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- Para esse carro! - Cala a boca!
- Cala essa boca, porra! - Para o hospital, pelo amor de Deus!
"Pelo amor de Deus" é o caralho! Não tem Deus aqui.
Tira a gente daqui!
- Tira a gente daqui! - Em frente, em frente, porra.
- Em frente o quê, caralho? - Calma, Valter! Aguenta!
- Calma, brother! - Calma o caralho!
- É direita ou esquerda? - Calma, porra!
- É lá na frente, esquerda! - Que esquerda, caralho?
Entra aí!
Luísa, acorda!
Valter! Socorro!
- Se você não calar essa boca... - Tira a gente daqui, porra!
- Eu vou botar pra "torar" nessa porra! - Ela precisa de ajuda.
Não me olha não, meu irmão. Cala a boca, caralho!
Pra onde agora, camarada?
E agora, meu camarada, vai pra onde?
Pra onde?
Direita! Direita!
Aquele lá não sobrevive mais, não.
Eu conheço cor de defunto.
Tá morto.
Vai dizer que não estava com saudade dos amigos?
Quanto tempo, Gislano.
Fica "peixe" que vai ser rapidinho.
Só o tempo que tiver que durar.
Oi, Vera.
Eles disseram que vão embora amanhã.
Deve ter dado alguma coisa errada pra eles virem assim em casa, do nada!
Psiu!
E aí?
E aí?
Sabe o que eu estava pensando?
Será que um dia você vai terminar de arrumar esse carro?
Ah, é. É caminhonete velha, né?
Tem que ficar arrumando toda hora.
Não consigo abandonar também, né?
- Era de "voinho", então... - É, entendo.
De verdade, é que...
eu nunca vi a "bichinha" sair do lugar, então, fica meio difícil.
Bom...
entra aí que eu te ensino a dar partida.
- Não quer, não? - Quero!
Vamos lá, te ensino.
O que eu faço?
É simples, aqui você só coloca o pé ali...
Afunda o pé, isso.
- Gira a chave aqui. - Tá.
Ué?
Espera aí, vai de novo.
Ué, que isso? Fui eu?
Você não fez nada.
Eu acho que ela não tá preparada pra você ainda.
- Pra mim? - É.
- Eu vou lá. Vou lá arrumar. - Tá, vai lá.
- Onde é que a gente está? - Estamos na Disney.
Charles, leva elas pra dentro. Pode trancar no quarto.
E o defunto?
O defunto a gente vai desovar junto com a besta.
- E tu? - Eu o quê, Charles?
Tu vai ficar aí só mandando mesmo, é?
E o sonso?
O sonso deixa comigo.
Sei.
Oxe, não é tu que fala que eu não faço nada?
"Bora", Charles!
"Bora" para dentro, pega ela!
- Vem, vem! - "Bora", não queria furo de reportagem?
Não queria ação?
Calma.
Calma.
Calma.
- "Bora"! - Entendi, é ele que manda, né?
Você não tem em quem mandar e quer mandar na gente.
Ô, mulher, tu fala demais. Teu maior defeito é esse!
Tá bom de lero-lero, repórter. "Bora" pra tua sala de entrevista.
Calma, calma.
Como é que é teu nome, meu irmão?
Gustavo.
A gente vai cuidar de tu depois, tá ligado?
O que você vai fazer com a gente?
Por enquanto, nada.
A partir de agora,
o melhor para tu
é fazer tudo que eu mando.
Ela precisa de um hospital.
Essa menina precisa de um hospital, senão ela vai morrer aqui.
Não vai todo mundo morrer um dia, moça?
Merda!
Meu irmão, velho,
não acha que é hora de ensacar esse bicho aí, não?
Porque já tá começando a feder, meu irmão,
e quando começar a feder, é uma catinga do caralho.
Eu sempre achei Gustavo um nome esquisito.
Tu não tem apelido, não?
A gente ainda não tem intimidade pra isso.
Conte sua história.
Mas tu quer saber desde o começo?
Quero saber o que você estava fazendo lá,
quando a gente te pegou.
Era aniversário do meu pirralho.
- E tu estava fugindo da festa? - Não,
cheguei foi atrasado pra festinha.
Voltei para buscar o presente na moto.
O que é a vida, né, bicho?
Se eu não tivesse esquecido o presente,
não tinha caído nessa roubada.
Aquele lugar que tu estava ali é perigoso.
- Tu não tem medo? - Não.
Todo mundo me conhece ali.
Ali só tem gente honesta e trabalhadora.
Abra!
Presente estranho da porra, velho.
Saia!
Parece que a gente acabou com a festa de teu pirralho, né?
Parece que sim.
Gostei de tu.
Tu não inventa muito, não, que tu volta a ver teu menino.
Deixei a baga.
"Gostasse" da vista, foi?
Pois fecha essa merda aí,
senão vai ser última coisa que tu vai ver na tua vida.
Bom dia, Rita, tudo bem?
- Bom dia. - Bom dia.
- Tudo bom? - Bom dia.
Não há opção nisso.
- Bom dia! - Bom dia, Samantha!
Tá bem, vamos começar.
- Como vocês sabem... - É...
Samantha, vamos aguardar só mais um pouco?
Tem uma pessoa na equipe.
- Olha, uma pessoa a mais na equipe? - A nova estagiária.
Uma estagiária poderosa, hein?
Tá bom, vamos esperar a estagiária.
- Toma uma água, um café. - Uma água.
Tá um calor terrível nessa cidade.
Bom dia, tudo bom?
Bom dia, Luísa!
- Bom dia, Martha. - Bem vinda!
- Obrigada. Bom dia, Demóstenes. - Bom dia, querida.
- Tudo bem? Já conhece Samantha? - Quem não conhece Samantha, né?
Quem não conhece a Samantha?
Bom, podemos começar?
Samantha, você me falou que tinha a informação
e que vinha de uma fonte bem quente!
- Exatamente. - Me conta!
É coisa grande, tá?
