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Original subtitles

O BOT�O DE P�ROLA

"Todos somos regatos de uma s� �gua"

Este bloco de quartzo foi encontrado

no deserto do Atacama, no Chile.

Tem 3000 anos de idade

e cont�m uma gota d'�gua.

O deserto chileno

� o lugar mais seco da Terra.

Daqui,

astr�nomos descobrem �gua

em quase todo o cosmos.

H� �gua nos planetas.

H� vapor d'�gua em algumas nebulosas.

H� gelo em outros corpos celestes.

Na Terra e fora dela

a �gua � essencial para a exist�ncia de vida.

A cada noite,

um novo planeta � descoberto,

onde, talvez, contenha �gua.

Olhando as estrelas,

sou atra�do pela import�ncia da �gua.

Parece que a �gua veio do espa�o exterior

e que a vida nos chegou pelos cometas,

que formaram os mares.

A �gua,

na fronteira mais extensa do Chile,

forma um estu�rio que se chama Patag�nia Ocidental.

Aqui,

a Cordilheira dos Andes se afunda

e reaparece em milhares de ilhas.

� um lugar sem tempo.

Um arquip�lago de chuva.

Uma parte muito distante de minha fam�lia vivia aqui.

T�nhamos um teto de zinco

e as gotas produziam um barulho

que me tranquilizava e protegia.

Esse barulho tem me perseguido por toda a vida.

Quando a �gua se move,

o cosmos interv�m.

A �gua recebe a for�a dos planetas,

a transmite ao solo

e a todas as criaturas.

A �gua � um �rg�o mediador

entre as estrelas e n�s.

Antes da chegada do homem branco,

os primeiros habitantes da Patag�nia

viviam em comunh�o com o cosmos.

Fabricavam pedras para assegurar seu futuro.

Viajavam pela �gua.

Viviam submersos na �gua.

Comiam o que a �gua proporcionava.

Chegaram h� dez mil anos.

Eram n�mades da �gua.

Viviam em cl�s

que se moviam pelos fiordes.

Viajavam de ilha em ilha.

Cada fam�lia tinha um fogo que ardia

no centro da canoa.

Existiam cinco grupos:

os Kaw�sqar,

os Selk'nam,

os Aoniken,

os Hausch

e os Yamana.

Todos andavam sobre o mar.

O mar...

O mar � um dos lugares que eu...

Como eu cresci ao lado do mar,

eu gosto muito.

Gostaria de voltar a navegar

da maneira que faz�amos.

Mas, no momento, estamos completamente restritos

e n�o podemos, quase, usar o mar.

Por qu�?

Porque a Marinha exige muito de n�s para podermos usar o mar.

Eu tenho um barco feito por mim.

Como � um barco pequeno, se assustam.

N�o est�o familiarizados com barcos que navegam dessa maneira.

� por isso que...

Eles dizem que nos protegem,

mas eu acho que n�o.

Me contaram

que voc� cruzou o Cabo Horn com seu pai.

A primeira vez que cruzamos o Cabo Horn,

o tempo estava bastante ruim.

O vento estava muito forte.

O mar � muito grande,

mas passamos bem.

Que idade voc� tinha?

Doze anos.

Sa�mos de Puma Arenas

ao Cabo Horn e voltamos.

Os remos eram curtos, assim,

porque rem�vamos para baixo.

A remada era assim?

O remo n�o era fixado no barco?

N�o, era com as m�os.

E a corrente n�o arrastava o barco?

N�o.

No Cabo Horn?

A corrente joga um pouco pra tr�s,

mas o barco avan�a.

Hoje, ainda, n�o se sabe

de que maneira podiam adivinhar o clima.

Calcula-se que, no s�culo 19,

haviam 8000 pessoas com 300 canoas,

que se moviam neste imenso arquip�lago.

Gabriela, voc� se sente chilena?

N�o.

Como se sente?

Kaw�sqar.

Eu n�o te contei...

Uma vez, minha m�e...

Est�vamos em uma ilha, perto de...

Perto de Natalee.

N�o sei exatamente onde.

Me mandaram porque n�o t�nhamos �gua.

N�o havia po�o, n�o havia rio, n�o havia nada.

E n�s sa�mos para buscar �gua.

