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OS TELEFONEMAS QUE VAI OUVIR SÃO REAIS.
PELA PRIMEIRA VEZ, SERÃO REPRODUZIDAS TODAS AS GRAVAÇÕES POLICIAIS DO SEQUESTRO.
Olá, pais. Gostava de estar em casa com vocês.
Esperemos que isto acabe rapidamente.
Acabaram de ouvir a voz da Anabel.
Se as nossas exigências não forem todas cumpridas,
vamos executá-la.
Repito, ela será executada.
Enfrentámos todo o tipo de dificuldades
para encontrar a Anabel onde quer que estivesse.
Se virmos presença policial, fica sem efeito. Entendido?
A única ligação que tínhamos aos sequestradores era a sua voz.
Casa da família Segura. Diga.
Sempre que os sequestradores ligavam, era tudo gravado.
CHAMADA 5 CHAMADA 10
Primeira chamada, às 20 horas.
O porta-voz da família, por favor.
- Sétima chamada. - Casa da família Segura. Diga.
Décima quarta chamada.
Se quiserem ver a Anabel esta noite, entreguem o dinheiro às 23h30 em ponto.
Se ouvir o sequestrador 30 anos depois, sei que é ele.
Não me esqueço daquela voz.
- A Anabel está ilesa. - Isso é o que você diz.
- Está ilesa. - Isso é o que você diz.
Queremos o dinheiro para a libertar.
Às 9 horas, no mesmo…
Quanto tempo teve de passar
e quanto teve a família de passar durante aquele tempo.
Estou disposto a fazer tudo,
e a minha família também, para recuperar a Anabel.
Foi um braço de ferro com uns criminosos para salvar a vida de um ser humano.
A família sonha todos os dias que vê chegar a sua filha.
Espero que isso aconteça e que isto finalmente acabe.
LIBERDADE PARA A ANABEL
O sequestro da Anabel Segura chocou a Espanha nos anos 90.
Liberdade para a Anabel!
Foi como se estivesse a acontecer à nossa própria família.
UM ANO SEM A ANABEL JÁ CHEGA!
O sequestro da Anabel marcou um ponto de viragem
na investigação de sequestros em Espanha.
Uma das coisas mais difíceis com que lidei na minha carreira.
Queremos que nos diga, através da Anabel, o sítio onde nasceu a mãe dela.
Ouça com atenção. Não haverá uma segunda oportunidade.
Estava em jogo a vida de uma pessoa.
Tudo o que fazíamos, tudo o que dizíamos,
podia ter repercussões.
A Anabel está viva?
900 DIAS SEM ANABEL
EPISÓDIO 1 ONDE ESTÁ A ANABEL?
Talvez devido ao meu caráter…
… ou devido ao meu tamanho…
… eu sempre fiz de polícia mau.
CHEFE DA UNIDADE DE SEQUESTROS DA POLÍCIA NACIONAL
E quando faço a minha cara de mau,
é ouro sobre azul.
Décima primeira chamada, às 21h45.
Sim, diga.
Somos os sequestradores da Anabel. Já tem o dinheiro?
Passou muito tempo desde 1993, quando a Anabel foi sequestrada,
até hoje, que já estou reformado.
E, durante toda a minha carreira, especializei-me nos sequestros.
Estamos na urbanização Intergolf,
que é uma urbanização fechada dentro do complexo La Moraleja.
Vamos à residência da Anabel Segura.
Tornou-se uma obsessão para nós
encontrar a Anabel onde quer que estivesse.
É a casa à direita.
Vamos tentar reconstituir o que aconteceu
a 12 de abril de 1993.
A 12 de abril de 1993, numa urbanização perto de Madrid,
a urbanização Intergolf em La Moraleja,
Anabel Segura Foles saiu de casa para correr.
Tinha 22 anos na altura.
Foi aí que começou uma história horrível,
que fiquei a conhecer de perto quase dois anos depois.
Estamos reunidos num programa de televisão
que quer ser algo mais que um evento de solidariedade.
JORNALISTA
Pela Anabel. Pela sua libertação.
Este programa teve resultados excelentes em termos de audiências
e levou à resolução de sete dos dez casos tratados.