Envolve desvio de dinheiro público para fins pessoais.
Gente, eu tô falando de contrabando de pedra preciosa.
Isso é melhor a gente levar pra polícia, entendeu?
Não! Não vai ter polícia!
Porque se colocar polícia, acabou a investigação.
Até porque o senador tem todo mundo comendo na mão dele, né?
Na última vez que você fez um trabalho desse,
custou muito para a gente em advogado, se lembra?
Não foi só da última vez, Demóstenes. Isso é um ato recorrente.
E é justamente por isso que o escritório de advocacia
revogou o contrato aqui com a emissora, né?
Gente, realmente, assim...
Eu tô investigando esse caso há muito tempo.
Vocês sabem disso mais do que ninguém!
Eu coloquei a minha vida, eu coloquei meu tempo,
coloquei minha dedicação nesse caso.
E eu preciso de vocês pra continuar essa história.
Samantha,
essa fonte, ela é segura?
Mais segura impossível!
♪ Dó, ré, mi, fá ♪
♪ Dó, ré, mi, fá... ♪
"Tá, tá, tum"! Que som é esse?
Esse desenho é "massa" demais, velho.
Acontece nada.
Só a viagem.
Você ouviu?
É bom que dá uma...
esvaziada na cabeça.
Quer um cigarrinho?
Como era esse som?
Era assim: "Tá, tá, tum! Tá, tá, tum".
Você não tá conseguindo dormir?
Não.
Também não tô com sono.
Você tem um cigarro aí?
Voltou a fumar, é?
Não tive como, né?
Não ligo, não.
Eles devem ter feito uma merda bem grande, né?
Para aparecer aqui assim, do nada.
Devem ter feito mesmo.
E essas mulheres que eles trouxeram à força pra cá?
Isso não tá certo, hein, Ricardo?
Eles disseram que elas são da televisão.
Então você toma mais cuidado ainda!
Mexer com esse povo de televisão nunca acaba bem.
Não vejo a hora deles irem embora logo.
Eles devem estar com muita grana, né?
Podiam, pelo menos, pagar a estadia.
- Eu tô muito machucada. - Não.
Não, não, você tá bem. Você... Vai ficar tudo bem.
Não se preocupa.
Como não se preocupa, Samantha? Olha isso aqui, cara!
- Fala baixo! - O que foi que aconteceu?
Foi de raspão.
Tem muito sangue, eu sei, mas não é profundo.
Já deve ter estancado.
Por que eu deveria confiar em você?
Eu tô assim por sua culpa!
Não foi isso que aconteceu.
- Não? - Não.
Então que merda que foi que aconteceu aqui?
Hã?
Teu pai tá cheio do dinheiro, hein, Ricardinho?
Que nada!
Pra comprar uma casa dessa aqui, tem que ter dinheiro.
Quem comprou foi o meu avô, foi baratinho.
Ele comprou de um cara que estava com a corda no pescoço.
Essa casa era de seu Lourenço,
velho doido, daqui de Serra das Almas.
O cabra começou a beber e perdeu o juízo.
Começou a dever pra todo mundo.
Ele deve ter vendido baratinho para o teu vô, não foi?
Foi.
Foi baratinho.
Meu avô teve que sair lá do Paraná.
Saiu fugido?
Não. Veio porque quis.
Ricardinho, por aqui deve ter muita caça, não é não?
Tu já quer atirar, né, danado?
Ó, tem caça, mas a gente tem que ir pra longe.
Não dá pra matar aqui só por matar, não.
Ô, cabra medroso.
Ricardinho, porque teu pai e teu avô, sei lá,
saiu de São Paulo pra comprar um terreno aqui?
Sou do Paraná, já te falei, né?
Paraná e São Paulo não é a mesma coisa?
Não.
Ele era viciado no jogo.
Aí ele jogou e ganhou.
Isso é história pra boi dormir.
Como é que é?
Tu tinha acabado de dizer que o teu avô comprou esse terreno aqui,
e agora ele já ganhou no jogo, foi?
É, ele comprou o terreno e ganhou no jogo.
- Entendeu? - Que história complicada da "gota".
Não entendi porque você não entendeu.
Então, disseram pra ele que disseram que aqui no terreno...
- Disseram que disseram? - Disseram que disseram que no terreno
tinha uma botija de dinheiro enterrada
e que quem encontrasse essa botija ia ganhar uma grana.
Ele ganhou!
Aí minha mãe veio aqui
teve uma época que estava cheio de buraco, parecia um cemitério.
A minha mãe não ficou. Eu vim, fiquei,
tô aqui, ué.
E a botija enterrada?
Não achei.
Ainda bem, né?
Dinheiro endoidece a cabeça do cidadão.
- Aí eu já não sei. - Aham.
Agora o cabra sair lá de São Paulo, lá da casa do caralho,
pra vir assuntar aqui e comprar terreno é o que eu não consigo entender.
- Aí lasca, "visse"? - É, eu também não.
Ainda bem que eu sou do Paraná, né?
Irmão,
tu não tá botando fé nesse papo dele de que ganhou essa casa no jogo, né?
Isso é história pra boi dormir.
Mas na botija enterrada, eu acredito.
Tu tem coragem de entrar nesse mar, velho?
Oxe, tenho nada, rapaz.
Tenho um medo da porra!
Depois que eu assisti aquele filme
daquele diretor norte-americano, como é o nome dele?
- Diretor, porra... - Não é Spielberg, pô?
Isso.
Pois eu só tenho medo do tubarão-tigre!
Outra coisa... Viatura descaracterizada.
Bom dia!
- Bom dia, bom dia! Como vão? - Bom dia!
Bom dia. Aí, Sebastião começou cedo, hein?
Tô vendo.
Lassef, meu fiel escudeiro.
Roberto!
E quanto é?
É muito!
Só que não vai ser em dinheiro, não.
E tu tem certeza que vai tá tudo lá?
Eu não esqueci aquela nossa combinação, não, hein?
Tudo bem, como vai? Como vão todos?
