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Zulu
Zino...
Vamos lá, venha.
Venha beijar a sua mãe.
Pegue a estrada de Saint-Chamas.
Siga pela D16 por 7km.
Na rotatória, vire à direita no Chemin de Miramas à Lunard.
Vire à direita no Chemin de Miramas à Lunard.
Você chegou.
Estiquem os braços. Levantem o queixo, sorriam!
Direita, esquerda, direita...
-Olá! -Me desculpe...
Interessado no curso? Venha comigo.
Nunca vi você. Você não é daqui?
Não.
Pagando a anuidade, sai mais barato.
Temos aulas livres, mas a Lola exige um nível muito bom.
O seu nível é bom?
É o nosso mural.
Estou procurando o Farid Chekib. Me disseram que ele morava aqui.
Eu...
Eu sou o filho dele, o Zinedine.
Um minutinho.
Abaixem o queixo.
Bem, está ótimo por hoje. Obrigada, meninas.
Vejo vocês na quinta.
Quem disse que o seu pai morava aqui?
O tabelião. A senhora não recebeu nada?
Não...
Não recebi nada.
Mas não tem nenhum Farid aqui.
Com certeza, é um homônimo.
Chekib é o que não falta.
O seu pai é de onde?
De Tipasa.
Tipasa é bonita.
Principalmente, o mar.
Não sei se você sabe, mas os Chekib
são originários da Espanha.
Eles foram expulsos no século 17.
Não foi em 1492.
Todos acham que os muçulmanos foram expulsos em 1492,
mas é mentira.
Os judeus que foram expulsos. Essa gente só fala besteira.
Falaram besteira para você.
Eu não vim aqui para acertar as contas.
A senhora é mulher dele?
Não.
Chekib é...
o meu sobrenome de solteira.
Diga a ele que a minha mãe morreu.
Não sei se ele lhe contou, mas eles nunca se divorciaram.
O meu cartão.
Caso ele tenha vontade de rever o filho.
O seu pai não está aqui.
Até logo, senhora.
Lola?
Tudo bem?
A minha mulher morreu.
Sua mulher?
É, a minha mulher.
Lola?
Me deixe em paz.
Catherine!
A Lola perdeu a mulher.
-Como é? -A mulher da Lola morreu.
-Como é que você sabe? -O filho dela apareceu...
Zinedine Chekib.
-Eles conversaram... -Ele está aqui?
Não, ele foi embora.
Eu fui ver a Lola, e ela disse: "A minha mulher morreu."
-Onde ela está? -No quarto dela.
Eu sinto muito, Lola.
Eu preferia ter morrido antes.
Não fale isso.
Por favor, pode me dar outra cerveja?
-Quer que eu vá buscá-la? -Não.
Você conhecia a mulher da Lola?
Ela nem respondia as cartas dela.
Vem jantar? O Fred fez uma sopa gostosa.
Não tenho mais gosto por nada.
Não mexa nisso.
Não consegui contar a ele.
Acha mesmo que ele não sabe de nada?
Olhe...
Está vendo?
"Zino... Chekib.
Afinador.
Le Piano du Passage."
Seja como for,
ele é artista, como o pai.
Venha cá.
Ainda não me disse.
Como ele é?
É um rapaz muito bonito.
Puxou ao pai.
Merda...
Quero dois murais de mármore para a minha irmã.
É isso ou nada.
Você vai ter seus murais bem lindos.
-Me passa a água? -Pegue.
Obrigada.
É para a alma dela.
Você ainda não me contou o que o tabelião falou.
Ele falou que, se ele for casado,
vai ser complicado para a herança.
Lola... Lola não é nome francês.
E Rachida é francês?
Olhe, é você com ele.
Você se parece com ele.
Cara de um, focinho de outro.
Lembra quando ela jogou todas as fotos dele fora?
É sempre assim quando a gente se separa.
Mas foi muito tempo depois.
Aqui é no Balé de Moscou.
Não dá para acreditar que ele é polígamo.
Um belo conquistador.
Ele nem precisou procurar muito longe.
Um dançarino com uma dançarina.
Preciso ir até Paris.
-Quer que eu vá com você? -Não.
Eu preciso ir sozinha.
-Você só me atrapalha. -Agora a culpa é minha.
Não, a culpa não é sua.
Estou com medo, só isso.
-Vai ficar tudo bem. -Até parece...
