosário que todos conheceram,
e eu também,
e que está ali encaixilhada naquela parede, não morreu.
Isto é, morreu, mas não de todo. Deixou a filha.
A Ana Maria que todos conhecem, e eu também,
e que lhe vai seguir muito honradamente as pisadas.
E para que todos possam ouvir, e eu também,
a sua maviosa voz,
peço que estejam todos calados. - E tu também!
E agora, silêncio que se vai cantar o fado.
Bem pensado todos temos nosso fado
e quem nasce malfadado
melhor fado não terá.
Fado é sorte e do berço até à morte
ninguém foge por mais forte
ao destino que Deus dá.
No meu fado, amargurado,
a sina minha
bem clara se revelou:
Vais cantando,
Seja quem for, adivinha
na minha voz soluçando que eu finjo ser quem não sou.
Bem pensado todos tem os nosso fado
e quem nasce malfadado
melhor fado não terá.
Fado é sorte
e do berço até à morte
ninguém foge por mais forte
ao destino que Deus dá.
Bom seria, poder um dia,
trocar-se o fado
por outro fado qualquer
mas a gente já traz o fado marcado
e nenhum mais inclemente
do que este de ser mulher.
Que bem! Que bem que cantaste!
- Então, que tal? - Não há dúvida, a rapariga tem alma!
Pode vir a ser alguém. Assim tu queiras.
- Eu? - Talvez se arranje alguma coisa.
Não vale a pena. Enganam-se. Não a quero a cantar pelos retiros.
Cantou hoje aqui por ser entre a gente, mais nada.
Vê lá, homem, talvez fosse melhor consultares a rapariga.
Ai, a conversa! Já disse que não e é não!
Ó Ana Maria, vem cá que tenho uma surpresa para ti.
Tenho estado cá a matutar que é preciso pensar no futuro.
- No futuro de quem? - No meu. Isto é, no teu.
- Quero dizer, no nosso! - Não percebo!
Nem é preciso perceber. O caso é este:
Tu com a tua voz e eu com a minha garganta,
temos o mundo aqui. - Aí?
Aqui ou ali, tanto faz! Tu dás as notas e eu transformo-as.
Numa palavra, fazemos um contrato e lanço-te como grande cantadeira.
- Sr. Chico, vossemecê está doido. - Doido vai ficar o público!
- Tu arrebata-lo e eu arrecada. - Não vale a pena insistir.
- Nem o Júlio vai nisso. - O Júlio também vai, filha,
eu trato de tudo! E tu vais ver pérolas, automóveis,
um nome deste tamanho nos jornais, vestidos de popelina,
a riqueza, a fama, o público! Os aplausos!
O público...
... os aplausos...
Os dez por cento!
- E só quereres. Queres ou não? - Eu cá por mim, queria, mas...
Não digas mas, nem mais! Aceito as tu as condições, contrato fechado!
Com licença.
Atenção. Muita atenção. "Atençãozíssima"!
O grande empresário Chico Fadista, criado de vossas excelências,
acabou de contratar solenemente Ana Maria,
a próxima futura rainha do retiro e com esta me retiro.
Senhoras e senhores, muito obrigado.
Adeus, até amanhã.
- Boa noite. - Boa noite, até amanhã!
- Boa noite. - Boa noite!
Não te demores, Ana Maria. Olha que se faz tarde.
Não, senhora, vou já.
Júlio...
- Não estejas zangado. - Por que havia de estar zangado?
Bem sei que não devia ter resolvido nada sem falar contigo.
Mas olha que não fiz por mal. Nem sequer pensei, foi de repente.
O Chico Fadista pintou-me tudo com cores tão bonitas...
E a que vem essa conversa? Fizeram-te propostas, não é?
Eras senhora de dizer sim ou não, disseste sim. Que tenho com isso?
- Mando em ti? Não és livre? - Bem sabes que não.
Quem tem o coração preso, nunca pode ser livre.
Pois olha, a julgar pelas tuas acções, ninguém diria!
Já te expliquei tudo, pedi desculpa,
confessei que fiz mal. - Achas que serve de alguma coisa?
Olha lá, Júlio, o que fiz foi algum crime ou vergonha?
- Não. - Então para que levas tudo a peito?
E não tenho razão? Tantos anos a ensinar-te,
a fazer de ti gente para quê? Para seguires o caminho das outras?
- Vê lá como falas! - Eu não tenho papas na língua!
Bem sei o que te devo.
Mas olha que pensarmos em obrigações de um para o outro...
Nunca pensei em faltar às minhas!
Mas também não tens tido grande pressa em te lembrares.
Há o que há entre nós e já há dois anos.
Só por milagre é que ainda não sabem todos e ainda me respeitam.
E estás a falar sem direito nem razão!
Que ideias pensas que tive quando combine¡ o contrato?
Deixar-te? Mudar de vida? Trocar os amigos velhos por outros?
Bem se vê que não me conheces. Júlio, aconteça o que acontecer,
seja eu a mulher mais feliz ou mais desgraçada deste mundo,
quero sê-lo contigo, percebeste?
Enquanto me quiseres, hás-de ser sempre o mesmo para mim.
- O nosso destino há-de ser um só. - Estão aí?
- Ainda bem. Não sou capaz de dormir. - Dormes sim, já lá vamos.
Vamos?
Bem pensado todos tem os nosso fado
e quem nasce malfadado
melhor fado não terá.
- Olha que já é tarde. -Já vamos.
Só queria que vissem, a casa parecia que vinha abaixo com palmas.
- A sério? - A sério, pois!
O velho Damião... conhece-o, Sra. Marcolina?
Não havíamos de conhecer? Nem conhecemos outra coisa!
- O mestre do Júlio! - Esse mesmo!
Chorava como uma Madalena arrependida!
- Ó Sra. Rosa, a como são as laranjas? - Sei Ia!
- Atenda a freguesa, Sra. Rosa! - Ah minha freguesa, que quer hoje?
Umas laranjinhas? - A como são?
- A 50 escudos a dúzia, freguesinha. - Ah, Sra. Rosa, que caro!
- Caro? Uma coisa que é toda açúcar! - Não pode ser por menos?
Por ser para si, é a 49 e quinhentos.
Para outra vez, não faço abatimento!
E o júri? Se vissem os olhos deles quando a pequena acabou de cantar.
E quando é que eles se casam?
-Isso não sei. - As laranjas são de confiança?
- Não sabe? - Não senhora!
Não são?
- Não são quê, criatura de Deus? - São de confiança?
- Não, são de Setúbal! - Ora então, bons dias!
- Lá vem o intruja! - Temos mau tempo.
- Viva! - Ó Sr. Chico.
Venha cá, que preciso de falar consigo.
- Aquilo de ontem não pode ser. - Não pode ser?
Não. O Júlio não gostou. Estivemos a falar e não quero contraria-Io.
Vocês pensam assim porque ainda não leram os jornais!
- Trazem alguma coisa? - Mas quem pensas tu que sou?
Isto sem o Chico Fadista no meio, não tem ossos nem espinhas, é limpinho!
Vem aqui uma notícia que é mesmo um mimo! Com retrato e tudo!
- Na primeira página? - Upa! Na oitava!
- A como é a dúzia das tangerinas? - Olha que estás bem, rapariga!
Ai, numa notícia do tamanho da Légua da Póvoa!
Você não ouviu ?
- A como são as tangerinas? - Quero lá saber disso,
compre ali dentro que é mais barato! - Malcriada!
Venha ver, Tia Joana, Sra. Marcolina! Quer ver?
Então? Estás contente?