Douglas Santos, meu amigo.
- Quanto tempo, rapaz! - Senador Tibério!
Tudo certo? Como é que tá a família?
- Tá tudo certo. - Então tá tudo ótimo.
- Que bom te ver. - Bom te ver também.
Olha aí...
Me conta uma coisa, segunda-feira,
- Brasília expediente normal? - Claro, meu querido.
Como eu faço sempre.
Cumprindo com minhas obrigações com quem me elegeu.
Pra quem eu realmente devo satisfações. Por que para os outros...
...eu não devo absolutamente nada!
Esse povo fala demais. Muita gente falando essas
acusações levianas.
Ilações é o nome disso.
Ilações vindo de quem?
De quem descaradamente é contra mim, ou seja,
tudo falso, tudo falso.
Aliás, até agora
nenhuma acusação oficial chegou até a mim
ou aos meus advogados, chegou alguma coisa, Lassef?
- Nada, senador. - Então...
Não tem nada!
Vamos se divertir?
Eu vou!
Olha aqui, ó. Tá me esperando, a mimosinha, que eu adoro.
- Bom dia, Luísa. - Senador, bom dia.
- Tudo bem? - Tudo bem.
Senador!
Comenta-se que as acusações contra o senhor
são extremamente pesadas,
inclusive que existem provas de ligações
entre Vossa Excelência e contrabandistas de pedras preciosas.
- O senhor confirma? - São fake news, minha filha.
- São fake news. - Não, senador, não são fake news.
Não são fake news, porque eu fui informada pelo Ministério Público
que tem nomes de muitos dos seus assessores envolvidos.
Veja bem, eu já disse isso várias vezes e eu vou repetir.
Até o momento,
nenhuma acusação formal
- chegou aos meus advogados. - Senador,
há rumores de que o senhor estaria coagindo os jornalistas,
inclusive perseguindo meios de comunicação,
para que essas informações não sejam divulgadas.
Senhores, infelizmente eu tenho um outro compromisso,
eu vou ter que deixar vocês.
Divirtam-se!
Aproveitem a vista.
Quem que ensinou ele dar tiro desse jeito?
Muito tempo sem fazer nada, dá nisso.
"Gostasse"?
- "Gostasse" do quê, meu irmão? - Oxe. Da beca, pô.
Me arrumei todinho. Não é tu que fala mal da minha roupa?
Passei até perfume, olha.
"Caprichasse", mas essa tua cara de tabaréu aí
que não ajuda muito, né?
E essa calça curta aí, pô?
Aqui é estilo, pô!
Eu vi em um filme italiano.
Os cabras da máfia usam todos calça assim, no meio da canela.
Estilo feio da porra.
Sai daí, tabacudo.
Muito prazer, tchau, tchau.
Quente pra caralho hoje!
Isso aqui ainda vai esquentar muito mais.
Hã?
Oi!
Tudo bem? Você sabe o wi-fi daqui?
Nunca perguntei.
Ah. Tá bom.
Tem coragem de entrar nesse marzão aí?
Olha, coragem eu tenho,
mas antes, eu tenho juízo.
- Tu não é daqui, né? - Não.
Eu sou do Rio, sou carioca.
- Rio de Janeiro? - Uhum.
- Gosto muito do Rio de Janeiro. - Ah, é?
É.
Teve uma época que eu queria morar lá.
Vem cá, você trabalha para o senador Tibério, não é?
Trabalho...
eventualmente, quando é necessário.
Então...
quando você quiser falar sobre isso,
aqui, olha,
me procura.
Falar sobre isso? O quê?
Quanto é?
Quanto é pra você falar?
Tem que ter muito dinheiro pra me comprar, "visse"?
Então pensa sobre isso.
E aí, de repente, eu te levo para jantar?
Quem sabe?
Meu nome é Gislano.
Prazer.
O meu nome tá no cartão.
Prazer.
Esse suco natural da fruta é azedo demais, velho.
Prefiro o de caixinha.
"Usasse" urtiga, foi?
Passou a mão em você, aí.
Outro dia eu vi um filme onde tinha gente que...
Que vivia assim, no meio do mato.
Deve ser muito doido viver assim, viu?
- É. - Ai tinha um cara
que ele só se alimentava de coisas que encontrava no mato.
Oxe, e comia o quê? Só planta, era?
É, acho que sim.
É, acho doido esses cabras que...
conseguem reconhecer planta que tem veneno
e planta que não tem veneno.
É uma ciência.
Tem que saber, né?
Passa o suco aí!
Vai secar não, viu, danado? Tem os outros.
Eu mesmo não ia conseguir ficar.
Eu ia sentir uma saudade de uma "charquezinha"
e de um feijãozinho, assim.
- Um cuscuzinho com ovo. - Um cuscuzinho com ovo.
- Um queijinho coalho. - Um queijinho coalho.
Tem boi nesse curral.
- "Bora" dar um susto nele? - Que isso, deixa o cara.
"Bora"!
Eu vou botar aqui na orelha direita,
Gislano, tu bota na orelha esquerda,
e Ricardinho, tu bota no topo da cabeça.
Mas não é pra acertar, não, viu? É só pra dar um susto.
- É pelo grupo. - No três.
Um...
dois...
Três.
Tá bom, Ricardo.
Tu falou que a areia era fofa.
Maior tempão pra fazer isso aqui.
E tu queria o quê, velho?
Tu matou o cara, tu fez a merda.
A lei da vida é assim, matou, tem que enterrar.
"Bora", Charles!
Pega as pernas dele.
Ricardo, tu pega a cabeça e joga.
Vamos!
Pode cobrir!
Eu fui pra lá vendida, né, Roberto?
E a culpa é sua, porque eu tinha todos os fatos,
mas eu não tinha as provas.
Eu já te disse tudo que eu sei.
Esse cara é um filho da puta.
- Mente pra caralho! - Hum.
Ah, é? Ele mente? Não me diga.