Este programa, com a ajuda de todos vocês, pretende que tudo isto acabe rapidamente.
Tudo aconteceu a 12 de abril de 1993.
Madrid era uma cidade vazia,
com aquele aspeto deserto que tem a capital
nas férias da Semana Santa.
A Anabel regressara de Granada no dia anterior.
Na Semana Santa, a família Segura fizera uma viagem em família.
O casal, Sigrid e José Segura, e as suas duas filhas.
Depois as raparigas ficaram na Serra Nevada para esquiar.
Gostavam de esquiar, sobretudo a Anabel. Ela tinha muita prática.
Estava tudo normal até…
A Anabel era muito responsável e estudiosa.
Então, decidiu regressar sozinha para estudar para os exames.
Ela estava quase a terminar a licenciatura em Gestão.
Voltou para Madrid um dia antes. Os pais dela ficaram na costa.
A decisão de voltar mais cedo foi uma decisão fatal.
Se não tivesse voltado mais cedo, talvez nada disto tivesse acontecido.
EX-CORRESPONDENTE DE EL PAÍS
A 12 de abril de 1993, a Anabel saiu de casa para correr.
Vamos agora em direto para…
Despediu-se da empregada doméstica, que se chamava Rosita,
e pediu-lhe para lhe preparar umas maçãs,
para ela comer antes de estudar.
… a convocação de eleições gerais para o dia 6 de junho.
Saiu por volta das 14h30 para correr à volta de La Moraleja, onde residia.
La Moraleja é uma urbanização de luxo.
Então, ela saiu do Intergolf e dirigiu-se para Camino Ancho,
sem qualquer noção do que ia acontecer.
Foi um acontecimento chocante.
POLÍCIA NACIONAL DE ALCOBENDAS
Pessoalmente, fiquei chocado.
Através do 112, recebemos uma chamada
de um jardineiro de uma escola em La Moraleja.
Ele ouvira vozes,
gritos de uma jovem a pedir ajuda.
Do passeio, ele vira dois homens
a fugir numa carrinha branca.
E, onde estivera a carrinha, foi encontrado um Walkman,
uma t-shirt branca e a camisola de uma jovem.
Foi o início de um caso que surpreendeu toda a gente.
À partida, logicamente, a primeira coisa que me ocorreu
foi que era uma organização terrorista.
Houve outro atentado esta manhã, em San Sebastián.
Terroristas detonaram um carro-bomba perto de duas carrinhas da polícia.
Quando a Anabel desapareceu, quando foi sequestrada,
a ETA era o único grupo que sequestrava pessoas.
Uma chamada da ETA para o jornal Egin confirmou a autoria do sequestro.
A principal preocupação do governo
é que um cidadão está a ser privado da sua liberdade por um grupo terrorista.
Em La Moraleja, havia muitos potenciais alvos
porque eram pessoas ricas.
Havia cantores, alguns políticos e empresários.
Sabendo que o pai da Anabel é um executivo de topo,
concluímos que o objetivo é extorquir o pai ou a sua empresa
para obter dinheiro para financiar ações armadas.
Naquela altura, a ETA costumava reivindicar logo os seus sequestros.
Daquela vez não.
Descartámos que fosse um sequestro da ETA ou qualquer grupo semelhante.
Eram criminosos comuns.
Quando a Anabel Segura foi sequestrada, eu estava na Primeira Unidade de Assaltos.
A partir daí, foi criada a especialidade de Sequestros e Extorsões.
Passado tanto tempo, as feridas já estão a sarar.
VICE-CHEFE DA UNIDADE DE SEQUESTROS
Foi um assunto que marcou todos os envolvidos.
Foi um batismo de fogo para todos nós.
Como os sequestradores costumam contactar a família por telefone,
o primeiro passo era pôr escutas nas linhas telefónicas
para gravar as chamadas e determinar alguma coisa.
Preparámos um dispositivo, aquilo a que chamo um "kit de sequestro".
Era simplesmente um gravador com um repartidor telefónico.
Não havia telemóveis quando a Anabel foi sequestrada.
A Internet estava nos seus primórdios, naquele ano.
A Internet comercial estava a começar. Nem sequer havia sites.
As pessoas comunicavam por telefone fixo.