Agora, tens de vir comigo tirar o retrato
que é para o cartão e depois para a frente é que é o caminho.
- E o Júlio? - Qual Júlio, meio Júlio!
Ele é contratado para te acompanhar e pronto.
- E o Chico promete-me isso? - Palavra de Chico Fadista!
Jura?
Pensas que eu sou alguma varina ou o que estás a pensar?
- Varina!... - Já te disse!
Olá. Por aqui?
Voltei mais cedo. A Mãe Rosa pediu-me para lhe pôr a mesa.
E como também precisava de falar contigo...
- Porquê? Aconteceu alguma coisa? - Não...
- Quer dizer... Não te zangas? - Voltamos à conversa de ontem?
O Chico Fadista tornou a falar-me, insistiu que era para nosso bem.
- Se tu visses o jornal. - E depois?
Acho que não devemos deixar escapar esta oportunidade.
Júlio...
- Já tirei o cartão de artista. - Então, assunto arrumado.
Não, não sei. Tudo depende de ti.
Mas tenho a certeza que se quisesses ajudar-me...
- Ajudar a quê? - A ser alguém.
- Era para a nossa felicidade. - A nossa felicidade
não tem nada que ver com isso. - Mas porque não tentar?
Que temos a perder?
Se aparecer algum contrato, logo veremos se nos convém ou não.
E assim que eu penso.
Agora tu resolves.
Está bem, faço-te a vontade e seja o que Deus quiser.
Júlio...
Santa Maria das Dores,
mãe de Deus, se for pecado
Santa Maria das Dores,
mãe de Deus, se for pecado
tocar e cantar o fado
rogai por nós, pecadores.
Tocar e cantar o fado,
rogai por nós pecadores.
Vamos aos alamares e atenção aos pianinhos.
- Outra vez? - Claro, não quer ser cantadeira?
Na Mouraria,
desde a Amendoeira à Guia
vamos encher de alegria esse baile sonhador.
Que esta guitarra
tenha a voz de uma cigarra
que o céu trinado desgarra
numa Cantiga de amor.
Está a ver? Porque não cantou assim antes?
Está cansada? Eu paro.
- A noitinha... - Assim não, cantar como deve ser.
Só à noitinha...
"Só à noitinha", que graça tem isso?
Vamos lá cantar como ontem. Mais longo o "noitinha". Quer ver?
Percebeu ?
Aí está, porque não cantou assim? vamos lá embora. Outra vez.
Só à noitinha
quando chega a saudade...
Só uma quadra do Rosa e com as voltinhas todas, está?
Eu não gostaria, mãezinha
de cantar para ti somente.
Eu não gostaria mãezinha
de cantar
para ti somente.
Mas tu és
tão pobrezinha,
que canto
para toda a gente
Mas tu és...
tão pobrezinha
que canto
para toda a gente.
Vamos ao menor.
Amei-te com desespero,
mais do que eu, ninguém te quis.
Amei-te com... - Não, começa outra vez.
- Está muito alto, Júlio. - Quem é o ensaiador, você ou eu?
- Vamos lá a isto. Vá. - Está bem!
Amei-te com desespero,
mais do que eu, ninguém te quis.
Amei-te com...
... desespero...
- Mais do eu... - Não. Vamos outra vez.
- O que foi agora? - Eu é que seio que foi!
Vá lá, rapariga.
Vá, vá.
Amei-te com desespero,
mais do que eu, ninguém te quis.
Amei-te com...
desespero... - Muito bem.
Mais do que eu, ninguém te quis
e agora que te não quero,
vejo as figuras que fiz.
E agora que te não quero,
vejo as figuras que fiz.
Zanguei-me com o meu amor,
não o vi em todo o dia.
Zanguei-me com o meu amor,
não o vi em todo o dia.
A noite cantei melhor
o fado da Mouraria.
A noite cantei melhor
o fado da Mouraria.
O sopro de uma saudade
vinha beijar-me hora a hora.
O sopro de uma saudade
vinha beijar-me hora a hora.
Para ficar mais à vontade
mandei a saudade embora.
Para ficar mais à vontade
Mandei a saudade embora.
Quando regressou ao ninho,
ele, que mal se via,
quando regressou ao ninho,
ele, que mal se via,
vinha a assobiar baixinho
o fado da Mouraria.
Vinha a assobiar baixinho
o fado da Mouraria.
Bravo! Bravíssimo, Ana Maria!
"Bravosíssimo"! "Bravosíssimo"! Isso é que é cantar o fado,
o resto é conversa! - Obrigada.
Que diz a isto, amigo Morais? Nada, não tem nada que dizer,
não há palavras. Eu já vi tudo. Agora vamos às apresentaçõezinhas.
O meu nobre amigo, a nova cantadeira, Ana Maria.
A mais recente futura glória da canção nacional.
Sr. Sousa Morais, o maior empresário do mundo e arredores.
- Muito prazer. - Eu é que tenho muito prazer.
Canta de uma forma verdadeiramente extraordinária.
"Íssima", "íssima", Sr. Morais. Diga "extraordinaríssima",
que não lhe faz favor nenhum. - Não há dúvida.
O amigo não exagerou nada no que me disse.
- Em conclusão, está interessado? - Naturalmente!
Acho mesmo que posso arranjar um número de muito sucesso.
Mas o Sr. Chico não nos tinha falado no teatro.
- Não tinha falado, mas falo agora. - Mas era só para cantar nos retiros,
eu não sabia. - Nem tu, nem eu... Ninguém sabia!
E agora sabemos todos. Garanto-te que o teu futuro está no teatro.
- Vai ser um tiro. Um autêntico tirão! - Mas...
Qual mas, nem meio mas!
Aqui o Sr. Sousa Morais é empresário há uma data de anos
e nas principais cidades do mundo!
Só em Paris esteve 40 anos, em Nova Iorque 30, na Bélgica 50.
Pare. Olhe que daqui a pouco,
o meu avô ainda não tinha nascido e já eu era empresário.
A verdade é que tenho passado muito tempo no estrangeiro.
Até se nota na minha maneira de falar. E esquisita, não lhe parece?
Qual história! O meu amigo é um homem de boas falas!
De certeza que o teatro lhe vai agradar muito.
E estou seguro que nos vamos compreender bem os dois.
Os dois não, os três. Também tenho uns direitozinhos.
Não que eu seja interesseiro, mas o que é justo, é justo.
Está claro. Bom, dentro de uns dias,
passam pelo meu escritório para assinar o contrato.
- Óptimo. - Bem, nesse caso.
Estou a ver que o contrato não agradou muito ao seu guitarrista.
Não diga isso, que ideia! Ele ficou contentíssimo, comovidíssimo!
O importante é isto. Eu contrato esta senhora para o meu teatro.
- Os acompanhadores é com ela. - Terá de ser o Júlio.
Seja então o Júlio, é-me indiferente. Boa noite.
- Boa noite. - E espero-os na próxima semana.
Não faltam os!
Heim? Quem é que tinha razão? Quem é que tem lume no olho?
Ainda te hei-de ver de casaco de peles
e com uma coleira de brilhantes ao pescoço, linda!
Eu pendurado num charuto de metro e meio, pelo menos!
O sarilho que arranjámos é que tem mais de metro e meio, de certeza.
- Espera aí, espera aí. - Cuidado, menina!
E bonito, não é? Voltas as costas e pronto!
Fizeste uma linda figura diante daquele senhor!
- E que me interessa isso? - Interessa-me a mim!
- Que te faça bom proveito. - E há-de fazer!
Não vou perder o meu futuro por causa do teu feitio!
