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Original subtitles

Pavão misterioso, pássaro

corroso, tudo é mistério

nesse teu voar. Ai, se eu

corresse assim, tantos céus assim.

Muita história eu tinha pra contar

Ganheiro?

Voltou?

Tá com sede?

João.

Estou pronto.

Eu

tive

um sonho.

Sonho que a cidade deve mudar o mundo.

E dá pra... Saramandaia.

O que que significa?

Saramandaia? Pra cada pessoa pode ser uma coisa diferente.

Mas pra mim... É o

começo de um novo tempo, mãe.

Ah, que banda fica, bole -bole, hein?

Bole -bole?

Fica pra banda nenhuma.

Bole -bole desbandou, moço. Vai virar Saramangaia.

Gente, os armandistas estão chegando.

Estou colocando o protocolo correto.

Até parece que o Banzé está rolando agora, rapaz, ao vivo.

E tal, miolo mole?

Respira só.

Viva mole mole!

Que for doce

esse!

Eu não sabia que você estava em casa.

Deixa eu ver o que esses caras pintados estão desapontando.

É tipo um óculos, pai.

Olha a língua da gente, menina. Você não vai entender mesmo.

E aí, Zico? Ela está te chamando de ultrapassado.

Está aí uma coisa que Zico Rosado não vai ser nunca.

Está para nascer quem vai passar na minha frente.

Pelo menos abaixa o som. Está muito agritarista. Essa internet.

Pena que não dá para botar a mordaça nisso aí.

Que nem você proibiu o Janal do Circular.

Eu não proibi nada.

O jornal falava mal de mim. Eu fui lá, comprei e fechei.

Tenho o direito de fazer o que eu quero com o que é meu. Ou não tenho?

Boa cidade não é sua.

Mas o nome é.

E é imestível.

O que é?

Que é café.

Que galerinha, meu Deus. Que galerinha é você?

Vida, vem ver isso.

Não, não, não.

Não, não, não. O mundo já tem invencionista de nós.

Não, não. O que eu preciso é de alguém que desinventar. Eu tenho que dar razão

para as galinhas.

Oi,

padrinho.

Acabaram de me enviar o novo anúncio da nossa Boli Boli. Fizeram do jeito que

você pediu. Dá uma olhada.

Cachaça Boli Boli, a

número um no Brasil e no mundo. Ficou bastante

ótimo, Carlito.

Você já leu o relatório, Padrinho?

A gente bateu todos os recordes de exportação e consumo interno.

Aquela destilaria escocesa voltou a me ligar.

Eles querem sociedade.

A nossa marca vale em ouro.

Você não pode deixar de mudar o nome da cidade.

A nossa imagem está associada ao nome.

Para mim, estratégia, tradição é o nome.

A gente pode ir embora e sair há 150 anos na praça.

Se mudar, a gente perde o quê? A gente perde mercado, prestígio. Eu não sou

homem de perder nada.

Ah! Droga! Caiu formiga no teclado aqui, caiu formiga pra todo lado.

Quem quiser que saia, gole, gole, vai virar Saramandaia.

Quem quiser que saia, gole, gole, vai virar Saramandaia.

Se for rosado, é mutreteiro. O seu nariz é um formigueiro.

Se for rato...

É o povo que vai decidir o nome da cidade.

Eu dei um dinheirinho para os vereadores votarem contra o projeto, mas acho que

o adjetório foi pouco.

Foi querer ser muquirano.

Deu nisso.

Embora.

Atualmente não se possa mais confiar nem em um político comprado.

Gente desfalavrada!

Digo o que está falando.

O quê?

Carlito, um vereador meu bateu as portas.

Seu Cazuza, figura ilústria da cidade, é a primeira vítima dos seramandalhas.

Eu vou bolar uma estratégia pra usar essa morte a nosso favor. Já te retorno.

Temos que julgar a culpa nos moleques. A Célia e o Pedro.

Filhos daquela mulher ardilosa.

É uma questão pessoal.

É a família Vila que tá acessando o povo contra mim.

30 anos.

Mas eu não vou admitir esse trocadilismo saramandista, não.

Eu tenho aqui no rosto.

Eu vou acabar com esses aloprados.