� frente, havia um rio.

Nessa �poca, eu j� sabia remar um pouco, n�o muito.

Para remar, tem que se ter for�a.

N�o � f�cil.

N�o � f�cil quando h� vento.

O vento veio

e n�o conseguimos chegar ao nosso acampamento.

Por isso, t�nhamos que saber remar,

no caso de precisarmos nos salvar.

N�o pod�amos dizer:

"Eu n�o sei remar", "N�o posso fazer".

Tinha-se que fazer, � for�a.

Aprendi a mergulhar.

Tive que aprender a mergulhar.

Eu tinha 7 ou 8 anos.

Eu peguei um mexilh�o no meu primeiro mergulho.

A�, me disseram

que eu j� podia pegar mariscos para comer.

Esse era nosso alimento.

Claro, antigamente, era s� marisco.

Para Gabriela,

a �gua foi parte de sua fam�lia.

Ela aceita tanto os perigos

como o alimento que o mar oferece.

Ao contr�rio, eu, que me sinto chileno,

n�o convivo com o mar.

O oceano me causa admira��o

e, ao mesmo tempo, medo.

Isso tem a ver com minha inf�ncia.

Durante um ver�o,

um dos meus amigos de col�gio foi varrido pelo mar.

Estava pulando de pedra em pedra,

em meio �s ondas,

que entravam como garras nos arrecifes.

Seu corpo nunca apareceu.

Foi meu primeiro desaparecido.

Os ind�genas da Patag�nia

foram o primeiro e �nico povo mar�timo do Chile.

N�s, chilenos de hoje,

temos perdido esta intimidade com o mar.

Eu pedi a Emma Malig,

minha amiga pintora,

que me mostre algo que nunca vi.

Desde que eu era crian�a,

jamais pude ver

uma imagem completa do meu pa�s.

Nas escolas,

n�o haviam muros t�o grandes,

para um pa�s t�o comprido.

Era necess�rio dividir o Chile em tr�s partes:

o norte, o centro e o sul,

como se fossem tr�s pa�ses.

Bem, eu acho que este pa�s se equivocou em sua miss�o.

Temos 4200 quil�metros de costa.

Provavelmente, o pa�s que possui a maior costa do mundo.

Que tem por tr�s uma tremenda cordilheira que o isola do resto do continente.

O deserto, ao norte, que nos isola

da civiliza��o ocidental e um continente gelado, ao sul.

Somos uma ilha,

em um sentido geogr�fico,

em geografia humana etc.

N�o temos uma tradi��o mar�tima,

e fomos construindo para dentro.

Mas temos um vale muito pequeno para a agricultura

e, portanto, constru�mos nosso futuro

em fun��o de uma possibilidade econ�mica muito estreita

e que, ao longo do tempo, tem praticamente se extinguido.

Nosso pa�s n�o soube apreciar o mar que tem,

o enorme oceano que tem pela frente.

S�o muito poucos os que t�m honrado o oceano,

que viraram para o mar para admir�-lo.

N�o s� para admir�-lo como para assumi-lo como

um elemento de identidade.

Meu pa�s nega o Oceano Pac�fico,

o maior de todos.

Desconfia de sua imensid�o,

que equivale � metade da superf�cie da Terra.

Ao contr�rio, para os ind�genas e os astr�nomos,

a �gua � uma ideia,

um conceito que � insepar�vel da vida.

Quanto tempo viajou o cometa

que nos trouxe as primeiras gotas de �gua?

Cada gota

� um mundo � parte.

Cada gota � uma respira��o.

Como antrop�logo,

Claudio aprendeu com os ind�genas

o idioma da �gua.

Os nativos americanos consideram que tudo est� vivo.

Que uma pedra est� viva e tem seu esp�rito,

que a �gua est� viva e tem seu esp�rito.

A �gua � fonte de m�sica.

Tudo que se move faz som.

O universo est� em movimento,

ent�o, continuamente, est� soando.

A mesma �gua cai aqui embaixo.

Dizem que a Terra tem v�rias partes.

Tr�s quartos de �gua,

uma parte de terra,

e o que chamamos de terra ainda � �gua.