Eu abandono o menino e volto 25 anos depois.
Como quer que fique tudo bem?
Foi você que assinou o recibo da entrega?
Sim.
Lola Chekib.
Ah, não...
Farid.
Não vai voltar a fumar.
Farid!
Farid!
Farid!
Farid!
Farid!
-O que ela está fazendo? -A mala.
Ainda não terminou?
-Isso é ridículo. -Fui eu que tricotei o gorro.
Sei que você não gosta de homem, mas vai ter que fingir.
O que acha que está parecendo?
Fico na frente dele e falo:
"Eu sou o seu pai."
Você é pai dele, ele querendo ou não.
Acha que tenho cara de pai?
-Não, está mais para a nova mãe. -Pare.
Não brinque com isso.
Ele vai querer enterrar a Malika na Argélia.
Não vou poder nem ir ao túmulo dela.
Não tem vinho?
Fred, coloque uma música, por favor.
Não. Nada de música. Estou de luto.
-São 40 dias para os muçulmanos? -Sem música e sem TV.
Nada!
Sem beber e sem trepar também.
Você é bem vulgar de vez em quando.
Lola, você escolheu a sua vida.
Escolheu até o seu sexo. Não vai se deprimir agora.
Quando disse aos meus pais que era gay, pedi desculpas.
Seria uma tristeza ter um filho gay.
Você botou peitos e cortou o pinto,
mas continua um macho do sul.
Por isso que você tem tesão por mim.
Bom, meninas... Sei que vocês já estão sabendo.
Vou ter que me ausentar, mas vocês não estão de férias.
Vou deixar uns deveres.
Vamos fazer um círculo
e vamos treinar o passo 8, que ainda não está perfeito.
Fred, coloque a música.
Vamos, Rajah. Comece.
Assim...
Anna, para o centro.
Pense nas mãos, nas mãos...
Olhe para elas. Sorria.
-Bom fim de semana. -Não vai ao concerto à noite?
Não sei, vou ver.
Você não conhece alguém que se interessaria por um gato?
A Irene vai ao concerto com a nova colega de quarto.
Ofereça a ela.
-Até à noite! -Tchau!
Bemlelok?
Merda...
Bemlelok!
Olá.
Posso ajudar?
Estou procurando... Você tem tamborins?
Não. Nós não vendemos instrumentos.
Aqui nós só consertamos.
O Zino trabalha aqui?
Sim. Ele não deve demorar.
As partituras estão à venda.
-Oi. -Oi.
Tudo bem?
Uma senhora veio procurar você.
É mesmo?
-Uma cliente? -Acho que não.
Ela queria um tamborim.
Perguntou se você trabalhava aqui.
-Ela não disse quem era? -Não.
Ela é cinquentona, alta, morena, tinha a voz grave...
-Coroa safada. -Por que safada?
Sei lá, pelo visual.
Safada...
-Algum cliente marcado? -Sim. 15h, Panovsky.
Ok.
Eu já volto.
Estacionei mal a moto.
O seu pai não está aqui.
Você é mulher dele?
Por favor, tem alguma cabine telefônica por aqui?
Se for para telefonar, pode ligar do bar.
Sim, eu preciso telefonar.
Mas não do bar.
Antigamente, os hotéis tinham cabines telefônicas.
Quer o meu celular emprestado?
Piano du Passage, bom dia.
Eu gostaria de falar com o Zino.
Zino Chekib, por favor.
É o Zino.
Alô?
Alô?
Sim, sim...
É para uma afinação.
Que marca? Que idade?
Eu não sei...
É um piano de cauda.
Certo.
É no Hotel Richmond. Hotel Opéra Richmond.
Rua Helder, número 11.
Em Paris, no Neuvième.
Certo.
Bom, pode ser na quinta-feira?
Às 11h30.
Tudo bem. Na quinta.
Anote o meu celular.
É 06-74-94-13-74.
Está anotado.
-Muito obrigada. -Até logo.
Vai ser na quinta-feira.
Nunca fomos ao Hotel Richmond?
Não, acho que não.
É na quinta-feira?
É.
Pois não?
Sr. Bonnard, por favor.
Primeira escada, segundo andar.
-Olá. -Bom dia.
Eu gostaria de falar com o sr. Bonnard, por favor.
A senhora marcou hora?
Não, mas estou com a carta que ele me enviou.