Não vai ficar pedra sobre pedra.

Cadê?

Traiçoenta.

Vai ser com o doente, vai ser agora.

Para. Mãe. O que? É a primavera salamandense, mãe.

Então você vai ver o que é que eu vou fazer com essa primavera salamandense.

Você vai ver. Mãe, mãe.

Você não pode fazer isso, dona Redonda. Eu faço o que eu quiser.

Malcriento. Dona Redonda.

O que foi, dona Redonda? Posso saber o que aconteceu para deixar a senhora

assim, furibunda, desse jeito?

Senhor prefeito, esses aguacentos ficharam a frente da minha casa. Mãe,

fichação.

É grafite. É arte.

Arte.

Arte.

Arte. Isso é sujismo.

Mas que decepitude.

Quer dizer então que Félia e Pedro Vilar colocaram minhoquismo e aramanqueta na

sua cabeça?

Para aí, dona Renata. O que é isso?

Escuta primeiro as nossas propostas de mudança. Mas não... Nunca na história

dessa cidade houve um governo tão corrupto quanto o do Zico Rosado. E todo

aqui sabe disso.

Corrupto? Mas tanto é que ele nem foi reeleito para a prefeitura, dona

Mas nunca aprovaram uma dica contra ele?

O resto, o resto é intriga. A gente conseguiu eleger um novo prefeito.

Vamos dar o nome dessa cidade para acabar de vez com a herança da família

Rosado. Vamos varrer esse passado podre, dona Redonda.

Prefeito, não se demora, viu, seu Zico Rosado?

O senhor fique à vontade.

O senhor fique a seu gosto. O senhor fique bem.

Aqui entre nós, seu Zico, eu totalmente concordo com o senhor. Eu acho essa

ideia de trocar o nome da cidade uma traição aos mortos. Os mortos não votam

plebiscito. Mais do que trair os mortos, seu encolheu, é renegar os fundadores

da cidade. Eu descendo deles.

Foi meu tataravô Serapião Rosado quem fundou e batizou o polibólio.

Então... A situação é grave, seu Lua Viana.

Um homem morreu.

Acabei de saber.

Seu Cazuza da Farmácia.

Eu estava lá. Eu vi tudo.

As pessoas estavam discutindo e, de repente, no acaloramento da discussão,

acaloramento do bate -boca, de repente, o coração... Estavam discutindo

sobre essa maldita votação. Ele era um dos meus vereadores.

Um bolibolense juramentado.

Foi um Deus nos acuda.

De repente o Cazuza caiu. E outros vão cair. E a culpa vai ser do prefeito.

Não, não fui eu. Foi a Câmara dos Vereadores que resolveu fazer o

O senhor pode não ter culpa dos antecedentes, mas é responsável pelos

subsequentes. Tem que botar ordem. Não, não. Está tudo em ordem.

O povo é que vai decidir se a cidade continua a se chamar Boli Boli ou se

para Saramandaia. Isso é democracia, seu Zico.

E muito embora o projeto seja do meu irmão, eu não tenho preferência.

Isso é um gibão.

João, meu filho, muito obrigado por ter atendido o meu chamado.

Eu sei que esse dia não está sendo fácil para você.

Estou indo para o velório do seu casoso, padre.

É por isso mesmo.

Santo Dias, padroeiro da nossa cidade, sabe muito bem que eu não quero abusar

seu dom.

Mas essa questão não veio.

E eu aqui com essa minha lombalgia...

O padre quer que eu toque o sino da igreja, é isso?

E eu toque de finado. Ah, você acha que consegue?

Faz tempo que você não pratica. Pra evitar mexer e cansa de umas e outras

Mas já que é um pedido do senhor, e é pro seu casuza, vamos lá.

Eu nasci ontem, Sr. Boviana.

É óbvio que eu não acredito nessa falatrice de que o senhor não apoia o

-troca mudancista do seu irmão. Essa arte manha, charamandista, vai me

prejudicar. Nem eu, nem o meu irmão somos artimanhosos.

Ele é vereador, teve uma ideia, apresentou o projeto e a Câmara decidiu

votação. Tudo nos conformes da lei.

E o senhor sabe muito bem que o povo me elegeu porque eu sou apolítico. Eu sou

neutro. Neutro!