Convidaram-me a assinar o contrato para a semana e vou assinar!
Estás convencida. Não vejo razão para tanto foguetório.
A mim não me interessam as propostas do Sr. Morais ou lá o que é!
Então, não venhas, nem é preciso!
Não fales assim ao Júlio, ele é tão bom...
- Deixa-me, estou farta de bondades! - Ana Maria...
- Não me maces, vai-te embora! - Para que a tratas assim?
- Fez-te algum mal? - Fizesse ou não...
Cuidado!
- Então, Júlio? Como está a menina? - A Luisinha salva-se,
mas nunca mais poderá andar.
- Entre, Sr. Chico, entre. - Como vai essa saúde?
- Cá vamos andando. - E a Ana Maria?
Ai, Sr. Chico. Deixe-me cá. A rapariga até me parte o coração.
Não come, não dorme, falamos para ela, parece que não ouve.
- E uma desgraça. - Eu também tive muita pena.
São horas do diabo, Sra. Augusta.
A Ana Maria parece que ainda sentiu mais que a própria avó da pequena.
Coitadinha, ela era muito amiga da Luisinha.
Amiga? Se fosse mãe dela, não lhe tinha mais apego.
A miúda também não a via senão a ela e ao Júlio.
Olhe, eu até ando assustada, sabe?
Ela não faz outra coisa senão chorar e correr para o hospital.
- A vida dela é isto. - Até lhe pode fazer mal!
A noite passada, disse cá para mim: "Isto não acaba, Augusta".
- A rapariga ainda faz uma asneira! - Se ela trabalhasse, distraía-se.
Até vinha cá ver se ela assinava o contrato.
Tinha-se combinado para hoje.
Nem pense numa coisa dessas. Ela já não quer cantar.
Diz que se não fosse o fado, nada disto tinha acontecido.
Ela disse isso?
- E se eu lhe falasse? - Cá por mim, é tempo perdido.
- Mas se quiser... - Quero.
A falar é que a gente se entende. Olá, como vai essa bizarria?
Boa tarde.
Eu vinha cá por causa daquilo... Sabes. Do contrato.
Já combine¡ tudo com o Sousa Morais.
- Não, Sr. Chico. Eu nunca mais canto. - Essa agora!
Então arranja-se um contrato daqueles
e tu dizes-me... - E o que eu digo. Nunca mais canto.
Sra. Augusta, se aparecer o Júlio a perguntar por mim, fui ao hospital.
- Vai descansada. - Adeus, Sr. Chico. Obrigada por tudo.
Ouve lá, criatura de Deus que demónio se te meteu na cabeça?
E que a Luisinha está amarrada a uma cama, percebe?
Tem 8 anos e nunca mais pode andar até ao fim da sua vida.
E a culpada fui eu.
Eu, a minha vaidade, o fado e a sina que Deus me deu.
Mas agora acabou -se. Nunca mais canto.
Eu não lhe dizia? Não consegue nada. A não ser...
- A não ser o quê? - Que o Júlio lhe falasse.
- Era o que eu estava a pensar. - Mas o Júlio não se mete nisso...
Não? Veremos. Até mais ver, Sra. Augusta
e muito "agradecidíssimo" pelo conselho.
Há lugar para mais um?
Com boa vontade, sempre se faz um jeitinho.
E precisamente de um jeitinho que necessito.
Ó Júlio. Tu sabes como eu sou nos meus negócios. Um homem sério.
- Seríssimo. - Agradecido.
Bem. Homem sério, como ia dizendo, mas sentimental e desinteressado.
E agora, posto este prefácio, entremos na matéria.
Júlio, a Ana Maria não é feliz.
E que sabes tu da felicidade dos outros?
"Evidentíssimamente" que não sei,
mas não menos "evidentíssimamente",
que sei que a Ana Maria tem de ser subtraída ao seu desgosto!
Foi essa subtracção que cá te trouxe?
Não, Pai Damião, estou a falar a sério. Isto não pode ser.
Não pode ser o quê? Tu falares sério?
Parece mentira mas é verdade. A dor de Ana Maria tocou-me cá dentro.
- Mas afinal, que quer o senhor? - Eu para mim, não quero nada!
Mas há que ajudar a Ana Maria a esquecer o desgosto da Luisinha.
- Como? - Teatro!
- O contrato não é nada mau. - Ela não quer cantar, nem lhe peço!
- Mas fazes muito mal. - A sua opinião não me interessa.
Olha, Júlio.
Tu sabes muito bem quais são as minhas ideias e o que te disse.
Mas agora, acho que devias fazer o que o Chico te pede.
A Ana Maria não aguenta muito tempo a tristeza em que anda.
E se a vossa sina for boa...
... boa há-de ser. - Palavra que estou parvo!
E o Pai Damião que me pede uma coisa dessas?
Pois está visto! E tem carradíssimas de razão!
Isso é que é falar, homem! Ora, o contrato termina hoje
e o melhor é irmos ao hospital, porque a Ana Maria está lá,
compreendes?
- Olá, vizinha. Vais melhor? - Estou quase boa, tio Júlio!
Bravo, e o que disse o médico?
- Para a semana posso ir para casa. - Ena! Vai ser uma festança!
Eu trago uma coisa muito bonita para ti. Queres ver? Então vais ver.
Vai ver..
- Ai, que bonito. - Que linda, vês?
- Gostas dela? - Ana Maria, vem cá.
Pois gostas, quem não gosta de uma boneca deste tamanho, tão linda?
Queria falar contigo por causa do contrato. Deste a tua palavra
e é preciso dar uma resposta. - Já todos a sabem.
O fado foi a causa desta desgraça e não quero tornar a cantar.
Mas o teu desgosto não adianta nada.
- Nem atrasa. - Talvez atrase.
Pensaste que podemos vir a precisar de dinheiro para curar a Luisinha?
Que dizes, Júlio?
- Pois acreditas... - Talvez, quem sabe?
Também é preciso pensar em ti. Basta de tristezas.
Mas não querias! Tudo isto aconteceu por tu não quereres.
Aí tens. A culpa não foi tua nem minha.
E dos dois. E do nosso mau génio.
Mas agora nunca mais nos havemos de zangar, não é, Júlio?
Ó Ana Maria, é verdade que vais trabalhar num teatro?
- Porquê? Gostavas que eu fosse? - Ah não, que não gostava!
Depois ia ver aquelas meninas com as pen as na cabeça.
Vais, não vais?
Vai, sim, Luisinha. A Ana Maria vai trabalhar para o teatro.
- Onde assino? - Aqui na primeira linha.
Pronto. E que tenha sido em boa hora.
Meu querido amigo, quero ser o primeiro a felicitá-lo.
Acaba de contratar uma grande artista.
"Íssima". "Íssima". Diga grandíssima, que não lhe faz favor nenhum.
- É verdade. - Onde é que eu assino?
Agora não.
O contrato dos acompanhadores em qualquer outro momento.
Bem, não é preciso mais nada?
Gostava que o autor e os ensaiadores da peça a ouvissem cantar amanhã,
digamos...vamos ver...
- Às 5 horas da tarde. - Às 5 horas estaremos Ia.
- Vamos embora. - Boa tarde, muito obrigada.
- Boa tarde. - Boa tarde.
Meu amigo, mais uma vez... Eu preferia aquele...
"íssimo" "Íssimo" e não lhe fazemos favor nenhum.
- Obrigado. - Amanhã, às cinco horas.
Eu venho um bocadinho mais cedo.
Fora, basta! Não presta, não vale!
Já chegaram! Como está? Então o nosso amigo "Íssimo"?