Que palhaçada é essa de colocar sua filha como estagiária
- pra trabalhar comigo? - Ela trabalha com todo mundo, Samantha.
Ela trabalha com todo mundo,
mas ela estava na minha reunião de pauta com os editores.
Porra, seja profissional, não é?
Qual o problema de trabalhar com a minha filha agora?
Eu preciso de mais detalhes.
Eu não consigo te dar todos os detalhes.
Só que para fechar essa matéria,
eu preciso do mínimo de cooperação da sua parte.
Tá certo.
Mas você tem que me prometer uma coisa.
O que é dessa vez?
Promete que vai cuidar de Luísa.
- Prometo. - Que não vai deixar ela na roubada!
- Promete? - Eu já te disse que eu prometo.
A fonte não é muito confiável,
mas disseram que vai ter um encontro em que vão fazer uma entrega.
Uma entrega de pedra?
- Creio que sim. - E quando vai ser?
Vai ser na Marina,
de hoje pra amanhã.
É nossa chance de acabar com esse senador filho da puta.
Engraçado te ouvir falar assim, porque realmente eu...
não entendo por que você é tão obsessivo nesse senador.
Tem tanto cara merda nessa cidade e você aí,
focado no Tibério.
Ele é o pior, amor.
Ele é o pior!
E a gente?
- A gente? - Sim!
E a gente?
"A gente" a gente vê depois.
Por que tá acontecendo isso?
Vai, toca aí. Por favor.
Faz de conta que eu não tô aqui.
Quem tá aí, Samantha?
O que você tá ouvindo?
Vem!
Vem, alma sebosa.
Vem!
Charles!
Tá maluco, meu irmão? Que porra é essa?
Tinha gente, porra. Eu escutei os passos.
Tu tá pirando? Não tem ninguém aqui, porra!
Tu vai matar alguém assim, mano!
Tô doido, não, eu escutei!
Eu não tô doido, não!
Meu irmão, não dá pra pirar agora, tu tá louco?
Tu tá muito doido, né?
O que foi?
Eu tô doido, Ricardo? Engraçado, né?
Engraçado que tu sempre falou que não gostava daqui,
- falava mal da casa. - Charles, deixa o cara!
Mas tu ficou aqui brincando de casinha, não foi?
- Abaixa essa merda! - "Abaixa essa merda", o quê?
- O que tu vai querer? - Sai! Sai, cara!
Abaixa essa merda aí.
- Vem cá! - Sai, porra!
Não pira agora, meu irmão!
Fuma um baseado para baixar tua bola.
Aqui é o "verde cintilante" ou é "risadinha"?
Advinha.
Charlinho, não dá para tu ficar pirando assim, não.
Já disse pra tu que tinha gente na mata.
- Tem gente de "botica" na gente. - Tu tá pirando, meu irmão.
A gente tá preso aqui nessa casa, não dá para ficar atirando, não.
Chamar a atenção, tá ligado?
- Fumo, não. - Fuma, não?
Vocês se conhecem tem tempo?
Um pouquinho.
A gente cresceu aqui na Serra.
Jogava bola, caçava,
soltava pipa.
Pipa, não, né? Papagaio!
- Mas tu não é daqui não, né? - Paulista.
Paulista.
Mas eles foram embora.
Foram para o Recife.
Gislano queria ir para os Estados Unidos,
chegou no Recife.
Oxe!
E pra chegar nos Estados Unidos, tem que passar pelo Recife, é?
Claro, pô. A primeira escala é lá.
Eu li uma vez uma história
que os pernambucanos que saíram do Recife
que fundaram Nova York.
Oxe, "aprendesse" a ler, foi?
Foi! Foi, aprendi.
Aprendi e li, estava escrito lá.
Os cabras, os holandeses...
Não, os portugueses expulsaram os holandeses de Recife,
que foram pra Holanda... Não, foram pra Holanda, não,
foram para os Estados Unidos, encontraram outros holandeses,
e aí fundaram Nova York.
Isso é uma mentira da moléstia!
É sério, porra. Tá escrito.
- E tu, Charles? - Eu?
Eu mesmo nunca quis ficar aqui no diabo dessa Serra, não.
Lugar mal-assombrado.
Aqui tem Comadre Fulozinha,
tem a Galega da Estrada do Açude.
A Galega eu já vi uma vez, já.
Mas também, ir pra onde?
Pra onde a gente vai, a gente carrega os fantasmas atrás.
Às vezes, eu queria saber...
o que foi que a gente fez de errado pra ter essa vida de merda.
Fala por você, né?
Eu tô bem. Tô com as minhas coisas aqui, minha casinha...
Tu é um fodido, Ricardo!
Tu é um fodido, meu irmão!
Tu queria ter uma oficina bonitinha, arrumar motor.
Cadê teu sonho, porra?
Onde é que foi parar?
Aliás, essa caminhonete do teu avô aqui
tá funcionando?
Não tá. Tá encostada aí.
Conserto, quebra. Conserto, quebra de novo.
Se brincar, não chega nem em Bezerros.
Tu desiste muito fácil, Ricardo.
Ela perdeu muito sangue.
Você tá presa aqui também?
Você precisa ajudar a gente.
Se a gente ficar aqui, a gente vai acabar morrendo.
Que barulho foi aquele lá fora?
- Como é seu nome? - Vera.
Vera...
eu posso te ajudar, se você quiser.
Vera.
Ajuda a gente, por favor!
E você tem que aprender a ficar quieta.
Fica quieta!
Meu irmão, velho. Palhaço?
- É sério, pô. - Palhaço...
Sério, pô.
- Meu sonho desde pirralho. - Eu acredito, porra.
Mas não são esses palhaços engraçadinhos.
Esses palhaços infantis, não.
Queria ser um palhaço daqueles da desgraça,
que chuta perna de criança, que cospe na cabeça das velhas.
Os palhaços que toca o terror.
Tu queria ser palhaço e eu queria ser deputado, irmão.
Aí botou quente, viu? É o fraco!
Deputado!