O senhor vai se casar com aquela desmiolenta da Célia Vilar que anda

saramandando por aí contra mim? Não misturo vida pública com privada. Também

me meto na briga entre a família Rosado e a Vilar. Pois eu acho que o senhor e o

seu irmão fecharam com a família Vilar para me apiar do poder. E mudar o nome

cidade é um golpe das elites para mandar a família Rosado para as cucunhas.

O senhor precisa ouvir melhor a voz rouca das ruas e das urnas, Fiozico.

É por isso que o senhor não foi reeleito e eu venci. Olha aqui.

Eu já fui prefeito tantas vezes que eu até perdi a conta. E se eu quiser, daqui

a quatro anos, eu volto nos braços do povo. Mas agora é a minha vez de

Amanhã eu vou fazer um comício bolibolense.

E que a raça dos vilar não apareça na praça. Se houver uma kizumba, a culpa

ser dele e sua.

E a que hora você vai ter esse comício?

Na mesma hora do enterro do seu Cazuza.

Eu quero que o caixão passe na mesma hora para o povo ver que um dos meus se

vítima desses malditos saramandalhas.

Não, mas assim o senhor está querendo é distorcer a situação.

Ninguém teve culpa dessa morte. Aquele homem já colocou o coração pela boca

várias vezes antes.

O que aconteceu agora foi uma fatalidade.

Seu Zico Rosado, eu acho melhor o senhor desmudar a data do comício.

Eu posso saber por quê? É porque amanhã de manhã vai chover.

Tá me doendo a terceira costela aqui da direita e quando isso acontece é chuva,

com ventania.

Eu não acredito, o céu tá limpo, lavado e enxaguado.

Eu acho melhor você escutar o que você encolheu.

Desde que aquele boizebu pegou ele e quebrou tudo que foi o resto do corpo,

ele não falha na previsão do tempo.

Independente da dor que eu sinto nos meus ossinhos, eu sei o tempo que vai

fazer. Grato pela previsão meteorológica, mas o comício e o

Sai na mesma hora, nem que chova cabelo de sapo.

Faz mais de século que os Rosário e o Zilar não param de brigar.

Isso tudo só vai acabar quando uma família destruir a outra.

Pronto.

Cuida dela, tadinha. Pode deixar, Dona Zélia.

Ah, tá.

Bom dia.

Bom dia.

Surpresa boa.

Fiquei muito orgulhosa do que você disse lá na cidade.

Eu sei que no fundo desse coração aqui, nosso prefeito também é um mudancista. O

prefeito não toma partido.

Mas nesse coração aqui só tem lugar pra uma coisa.

Zé Linha, eu preciso conversar com você.

Espera. Espera.

Olha,

primeiro eu quero que você entenda que minha situação é difícil.

Ninguém acha que eu sou neutro.

Eu tenho que ser, é nisso que eu acredito.

A cidade está partida e eu sou o prefeito de todo mundo. Eu preciso ser

conciliador. Então, por favor.

Por favor, colabora pra não ter furdunço no começo do zico.

Dane o formiguinho do zico rosado.

Eu ardei o ódio no meu avô por aquela família. Mas tudo é motivo pra vocês

brigarem, né? Terras, negócios, agora o nome da cidade.

E eu fico no meio.

Desculpa.

Não vamos deixar eles afetarem a gente.

A gente vai se casar.

A gente vai ter a nossa família.

Ela já começou.

Você tá grávida.

Tem certeza?

Meu filho já tá crescendo. Aqui.

Olha,

meu amor.

Eu prometo que eu vou fazer vocês dois muito felizes.

Eu fui no salário.

Sua mãe disse que você estava desachada.

Imaginei que você estivesse aqui.

Está tão triste, João.

Perder meu pai assim.

Eu estou aqui.

Eu não vou deixar nada de ontem acontecer.

Você não podia ter feito isso comigo, Carlos.

Você não podia ter feito isso.

Eu nunca... Eu nunca vou te perdoar por ter ido atingir me de crime.

Não vou perdoar você.

Só mais um eu gasgadar.

Em homenagem ao falecido que cá entre nós era bom de copo.

Sabia das coisas.

Vá para dentro.