Não pôde vir, teve de tratar de negócios.
Quero apresentar-lhes a senhora que contrate¡ para a peça.
- Os autores. - Prazer, minha senhora.
Tenham a bondade de subir ao palco. Por aqui.
Boa tarde.
Boa tarde.
Eu sempre quero ver qual é a sua nova descoberta.
- Você é pior que o Cristóvão Colombo. - Muito pior.
Esse contentou -se em descobrir uma América.
E ao nosso amigo Sousa Morais, não há Américas que lhe cheguem.
Que exagero, as outras foram simples reconhecimentos,
esta é uma autêntica conquista. - Para si!
Não, que ideia! Para o teatro.
Temos de pensar na maneira de a apresentar.
Eu já pensei. Um cenário típico com muito sabor a Alfama.
- Depois já veremos. - Não diga mais, eu já vi tudo.
- Que queres cantar? - Talvez aquele fado mais alegre.
Está bem.
Vamos.
Talvez por muito amar a liberdade
invejo a vida livre dos pardais
mas prende-me em teus braços sem piedade
e juro da prisão não sair mais.
Não posso ouvir o fado sem vibrar
e não domino em mim a febre de o cantar
mas dá-me um beijo teu
e fremente,
verás que eu fico assim calada eternamente.
Adoro a luz do sol que me alumia
por graça e singular mercê de Deus
mas fecha-me num quarto noite e dia
que eu troco a luz do sol pelos olhos teus
Não posso ouvir o fado sem vibrar
e não domino em mim a febre de o cantar
mas dá-me um beijo teu
e fremente,
verás que fico assim calada eternamente.
Baixinho aqui para nós muito em segredo,
eu sempre fui medrosa até mais não
mas para que sejas meu, não tenho medo,
nem mesmo de perder a salvação,
Não posso ouvir o fado sem vibrar
e não domino em mim a febre de o cantar
mas dá-me um beijo teu
e livremente,
verás que fico assim calada eternamente.
Mas dá-me um beijo teu
e livremente,
verás que eu fico assim calada eternamente.
Então, que tal?
Eu faço minhas as palavras deste senhor.
Meus queridos amigos,
queridos fregueses, o freguês é um amigo.
- Eu "reunivi-os" - "Reunivi-os"?
Sim senhor, "univi-os" todos aqui, juntei-os aqui,
para lhes falar de um caso muito grave.
E o caso da Luisinha,
que todos nós conhecem os e lastimamos.
Para nós que continuamos a ser a fina flor de Alfama,
não podemos deixar ficar mal o nosso bairro
e temos de mostrar a todos que "semos" e continuamos sempre a ser
colectivamente irmãos.
Houve aí uma rapaziada que me... Como é que se diz?
Integrou-me propriamente no lugar de presidente de uma subscrição
para comprar para essa pobre menina
uma cadeirinha de rodas, visto que ela não pode andar mais.
Em toda a sua vida não poderá andar mais.
Tenho a certeza que não me dizem que não
e eu, apesar das dificuldades do negócio,
apesar de alguns caloteiros que eu conheço para aí,
abro a subscrição...
com 50 escudos. - Eu dou cem.
-Senhor, é bonito. - E bonito e é dinheiro!
- Você, quanto dá? - Dou 50 como tu
e não exploro ninguém. - Obrigado.
- Vamos acabar com isso, Luisinha. -Já não tenho fome.
- Só mais este e mais nada. - Já não quero mais.
Vá lá, deixe cá ver a boca. Empurre lá para baixo.
Tens de comer. Não ou viste o que diz a senhora enfermeira?
Se não comes, não melhoras e depois e não vais para casa.
Ah, se eu me apanho em casa, não paro de correr.
Agora até parece que não tenho pernas. Olha, nem as sinto.
- Sr. Joaquim. - Olá.
- A subscrição corre bem? - Bem.
Quanto é que ainda falta?
A rapaziada portou -se à altura. Qualquer dia chega-se à conta.
-Sim? -Sim.
Achas que está melhor agora?
Está bem.
Somente quando for a sério, tens de dar um pouco mais de alma,
especialmente na parte final. De resto, está bem.
- Ó Sr. Joaquim. - Passou bem?
Tome lá 5 escudos para a cadeirinha e deite aí um copo de três.
- Vinho de três. - Olhe, não encha.
Não quero o vinho. Dou 5 mil e oitocentos.
- Muito obrigado. - Encha aí um copo de três para mim.
- Para beber ou para a cadeirinha? - E para beber mesmo, homessa!
A mim alguém me dá alguma coisa?
Vinha a assobiar baixinho o fado da Mouraria.
Vamos então combinar aquilo, Júlio?
Meninas, vamos ao samba!
O melhor é ires directamente para o hospital,
para a Mãe Rosa não ficar à espera. Vou comprar aquilo e vou para casa.
Diz à rapaziada que chegamos pelas 5 horas.
E o Lingrinhas que fique de sentinela no arco.
- Bem, até logo. - Até logo.
Ó Sr. Joaquim! Lá vêm eles!
Como presidente da Comissão da Cadeirinha,
vejo-me forçado a dizer algumas palavras para explicar o motivo,
o desejo, a boa vontade
que todos nós concorremos para a compra da cadeirinha
que hoje temos a grande alegria...
a grande alegria...
Pronto, Joaquim, vamos embora.
- Vais ter uma surpresa! - Luisinha!
Ana Maria!
Ó Joaquim, então o que é isso?
Tu, um lobo do mar?
Queres ver uma coisa, Luisinha?
- Como o meu quarto está bonito! - Gostas, Luisinha?
- Gosto, avó Rosa! - Olha que aquela cómoda
foi o Lingrinhas que a fez na oficina.
- Mas o Pai Damião deu a madeira. - Muito obrigada, Lingrinhas,
muito obrigada, Pai Damião. - Vamos ver a prenda da Ana Maria.
- Ah, uma telefonia! - Gostas?
- E toca mesmo? - Claro, porque não havia de tocar?
- Vamos experimentá-la. - Vamos, sim senhora.
A criação da nova cantadeira que estreia hoje no Teatro Recreio.
- És tu, Ana Maria? -Sou.
E o fado com que me estreio no teatro à noite e que vou cantar para ti.
Ah, fado
torturado,
tão magoado,
quem te fez, ó fado?
Não sei quem és
só sei que ouvi-te um dia e chorei
que ao encontrar-te, encontre¡
a voz do amor português.
Só sei que ouvi-te um dia e chorei
que ao encontrar-te, encontre¡
a voz do amor português.
Ó vida,
condoída
e eu dorida
vou cantar.
Ó vida,
vens-me falar
e a sós,
quando o luar canta em nós
na voz do fado, ouço a voz
da minha vida a chorar.
E a sós.
Quando o luar canta em nós
na voz do fado, ouço a voz
da minha vida a chorar.
Meu sonho
tão risonho
que eu suponho
nem sonhar.
Meu sonho,
quero acordar.
Volver
de novo ao fado e sofrer
porque sofrer é viver
e eu vivo e sofro a cantar.
Volver
de novo ao fado e sofrer
porque sofrer é viver
e eu vivo e sofro a cantar.
Está satisfeito, amigo Morais? Que me diz a isto?
Tivemos o chamado grandessíssimo sucesso.
Tinha a certeza que a nossa Ana Maria havia de agradar.
Eu cá sou assim, em me cheirando, é ali na batata.
E já tenho outra coisinha preparada que essa então...
Homem, você é insaciável!
Dá-me licencinha, por favor?
- Agradecido, sim? - Obrigado.