No caso da Anabel Segura, montámos o kit na cozinha,
muito longe da sala de estar, onde estava o telefone principal.
Porque, quando começamos a gravar,
carregamos num botão e ouve-se um estalo.
E isso ouve-se do outro lado.
DIAS SEM A ANABEL: 2
Casa da família Segura. Diga.
- Sim? - Sim, diga.
Sr. José Segura Nájera?
Ele não pode atender agora. Quem está a ligar?
- Ninguém. - Ninguém?
Para a polícia no local foi muito claro, eram as pessoas que tinham a Anabel.
O sequestrador perguntou pelo pai.
Quando lhe disseram que o pai não podia atender, ele desligou.
Não soube como reagir.
Achámos que eles voltariam a ligar dentro de poucos minutos.
SETE MINUTOS DEPOIS
Casa da família Segura. Diga.
Sr. José Segura?
Ele tomou uns comprimidos,
está a descansar no quarto e não pode atender.
É urgente. É sobre a filha dele.
Está a falar com a pessoa certa porque fui nomeado pela família.
Sou o advogado Rafael Escuredo.
O Rafael Escuredo foi o primeiro presidente da Junta de Andaluzia
pelo Partido Socialista, partido do qual era militante.
Era muito amigo do José Segura.
Temos de atravessar o deserto quando há incompreensão ou oportunismo
e estou disposto a atravessar esse deserto.
Suspendeu a sua atividade profissional.
Mudou-se para a casa da família Segura e instalou-se no sofá.
Ele assume a tarefa tremenda de ser o mediador com os sequestradores.
Tinha de manter a calma. Não podia perder a cabeça.
Tinha de aguentar o que lhe dissessem ao telefone
e saber transmitir o que era melhor para a estratégia policial.
Sou o representante legal da família, por isso pode falar comigo.
Eles estão fora de si e nervosos.
Ouça com atenção. Não vou esperar pela resposta.
A filha deles foi sequestrada. Por agora, está bem.
Não lhe falta nada. A segurança dela depende de si.
- Certo. - Ou de vocês.
Têm de reunir 150 milhões de pesetas, pô-las num saco de desporto
e esperar pela nossa chamada no dia 16, às 18 horas.
- Dá-me papel. - Caso contrário…
No dia 16, certo?
Dia 16, às 18 horas.
Se não o fizerem ou se descobrirmos que avisaram a polícia,
a vossa filha vai sofrer.
Não estamos interessados na polícia. Queremos apenas…
Os sequestradores pediram 150 milhões de pesetas.
Nos dias de hoje, seriam cerca de dois milhões de euros.
Era uma quantia exorbitante.
Na altura, em Espanha, um milionário era alguém com um milhão de pesetas.
Um apartamento podia valer até dois ou três milhões de pesetas.
Logo, 150 milhões…
E ainda havia a pressão de fazer aquilo em muito pouco tempo,
porque em 48 horas era quase impossível reunir aquela quantia em dinheiro vivo,
como os sequestradores exigiram.
Aquilo era inalcançável, até para alguém aparentemente abastado.
Foi preciso montar uma operação policial
para o caso de eles pedirem a entrega imediata do resgate.
Era a nossa grande oportunidade para os determos.
E salvar uma rapariga sequestrada.
O GEO teve de ser ativado imediatamente.
O Grupo Especial de Operações
montou um dispositivo permanente de três homens na vivenda.
Fui à vivenda da Anabel Segura.
CHEFE DO SUBGRUPO OPERACIONAL DO GEO
O salvamento mais importante que o GEO realizara
fora a libertação do pai do Julio Iglesias.
Ele fora sequestrado pelo braço político-militar da ETA.
O meu pai foi tratado de forma correta.
Estive com ele na piscina. Nadou uns metros comigo e estava feliz.
Essa era a nossa garantia,
e transmitimos essa segurança à família e aos investigadores.
Os sequestradores exigem que a polícia não seja avisada
e ameaçam sempre que a filha sofreria as consequências.
Se não o fizerem ou se descobrirmos que avisaram a polícia…
E pensamos que os sequestradores estão a vigiar a casa quando telefonam.
Tomámos todas as precauções para fazer tudo com discrição.