E nosso corpo � �gua, as plantas s�o �gua,

tudo � �gua,

com pedacinhos de um corpo mais s�lido:

terra, pedra ou osso.

Mas tudo � �gua.

O que respiramos, tamb�m, � �gua.

Ent�o, n�o h� nada de errado se os astrof�sicos dizem

que o universo est� cheio d'�gua.

Eu comecei a escutar o som do rio

e, de repente, comecei a ouvir m�sica

Um rio soa

como mil sons ao mesmo tempo.

N�o podemos separ�-los e escutar um e depois o outro

e, de repente, escutar...

e voc� traz aqui e depois...

Voc� tem dois sons separados

e outro...

e quando voc� tem a cabe�a com dez...

� quando voc� passa a escutar

este som que � um canto,

que � um outro som.

Um ocean�grafo me ensinou

que a atividade de pensar se parece com o oceano.

As leis do pensamento s�o as mesmas da �gua,

que sempre est� disposta

a se amoldar a tudo.

Ser� esta a explica��o

de por que esses grupos conseguiram viver aqui

durante mil�nios,

com temperaturas polares?

Viviam em uma regi�o mais afastada,

em um lugar mais despovoado.

N�o tinham cidades,

n�o ergueram monumentos,

mas sabiam desenhar.

Um desses grupos, os Selk'nam,

tiveram a ideia

de desenharem em si mesmos.

Ap�s a morte,

acreditavam que podiam se transformar em estrelas.

Em sua mitologia,

eles mencionam a constela��o de Orion

e o Cruzeiro do Sul.

Ainda hoje

n�o se sabe o significado desses desenhos.

Talvez, um poeta chileno, Ra�l Zurita,

possa nos ajudar.

Essas pessoas tinham uma complexidade

e uma riqueza...

Seus desenhos mostram o cosmos inteiro,

a maneira como pintavam seus corpos,

como os transformavam.

Para esse povo,

as estrelas eram os esp�ritos de seus ancestrais.

Me pergunto o que est�o procurando

esses telesc�pios impressionantes do norte.

Procuram,

essencialmente,

os ancestrais,

para fazer do universo

algo mais familiar.

De uma forma ou de outra,

quando os ind�genas viam almas e esp�ritos

dos antepassados, dos guerreiros,

de uma forma sentiam o universo como algo familiar.

Sabiam que seus mortos estavam ali.

Ent�o, o que eles querem?

O que procuram os telesc�pios,

as sondas espaciais?

Trazer o universo para perto.

Parece que todo o progresso

� o produto de uma imensa nostalgia,

um desejo de restaurar as coisas,

coisas que j� se sabia, de forma po�tica,

que se sabia inerentemente.

Em 1883,

chegaram os colonos,

os ca�adores de ouro,

os militares, os policiais,

os boiadeiros,

os mission�rios cat�licos.

Depois de conviver por s�culos

com a �gua e as estrelas,

os ind�genas sofreram o eclipse de seu mundo.

O governo chileno,

que sustentava os colonos,

declarou que os �ndios eram corruptos,

ladr�es de ovelhas e b�rbaros.

Muitos buscaram ref�gio na Ilha Dawson,

onde estava a miss�o principal.

Eles tiraram suas cren�as,

sua l�ngua e suas canoas.

Os vestiram com roupa usada

que vinha contaminada

com os micr�bios da civiliza��o.

A maioria

ficou doente e morreu em menos de 50 anos.

Os outros se tornaram presas

dos chamados ca�adores de �ndios.

Os fazendeiros pagavam uma libra

por cada test�culo de homem,

uma libra por cada seio de mulher,

meia libra por cada orelha de menino.

Esta hist�ria, eu acredito que

deve ser contada e difundida muito mais, ainda.

Os colonos chilenos,

com apoio de colonos estrangeiros,

continuaram no sul

estabelecendo grandes companhias fazendeiras.

Os chilenos que, oportunamente,

ocuparam terras ou as conseguiram do Estado

para transform�-las em fazendas de gado,

iniciaram o exterm�nio do povo do sul,

que puderam ser desmantelados e eliminados,

selvagemente, da forma que se sabe.

Em nenhum desses massacres

significou, em caso algum, culpabilidade para os acusados.

A m�e � a �gua.