Diz que traz ela.

Vai trocar esse vestido, Marciana.

Isso lá é roupa de você ver lá seu próprio pai desassuntado.

Boa noite.

Boa noite a todos os presentes. Boa noite, professor. Boa noite.

Boa noite ao ausente.

Aqui jaz um homem de grande merecedência.

Meus pêsames, Dona Maria Paradeiro.

Que desgraça.

Obrigada, professora Distórbola.

É uma desgraça mesmo.

O passamento do nobre vereador está envolto nas brumas do de saber.

Como foi que tudo sucedeu mesmo?

Foi na pensão da dona Risoleta.

Eu e o falecido, a gente não assinava embaixo de uma poção de coisa.

Mas era amigo.

A gente estava bebendo, conversando, né, seu encolhão?

Foi depois dessa cervejação que todo mundo começou a discutir sobre o nome da

cidade. Aí ele ficou nervoso e, de repente, ele...

O danadinho engoliu de novo o coração.

Sempre que ele perdia as estribeiras, botava o coração pela boca.

Mas sempre segurava o bichinho a tempo e voltava a engolir.

Dessa vez, acho que engoliu errado, coitado, na pressa.

É, o coração se desencaminhou, foi parar em outro lugar.

É uma grande perda.

Nossa causa é deveras lamentável.

Cazuza morreu defendendo o Boli Boli. O nome da cidade vai mudar.

Vai virar Saramandai.

O João Gibão nunca disse nada que não se realizasse.

Ele veio acontecer do antes mesmo de acontecer.

Medinho, Medinho, você chute, né? Você enxerga a tanice sua, Gibão. Enxerga,

enxerga.

Enxerga, acabou, pronto.

A culpa é sua, João Gibão.

Eu estou viva por sua causa.

Porque você pariu a desinfeliz ideia de mudar o nome dessa cidade.

E o nome do lugar onde a gente nasce para viver é sagrado.

Não se mexe. Bora com isso, mãe.

Respeita o pai. Você diz que vê tudo o que vai acontecendo, né?

Mentira sua.

Se fosse verdade, tinha previsto a morte dele em busteiro.

Sempre enfiado nesse jibão feito tatu no casco. O que é?

A sua corcunda é tão feia que não pode mostrar. É isso, esquisitão?

Todo mundo tem que ser igual a todo mundo.

Eu respeito o seu sofrimento, Dona Paradeira.

Eu te acuso, Junjibão.

Tudo de ruim que está acontecendo e que vai acontecer nessa cidade, a culpa é

sua.

E se pode uma coisa? O marido botava o coração pela boca. A filha só falta

fogo quando tá na agonia.

E o João de Mão, que é o esquisitão?

Ocrisismo.

João!

Espera!

Você não teve culpa da morte do meu pai, não. Viu?

Aconteceu. Se eu tivesse previsto que ele ia passar mal, ele podia estar vivo

agora, né?

Me desculpa.

Até amanhã.

Não! Fica comigo, João.

Estou precisando tanto de você.

Você está ficando muito acalorada. Mais forte do que eu, João.

É você que me deixa quente assim.

Não faz isso.

Você sabe que eu não gosto.

Por que eu nunca posso fazer um carinho a você?

Tem que ser assim, Marcia.

Tem que ser assim.

Filho, não adianta ficar nessa consumição toda.

Eu vejo a vida de todo mundo, mas nunca consigo prever nada pra mim, mãe.

Nunca. Que futuro eu vou ter desse jeito que eu sou?

Eu vou ficar sozinho, mãe.

Eu daria tudo pra ser normal.

Filho, você sempre foi especial.

Meu querido, cada um é como é, João.

Você tem que aceitar a tua natureza. Eu não aceito. Você tem que aceitar. Eu não

aceito, mãe. Eu não vou aceitar nunca.

Eu não vou aceitar nunca!

Esse aqui é um velório que dá gosto.

Animado. Bastantemente animado.

É bom quando tem um velóriozinho assim varando a noite porque distrai.

Ajuda a passar o tempo.

Nem fale.

Eu vou ver se tem mais farapatel.

Já imaginaram o que é não dormir há mais de dez anos?

Quero nem imaginar se ele resolve virar lobisomem aqui.