A prioridade era a vida da Anabel.
Eu estava num veículo descaracterizado muito perto da casa.
Esse era o primeiro perímetro.
Eu supervisionava um segundo perímetro.
Instalámo-nos num centro comercial
na autoestrada de Burgos, em frente a La Moraleja.
Era 24 horas por dia.
Nem íamos dormir a casa.
Soube-se que, na segunda-feira,
foi sequestrada, no bairro madrileno de La Moraleja,
uma jovem enquanto corria.
Por agora, suspeita-se de criminosos comuns.
Embora tenha ocorrido na segunda-feira, o sequestro de Anabel Segura, de 22 anos,
só foi tornado público há poucas horas.
Quando isto chegou à imprensa, nós, os polícias, ficámos furiosos.
Foi aqui que tudo aconteceu, em frente ao Colégio Escandinavo.
As notícias de um sequestro na comunicação social
são muito más para nós.
Uma carrinha branca seguiu a Anabel.
Numa zona deserta, dois homens de cara descoberta…
Os criminosos já não podiam dizer: "Não avisem a polícia."
Como é óbvio, já sabiam que tudo fora tornado público.
Há pessoas que trabalham para a polícia
que vendem informações à imprensa por um simples café.
Eu já vi de tudo.
Divulgam esta notícia como se não fosse nada de mais.
Não fazem ideia dos danos que estão a causar
à investigação, à vítima
e à família.
Os Seguras receberam apoio dos vizinhos,
incluindo o cantor Manolo Escobar, cuja esposa recorda assim a vítima.
Tinha um namorado.
Era uma rapariga normal. Penso que quase nunca saía.
Fazia algum desporto, como toda a gente.
A minha mãe foi lá, como todos os vizinhos, creio eu.
Éramos como uma grande família naquela urbanização.
Eu era vizinha da Anabel.
VIZINHA DA URBANIZAÇÃO INTERGOLF
E o meu pai era o Manolo Escobar.
Para mim, ele era e continua a ser um dos maiores cantores do nosso país.
MANOLO ESCOBAR E A FILHA VANESSA
Quem canta melhor, o papá ou tu?
Os dois.
Ora! "Os dois."
Eu tinha 14 anos quando a Anabel foi sequestrada
e sei que isso afetou muito os meus pais.
Foi por isso que decidiram que nos mudaríamos para Benidorm.
Pensaram que eu estaria mais segura lá.
A estrutura da urbanização era circular. À entrada havia uma guarita de segurança.
Estávamos, como o nome Intergolf indica, dentro de um campo de golfe.
Havia imensos jardins, piscinas, campos de ténis e basquetebol.
Era espetacular.
Nessa bolha em que vivíamos, o sequestro e o desaparecimento da Anabel
incutiram medo em todos nós. O medo e o terror infiltraram-se.
Houve um antes e um depois do sequestro da Anabel.
Claro, estamos preocupados.
De que serve a nossa segurança tão maravilhosa e tão fabulosa,
quando saímos daqui e estamos desprotegidos?
Se virmos uma carrinha, ficamos nervosos e afastamo-nos.
Tenho uma filha da mesma idade. Pode imaginar o que isso implica.
Uma jovem de 22 anos, muito culta, uma rapariga muito simpática e simples.
Claro que é traumático.
Vi os pais da Anabel pela primeira vez quando fui a casa dela.
O que notei sempre naquela casa, acima de tudo,
foi o silêncio.
Eu descreveria a casa da Anabel Segura como uma casa de silêncio.
Para a família, foi um trauma enorme.
Era uma família muito unida.
Davam-se todos muito bem.
Achei o José Segura um homem incrivelmente inteligente
e muito íntegro.
Quem vi sempre muito abalada, desde o início,
foi a mãe da Anabel.
Era uma alma atormentada.
DIAS SEM A ANABEL: 4
Casa da família Segura. Diga.
Boa tarde. O porta-voz da família, por favor?
Sim, sou eu. Diga.
- O advogado? - Sim.
Certo, ouça com atenção.
Espere, há uma coisa muito importante.
Trata-se da segurança da Anabel.
Queremos provas de que ela está bem.
Ouça com atenção, ou não voltarão a vê-la.