Ela � o oceano, os canais, a chuva, tudo isso.

Quando se imagina o povo abor�gene

da Am�rica,

tendemos a pensar, como historiadores,

que esse povo j� estava identificado

com sua terra, com seu territ�rio, com a natureza,

com a �gua, no caso do povo do sul.

Eram os donos do pa�s.

Os �ltimos grupos se afundaram na mis�ria

e no alcoolismo.

Para os colonos,

se converteram em monstros.

No s�culo 16,

os espanh�is tamb�m viram monstros

na Patag�nia.

Afirmaram que haviam selvagens gigantes.

Os chamaram 'patagones',

por causa de suas grandes patas.

Eu me fa�o uma pergunta:

ter� acontecido o mesmo em outros planetas?

A atitude dos mais fortes

ter� sido igual em todo lugar?

Um dos planetas da estrela Gliese,

descoberta no Chile,

poderia ter um vasto oceano.

Ter� seres vivos?

Ter� �rvores para fazer grandes canoas?

Ter� sido este um planeta asilo

para que os ind�genas possam viver em paz?

Pensar essas coisas � irreal.

Mas eu me atrevo a pens�-las,

porque gostaria que os povos da �gua

n�o tivessem desaparecido.

Hoje, restam 20 descendentes diretos.

Atrav�s deles,

seu idioma resistiu por s�culos

ou, talvez, por milhares de anos.

Uma foca.

Uma baleia.

Canoa.

Remo.

Papai.

Mam�e.

Crian�a.

Sol.

Lua.

Estrela.

Gabriela, quero que me diga em Kaw�sqar:

Praia.

Mexilh�o.

Canoa.

Bot�o.

Bot�o?

Camisa.

Chuva.

Janela.

Mar.

�gua.

Tempestade.

Me enganei.

Homem bom.

Homem mau.

Deus.

N�o, Deus, n�o.

Nunca tivemos isso.

Pol�cia.

Pol�cia...

N�o precisamos, tamb�m.

Quando era crian�a,

Gabriela atravessou quase toda a Patag�nia,

remando por 1000 quil�metros,

em uma canoa.

� verdade que, quando voc� era crian�a,

fez uma longa viagem com sua fam�lia,

de uma ilha at� chegar a Porto �den?

At� o Golfo Penas.

Eu conhe�o o caminho.

Eu sei chegar ao Golfo Penas,

passando por Agropolina,

bem perto da ilha de San Javier.

Me conte em Kaw�sqar.

Vou come�ar

a contar quando est�vamos perto de

Cabo Tomar.

Eu remei por todo o sul.

Aquela terra era conhecida como "K'eaelkces',

o povo Kaw�sqar do sul.

N�o sei como se chamava

em Kaw�sqar.

Quando uma cana � estragada por crust�ceos,

outra � constru�da pelo machado.

Se a nova canoa tem um furo,

outra deve ser feita, imediatamente.

Quando se viaja de canoa,

precisa conhecer as ilhas do avesso,

saber onde acampar

e onde dormir.

�s vezes, ficamos l� por v�rios dias,

presos pelo vento

e, se chove, �s vezes, perdemos tr�s meses

esperando o mar se acalmar.

Me tornei adolescente, depois adulta

remando

e aqui estou.

A primeira vez que vi Gabriela foi em uma fotografia.

Tamb�m foi a primeira vez

que eu vi quase todos os sobreviventes da Patag�nia.

Paz Err�zuriz,

uma grande fot�grafa de Santiago,

se interessou pelo rosto desses povos

muito antes dos textos de hist�ria.

Durante anos, durante s�culos,

os fueguinos foram pessoas invis�veis.

Na mesma �poca

que Gabriela fez sua viagem de 1000 quil�metros

e nadava embaixo do mar,

eu estava na escola

e vivia na costa.

N�s, alunos, n�o conhec�amos nada

do povo do sul.

Entre Gabriela e eu

havia v�rios s�culos de dist�ncia.

Naqueles anos,

eu preferia ler as novelas de J�lio Verne.

Nem sequer conhecia o �nico nativo

que havia deixado sua marca na hist�ria.

Seu nome � Jemmy Button.

Foi bem tarde que conheci sua vida.