Dizem que ele só vira na noite de quinta para sexta -feira.

Boa noite para vocês.

Vem, meninos, cheguem mais.

Vamos nos despedir do nosso Zuzu.

Era um bom homem e bom freguês.

Ia toda noite lá na minha pensão apenas para tomar uma cervejinha, uma

cachaçinha, comer um amendoim, bater um papo.

Eu era capaz de me apaixonar por um homem assim, que virasse louco.

Mas é muito desaforamento vocês virem até minha casa.

Oh, ativista dos mosquitones.

Olha pra mim.

Isso aqui... Isso aqui é uma casa de família.

Pois a minha também é.

Tanto que os maridos de vocês batem ponto lá todas as noites.

Mas não foi pra ficar de trololó que eu vim aqui.

Foi pra me despedir de um amigo.

Que o nosso Zuzu descanse em paz.

Ele deve estar precisando de você.

Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece.

Quieta! Não tem a tua petice de se dirigir a mim.

Eu não sabia que você conhecia o fazendeiro. É coisa de trás -mente.

Quando eu vim de Porto dos Milagres, eu dei com os cortados aqui pela primeira

vez. Como é que você teve coragem de olhar para ele assim, criatura?

Me deu na telha a hora.

Sempre emberrei com esse formiguento.

Tenho direito de ter minhas emberranças, não tenho?

Eu é que sei de mim.

se encaminha à humanidade, trovejando na cúpula dos séculos, qual pororoca

estelar, na catalítica compulsão de cataclismas, ao

entrechocar dos anátemas eternos.

Meus concidadãos e concidadãs, não me encrepem, não me admoestem por espargir

ressumbrar aos quatro ventos qual fluticionante abantesma minha altanaria

valibolense!

Sai dos abstratos e entra no concretismo, professor.

Mas eu não comecei.

O senhor fica me devendo um discurso completo, hein?

E por isso eu considero um clamoroso vitupério renegar o nome com que os

fundadores batizaram nosso sacrosanto torrão natal.

Portanto, sem mais delongas, Viva Bolivale!

Esse cortejo agora é uma ordem.

Bolivolenses e bolivolensas, aí vai o corpo

do primeiro mártir da nossa causa.

O vereador Cazuza não suportou a infâmia que querem

praticar contra essa terra.

Morreu de indignação cardíaca.

E os assassinos são os paramandalhas!

O que está acontecendo aqui?

Cazuza. Oi, Cazuza.

Sou eu, Vitória.

Lembra de mim?

Lembra?

Quanto tempo.

Tá tudo bem com você?

Meu Deus, você tá gelado?

Tá tudo bem com você mesmo?

Não sei, não sei.

Amado seja Deus.

Pai, como é que você está se sentindo, pai?

Eu estou com sede.

Casuza, você está vivo mesmo, casuza? É claro que eu estou.

Onde é que eles acabam de me levar?

No cemitério, pai.

Você morreu.

Morri como, filho?

É como eu morri se eu tô aqui, gente.

É isso mesmo. O Cazuza não morreu. Ah, não, não, não, não. Não morreu, morreu,

que morreu, morreu sim. Eu mesmo que assinei o atestado de óbito, o senhor

encolheu. O falecido era defunto.

Só assim, na queda do caixão, o coração voltou pro lugar.

É, aí sim, faz sentido, é.

Ele reviveu. Ah, não, ele desmorreu.

O senhor Cazuza desmorreu.

Zico, já vai.

Não vai aproveitar o defunto revivido em favor da nossa causa, Borebolense?

Morto ele era um mártir.

Vivo não me serve pra nada.

E de repente o tempo fechou, gente. Uma doideira. No boletim não tava previsto

chuva. Eu tinha que pousar logo, de qualquer jeito. Era um risco continuar.

Agora eu não podia imaginar que tudo isso tava acontecendo, meu Deus do céu.

A sua saúde, casuza. A nossa.

A nossa.

A nossa.

A nossa. A nossa. A nossa.

A nossa. A nossa.

A nossa. A nossa.

A nossa.

A nossa.

Você me arrepiou.

Amor.

Mãe, eu tô pedindo pro pessoal lá na cidade buscar a mala de vocês, tá?