Meu caro colega, não acha melhor combinar o que havemos de escrever?
- Pois claro, como de costume. - Que vamos nós dizer na escrita?
Bem. O meu amigo compreende.
No entanto... ou talvez por isso mesmo.
Está a seguir o meu raciocínio, não é verdade?
Com certeza.
O caro colega põe o facto com uma clareza e concepção impressionantes.
- Está então de acordo comigo. - Plenamente.
Pela minha parte vou dizer que... E claro... mais ou menos.
Compreendo, compreendo. Claro, o público aplaude,
portanto gosta. O nosso dever é ser superior ao público.
- Senão a nossa posição de críticos... -Tornava-se crítica!
Mas a nobreza da nossa situação de orientadores incorruptíveis
impõe-nos uma estrutura perfeita e indefectível.
Muito bem, disse muito bem, estrutura!
- Porém, há que reparar uma coisa. - O que é?
O Sousa Morais é um bom cliente e dá-nos bons anúncios.
O pior é que vão atribuir a isso os nossos aplausos.
Triste sacerdócio o nosso, prezado colega.
- Triste sacerdócio. - Tem razão. Vamos a um cafezinho?
Um Garoto, claro.
Pode cumprimentar-se "La Grande Vedette"?
- Sr. Sousa Morais, não diga isso. - Não sou eu que o digo,
é o público maravilhoso.
Dá-me licença que apresente o Marquês da Fonte Nova,
D. Manuel da Silveira, o Dr. Gil de Noronha e o Conde de Paialvo.
- Prazer. - Quero felicitá-la.
Foi simplesmente assombrosa. - E o termo. Assombrosa.
- Um verdadeiro triunfo. - São todos muito bons para mim,
mas estava tão nervosa, cheia de medo até penso que cantei mal.
- Cantou muito bem, Ana Maria! - Você é uma surpreendente revelação.
- E o termo, é o termo! Revelação! - Muito obrigada.
Prepare¡ uma pequena festa em sua honra em minha casa,
uma coisa íntima, apenas para meia dúzia de íntimos.
- Que pena, não posso. - Não diga que não vai!
Sem você, a festa não tem razão de ser.
- Seria deplorável. - E o termo, deplorável.
Tenho realmente muita pena, mas... - Não nos vai pregar esta partida,
tenho tudo preparado. - Mas eu não sabia!
- Raparigas novas e bonitas... - Não é o que senhor pensa,
é muito diferente.
Tenho uma amiguinha entrevada que não vê outra coisa no mundo senão a mim.
Vou levar-lhe algumas destas flores. As suas são tão lindas.
Muito obrigada. Não se zanga que eu lhas leve, pois não?
Leve-as. Leve-as todas.
Porque sofrer é viver...
Epá! Isto é que é cantar o fado.
Assim até dá vontade de trabalhar.
A rapariga é filha da Mª do Rosário, que esperavas?
Menina. Atenção.
Já viste coisa assim? Parece que ficou tudo parvo.
O público sempre é muito estúpido, louvado seja Deus.
Ora, filha, dá tempo ao tempo. Espera pela volta.
Nunca ouviste dizer que o primeiro milho é para os pardais?
Em passando a novidade, quero ver como é!
Ora, filha, amizade! Saíste-me um anjinho.
Se calhar é por amizade que a enche de flores e presentes, não?
Sim, que lhe deu a pulseira e o casaco de peles.
Olha quem! O Sousa Morais que não dá ponto sem nó.
- Mas hoje estava com a Dª Elvira. - Estava e está!
Mas isso que tem? Está com a Da Elvira, com esta...
Está com todas as que lhe apetece! Tem dinheiro!
Se calhar são mais as vozes que as nozes.
Que figura faz o rapaz dela no meio disto tudo?
Quem? O Júlio da guitarra?
Esse, minha filha, ou está ceguinho de todo ou então governa-se.
Meninas, vamos!
Anúncios, percebeste? Anúncios.
Não lhe fizessem a propaganda que fazem, eu queria ver.
Também não é só propaganda.
Não cantasse ela bem, de que lhe serviam os anúncios?
Cantar bem, aquilo? Miar, querias tu dizer.
É bonitota. Faz uns olhinhos doces, sacode a juba
e os parvalhões, claro, babam-se.
Mais vale cair em graça que ser engraçado.
Ora aí está.
Ana Maria vai proceder
à distribuição dos prémios às rainhas de Lisboa.
Antes, porém, de o fazer, vai cantar para Vossas Excelências,
minhas senhoras e meus senhores,
o Fado "A Saudade".
Eu canto fado para mim
já o cantei para nós dois
mas isso foi no passado.
Já que assim é, seja assim
já me esqueceste depois
já cada qual tem seu fado.
O mais feliz
é o teu, tenho a certeza
é o fado da pobreza
que nos leva à felicidade.
Se Deus o quis,
não te invejo essa conquista
porque o meu é mais fadista
é o fado da saudade.
Se Deus o quis,
não te invejo
essa conquista,
porque o meu é mais fadista,
é o fado da saudade.
Atenção, senhoras e senhores.
Vamos agora proceder à distribuição dos prémios.
Aproximem-se as majestades.
Ana Maria, deixe-me apresentar-lhe a Lisboa Eterna.
- Arlete Mendes Ventura. - Parabéns.
Maria José Frazão Marques, Lisboa Primitiva,
Hortense Ferreira Maia, a Rainha Brigantina,
e Maria Laura Fernandes Costa, a Rainha Pombalina.
Como vê, são uns amores.
Quero ser o primeiro a felicitá-la, minha querida amiga.
- Hoje cantou melhor que nunca. - Não estou de acordo consigo.
- Porquê? - Já não sei cantar o fado,
perdi a alma. - Que ideia!
Faz hoje um ano que se estreou e o público ainda não deu por isso.
- Triunfou em absoluto, Ana Maria. - E possível.
Não duvide.
E no fundo, talvez não tenha um amigo sincero.
- Nem um só? - Desculpe. Tenho-o a si, Manuel.
Sabe perfeitamente o que sinto.
Tínhamos combinado não falar mais nisso.
E não falarei.
Por agora vinha trazer-lhe esta lembrançinha pela noite de hoje.
Que lindos. Obrigada, mas escusava de se incomodar comigo.
E lembrar-lhe uma vez mais que seria conveniente mudar de casa.
Outro bairro. Outro ambiente.
O artista pertence ao público, não apenas no palco.
Quando se atingiu o seu nome, a sua situação...
- Podemos entrar? - Não quisemos deixar de felicitar-te.
E uma data solene para o teatro português.
Muito obrigada. Sei quanto são sinceras.
Ah isso, filha, eu cá não sou de hipocrisias.
Se não fosse tua amiga, nem punha cá os pés.
Ora, ela bem sabe que é a menina bonita de toda a gente.
Bem, eu volto já. Pense bem naquilo que lhe disse.
- Com licença. - Até já.
Olha e vocês não reparem, mas tenho de me vestir.
- Algum novo contrato? - Não, uma nova jóia.
Com licença.
- Vais para cima, Júlio? - Não, espero pela Ana Maria.
Então acabas por ir só. Isto agora é certo e garantido.
Paródia todas as noites com a fidalguia de meia-tigela.
Ela também não pode tratar mal quem a trata bem.
Lá nisso tens razão. Então não vens.
Não, espero.
O melhor é vires comigo, Júlio. Não viste quem entrou no camarim?
Ao fim e ao cabo, o resultado é ir sozinho...
E olha que bem seio que isso dói.
Vai andando que já lá vou. Vou buscar a camurça à orquestra.