Sim, estou a ouvir. Por favor, fale um pouco mais alto.
É outro homem, mas fala nos mesmos termos do primeiro.
Não há dúvida de que faz parte do grupo de sequestradores.
Ela está ilesa.
- Compreende? - Sim. Estou a ouvir.
Não se passa nada com ela.
A segurança dela depende de você. Ouça com atenção.
- Estou a ouvir. - Tem o dinheiro?
Ouça, conseguimos sessenta e três milhões de pesetas.
E amanhã ao meio-dia…
Devemos conseguir 80 milhões até cerca das 12 horas.
Compreende que não é fácil, em 48 horas,
pedir ajuda a amigos e familiares.
Dissemos 150 milhões.
Eu sei. A família é a primeira…
O sequestrador foi surpreendido e desligou.
Eles deviam estar convencidos de que havia rios de dinheiro nas ruas de La Moraleja.
A família Segura tinha um bom nível de vida,
mas não tinha um nível altíssimo.
Não faziam parte da elite,
a anos-luz do resto da população.
O José Segura e a esposa não tinham assim tanto dinheiro à mão.
Não tínhamos outro remédio senão esperar que os sequestradores voltassem a ligar.
Entretanto, continuávamos a investigar o que já tínhamos.
O José Segura deu-nos um diário da Anabel,
que lemos e analisámos.
Naturalmente, a polícia teve de começar por averiguar quem era a vítima
e quem tinha à sua volta.
Uma rapariga responsável, séria e boa pessoa.
Estamos muito chocados.
Dava-se bem com toda a gente.
Falámos com os amigos dela
e também investigámos o seu círculo familiar.
É uma rapariga muito boa e dedicada à família.
Ela não merece este sofrimento.
Se ela já tivera namorados, isso não interessava nada à polícia,
mas verificámos tudo.
E começámos a investigar o pai dela,
para determinar se tinha inimigos por causa do seu negócio,
que a teriam sequestrado por vingança.
SEQUESTRADORES EXIGEM 150 MILHÕES DE PESETAS
Posso garantir que o José Segura e a sua família
não tinham conflitos com outras pessoas.
Não era possível que tivessem sequestrado a sua filha
para magoar este homem ou a sua família.
A Anabel era uma jovem, uma estudante exemplar, desportista…
Não havia qualquer razão para alguém lhe querer fazer mal.
Concluímos que se tratava de um sequestro aleatório.
A Anabel foi o alvo, mas podia ter sido qualquer outra jovem de La Moraleja.
Queriam sequestrar alguém rico.
E onde há pessoas ricas? Em La Moraleja.
O motivo foi puramente financeiro.
E, uns dias antes,
houvera um incidente semelhante, também com uma carrinha.
Mas eles não tiveram sucesso
porque a rapariga se libertou e conseguiu escapar.
Foi a primeira vez que ocorreu um "sequestro expresso" em Espanha.
Isso dificultou muito mais a investigação policial.
Sem qualquer ligação entre a família da vítima
e os sequestradores,
a lista de possíveis suspeitos era muito maior.
Pode dizer-se que estávamos às escuras.
Inicialmente, a polícia não tinha praticamente nenhumas informações.
Eram dois indivíduos, mais ou menos jovens,
e uma carrinha de cor branca, mais nada.
Por muito que perguntássemos ao pobre jardineiro,
a única testemunha ocular,
ele não tinha visto a matrícula, nem sequer se tinha vidros traseiros.
Sem bases de dados para consultar,
tivemos de ir de concessionário em concessionário
para ver que carrinhas brancas tinham sido vendidas.
Brancas.
Só havia carrinhas brancas.
Quantos milhares de carrinhas brancas? Milhões.
A polícia virou La Moraleja do avesso.
Quem pode conduzir uma carrinha branca?
Trabalhadores de entregas, empresas de abastecimento, canalizadores,
pessoal de serviço que entrava e saía todos os dias.
Investigámos tudo.
Encontrar alguém com estas informações
era pior que encontrar uma agulha num palheiro.
Uma das coisas mais difíceis com que lidei na minha carreira.
DIAS SEM A ANABEL: 7
Casa da família Segura. Diga.
- O porta-voz da família, por favor? - Sou eu.