-De que caso se trata? -É do caso Chekib-Zemouri.
-Posso marcar hora... -Não. Vou avisar que está aqui.
-Fique à vontade. Seu nome? -Chekib.
Senhora Chekib.
Senhor?
A sra. Chekib está aqui, do caso Chekib-Zemouri.
É o senhor Chekib.
Não é senhor, é uma senhora.
-Tem certeza? -Tenho.
Bom, eu vou recebê-la.
Está bem.
Sra. Chekib?
Sra. Chekib?
Pois não?
Sou eu.
É o Farid Chekib.
Eu sou o marido da Malika Zemouri.
Eu não me expliquei.
Pode abrir, por favor?
É claro. Vou abrir.
Quero dar a minha parte ao meu filho.
Espere... Quer dizer que virou "senhora"?
Só posso dizer que, agora, eu sou uma mulher de verdade.
Não estou contestando a sua feminilidade.
Mas, como não mudou o seu estado civil,
continua sendo um homem casado com uma mulher.
Tinha um amigo que via a Torre Eiffel e dizia:
"Torre Eiffel, que maluquice!"
Não...
Eu não mudei o meu estado civil.
Fica mais fácil para tratar da herança.
E nós pensávamos que você era polígamo.
Ele continua achando que sou mulher do pai dele?
Acho que sim.
Zino!
Cigarro.
Fazia tempo...
Ficou com saudade?
-Eu tive uns problemas. -Problemas?
Pensei que não queria mais me ver.
-Não, nada disso. -Não? O que é então?
Outra mulher?
Estou com fome.
Vou pedir comida.
Vai querer?
-Pegue. -Obrigada.
-Comida chinesa? -Eu gosto.
É gostosa.
Vamos lá...
Está gostando?
É lindo.
Lembra "My Funny Valentine".
É verdade.
Eu me inspirei nela.
Eu compus para você.
É mesmo?
É um pouco triste,
mas é linda.
A minha mãe morreu.
Quando?
Foi um aneurisma.
Foi inesperado, como uma tempestade.
Por que não me contou?
Não sei.
Eu sinto muito.
Eu não queria estragar o clima.
Ela adorava música.
Por causa dela, eu fui estudar piano
e virei afinador.
Na Argélia, ela era figurinista no Teatro Nacional da Argélia.
E, quando veio para Paris,
virou costureira.
Ela era legal. A gente se dava bem.
O seu pai faz o quê?
Não sei.
Não conhece ele?
Eu nunca vi o meu pai.
Não quer falar disso?
Você toca piano?
Que pena...
-Com licença. -Pois não?
Alguém daqui me chamou para afinar um piano.
Espere...
Sou do Piano du Passage.
Não tem nada anotado.
Vou me informar.
Mas pode ir. O piano fica ali no salão.
Certo. Obrigado.
Com licença? Ninguém marcou a afinação.
-Estou no Hotel Richmond? -Sim, está no...
Olá.
-Foi a senhora que me ligou? -Desculpe.
Foi um pretexto para te ver.
Eu devo ter me enganado.
-Conhece este senhor? -Sim.
Nos conhecemos um pouco.
Se precisarem de mim, estou na recepção.
Zino...
Nós precisamos conversar.
Vai me dizer o quê? Que é mulher dele? Irmã, talvez?
Nem mulher, nem irmã dele. Sou eu.
Eu sou o Farid, o seu pai.
É brincadeira?
Não...
Não é brincadeira. Eu sou seu pai.
Não chegue perto.
Não sei o que me impede de quebrar a sua cara.
Doente...
-Deixei aqui na semana passada. -Desculpe pelo atraso.
Vai ficar pronto amanhã sem falta.
-A que horas? -Às 14h.
-Obrigado. -Até amanhã.
-Como foi no Hotel Richmond? -Não deu muito trabalho.
Zino, ligaram do conservatório. Eles estão sem afinador.
É urgente. Eles vão fazer um concurso.
Legal.
-Tudo bem? -Tudo bem.
CIRCUNCISÃO ZINO
Sirva o último. Depois vou para o quarto.
Pois não, senhora.
É verdade, viu?
Não é brincadeira.
Eu gosto de ouvir a senhora tocar.
Obrigada. É muita gentileza.
Ela não vai atender?
Alô, Rachida?
É o Farid.
Farid, o marido da Malika.