Queria ser deputado nos Estados Unidos, meu irmão.
Mexer com negócio de Congresso Americano.
Oxente, e não é melhor ser logo presidente, não?
Presidente dos Estados Unidos!
Não, porra. Presidente morre demais.
Americano adora matar presidente.
Eu quero é ser deputado!
Trabalhar em Washington. Tá entendendo, meu irmão?
Escrever meu nome.
É quente!
E tu, Gustavo? Gustavo, né?
O que tu quer ser?
Eu já sou o que eu quero.
Tem futuro isso, não.
- O que deu errado, né? - Faltou coragem.
Faltou coragem para você.
Eu vou chegar lá.
Tu és um lascado, Gislano.
Puta que pariu!
Catinga do caralho, meu irmão.
Tá bom.
- Esse aqui podemos botar depois... - Deixa cara, eu não quero.
Obrigada.
Eu não devia estar nem aqui.
Não era pra eu estar aqui.
Você devia aceitar ajuda de vez em quando.
De você eu tô dispensando, muito obrigada.
Eu nunca entendi você.
Uma mulher bonita,
jovem, talentosa, independente.
Como é que tu vai cair em um clichê desse, hein?
O que é um clichê, né?
Homem mais velho,
rico,
em uma posição de poder.
Ou isso é problema com o pai?
Hum? Você tá com a terapia em dia, meu bem?
Você tá maluca.
Você tá completamente louca. Que problema com pai.
Então foram os olhos dele que te encantaram, foi isso?
É, realmente, seu pai tem olhos bem bonitos.
E eu era uma garota assim como você, sabia?
Exatamente assim quando eu conheci ele.
Da sua idade, começando. É, me apaixonei.
E foi confortável para mim.
Você pensou na família dele em algum momento?
Não.
Eu não pensei em você e nem na sua mãe.
Talvez seu pai que tivesse que pensar.
É.
Eu acho muito interessante
que pra alguém que fala tanto de sororidade,
você devia começar a repensar seus hábitos, suas ações.
Te falar uma coisa, que você é muito nova,
ainda não sabe, mas sororidade
não tem nada a ver com desejo.
Foda-se!
Na hora do "vamos ver", tu pega a sororidade e soca no cu, né?
Mas é bom que a gente tá aqui.
Vamos ter tempo de acertar nossas contas.
É ótimo.
Porque assim, diferente de você,
eu sei os meus erros.
Eu sei que eu não dei para o meu pai a parcela de culpa
- que ele merecia nessa história. - Vem cá, vamos fazer uma coisa?
Vamos falar de culpa depois? Vamos?
Você fala sobre a sua culpa, sua infância sem pai.
Eu sempre fui tua fã.
Mas ao mesmo tempo eu te odeio tanto!
Então por que você me deixou lá,
e não foi embora?
Por que...
você não me deixou sozinha
e saiu?
Porque você é uma bomba na minha vida!
♪ Tu já não és mais ♪
♪ A razão do meu viver ♪
♪ Já tenho outro alguém ♪
♪ Bem melhor do que você ♪
♪ Tudo o que passei... ♪
Pra comemorar.
- E o rádio, tá funcionando? - Hum...
- Não. - Tudo bem.
Às vezes eu queria ir pra bem longe daqui, sabe?
- Jura? - É.
Pra onde você pensa em ir?
Ai é que tá, eu não sei.
Hum...
Mas é fácil, né?
Ir embora.
É só...
você fechar o olho...
...e imaginar como você quer que seja
o lugar pra onde você quer ir.
E pronto,
aí você já tá lá.
É assim que você tem feito?
Ainda bem que a gente tem a gente, né?
É.
A gente tem a gente.
Olha, Ricardinho.
O engomadinho não tirou nem a camisa pra trabalhar.
Deixa o cara, mano.
A vida é ficar só enterrando gente.
Porque a gente não coloca uma cruz dessa vez?
Cruz não vai ter, não.
Mas lápide, ó,
aí uma bem grandona.
Você não fica satisfeito, né?
Sempre quer ser o maior, né?
Um bosta que nem você!
Um bosta!
- Repete. - Um bosta que tem que ficar pegando
mulher à força pra provar que é homem.
- Repete o que tu disse. - Calma.
- Repete, arrombado! - Calma.
Tu nunca entendeu nada, Ricardinho.
Enquanto tu ficava me marcando, otário,
era Gislano que pegava tua mulher nas tuas costas.
Mentira da porra! Tu é um mentiroso, né?
- Tá dizendo que eu tô mentindo? - É!
- Tá me chamando de mentiroso? - Sim!
Vai perguntar lá ao patrãozinho, porra.
Ei! Vocês são amigos, vai brigar agora, é?
Se afaste, senão vai sobrar pra você.
- Diga aí o que você quer dizer. - Espera aí!
Tu sempre quis ser o Gislano, né?
Tu não é inteligente, tu nunca vai ser.
Tu é um bosta, tu sempre foi a cachorrinha de Gislano.
Cala tua boca!
- Eu sou o quê? - Abaixa essa arma, irmão.
Tu é a cachorrinha que fica lambendo as bolas dele.
Meu irmão, velho.
Tá morto!
- Tira essa mão daqui. - Vai devagar!
- Tira essa mão daqui pra eu... - Ai, caralho, tá doendo!
Ai, eu não aguento mais.
Eu não aguento mais isso aqui.
Tem alguém aí?
Eu quero sair daqui!
Ninguém vai te ouvir, Samantha.
Alguém pode vir aqui?
- Eu não quero ficar mais aqui! - Cala a boca!
- Eu quero sair daqui! - Cala a boca! Não adianta gritar.
- Ninguém vai te ouvir! - É?
É, aqui só tem alma.
E que porra você quer com a gente? Me fala!
O que é? A garota machucada, se não cuidar, vai morrer.
- Cara, calma. - Hein? Você quer dinheiro?
É isso que você quer, dinheiro? Troca ela por dinheiro!
Pelo amor Deus, me tira daqui. Eu não quero mais ficar aqui!