Somos os sequestradores.
- Certo. - Já tem o dinheiro?
Já lhe respondo, mas pedimos-lhe que…
- Perdão? - Pedimos-lhe que pergunte à Anabel
e que nos diga onde nasceu a mãe dela.
Quanto ao dinheiro, já o temos.
O Sr. José Segura teve de contactar muitos amigos,
conhecidos e familiares para juntar aquele dinheiro.
Alguns vizinhos, incluindo o meu pai,
ofereceram-se para lhes emprestarem o que fosse preciso.
Na altura, sei que o Pepe recusou,
mas sei que não foi fácil juntar 150 milhões de pesetas.
Estamos a falar de um monte de notas que dava para encher um saco grande.
Já temos o dinheiro.
- Diga? - Já temos o dinheiro.
- Têm? - Sim.
Mas queremos que nos diga, através da Anabel, onde nasceu a mãe dela,
para sabermos que ela está bem.
Voltamos a ligar às 19 horas.
A tensão que sentimos
antes de uma chamada destas é do pior.
DUAS HORAS DEPOIS
Casa da família Segura. Diga.
Sempre que o telefone tocava,
toda a gente ficava em estado de alerta.
Se desligam, baixa a adrenalina.
47 MINUTOS DEPOIS
Casa da família Segura. Diga.
Era um pesadelo que a família estava a viver.
Imaginavam-se no lugar da filha,
que estava a sofrer tanto naquele momento,
e, por muito que quisessem, não podiam fazer absolutamente nada.
90 MINUTOS DEPOIS
Casa da família Segura. Diga.
- Casa do Sr. Segura? - Sim.
- Somos os sequestradores da Anabel. - Sim.
Já têm o dinheiro, certo?
Já disse que sim, mas fiz uma pergunta sobre a cidade onde nasceu a mãe dela.
A prova de vida é fundamental para confirmar o estado da vítima.
É uma pergunta a que só a vítima sabe responder.
Ouça-me com atenção, sim?
Mas pode responder à pergunta?
- Perdão? - Pode responder a essa pergunta?
A Anabel está ilesa. Ouça.
Estou a ouvir, nós temos o dinheiro,
mas pedi-lhe para me dizer a cidade onde nasceu a mãe da Anabel.
- A mãe da Anabel nasceu na Alemanha. - Não, a cidade.
Não sabemos a cidade, mas…
A Anabel sabe o nome dessa cidade.
Ouça com atenção.
Não, peça à Anabel para lhe dizer o nome da cidade.
O porta-voz da família exige algo em troca.
"Cuidado com o que fazem com ela.
Se não tivermos a certeza de que ela está bem, acabou-se."
É um duelo entre os dois.
Ouça-me com atenção, sim?
A questão é que você não está em condições…
Se querem que a Anabel volte viva…
- Sim. - Esta noite, o dinheiro.
Anote o local aonde tem de ir. Ouviu?
Sim, diga. Estou pronto.
Quilómetro 126 da Autoestrada Nacional 2.
Cento e vinte e seis, Autoestrada Nacional…
- Dois. - Dois.
Verá a saída para Saúca. Há uma ponte a 30 metros daí.
Pare na ponte.
Pare o carro aí. E tem de vir pessoalmente.
Ouça, eu não sei conduzir.
Posso apanhar um táxi ou ir com a minha secretária,
ou com um colega.
Você, pessoalmente.
Qualquer secretária ou taxista que fosse com ele,
como podem imaginar, levaria duas pistolas.
Seria polícia.
Se não estiver nesse local às 23h30, esta noite…
- A Anabel está viva? - Ouça.
Sim. A Anabel está viva?
Exatamente. Se querem ver a Anabel esta noite…
Sim.
… entreguem o dinheiro às 23h30 em ponto.
- E dentro de duas horas… - Sim.
… ela estará em casa.
Muito bem, vamos.
Era a primeira entrega de dinheiro a sério.
É uma explosão de adrenalina.
Estava em jogo a vida de uma pessoa.
Tínhamos 130 km para percorrer de La Moraleja até ao local da entrega.
Tivemos de criar um perímetro de segurança numa zona desconhecida.
Só tínhamos duas horas para preparar tudo.