Estou em Paris. O tabelião deve ter avisado.
Escute...
Ligue para mim, é melhor.
A qualquer hora.
Boa noite.
Boa noite, senhor.
Está precisando de óculos? Você é míope?
Desculpe, senhora.
Boa noite!
Boa noite.
-Tem algum caminho preferido? -Um que atravesse Paris.
Não está vendo uma morena alta?
Não vejo nenhuma morena alta.
Onde você está?
Estou na quadra muçulmana.
Tem várias.
Você tem um mapa?
Eu não preciso de mapa.
Farid?
Sim, sou eu.
É o Farid.
É a Lola.
-Está me reconhecendo? -Eu reconheci.
Não estava reconhecendo, mas tentei cruzar os dois.
Meu Deus! O que você fez?
Nada! Decidi retificar o trabalho Dele!
Você conseguiu.
Por Deus!
Você não economizou nos peitos, não é?
Veja só... É a terceira idade.
Se ela visse a gente...
A Malika não era do tipo que ficaria chocada.
Pelo menos, antigamente.
-Ela nunca me contou nada. -Ela sabia.
Ela sabia que eu era uma pobre coitada.
Eu nunca escondi nada dela.
E você?
Você tinha dúvidas?
Sinceramente, eu achava que você era gay.
Não. Sou um hétero que virou lésbica.
Foi ela que quis ser enterrada na França?
O Zino quis.
Ele queria que ela ficasse perto dele.
Eu também não quero ser enterrada lá.
Alô, sr. Chekib? Aqui é a vigia da Rua Poliyeau.
Eu estou com o gato da sua mãe. Pode vir buscar quando quiser.
-Olá. -Oi.
-Você é o afinador? -Sim.
Prazer. Por aqui, por favor.
Sei que é ridículo fazer essa pergunta,
-mas está melhor? -Estou deprimido.
Tem alguém aí?
Zino, sou eu!
O que faz aqui?
Eu disse que vinha arrumar a casa.
Você está fuçando aí.
-O que é isso? -Cartas do seu pai.
-Você ligou para ele? -A gente se encontrou.
Eu pedi alguma coisa?
Zino, não vale a pena guardar rancor.
A gente sempre se arrepende.
-Não é rancor, é ódio! -Bemlelok! Você achou o gato.
Posso levar para minha casa?
Ele vai se dar bem com a Caramel.
Zino...
Escute...
Ela sabia.
Foi ela que pediu o seu pai em casamento.
Acha normal meu pai ter virado...?
Estava escrito. É maktub.
Boa desculpa, esse maktub.
O destino é imutável, mas nós, não.
Ele nem deve ter mais pinto.
Zino...
Você é saudável, é um homem bonito...
Apesar de tudo, seus pais criaram bem você.
-E você precisa do pinto dele? -Sim.
Eu ia usar como amuleto.
"Minha querida velha amiga,
você salvou a minha vida.
Isso não tem preço.
Sem você, eu ainda estaria no exílio.
Mas sinto que você está me colocando em outra prisão.
Você diz que o nosso filho corre o risco de sofrer
por minha causa,
de ficar traumatizado.
Não é por minha causa.
É por causa do olhar dos outros. Você sempre soube de mim.
Nunca escondi nada de você.
Eu até me esforcei para ser como você queria,
mas não consegui.
Você viu que, às vezes, ficava como um drogado em abstinência.
Cheguei a sentir falta do exílio."
"Não sei como seria a nossa vida em outro mundo.
Então eu vou embora.
Devo tudo isso a você. Sim, eu sou teimosa.
Talvez seja a única coisa que puxei
do carrasco do meu pai.
Vou embora de Paris.
É o preço que devo pagar para continuar viva,
para não me atirar no Sena.
Agora, se o seu coração permitir,
e sei que ele é grande,
me deixe ver o nosso filho de vez em quando,
mesmo de longe.
Até mais, velha amiga. Farid."
Boa noite.
-Pode pedir uma pizza para mim? -A Quatro Estações?
Não, vou mudar.
Posso ver o cardápio?
Vou pedir uma Rainha.
Uma Rainha para uma rainha.
E um vinho tinto.
Que vinho tinto? Um Chianti?
Vamos de Chianti.
-Boa noite. -Boa noite, senhora.
Muito bem.
Nós podíamos vir morar em Paris.
Você bebeu?
Não!