Você cada vez canta melhor. Enternece.
- É o termo. Enternece. - Mas que exagero, meus amigos.
Mas olhe que também vimos fazer-lhe um pedido.
- Se estiver na minha mão. - Queríamos que viesse cear connosco.
Vai o Sousa Morais, o Gil, o Adamasceno...
Meia dúzia de amigos, uma pequena pândega.
Hoje é impossível. Já destinei a minha noite.
- Ora, dê uma desculpa qualquer. - Não posso, sinceramente, acreditem.
- Bem, não insistimos. - Paciência.
E agora, se me dão licença, é muito tarde e estou muito cansada.
Boa noite.
- Temos tanta pen a. - Também eu.
Boa noite.
Júlio!
- Ias-te embora? - Ia.
-Sem mim? - Julguei que ias a alguma festa,
como de costume. - Eras injusto.
Bem sabes que não trocava atua companhia por nada.
- Hoje e um dia diferente dos outros. - Para mim, todos os dias são iguais.
Ou cada vez piores.
- Tu não ouves? Que tens? - Nada!
- Então por que não falas? - Não estou para discutir contigo.
E então só podes falar para discutir? Que te fiz eu agora?
Agora, nada. Se calhar nem és tu a culpada, sou eu,
que não abri os olhos a tempo e horas de ver as coisas como elas são.
Olha, Júlio.
Também acho que devemos falar claro ao outro de uma vez para sempre.
Isto não é vida. Nem te fiz o que és para uns palermas estragarem tudo.
Ana Maria, tu já não sabes cantar.
Já não sei cantar?
- Mas o público aplaude. - Aplaudem a mulher, não a artista.
- Nem a maneira como tu camas. - Então estou a cantar muito mal?
Estás. Se o velho Damião te ou visse, dizia...
Dizia o que lhe apetecesse!
Ou pensas que passo a vida à espera das sentenças do Damião, da Mãe Rosa,
ou do Joaquim Marujo? - Ou minhas, não?
Ou tuas, sim!
E ainda bem que puxaste a conversa, porque estou farta dos teus ciúmes.
- Farta! - Aconselho-te a não continuares.
Porquê? Julgas que tenho medo das tu as ameaças?
Isto não são ameaças. Mas achas bem as figuras que me obrigas a fazer?
Que figuras? Eu canto e tu acompanhas-me, pagam-te para isso.
Mas não para aguentar a fama de viver à tua custa.
Júlio!
Quando cantavas por prazer, cantavas como nunca ninguém cantou.
Agora os teus fados não falam ao coração de ninguém.
E sabes porquê? Porque te afastaste das coisas boas e simples.
Ah, sim?!
Pois tenho uma novidade a dar-te.
Ainda vou afastar-me mais.
O Sousa Morais lembrou-me que devia mudar de casa.
Há muito que me fala nisso e tem razão.
Tu pertences aqui a Alfama.
O sapateiro não deve passar além da chinela.
Vales o que vales, aqui entre a gente, no bairro onde nasceste e pertences.
- Lá... - Lá, o quê?
O que tu tens é inveja!
Inveja do meu sucesso, do meu talento.
Mordes-te de raiva, porque eu subo e tu ficas.
As coisas, por muito que te custe, são como são.
Quem tem unhas é que toca guitarra!
Nunca pensei que o Júlio consentisse uma coisa dessas.
Se fosse comigo, havia de cá ficar!
Também comigo. Não faltaria quem me atirasse como a cão danado.
E que com o Júlio, já a coisa é outra.
Precisavas é que te cortassem essa língua, que só sabe dizer mal.
Porque não experimentas cortá-la, ó, Lingrinhas?
Tira lá a mão... Juizinho aqui, rapaz!
Está bem, Joaquim Marujo, fique descansado.
O Lingrinhas é pacato, só conversa!
- Isto, cão que ladra... - Estás a fazer mal, Peixe Espada.
- Lá porque o moço é fraco e doente... - Então que se cale!
Homessa, o que foi que eu disse?
Que a Ana Maria se mudou para uma casa gira nas Avenidas é mentira?
Que anda de casaco de peles e cheia de brilhantes também é mentira?
Olha, não acredito que aquilo seja ganho só com a garganta e pronto.
Alguém é obrigado a ser parvo? Tenho dito.
- Que tem o Júlio a ver com isso? - O Júlio o quê, homem?
O Júlio vai comendo o que pode e faz ele muito bem.
Olha lá, vê lá o que dizes.
Olha que o Júlio não é homem que se fique.
Não é, não. Se fosse, há muito que acabaria com a pouca vergonha.
Que pouca vergonha? Não me ouves? Que pouca vergonha?!
Pulha!
Júlio!
Bandalho, sempre a mordiscar na vida de cada um!
- Que estava a dizer ao Lingrinhas? - A falar da vida da Ana Maria.
E de mim, não?
Já se sabe que o Peixe Espada não é boa rês.
Mas a verdade é que toda a gente cá do sítio fala da Ana Maria.
Esta coisa dela ter ido para as Avenidas Novas, sem mais nem mais...
Sim, é natural.
Dê cá um maço de tabaco, Joaquim.
- Olá. Bom dia. - Boa tarde.
Boa tarde?
Que horas são?
Já passa das cinco.
- Já são cinco horas? - Já.
- Quem é? - É o Sr. Sousa Morais.
Está lá.
Sou.
Olá. Passou bem?
O quê? Hoje é festa da embaixada? Meu Deus.
Vocês também não me deixam descansar nem uma noite.
Está bem, pronto. Eu vou, não é preciso bater.
Está bem, levo o vestido para o camarim e arranjo-me no teatro.
Adeus. Combinado. Até logo, se Deus quiser.
Adeus, obrigado.
- Mas a pequena está assim tão doente? - Não escapa.
- Coitadita. - E a Ana Maria nem sequer vai.
- Ela não faz isso por mal. - Mas faz e o resultado é o mesmo.
Ó Ana Maria, a Luisinha está pior.
- Amanhã vou lá vê-la. - Demorou muito, minha querida amiga.
- Estive a pôr-me bonita. - Ainda mais?
Muito obrigada.
- Já viu mulher mais vaidosa? - O tempo que uma mulher demora
a pôr-se bonita é sempre ganho pelos seus admiradores.
O Marquês nunca perde um madrigal.
Até amanhã.
Meta-se num táxi e vá lá ter. E não se demore!
Isto passa das marcas.
- Eu não vou! - Mas tu endoideceste, homem?
Doido tenho eu andado até agora, mas recupere¡ o juízo.
Mas como queres que ela cante sem acompanhamento?
- E a mim que me importa? - E o Sousa Morais e o teu contrato?
- Tanto me dá como me deu. - Tem calma, Júlio! Ó homem!
Júlio! Júlio!
A Mãe Rosa mandou esta carta. A Luisinha está a morrer.
Vai à Avenida do Brasil 34, entregas isto à Ana Maria
e diz-lhe que venha imediatamente. Toma o dinheiro para o táxi.
Táxi! Vai depressa! Táxi!
Não desespere, Sra. Rosa. Enquanto há vida, há esperança.
Então, Senhor Doutor?
Tenho muito gosto em vê-la nesta sua casa.
Você é uma artista tão popular, tão querida,
que estava realmente ansioso por conhecê-la mais de perto.
E muito amável, Sr. Embaixador, muito obrigada.
Estamos todos cheios de vontade de a ou vir cantar.
Quando o Sr. Embaixador quiser, o pior é que...
Deve ter sucedido qualquer coisa de anormal.
Os acompanhadores de Ana Maria há muito que deviam ter chegado.