Abusada!
- Tu tá abusada! - Calma, não precisa isso!
- E tu fica quietinha aí! - Calma!
Achei que tu fosse mais inteligente, porra.
Achei que pra fazer jornalismo tinha que estudar um pouquinho.
A verdade é que tu é tão burra quanto todo mundo que tá aqui.
Não!
Não, não vai!
Não me deixa aqui! Merda!
Vem cá, tem certeza que eles vêm mesmo?
Eu não trabalho com certeza.
Eu trabalho com paciência.
Tu quer?
Não.
Chiquinho, tem um cigarro daquele?
Vamos entrar!
- Hum? - A gente vai entrar.
Não, calma, Samantha. Como assim, a gente vai entrar?
- Vamos entrar. - Não temos informação nenhuma
- do que tá acontecendo. - Você não tá entendendo, Luísa.
Eu esperei muito por esse momento, a gente vai entrar!
Valter, "bora", pega a câmera.
- Vamos entrar. - Vamos nessa.
Vem.
Eles estão ali. Filma! Filma!
- Cuidado aí. - E aí, "massinha"?
- Jonas! - "Massinha", e com vocês?
Chegaram tranquilo?
Olha, dessa vez eu trouxe as mais valiosas, viu, velho?
Tá apressado, é?
Tô brincando, pô. Pega aí!
A gente tá falando de muito dinheiro.
Melhor do que falar de pouco, né?
Bonita!
Bonita? Isso é um espetáculo, caralho!
Tá ligado que essa pedra só tem aqui e na África?
Aqui na Paraíba, no Rio Grande do Norte,
e na África, caralho!
Agora, tu sabe o que eu gosto mesmo de fazer hoje em dia, Luísa?
Hum?
É de tomar uma cervejinha com a patroa, ouvindo o Rei.
Não sabia que tu gostava de Roberto Carlos, não, homem.
Roberto Carlos, menina?
O Rei pra mim é Reginaldo Rossi.
Oxe!
Roberto Carlos não amarra nem a chuteira do Rei do Brega.
Ei! Ô! Ei, rapaz!
Não olhe demais pra essas pedras, viu?
Elas mexem com o juízo do cidadão.
- Tô ligado, tô acostumado, já. - Sei, sei.
Todo mundo diz isso, velho.
- Mas vá por mim. - Tá me "tirando", velho?
Ei, meu irmão. Pra que alterar o tom, velho?
A gente tá tudo na paz aqui.
A gente veio de lancha, sossegado.
Estamos de boa, velho.
Outra coisa.
Tem um recado aí para o senador.
Avisa que ele tá chamando muita atenção, viu?
E a turma de lá gosta de trabalhar na sombra.
Pode deixar, o senador sabe o que faz.
"Sabe o que faz..."
O senador gosta é de muito holofote. É Xuxa demais!
Agora tem uma coisa,
eu nem achava que ia te dizer isso hoje, velho.
- Diga. - Tem uma coisa que eu admiro
pra caralho em tu. Sabe o que é?
- É mesmo? - É.
- Sabe o que é, velho? - Não sei. Fiquei curioso pra saber agora.
- Ficou curioso, não foi? - Fiquei.
É teu amor pelo dinheiro, caralho!
Tá aí, uma pessoa que não perde um real pra ninguém é tu.
Porque dinheiro não fala merda.
Treze?
Oito...
Oito mulheres e cinco homens.
Tá com o caralho, é um preá, é?
E tu, Luísa?
Tu tem filho?
Deus me livre, nem quero.
Pois tu não sabe o que está perdendo, "visse"?
Os filhos são a melhor parte da vida.
Olha. Olha aí.
Isso vai dar merda, minha irmã.
Puta que pariu! Já deu, homem!
Menina! Vamos "simbora"...
Não tenho como deixar eles aqui, não, Chiquinho.
Olha, pois então fica aí. Eu tenho família para cuidar.
Ei, rapaz, não...
Caralho! Tá, gostei dessa calça, velho!
Gostei...
Essa tua calça já veio assim "coronha", foi?
- Tá falando comigo, velho? - Tô, pô!
Calça bonita da porra. Só não usava uma calça "coronha" dessa!
Tu já mandou comprar assim, foi? Ou tu mandou fazer?
- Tá falando comigo, é? - Tô, velho. Oxe.
Tá "greando" com a minha cara, é, seu frango?
Não, velho. Parece um pescador. Não é um pescador?
Tá tirando onda é?
O que tu quer com a minha calça. Vai tomar no teu cu.
Vem, vem!
- Para! Para! Polícia! - Imprensa!
Samantha!
Filho da puta!
Vai para a van, caralho!
Vai, filho da puta!
"Bora", Charles!
Vai, Charles! Porra!
Vai, caralho!
Tão bem trás, caralho!
E aí, gata?
A festa foi boa, hein? Até pula-pula.
Faltou tu, né?
Tu não tem jeito, né?
Tá me achando com cara de polícia?
Não.
Só tô mostrando que tô sossegado.
Tu só vai sossegar quando tu tiver partido dessa pra melhor, Gustavo.
Vai, entra logo.
Porra, minha irmã!
Agora tu botou pra "torar" mesmo.
Caralho, ficou "invocado" esse negócio aí.
A criançada queria estourar tudinho, eu que não deixei.
Eu sei que tu gosta. Deixei pra tu.
- Como é que você tá? - Tô bem.
- Papai estava morrendo de saudade. - Também.
Eita, e isso aqui?
- Quem te deu? - Mamãe.
- Foi mesmo? - Sim.
Que presente "invocado"!
Você trouxe algum?
- Eita... - Eu não acredito!
Não tô acreditando, Gustavo.
É brincadeira. Tá na moto.
Brincadeira sem graça.
Francisco, papai vai ali pegar seu presente e volta logo, viu?
Tá.
Vá buscar, então, vacilão.
"Bora", "bora" se arrumar.
Tá bonito, criei todinho ele e tá a cara do pai.