Está feliz, mãe?

Feliz por ter voltado?

Estou feliz de estar de volta com os meus filhos.

Oh, desgraceira!

Quanto mais vai, mais tem folha seca. Parece que brota do chão. Só para me

atazanar.

Cleide?

Nossa Senhora!

Minha nossa senhora, eu não acredito. Eu não acredito na vitória. Minha vitória.

Meu Deus do céu.

Deixa eu te ver, mas você não mudou nada, criatura.

Lá que você é potoqueta, né? Eu tô um caco.

A senhora... A senhora continua a mesma lindeza de sempre. Linda, linda, linda.

A gente só esperava a senhora. Casamento da Zélia? Mudei de ideia, resolvi

antecipar ainda.

Doutor Tibério, é que mudou muito, viu?

De tanto viver enfurnado nessa casa, tá até criando raiz.

Os meninos me contaram, mas eu não imaginei que estivesse nesse ponto.

O médico já examinou?

Já, mãe.

O médico até queria fazer uns exames nele, mas a vovó não deixou, não.

Estou aqui.

Vivo.

Tiago.

Oi.

Fala aqui com seu avô, mas fala direito, menino.

Oi, avô.

Beleza?

Cara, esse lugar é muito bizarro.

Quando cheguei de São Paulo, eu também estranhei, Tiago.

Daqui a pouco você se acostuma. Aqui acontece de tudo.

Faz muito tempo que tudo aconteceu.

Eu estou disposta a acertar os nossos desacertos.

Mas não depende só de mim.

Você também tem que colaborar.

Há feridas que o tempo não cura.

Qualquer arranhãozinho faz sangrar de novo.

Tio. Sai daqui, Vitória. Eu vinguei o seu tio.

E agora tem menos não -rosado no mundo.

Sai daqui, Vitória.

Aconteceu alguma coisa para descobertar você, filho?

A memória é tupenta, mãe.

Às vezes, só que a gente esqueceu o ruim e só lembrou das coisas boas.

Eu pensei que isso nunca fosse acontecer.

As feridas vão reabrir.

Tudo vai recomeçar.

Tiberio Vilar matou seu pai.

Um dia, você vai vingar a morte do seu pai. Mas para mim, para cada rosado

morto, um Vilar vai pagar com a vida sempre, Guilherme.

Você me entende?

Eu não sou homem de aceitar desaforismo.

Eu vou responder a esta provocação e vai ser agora.

A tua boca anda oca da minha

língua, da minha língua, a minha língua

anda a míngua.

Sem tua boca, sem tua boca,

exatos são teus olhos que invadem e me

revelam.

Exato é a cor do teu deserto, a dor do teu

deserto.

Exatos são teus beijos que me acertam, que a ti

revelam meu coração.

Exato é a cor...

Chá de

camomila.

Eu te achei tão consumida.

Olha, eu não quero ser enxerida não, viu?

Mas agora que a senhora ficou viúva, foi por causa do seu zico que a senhora

voltou.

Você se lembra de tudo que aconteceu quando eu fui embora, não lembra? Não dá

pra esquecê -los.

Mas você não sabe o que aconteceu depois.

Até hoje eu tenho um aperto aqui dentro do peito.

Eu enganei.

Eu menti.

Você não tem noção de como eu tenho vivido todos esses anos.

Cheia de culpa e de remorso.

Foi pra corrigir o erro que eu cometi e pra ter paz no meu coração que eu

voltei.

Meu.

Não. Vocês não podiam ter feito aquilo. O comissário é democrático.

Vocês podiam ter provocado uma tragédia. A gente tá no meio de uma guerra. Você

tem que tomar um partido.

Não dá pra você ficar em cima de mim. Eu não admito que você bote pressão em

cima de mim.

Acho que eu não entendi direito, seu Zico Rosado. Pois eu repito.

Quero que o delegado cuide do trancafiamento da quadrilha vilar. A mãe

filhos. Bota os três no cilindró. Bota os três no cilindró?

Que história é essa?

Você se esqueceu da própria terra esses anos todos e agora voltou para me

provocar.

Veio ajudar seus filhos a me desafiar.

Mas às minhas custas, vilar nenhum se cria.

Principalmente você.

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