Mas isso é um drama pavoroso.
Perdoe-me que a atraiçoe.
Sr. Embaixador, a Ana Maria canta canções espanholas
pelo menos tão bem como canta o fado. - Não acredite, Sr. Embaixador,
é um intriguista. - Dire¡ a opinião depois de a ouvir.
- Mas não sei, acredite. - Vamos, vamos.
A meu pedido, a grande fadista Ana Maria,
vai cometer uma traição ao fado e cantar uma canção espanhola.
"No me quieras tanto".
- Não pode entrar. - Trago um recado para a Da Ana Maria.
- Desculpe, mas não pode entrar. - E um caso de vida ou de morte!
Que é isso?
- O senhor não pode entrar. - Não posso entrar, porquê?
- Desculpe, mas não pode entrar. - Tenha paciência, mas tem de deixar.
- Não pode entrar. - Ai.
- O senhor não pode entrar. - Tenha paciência, deixe-me entrar.
E com aquele senhor que quero falar.
- Que há? - Trago uma carta para a Ana Maria.
- É muito urgente. - Agora é impossível interrompê-la.
- Dou-lhe quando acabar de cantar. - Mas é muito importante.
- Olhe, tome, leve isto. - Mas...
Faça o que lhe digo homem, não discuta.
Está bem. Desculpe.
- "Charmant"! - Obrigada.
É o termo, "charmante"!
- Magnífica. - Muito obrigada.
E esta a cantora de que Lisboa inteira fala tanto?
Sem tirar nem pôr. A Sra. Condessa não gostou de a ouvir?
Sim, a voz não destoa. Mas quem ouviu a Patti como nós...
- Lembra-se, mana Baronesa? - Se lembro, mana, se lembro.
Ai, noites de São Carlos com suas majestades na tribuna.
Mas não se pode comparar, Sra. Condessa.
E que uma é cantadeira de fados e a outra era uma cantora lírica.
- Era fado, isto que ela cantou? - Não, Beatriz, isto é flamengo.
- E um género de canções espanholas. -Ah,julguei!
- Era o Lingrinhas que estava à porta? - Era. Trazia uma carta,
mas sossegue que já resolvi tudo. - Uma carta? Mostre-me.
Nem aqui os seus amigos a deixam em paz.
Temos de ir imediatamente, Manuel. A Luisinha está muito mal.
- Ana Maria... - Mas é que tem de ser!
Desculpe-se com o Embaixador, enquanto vou buscar o seu casaco.
- Como te sentes, Luisinha? - Muito cansada, avó.
- A Ana Maria ainda não veio? - Deve estar a chegar.
Não queria dormir sem a ver. Mas tenho tanto sono...
Ó Tio Júlio, se tocasse um bocadinho.
Ela não veio.
Mandou isto.
Quem nasce malfadado
melhor fado não terá.
Fado é sorte
e do berço até à morte...
Mas isso é o passado. O que interessa agora é o futuro.
- O futuro... - Pois claro. Mudar de vida.
Construir novas afeições no lugar das que perdeu.
Novos motivos de esperanças, novas alegrias.
- Palavras. Palavras e mais nada. - Talvez não.
Ana Maria, quer casar comigo?
Casar consigo?
-Que loucura... - E que outra coisa vale a pena
fazer neste mundo, senão aquilo que se chamam loucuras?
- Deixe-se de sonhos. Não sabe... - Sei que gosto de si, Isso é tudo.
Mas já pensou ao menos no que se diria?
Não pensei nem pensarei. A opinião dos outros não nos interessa.
Nós somos nós. Os outros são os outros.
- Não pode ser. - Porquê?
Meu Deus, por tanta coisa...
O Júlio, por exemplo.
- O Júlio morreu para mim. - A Ana Maria é que morreu para ele.
Para o caso tanto faz. Mas responda-me. Quer casar comigo?
Não posso, Manuel.
- Ainda gosta dele. - E se gostasse?
Foi o primeiro homem que me falou de amor, me apertou nos braços.
E essas coisas não se esquecem facilmente.
O Júlio não a merece. Pen se nisto, Ana Maria.
Tenho pensado muito. Mais que julga.
Mas que valem as razões do pensamento contra o que o coração nos diz?
Olhe, Manuel.
Vou seguir o seu conselho e aceitar o contrato do Brasil.
Talvez me faça bem e eu volte capaz de aceitar a mão que me estende,
sem ter de mentir a si, nem...
- Nem a si própria. Não é isto? - E isso mesmo.
Não bebas mais, Júlio.
Estou farto de lhe pregar moral, mas é tempo perdido.
- Contra mim falo. - E se cada um se metesse na sua vida
e me deixassem em paz com a minha? - Não tens direito de falar assim.
Se não fôssemos teus amigos, bem nos importava a nós a tua sorte.
A sorte de cada um é o fado com que nasceu.
E a coragem que tem no coração.
Tens de a esquecer, Júlio.
Assim como ela te esqueceu a ti e a todos nós.
- Acaba a sopa, Júlio. - Não tenho fome.
- E feijão encarnado, tu gostas. - Pois gosto, mas não tenho fome.
- Então come um bocadinho de peixe. - Também não quero.
Vale a pena estar a matar-me a fazer o que tu gostas?
Afinal, não lhe tocas.
- Mãe Rosa, não se zangue comigo. - Não me zango, mas custa-me.
- Eh pá, não bebas mais. -Isso é comigo!
Uma ginja e uma aguardente.
- Já viste o jornal, Júlio? - Não, porquê?
- Traz uma notícia que te interessa. - Anima-te. Chegou a Ana Maria.
Talvez não tenha razão para festas. A coisa pelos vistos arranja-se
entre a tua amiga e o empresário. - Ela mudou muito.
Agora é "Dona" Ana Maria.
E tem automóvel e porteiro fardado.
Ó JúIio!
Ela aqui não está mal, pois não?
Que me importa a Ana Maria ou a Mariana?!
- Coitadinho. Olha como ele fala. - Mas olha lá, Júlio.
Se não te interessa, por que andas aí que pareces uma alma penada?
- Por que saíste da oficina? - Porque me zanguei.
E porque nunca mais pegaste na guitarra e só pensas na vinhaça.
E que vos interessa isso? Alguém tem algo a ver com a minha vida?
Alguém paga o vinho que bebo?
E se não toco, é porque não estou para músicas, aí está.
Não estás para músicas...
Perdeste foi as ganas desde que a rapariga te passou o pé.
- Foram-se as unhas, meu velho. - Essa é que é essa.
- Quem disse que eu não tinha unhas? - Deixa-os falar, Júlio.
Não te metas nisto! Com uma guitarra na mão, venha o mais pintado!
Conversa fiada, homem!
Falas assim, porque sabes que não há guitarra aqui.
Vamos embora, Júlio.
Coitado...
Não te zangues comigo. Bem sei que não tenho nada com atua vida.
Mas sou teu amigo há tantos anos. Ela não merece o teu desgosto.
- Deixa-me em paz! - Escuta o que te digo.
Lembras-te quando me mandaste levar o bilhete da Mãe Rosa?
Naquela noite em que morreu a Luisinha?
- Ela nem sequer o leu. - Que dizes tu? Repete lá isso!
- Estás a magoar-me. - Fala!
E o que eu te digo.
Ela nem leu a carta, foi o empresário que mandou o dinheiro.
Ela não ligou nenhuma. Estava a cantar e a cantar ficou.
Não merece que estragues a tua vida por causa dela.
Ó Lingrinhas, nem sabes o bem que me fizeste!
Hoje chegaste cedo, Júlio. Eu já vou.