Todo mundo quietinho aí atrás, porra!
Aí, meu irmão, como é que sai dessa porra?
- O quê, irmão? - Como é que sai desse lugar?
- Ali, brother. - Fala, porra!
- Deixa a gente sair! - Polícia aqui, entra, "bora"!
Filho da puta!
- Vai, caralho! - Pra onde, porra?
- Calma! - O que tá acontecendo?
- Segue em frente! - Pra onde?
- Tira a gente daqui! - Para esse carro!
"Bora", porra, sai da frente.
- Esquerda o quê, porra? - Calma, brother!
- É esquerda ou direita? - Calma, porra!
- Filho da puta! - É lá na frente, esquerda!
E aí, meu irmão?
Demoraram pra caralho!
Ele pirou, velho!
O cara pirou!
Eu lá quero saber de cara que pirou?
E o Charles?
O Charles matou o paulista!
Tu tá "variando", meu irmão!
E tu não "fizesse" nada para impedir?
E eu ia fazer o quê, brother?
Era o doido que estava no comando.
Caralho!
Não era tu que queria me filmar no galpão?
Pega essa porra e me filma.
Eu não vou fazer isso.
Filma!
É que tá um pouco escuro aqui.
Mas se você...
abrir aquela janela, pode ficar mais claro.
Tá achando que eu sou otário?
Não.
Não!
Você falou que não tem ninguém em volta da casa.
Que só tem alma, né? Então...
Se você deixar
essa janela aberta, ela tem grade e não tem como a gente escapar daqui.
Conta tua história agora.
Eu era meio largado, meio sem pai,
ficava vagando, sem nada pra fazer...
mas eu nunca quis ficar aqui...
que nem o Ricardo.
Eu, não.
Eu queria ir pra América.
Trabalhar no Congresso.
Esse lugar aqui tem muita lembrança.
Muita assombração.
Assombração de verdade, dessas que ficam vagando por aí.
Como é que um lascado de Serra das Almas, que nem eu,
vai parar em Washington?
Quando tu não tem dinheiro, tu tem que aprender a observar.
Observar tudo.
Você tem, tipo, que imitar as pessoas.
E aí, de repente,
esse negócio de poder ser qualquer coisa
vira um poder.
Um superpoder.
Primeiro, eu fiquei amigo de político.
É muito fácil ficar amigo de político.
Na verdade, é fácil ficar amigo de qualquer tipo de gente.
Parece que as pessoas de um certo núcleo,
de um certo grupo,
elas frequentam sempre o mesmo lugar.
Tipo você e a sua gangue?
É.
Ou você e sua.
Eu entrei pra política pelo Senado.
E aí, quando tu vira político...
tu fica amigo de artista,
tu fica amigo de jornalista...
Às vezes, é até amigo de infância.
Aí eu comecei a ganhar dinheiro.
Comecei a entender como as coisas funcionavam.
Comecei a aparecer nas matérias.
Engraçado...
que eu sempre apareci no fundo das matérias,
mas nunca assim.
Nunca uma entrevista só comigo.
Será que a sua história
não tem o menor interesse? Ninguém quer te ouvir?
Será que é porque você não interessa a ninguém?
Vamos?
Vocês precisam comer.
Cadê esse cara, porra?
Pra sua perna.
Não tô acreditando nessa porra.
Os caras brigaram, mas o Charles matar o cara?
Tu não tá me "tirando", né, velho?
Eu já não te disse, pô?
O cabra estava mandando no outro, o outro não gostou, meu irmão.
Tiro na "caixa" do peito, mano. Merda do caralho!
Os caras eram amigos, porra.
Os caras eram irmãos.
O que foi que tu "fizesse", Charles?
Caros passantes desse lugar em que estamos.
É chegada a hora.
Peço que não se assustem, ou se entristeçam.
É um momento único.
Eu nasci aqui.
Bem aqui!
Nesse lugar e nesse tempo,
e até antes de tudo isso acontecer, eu não existia.
- Nem para mim, nem para vocês. - Calma, Charles...
Depois daqui,
não existem dois lugares.
Vai todo mundo para o mesmo buraco.
- Para com essa brincadeira, Charles. - Eu nunca estive certo aqui.
Também nunca consegui ir embora.
Primeiro por "mainha",
depois por Ricardinho e tu.
Tu me entende, doido?
- Tu me entende, Gislano? - Meu irmão...
Te acalme.
Eu sempre achei que eu fosse primeiro, Gislano.
Mas já que tu vai,
não precisa voltar pra me dizer como é.
Eu nunca fui um tipo curioso.
Eu sei esperar.
Meu irmão, marca, não.
Tu nunca foi meu amigo de verdade, Gislano.
Tu sempre só me usou
pra levar a culpa das tua merdas.
A gente só tá aqui por causa da merda que tu fez!
Eu fiz merda?
Eu fiz merda, Gislano?
Tu sempre se achou superior demais,
mas tu não é melhor do que ninguém que tá aqui.
Abaixa a porra da arma, Charles!
Eu não tardo a chegar, não,
mas se por acaso a gente se encontrar do outro lado,
finge que não me conhece.
Sempre soube, Gislano,
que um de nós dois
ia morrer nessa pedra amaldiçoada aqui.
Charles, abaixa a porra da arma!
Tu é um verme!
É isso, meu irmão!
É viver "peixe",
ou morrer na "greia".
Charles?
Charles?
Charles, meu irmão.
Não, Charles.
Charles.
Acabou a palhaçada, porra!
"Simbora"!
Se acalma, porra!
Quem manda aqui agora sou eu, porra!
Cadê a porra das pedras?
Se tu me disser, vai ficar todo mundo vivo, tá entendendo?
Olha só, meu irmão, meu nome é Beijo de Boca!
Prazer! Vou dizer pela última vez!
- Cadê a porra das pedras? - Não tem pedra nenhuma!
E tu, passa para o quarto!
Tu agora vai ver como é que a orquestra vai tocar, "mizera"!