A aventura de Jemmy Button

me pareceu quase uma lenda

quando eu a li pela primeira vez.

Mas � uma hist�ria verdadeira.

No come�o do s�culo 19,

um barco ingl�s

entrou no mundo da Patag�nia,

sob o comando do Capit�o FitzRoy.

Sua miss�o era desenhar a imagem

das costas destas terras.

Ele fez os melhores mapas

que se usaram durante um s�culo.

Foi o primeiro que desenhou os ind�genas

com rosto humano.

Ao Capit�o,

que tinha ideias humanistas,

ocorreu um projeto ins�lito:

levar quatro ind�genas

� Inglaterra com o fim de civiliz�-los.

Um dos nativos subiu a bordo em troca de um bot�o de p�rola.

Por isso, os ingleses

o chamaram Jemmy Button.

Jemmy Button foi vestido com roupas de marinheiro.

Depois, com roupa inglesa.

Durante mais de um ano,

Jemmy Button viveu em um planeta desconhecido.

Navegou da Idade da Pedra

at� a Revolu��o Industrial.

Viajou milhares de anos no futuro.

E depois,

milhares de anos at� o passado.

Depois que Jemmy Button se converteu em um 'gentleman',

o Capit�o

o trouxe de volta � Patag�nia.

Ao p�r o p� em sua terra natal,

Jemmy Button tirou as roupas inglesas.

Continuou falando metade em ingl�s

e metade em sua l�ngua.

Deixou crescer o cabelo,

mas nunca voltou a ser o que era.

A partir desse momento,

come�ou o fim do povo do sul.

Os mapas de FitzRoy

abriram a porta aos colonos.

Durante 150 anos,

um grupo de homens brancos

governou com m�o firme um pa�s silencioso.

A revolu��o de Salvador Allende rompeu esse sil�ncio.

Explodiu um grande movimento social

que abrangeu a metade do pa�s.

Surgiram vozes que nunca antes hav�amos escutado.

Allende come�ou a devolver aos nativos

as terras usurpadas nos s�culos anteriores.

A liberdade durou pouco.

Foi aniquilada por um golpe

financiado pelos Estados Unidos.

Nessa mesma �poca,

a desintegra��o de uma estrela supernova

foi vista por um observat�rio chileno.

Era a primeira vez que isso ocorria

t�o perto da Terra.

A ditadura

caiu sobre o Chile

e durou 16 anos.

Houve 800 pris�es secretas,

com 3500 funcion�rios,

muitos deles torturadores.

Em algumas regi�es,

os presos foram esquartejados vivos.

As mulheres foram violadas

na frente de seus maridos ou filhos.

Homens e mulheres

foram enforcados no teto.

Queimaram sua pele com �cidos e cigarros.

Aplicaram neles eletricidade em todo o corpo.

Foram drogados.

Foram degolados.

Foram presos em celas de 1m�.

Geralmente, a informa��o que queriam obter, j� conheciam.

Torturavam para exterminar.

Durante anos,

os militares e civis envolvidos

n�o disseram onde estavam os detidos.

Dawson, a ilha

onde morreram centenas de ind�genas

nas miss�es cat�licas,

foi transformada em um campo de concentra��o

para os ministros de Allende

que foram deportados desde Santiago.

Tamb�m em Dawson foram presos

e torturados

mais de 700 seguidores de Allende

que moravam em Punta Arenas,

capital da Patag�nia.

Quero que me mostrem com as m�os

onde est� Dawson.

Quero que cada um me diga quanto tempo ficou na pris�o.

- Um ano e meio. - Quatro anos.

Quatro anos e tr�s meses.

- Seis meses. - Quatro anos.

444 dias.

Dois anos e dois meses.

Dois anos e meio.

Dois anos e dez meses.

Cinco anos e um dia.

- Seis meses. - Um ano e sete meses.

Eles foram v�timas de uma viol�ncia

que os ind�genas j� conheciam.

No Chile,

se acumulou uma impunidade de s�culos.

Dawson � s� um cap�tulo.

Naqueles anos de chumbo,

a corrente de Humboldt devolveu um corpo,

na mesma regi�o

onde desapareceu meu amigo de inf�ncia.

N�o era o corpo de um menino.

Era o corpo de uma mulher.