- Boa noite, Mãe Rosa. - Que vieste cá fazer?
- Vim vê-Ia. - A mim?
- Agradecida, mas não valia a pena. - Queria falar ao Júlio.
Ah! Isso agora é outra Cantiga. O Júlio não está.
Não te esqueças de fechar a porta quando saíres.
- Ouça, Mãe Rosa... - Já te disse que o Júlio não está!
Ainda bem que não está, compreendes? Ainda bem!
Vai-te embora! Felicidades!
Bem sabe que não poderei ter felicidade se não falar com ele.
- Se não lhe disser... - Que lhe podes dizer que não saiba?
O teu nome anda pelos jornais, rica. Qualquer um sabe o que tu fazes.
Por amor de Deus, Mãe Rosa, deixe-me falar.
A minha vida tem de levar rumo e preciso antes de falar com o Júlio.
Preciso, Mãe Rosa. Preciso, por força.
Pois fala! Vai procurá-lo de tasca em tasca, nalguma delas há de estar.
Não ouviste? Vai pelas tabernas que o encontras!
Mas pode ser que esteja acompanhado e a companhia não queira misturas.
Estás avisada. Se te rasgarem as rendas, a culpa é a tua!
- Fala-me como se fosse uma perdida. - E não és?
Não, Mãe Rosa, não sou. E não me faltaram as ocasiões para isso,
nem me sobraram as ajudas de quem me podia ajudar.
Mal vai de quem precisa de ajudas para isso.
Todos pensaram mal de mim. Todos me escorraçaram.
- Naquela noite que a Luisinha... - Cala-te!
Cala-te ou faço alguma asneira!
Tens o descaramento? Que mulher és tu?
Que semeias a desgraça à tua volta ainda vens gozar o espectáculo!
- Pois, a Mãe Rosa pensa... - Que importa o que penso ou não?!
Interessou-te quando te pedimos amizade e nos mandaste dinheiro?
Interessou-te quando o Júlio deu em bêbado e Vadio?
Interessou -te alguma coisa que não fosse ao teu gosto ou jeito?
Ate os cães agradecem a côdea que se lhes atira. Tu não!
Agora vai-te embora. Vai-te embora, antes que eu perca a cabeça de todo!
Vai-te embora, não ou viste?
Júlio...
-Júlio! - Fora daqui!
A minha última lembrança como empresário.
- Não estás arrependida? - Não.
Está quase na hora do teu número. Vai arranjar-te.
Olá, Lingrinhas! vieste ver-me?
Dá cá um abraço!
Anda cá. Entra.
Entra! Não calculas a alegria que me deste.
Pensei que já não te lembrasses de mim ou já não fosses meu amigo.
Olha lá, por que não vieste mais cedo?
Tinha-te arranjado bilhetes para o espectáculo.
Que tens?
Precisas de alguma coisa?
- Queres dinheiro? - Cuidas que eu vim pedir-te?
- Nem que morresse de fome. - Mas então...
Aconteceu alguma coisa ao Júlio?
- Fala de uma vez! O que foi? - O Júlio é um desgraçado,
anda a matar-se por tua causa, e a culpa de tudo isto foi minha.
Não sejas tonto. A culpa foi do Júlio, da Mãe Rosa, do Pai Damião
e de todos esses que não podem ver uma camisa lavada a ninguém
sem que a inveja os envenene.
Não. O culpado fui eu.
Se tivesse dito naquela noite em que a Luisinha morreu
que tu nem sequer tinhas lido o bilhete da Mãe Rosa,
não tinha acontecido nada. Mas eu não percebi. Não sabia.
Estava tão triste, que nem dizia coisa com coisa.
- Agora é que eu percebo... - Pois foi.
Todos pensaram que não vieste porque não quiseste,
e que ainda por cima mandaste o dinheiro para fazer pouco deles.
E julgaram-me capaz disso.
São injustos. São maus.
Conheciam-me desde miúda. Deviam saber que não faria algo assim!
- Cuidaram... - E que cuidassem!
Não fui eu a casa da Mãe Rosa quando voltei do Brasil? E que fez ela?
Ou viu-me? Compreendeu-me? Amparou-me?
Isso sim. Escorraçou-me, como se eu tivesse peçonha.
A desgraça do Júlio cortava-lhe o coração.
Quando te viu, exaltou -se.
Que importância tem isso agora? Que importância pode agora ter isso?
Tem. Deixa-me falar e se quiseres depois zanga-te comigo. Eu mereço.
O Júlio já não é nada do que foi.
Não faz senão beber, já nem toca...
- Vai para África, sabias? - Não, não sabia. Nem quero saber.
Vai. Hoje há uma festa nos Unidos
para lhe arranjar dinheiro para a passagem. Até vem no jornal.
Uma notícia com retrato e tudo. Como a tua, lembras-te?
Pois que vá com Deus e que passe por lá muito bem.
- Bem. Se é assim que pensas. - E como querias que pensasse?
Não sei. Não sei nada.
- Mas se tu quisesses, Ana Maria... - Se quisesse o quê?
-Salvar o Júlio. - Não quero, não tenho nada com isso,
nem me interessa! - Atenção Dona Ana Maria,
dentro de cinco minutos em cena. - Olha, Lingrinhas. Vou-me casar.
Não posso ser desleal para um homem que tem sido sempre honesto comigo.
Podia ter-me querido para aquilo que o Júlio me quis,
mas não.
- Tu desculpa, mas... gostas dele? - Tenho-lhe amizade.
- Mas, tens-lhe amor? - Eu não tenho amor a ninguém.
- Se não te conhecesse como conheço. - Se não me conhecesses, o quê?
- Acreditava no que me estás a dizer. - E assim não acreditas?
- Vamos, responde, não acreditas? - Não, Ana Maria. Não acredito.
Pois fazes mal.
Tenho sofrido tanto que já não sei se gosto de alguém
ou se não tenho uma pedra no lugar do coração.
E a quem queres enganar? A mim ou ati?
Queres dizer com isso que ainda gosto do Júlio?
Pode ser que sim. Que o não possa esquecer.
Que tenha de ir até à minha última hora a sofrer e chorar por ele.
Mas não volto, entendes? Nem que seja a maior desgraçada do mundo.
Sabes o que sinto pelo Júlio? Raiva!
Pelo que fui, o que sou e o que podia ter sido e não fui por culpa dele.
O Júlio nunca me teve amor. Se o teve não teve raça nem soube ser gente.
O que devia ter feito quando comecei a ser mosca doida,
era dar-se ao respeito, percebeste? Mandar em mim. obrigar-me a obedecer.
Eu era dele, guardasse-me! Isso sim, era ser homem e gostar.
Agora desaparece-me da vista que já não posso mais.
Está bem, sossega. Vou -me embora. Mas quero dizer-te uma coisa.
Vou -me embora contente. Muito contente.
Da Ana Maria! Da Ana Maria, dentro de segundos em cena.
Júlio!
-Júlio! -Júlio!
Vá, Júlio!
Fado é sorte
e do berço até à morte
ninguém foge por mais forte
ao destino que Deus dá.
Bom seria, poder um dia,
trocar-se o fado
por outro fado qualquer
mas a gente
já traz o fado marcado
e nenhum mais inclemente
do que este de ser mulher.
Bem pen sado
todos temos nosso fado e quem nasce malfadado
melhor fado não terá.
Fado é sorte
e do berço até à morte
ninguém foge por mais forte
ao destino que Deus dá...
Transcrição: Alexandre Bettencourt Legendagem: CRISTBET LDA. Converção: CRVLX
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