Vou te deixar aí pra tu pensar um pouquinho.
Quando eu voltar, se tu não me contar o que eu quero ouvir,
tu vai ser o primeiro a "rodar".
E vocês, aproveita a companhia do cidadão
pra convencê-lo ele a falar,
porque senão vai sobrar pra todo mundo!
Beijo de Boca não tem compaixão.
Tu não tem mais nada pra me perguntar?
♪ Tu já não és mais ♪
♪ A razão do meu viver ♪
♪ Já tenho outro alguém ♪
♪ Bem melhor do que você... ♪
♪ ...Tudo o que passei ♪
♪ Com você já esqueci ♪
♪ Só quero lembrar ♪
♪ Dos bons momentos que eu vivi ♪
♪ É bem melhor que eu vá embora ♪
♪ Pra bem longe de você ♪
♪ Eu já não sou mais seu amante... ♪
♪ ...Procure me esquecer ♪
♪ Você... ♪
♪ ...Vai morrer na solidão ♪
♪ Porque não pensou ♪
♪ E magoou meu coração ♪
♪ Tudo o que passei... ♪
♪ ...Com você já esqueci ♪
♪ Só quero lembrar ♪
♪ Dos bons momentos que eu vivi ♪
♪ É bem melhor que eu vá embora ♪
♪ Pra bem longe de você ♪
♪ Eu já não sou mais seu amante... ♪
- Tá atrapalhando. Que isso? - Parou, palhaço!
Parou, alma sebosa!
Vaza tudinho, vai! Vaza!
Vaza tudinho aí, pô!
- "Bora", "bora"! - Vaza!
- "Vaza, vaza"! - Tá atrapalhando.
- A gente pode começar de novo? - Continue, por favor.
- Vamos de novo? - Continua, maestro.
Então, tá.
"Simbora", Serra das Almas!
♪ Tu já não és mais ♪
♪ A razão do meu viver ♪
♪ Já tenho outro alguém... ♪
Tinha dois toques diferentes,
as mangas caindo, não.
Oxe! E onde entra os saguis nessa história?
Não tem nada a ver os saguis!
Que tal a gente fazer um pouco de silêncio pra ver se ouve o som de novo?
Hum, acho que agora parou mesmo.
E como era esse som, Lori?
Era assim: "Tá, tá, tum! Tá, tá, tum"!
Ah, eu acho que sei o que é!
Sério? O quê? O quê?
Todo mundo, fechem os olhos.
...que vem chocando o país.
O sequestro da equipe de jornalismo que investigava desvios de dinheiro
e o envolvimento de um famoso político em crimes,
está desaparecida há dois dias.
A polícia vem buscando pistas que levem ao paradeiro
das jornalistas Samantha Bittencourt e de Luísa Barbosa,
a última filha do dono da rede de comunicações, Roberto Barbosa,
além do cinegrafista...
Quatro dias, não tem uma notícia?
- Nada. - Nada.
- Nada. - Impressionante.
Ih, olha lá!
Tô bem?
- Por favor, senador. - Pois não?
Uma palavrinha sobre o sequestro.
Bom, eu...
peço encarecidamente,
em meu nome e em nome de toda a minha família,
que quem tiver alguma pista, por favor, ligue pra polícia!
Eu e o Roberto estamos aqui nessa vigília.
Deus nos uniu
e há de trazer de volta todos aqueles que amamos.
E agora, mais um capítulo desse mistério
que vem parando o país.
O chefe do tráfico, Gustavo Nascimento,
mais conhecido como "Beijo de Boca",
está desaparecido.
Tudo indica que ele também foi sequestrado.
A gente tá aqui na casa da ex-mulher de Beijo de Boca,
que vai falar um pouco do que aconteceu.
Primeiramente, eu quero deixar claro que eu sou a atual mulher dele,
eu sou mãe do filho dele.
Ele foi só sair pra pegar o presente do "pirraia",
a gente escutou um barulho de pneu freando, uma gritaria.
Eu fiquei com medo, né? Eu demorei pra sair.
Quando tudo acalmou, eu saí.
A moto dele estava lá, mas ele tinha sumido.
Você acha que ele não tem participação nenhuma nesse crime?
Não, não!
O Gustavo errou nessa vida,
mas ele é bom.
Ele não teve, assim...
Ele não teve uma vida de bacana.
E como a senhora explica o fato dele ter
desaparecido justamente no dia
em que a equipe de jornalismo foi sequestrada?
Então quer dizer
que desaparecem com ele, ele é o culpado?
Essa porra desse país é uma merda mesmo!
Vocês deviam estar procurando por ele, ele é vítima também.
Porque aqui, ó...
Aqui, toda vez que uma pessoa é vítima, ela vira culpada.
E os culpados estão soltos por aí!
Foda-se! Sai daqui, sai da minha casa, pega teu beco!
Vai! Sai!
E aí, brother?
Tu vai me dizer agora onde é que estão a porra das pedras?
Hein?
Meu irmão, eu falei que não tem pedra nenhuma, porra!
Pois eu vou te mostrar como eu faço um cabra falar!
Vou começar arrancando teu dedo, porra!
Esse dedo aqui, meu irmão?
Para!
Você que é linda, né?
- É? - É.
Que isso? Solta ele. Solta ele. Para com isso.
- Que brincade... Não, me solta! - Vai me dar beijinho também.
Ricardo! Solta ele. Para!
Me solta! Ricardo! Não! Me solta!
Me solta, por favor! Me solta! Me solta!
Não, por favor, me solta!
Não. Me solta!
Não, por favor! Não faz isso!
Não faz isso!
Tu fica com esse paulista e não quer ficar comigo?
Eu nunca vou ficar com um fodido igual você.
Eu tenho nojo de você!
Não, por favor!
Não! Não faz isso.
Que merda de vida, hein, Gislano?
Queria conhecer tudo,
deu a volta em todo mundo...
e vai morrer aqui, onde você começou.
Quer falar mais alguma coisa?
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