Assim ficaríamos perto dele.
Eu não sei se quero mudar de vida na minha idade.
Ah, gatona... Você ainda é jovem!
Não é o meu caso.
O que ela disse?
Que o ar de Paris faz bem a ela.
Ah, não... É a capital das aberrações.
-Boa noite. -Boa noite.
Por acaso o Chekib está?
Sim. Espere, vou ligar.
Espere.
Pois não?
Aquele senhor do piano está aqui.
Posso deixar subir?
Não! Eu vou...
É o meu filho. Vou desligar.
Alô, Zino?
Alô.
Você está na recepção?
Estou, mas, se não puder descer...
Me espere. Estou indo.
Você também me pegou de surpresa.
Certo.
-Pode esperar aqui. -Não, vou esperar lá fora.
-Tudo bem. -Obrigado.
-Ele foi embora? -Está lá fora.
Desculpe. Eu demorei um pouco.
Não... Não tem problema.
Eu adoro motos. A gente se sente livre.
Uso para não chegar atrasado.
Eu vivo indo até a casa das pessoas.
Nunca imaginei que você era afinador.
Imaginava o quê?
Sei lá...
Se bem que a sua mãe dizia que você adorava música.
É mesmo?
Ela falava de mim?
No começo, bastante.
E depois...
Ela preferiu que a gente não se falasse.
-Quer um cigarro? -Eu parei,
mas acho que vou precisar de um.
Vamos pedir o quê? Quer uma garrafa de champanhe?
Não sei. O que você quiser.
Boa noite.
O que vão querer, por favor?
Não sei. Vou ver com o meu filho.
Duas taças de champanhe, por favor.
Não tenho champanhe.
Mas tenho um Prosecco excelente.
Ótimo! Traga uma garrafa.
-Bem gelado. -Pois não.
É muito triste, mas...
é o dia mais lindo da minha vida!
Que pai ridículo você tem...
Não sei se é a palavra certa.
Você tem razão.
Esperava encontrar um homem e deu de cara com uma mulher.
Você é parecido com o seu avô.
Tem os mesmos olhos dele.
Olhos de cigano.
Não sei se curto parecer com um carrasco.
Você leu aquela carta?
"Teimoso... A única coisa que puxei
do carrasco do meu pai."
Mas ele não era artista.
E você é muito mais bonito.
Eu escrevi aquela carta num trem.
Eu tinha esperança...
de que ela fosse me deixar ver você de vez em quando.
Mas a sua mãe também era teimosa.
E para você? O que ela contou para você?
Nada.
Ela disse que você tinha sumido.
Como quem sai para comprar cigarros e não volta mais.
Acontece que não foi exatamente assim.
Ou que você estava no Saara.
Grande Malika!
Ela era ótima para inventar histórias.
Mas espere...
Ela fez de tudo para virmos para a França.
Senão, eu ainda estaria no exílio.
Às vezes, eu me perguntava se você existia mesmo.
Você achava que tinha nascido por milagre do Espírito Santo?
Meu Deus... Devo estar horrorosa.
Com licença. Eu já volto.
-Está ótimo. Ficou lindo. -É aniversário de quem?
Da Caroline. Ela faz 20 anos.
Que bela idade!
Eu sempre sonhei em ter uma filha!
Procure Warda na internet! W, A, R, D, A.
Venha, Zino! Não seja tímido.
Meu filho não é lindo?
-Sim. -É, sim.
Venha! Não incomode o pessoal.
Não. Eu vou dançar para Caroline.
Vai ser meu presente de aniversário.
Feliz aniversário!
Sua mãe é divertida.
Eu não sou mãe dele. Eu sou o pai dele.
Zino!
Zino!
Tem vergonha de mim, é isso?
Mesmo que não queira, continuo sendo seu pai!
-Agora quer ser meu pai? -Exatamente!
Eu sou seu pai!
É isso!
O que está fazendo?
Levante daí!
Pare!
-Pare! Levante. -Me solte...
-Levante! -Eu quero morrer.
-Deveria ter morrido antes. -Faça alguma coisa!
Espere aí!
Você sempre bebe assim?
Vamos lá. Agora você vai dormir.
Vamos nos ver de novo?
-Vá para o seu quarto. -Diga que sim.
Venha...
Cuidado.
-Boa noite. -Boa noite.
Obrigada, meu Zino.
Está procurando alguém?