N�o se sabia quem era.

As pessoas come�aram a suspeitar

que o oceano era um cemit�rio.

Trinta anos mais tarde,

alguns oficiais da ditadura

confessaram que, talvez,

algumas pessoas haviam sido lan�adas ao mar.

Uma delas era Marta Ugarte,

a mulher da praia.

O advogado da fam�lia conhece os fatos.

As les�es s�o, principalmente, internas.

E tem outros sinais de tortura.

Ela tem algumas lacera��es.

Em seu rosto,

o que mais me impacta, at� hoje,

� que est� olhando.

Ela est� com os olhos abertos

e est� olhando.

Curiosamente,

seus olhos est�o intactos,

coisa que n�o � muito comum

quando um cad�ver permanece por muito tempo

na �gua.

Mas, neste caso, � assim.

Me surpreende muito.

Seu rosto n�o est� inchado.

E ela est� olhando.

A impress�o que tenho � que est� desperta e est� olhando.

Eu me pergunto qual foi a �ltima coisa

que ela viu.

Viu os outros prisioneiros

que estavam pr�ximos?

Eu decidi reconstruir

os �ltimos momentos

de uma v�tima para poder crer.

Um escritor e periodista

me ajudar�.

H� v�rias testemunhas a quem eles deram inje��o.

Alguns dizem que era inje��o de cianureto,

mas a maioria das testemunhas diz que era pentotal.

Era uma maneira de assegurar a morte do prisioneiro.

Se colocava um trilho na caixa tor�cica.

Mais acima, no peito.

Quanto acha que pesa esse trilho, mais ou menos?

Este trilho

deve pesar uns 30 quilos, pelo menos.

O trilho vinha do regimento de Puente Alto.

E a pessoa que os trazia foi assassinada pela pr�pria DINA,

por falar demais.

Para terminar o empacotamento,

colocavam sacos pl�sticos,

um na cabe�a, e outro a partir dos p�s,

para se encontrarem no centro.

O outro saco pl�stico, aqui.

E sacos de batata.

Exatamente o mesmo procedimento:

desde os p�s e desde a cabe�a,

para se unirem no centro.

Depois esperavam os helic�pteros ou avi�es

que iriam lan�ar ao mar.

O que aconteceu com o corpo de Marta Ugarte?

O que aconteceu foi que esta prisioneira,

quando estava no avi�o,

come�ou a se mover.

O que fizeram foi tirar isso,

desamarrar, tirar de seu corpo,

abri-lo,

e constatar que estava viva.

Ent�o, pegaram esse mesmo arame que estava aqui

e a estrangularam.

O pacote ficou mal selado.

Isso seria o que explica como seu corpo

chegou � praia.

Segundo a justi�a,

as for�as armadas chilenas lan�aram

entre 1200 e 1400 pessoas no oceano,

vivas ou mortas.

Fizeram com a ajuda de muitos civis.

Tinham esperan�a

que o mar guardaria o segredo do crime.

Isso aconteceu em novembro de 79.

Quando subo no helic�ptero,

o mec�nico sobe pela porta lateral.

Abri a porta e me dei conta de que havia dois corpos:

um era de uma mulher,

obviamente jovem,

e o de um senhor com mais de 90 quilos.

Vi sua complei��o mas n�o o rosto pois estava tampado com um saco.

Um trilho estava amarrado ao corpo.

Lamentavelmente,

foi o dia mais dif�cil da minha carreira.

Eu tinha dito, antes,

que Deus ia nos castigar por isso.

Que o que est�vamos fazendo era crime.

No meu segundo voo,

que foi em Junho de 80,

devia haver...

julgando pelas manchas,

penso que haviam 8 ou 9 corpos.

Me deu a impress�o de que tinham sido mortos h� pouco,

dado �s manchas de sangue.

Nesse caso, iam mais de um civil?

Eram quatro civis.

Empurravam os corpos.

Se usava a escotilha

que despejava carga

e mais as portas laterais.

O que vai no centro era mais f�cil de se lan�ar pela escotilha,

por causa do peso, que pelas portas laterais.

Os pr�ximos das portas laterais eram jogados dali.

Outro pelo centro.

N�o h� limite para a crueldade.