Tentámos chegar lá antes do carro com o dinheiro.
E ver onde nos podíamos colocar,
para o caso de haver contacto entre o sequestrador
e o porta-voz, que estaria lá,
com o dinheiro.
Imaginem como os carros percorreram aquela autoestrada.
A abrir.
Percorremos 130 km em menos de uma hora.
Estávamos determinados a prender quem viesse recolher o resgate.
E trazer a Anabel, que era o objetivo de tudo aquilo.
Estava uma noite estrelada, com o céu totalmente limpo.
O frio era insuportável.
Era no meio do nada.
Colocámos carros antes e depois da marca dos 126 km.
Escondidos.
Já estávamos posicionados antes de o dinheiro chegar.
Eu fiquei em casa, na casa da Anabel,
à espera que voltassem os meus colegas e o Rafael.
Estava muito impaciente naquela noite.
À espera do resultado.
Para ver o que aconteceria.
Imagino como o Rafael estava nervoso
e a situação por que estava a passar.
Sair para a escuridão da noite
e tentar trazer de volta a filha sequestrada do seu amigo.
Um ato digno do maior respeito
e admiração pela pessoa que o fez, o Rafael Escuredo.
Especialmente sendo alguém que não estava habituado a estas coisas.
A viagem deve ter sido longa.
Os mais próximos do local da entrega eram dois membros do GEO.
Estávamos deitados no chão.
Perfeitamente camuflados.
Não os veríamos, nem que passássemos por cima deles.
Quem eram os sequestradores?
Tiveram a frieza de fazer o que fizeram.
Como se comportariam no momento da transação?
Cabia ao Rafa Escuredo a responsabilidade daquele momento tão complicado.
E se fossem loucos o suficiente para pegar no dinheiro e matar-me?
Aquelas horas foram muito pesadas, longas e tensas.
O frio começou a apertar.
Os dentes começaram a bater.
Estávamos em 1993, sem camisolas térmicas
nem o equipamento que há hoje.
Acenderam-se duas luzes atrás de nós.
Foi por volta da 1h30, mais ou menos.
Não era normal arrancar um carro no meio do campo.
A tensão era brutal.
Quem levasse o dinheiro seria o nosso alvo.
O dilema dos sequestradores era:
a ganância e a ambição pelos 150 milhões
contra o medo de ser preso.
Se ganhasse a ganância, viriam buscar o dinheiro.
Se ganhasse o medo, não apareceriam.
Um carro passou por ele, mas não parou.
Enviámos um dos nossos veículos atrás desse carro para ver aonde ia.
Não apareceu ninguém para recolher o dinheiro.
Por isso, a operação terminou ao amanhecer.
Aquele momento foi frustrante para nós.
Pensei sobretudo nos pais dela.
Estavam em casa, sem saber o que acontecera,
nem como estava a sua filha.
Mas tinham esperança de que a trouxéssemos de volta
e isso não aconteceu.
Ninguém foi preso, ninguém apareceu,
e isso levou-nos a concluir que algo estranho se estava a passar.
Mas descobrimos algo naquela noite.
Passou por ali um carro.
Levou-nos a pensar que havia alguma ligação.
Não era um sítio normal para uma entrega.
Era preciso conhecer o sítio.
Tínhamos de continuar a investigar.
Era para isso que eu estava lá.
Sempre que aquela pessoa entrava no carro, aonde quer que fosse, era seguida.
Era alguém que trabalhava como guarda florestal
numa povoação próxima.
Pusemos o telefone dele sob escuta para gravarmos a voz
e a compararmos à dos sequestradores.
Tudo sem ele saber que estava a ser investigado.
A análise da voz revelou uma probabilidade muito alta
de ser a voz de um dos sequestradores.
Aquele carro tornou-se o principal suspeito,
e o seu condutor também.
Casa da família Segura. Diga.
- Conhece o restaurante El Molino? - Onde fica?
Descubra. Amanhã, às 15 horas.
Telefonou um indivíduo desconhecido,
com a voz completamente diferente da dos sequestradores.
E pensámos: "Mas que raio? Quem são estas pessoas agora?"
CHURRASCARIA EL MOLINO
Legendas: José Cordovil
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