A Jacqueline não trabalha mais aqui?
Jacqueline?
Ela se aposentou. Estou no lugar dela.
-O tempo passa muito rápido. -Como?
O tempo passa muito rápido.
A senhora morou aqui?
Em uma outra vida.
-Bom dia! -Bom dia!
Essa senhora conhecia Jacqueline.
Senhora? Ela foi sua vizinha?
Não, eu não conheço.
-Ela disse que morou aqui? -Disse.
Eu não sei quem é.
Até logo. Bom dia.
Bom dia.
Lola!
Desculpe. Eu não queria incomodar você de novo.
Você não me incomoda nunca.
Eles já estão terminando.
-Agora, você tem cachorro? -Tenho.
Uma cadela. Ela se chama Caramel.
Desde que vim para cá, tenho tudo que quero.
Faz muito bem.
Olhe.
Meu marido e meu filho.
-Menino lindo. -Obrigada.
Precisava ter visto. Eu fiquei descontrolada.
A imagem do pai ainda está bem forte.
Não tem problema. Pense que o pior já passou.
Eu bebi um pouco e fiquei alegre. Eu sou assim.
Normal. É muita emoção.
Esta é com a Malika no ano passado.
Nas férias, em Barcelona.
Ela não mudou nada.
Nem uma ruga...
É uma pena ela ter partido tão cedo.
Ruim pra cachorro.
Eu não deveria falar assim. A Caramel não ia gostar.
Não é, minha linda?
Minha princesa...
Olhe para mim. Você é linda e vai ficar mais linda!
É bizarro como você se parece com ela.
É tão bom ouvir você me dizer isso!
A Malika sempre foi o meu ideal de mulher.
Você conseguiu.
Você virou uma bela mulher.
Obrigada.
-O nariz não ficou tão... -Eu queria um nariz à francesa.
-Oi. -Olá.
Encontrou alguém para o meu gato?
Sim. É um senhor que mora no 14.
Ele era amigo da sua mãe e vai cuidar bem do seu gato.
Ainda não sei...
Talvez eu fique com ele. Vou pensar. Obrigado.
-Sr. Chekib? -Sim?
Uma senhora morena, alta, distinta veio aqui.
Ela disse que era uma parente.
Você conheceu o meu pai?
Não. Quando cheguei, ele já estava na Argélia.
É ele.
A morena alta e distinta
é o meu pai.
E aí?
Venha aqui.
Venha aqui.
É o Zino Chekib. Deixe o seu recado.
Alô, Zino?
É a Lola.
É o papai.
Enfim, o seu pai ridículo.
Eu queria me desculpar...
Eu não tenho jeito mesmo.
Fiquei muito feliz ao reencontrar você.
Vou deixar o número do meu celular.
Deve ter aparecido aí, mas nunca se sabe.
06-20-12-24-06.
-Olá! -Oi.
-Vou avisar que você chegou. -Obrigado.
Estou atrasado?
Não, fui eu que cheguei antes.
-Tudo bem? -Tudo.
O tabelião me explicou o que você pretende fazer.
Agradeço, mas prefiro vender o apartamento.
Você é quem sabe. O apartamento ficou para você.
Não era de um teto que eu precisava.
Escute, Zino...
A sua mãe e eu nos amávamos.
Da nossa maneira,
mas nós nos amávamos.
Então por que foi embora?
Não imagina o sofrimento que é viver num corpo que não é seu.
Você nunca se perguntou,
uma vez, uma única vez, se eu precisava de você?
Ela se defendia,
mas sua mãe tinha medo da opinião dos outros.
Deixe ela descansar em paz.
Nunca mais fale dela.
Eu tinha medo de encarar você.
Estou cagando se tem uma vagina no lugar do pau.
Não me desrespeite!
O que eu faço? Vou lá?
Com licença. Se puderem me seguir,
já podemos entrar.
Recebi todos os documentos.
A transcrição da certidão de casamento está perfeita.
Os cônjuges se casaram legalmente
no regime de comunhão de bens.
O cônjuge presente, Farid Chekib,
e o filho, Zinedine Chekib,
vão dividir a herança da falecida.
Você nunca se perguntou,
uma vez, uma única vez, se eu precisava de você?
O primeiro amor é eterno.
Você vai até o céu!
Vamos lá!
Não quero ir tão alto.
O que foi?
Olhem para mim!