Nem tiveram a piedade,

a compaix�o de devolver os mortos.

Est� escrito no mais ancestral da hist�ria:

o cad�ver do inimigo se devolve

pois os parentes continuam a viver.

Pelo luto, os corpos devem ser devolvidos

para que os mortos terminem de morrer

e os vivos continuem a viver.

� t�o...

� t�o brutal o que aconteceu

no Chile

e nestes pa�ses.

A impunidade � um duplo assassinato.

� matar duas vezes o morto.

Condenar, encontrar o culpado n�o � o fim do caminho.

� apenas o come�o.

Desde menino,

Ra�l Vegas mergulhava pr�ximo aos trilhos.

Quase toda a popula��o sabia que existiam,

mas tinham medo.

Em 2004,

o juiz Guzm�n ordenou o inspetor Vignolo

que os encontrasse.

E foi Ra�l quem mergulhou no fundo do mar.

Quarenta anos depois,

os trilhos est�o encobertos por marcas.

A �gua e suas criaturas

entalharam estas mensagens.

Aqui est�o os segredos

que os corpos deixaram nos trilhos,

antes de fundirem-se com a �gua

e tomarem a forma do oceano.

Ao observar cada um dos trilhos,

apareceram outros vest�gios.

Apareceu um bot�o aderido a um trilho.

Este bot�o � a �nica coisa que fica

de algu�m que esteve a�.

De Jemmy Button, na troca por um bot�o de p�rola,

liquidaram sua terra,

sua liberdade, sua vida.

Quando retornou � sua ilha,

Jemmy Button n�o recuperou sua identidade.

Se tornou um exilado em sua pr�pria terra.

Os dois bot�es contam a mesma hist�ria,

uma hist�ria de exterm�nio.

� prov�vel que haja muitos outros bot�es

no oceano.

Portanto, nesse ponto est� tudo

condensado, apertado, densificado,

como um buraco negro.

Essa � a minha impress�o,

porque se pode imaginar o trilho

e rastrear sua hist�ria:

os trabalhadores que o fizeram,

que o cortaram, que o depositaram.

Pode-se seguir a hist�ria do bot�o:

o bot�o conduz a uma pessoa,

a uma camisa, a uma situa��o.

Talvez conduza � Villa Grimaldi, mesma,

e a tudo que aconteceu ali.

� um detalhe que se magnifica e que se amplia,

ondas que v�o em dire��es diferentes.

� toda a hist�ria do Chile, de certo modo,

e tudo o que ocorreu na ditadura.

Olhando o mar, olhando a �gua,

est� se olhando a humanidade inteira.

Esta terra � t�o maravilhosa quanto ensanguentada.

Abra�a o pior

de n�s mesmos.

Finalmente,

em um mundo de v�timas e assassinos,

ambos coexistem,

somos todos respons�veis por tudo,

pelas v�timas e pelos assassinos.

Cada ser humano, ningu�m em particular.

Ent�o, quando acontecem coisas

terr�veis como ocorrem ao longo da hist�ria,

mesmo n�o participando, somos todos respons�veis,

como em uma fam�lia em que um filho comete um crime

e toda a fam�lia � afetada.

Ent�o...

essa parte da Hist�ria

associada � �gua, gelo, vulc�es,

tamb�m se associa com a morte, massacres,

abuso, genoc�dio.

� uma parte...

Se a �gua tem mem�ria, vai se lembrar disso.

Todas as coisas conversam com todas as coisas,

�gua, rios, plantas,

recifes, desertos, pedras, estrelas...

� uma longa conversa,

um respeito m�tuo.

Os ind�genas da Patag�nia

acreditavam que as almas n�o morriam

e que podiam viver de novo como estrelas.

Disseram que a �gua tem mem�ria.

Eu creio que tamb�m tem voz.

Se chegarmos bem perto,

podemos ouvir as vozes

de cada um dos ind�genas e dos desaparecidos.

H� pouco, a uma dist�ncia enorme,

se descobriu um quasar cheio de vapor d'�gua.

Tem 120 milh�es de vezes mais �gua

que todos os nossos mares.

Quantas almas errantes poderiam encontrar ref�gio

neste imenso oceano que deriva no vazio?

Legendas: Kleen

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