Mais devagar.
Só um pouco mais rápido.
Está bom?
-Eu vou cair. -Vamos para casa.
Enfiando a faca, hein?
Não é uma casa que está querendo construir.
É um palácio!
Espero que consiga morar nele um dia.
-Boa noite. -Boa noite.
Quer que eu peça alguma coisa? Uma pizza?
Obrigada. Fiz umas compras.
-O meu cartão não funciona. -Sem problema. Eu vou ver.
Eu nunca dancei dança indiana.
-Você é da Índia? -Sri Lanka.
Eu sou professora de danças orientais.
Eu era bailarina clássica do Opéra National d'Alger.
Eu sou argelina.
Tudo isso foi na Pré-História.
Nunca se sabe...
Fique com este, é melhor.
Lembra a Beyoncé, não acha?
Os invejosos dizem que não pareço com ela.
Eu acho que é parecida.
Obrigada. É muito amável.
Quer um autógrafo?
À vontade!
-Vamos viajar na lua de mel. -Para onde?
-Para Zanzibar... -Que maravilha!
Olá, Zino.
Eu liguei várias vezes, mas você não atendeu.
-Eu não estou sozinho. -Ah, é? Quem é?
Caramel, quieta!
Que droga...
Ela não podia ficar em casa. Está menstruada.
-Veio por causa disso? -Não, desculpe.
É por causa do seu pai.
Ela vai se recuperar, e vai ficar tudo bem.
Vai se recuperar do quê?
Ela tentou se suicidar. Mas está tudo bem, acredite.
Não quer ir visitá-la?
Não.
Eu não cedo a chantagens.
Pare de ser idiota! Ela ficou entre vida e morte.
Gostaria que seu filho dissesse: "Mamãe, eu quero virar mulher?"
Não, eu não gostaria. Mas também não o abandonaria.
É a minha tia Rachida.
Sou a Paula.
-Bom dia. -Bom dia.
Segredos... Como a sua mãe.
Você já é grandinho. Faça o que quiser.
-Tchau. -Tchau.
Você pensou em mim?
Eu fui um pai desprezível. Um marido desprezível...
A Malika tinha razão. Sempre pensei só em mim.
Um dia você vai parar de se culpar.
-Eu não nasci para ser pai. -Como sabe?
Ninguém lhe deu a chance de ser.
Você sempre teve ciúmes da minha mulher.
É normal. Eu amo você.
Diga que sou insubstituível.
Precisa que eu diga?
Que eu repita?
Eu também preciso que me digam isso.
Pode passar na sala aqui ao lado.
-Oi. -Pois não?
Eu vim visitar a Lola Chekib.
Ela foi internada hoje cedo.
Lola Chekib...
-É o Farid. -Chekib. Ah, sim.
Farid Chekib. Pegue o corredor e vire à direita. Quarto nº 1.
Certo, obrigado.
-Oi. -Oi.
-Zino, eu suponho. -Isso.
Catherine, a companheira da Lola.
-Ela está dormindo? -Sim.
-Eu volto depois. -Vamos tomar um café?
Claro. Se quiser...
Ela nunca dormiu tanto.
Mas, com tudo que ela tomou...
Felizmente, ela se enganou
e pendurou o aviso para arrumar o quarto.
Se não fosse isso...
Meu querido Zino,
não pense que o que eu fiz foi um pedido de socorro.
Eu nunca fui de fazer chantagem.
Tenho horror disso.
Antes do nosso encontro,
eu tinha a esperança de que, um dia, nos veríamos.
De repente, a minha vida perdeu o sentido.
Vou voltar para a minha família.
Você vai permanecer para sempre em mim.
Desejo o melhor para você.
Seu pai ridículo...
Lola.
Zino...
-Tudo bem? -Sim.
Eu estava sonolenta. Faz tempo que está aqui?
Pode acreditar...
que adoro um pretexto para ver você.
Eu juro... Desta vez, não fiz de propósito.
Mas você fez muito bem.
Não, não fez muito bem.
-Você fez bem de ficar. -Estou parecendo...
um travesti velho.
Está nada.
Você fica lindo de gravata.
Obrigado.
Me dê um pouco de água. Estou morta de sede.
Pegue.
Você me leva para passear de moto?
É claro, pai.
tradução ZÉ ROBERTO VALENTE
legendagem AUWE DIGITAL
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