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Original subtitles

Segunda Guerra Mundial 1945

Enquanto os aliados avan�avam pelas ru�nas do Terceiro Reich

eles faziam filmes

como propaganda ou registro hist�rico

As equipes de filmagens do ex�rcito foram as primeiras a descobrir

o horror oculto dos campos de concentra��o nazistas

As cenas chocantes que eles registraram revelaram atrocidades numa escala

que iam al�m da imagina��o e fizeram parte de um document�rio pioneiro

realizado por uma equipe de cineastas que incluia Alfred Hitchcock.

O resultado foi t�o chocante e de um impacto pol�tico t�o sens�vel

que o filme foi arquivado por ordem do governo brit�nico

Passados 70 anos essas imagens foram reeditadoa por uma equipe

de especialistas do Museu Imperial de Guerra

Agora pela primeira vez na televis�o brit�nica

cenas do filme completo foram exibidas

Alguns dos que aparecem nas imagens - soldados,

cameramens e as pr�prias vitimas-

contam suas pr�prias hist�rias

Estas s�o as mais impactantes e horr�veis imagens j� mostradas

Elas s�o exibidas aqui na esperan�a de que cenas como estas nunca

ser�o esquecidas - ou repetidas.

Norte da Alemanha Abril de 1945

Com a proximidade do fim da II Guerra Mundial na Europa,

os tr�s ex�rcitos aliados, ingl�s, sovi�tico e americano

encaminharam-se para Berlim.

Entre eles, encontravam-se soldados que tinham sido treinados para filmar.

Em Abril de 1945,

uma unidade avan�ada brit�nica deteve-se junto ao rio Aller,

no Norte da Alemanha.

As equipas de filmagem do Ex�rcito registaram os eventos subsequentes.

Penso que foi a 12 de Abril.

Dois soldados alem�es aproximaram-se da linha da frente,

empunhando uma bandeira branca, e pediram para falar com o nosso general.

Major Leonard Berney Artilharia Real

Foram encaminhados, vendados,

e levados ao nosso posto de comando, onde eu por acaso estava.

Traziam uma mensagem do seu general.

Segundo a mensagem, est�vamos a aproximar-nos,

ou ir�amos provavelmente aproximar-nos,

de um grande campo de prisioneiros civis onde rebentara uma epidemia de tifo

e o general deles comunicava-nos

que n�o achava boa ideia libertar aquele campo,

porque isso deixaria em liberdade os reclusos com tifo,

que poderiam infectar a popula��o alem� e os ex�rcitos alem�o e ingl�s.

Eles levaram-nos por um caminho

e n�s tivemos de hastear uma bandeira branca.

George Leonard Yeomanry de Oxfordshire

Aconteceu assim de repente!

A coberto da bandeira branca, penetr�mos as linhas inimigas.

Os alem�es, h� que diz�-lo,

os que iam na estrada, afastaram-se,

e alinharam-se na berma, armados, para que n�s pass�ssemos.

Hoje, quanto mais penso,

mais me surpreende que ningu�m tenha disparado!

Mas h� que reconhec�-lo, os alem�es n�o dispararam

e n�s tamb�m n�o.

As equipas brit�nicas continuaram a filmar.

As suas filmagens viriam a integrar um document�rio extraordin�rio

produzido para os Aliados por Sidney Bernstein,

com o apoio de uma equipa que inclu�a o realizador Alfred Hitchcock.

Intitulado "Levantamento Factual dos Campos de Concentra��o Alem�es",

o filme tem sido descrito como uma obra-prima esquecida

do cinema documental brit�nico.

E contudo permaneceu inacabado at� agora...

... 70 anos depois.

Na Primavera de 1945,

os Aliados que avan�avam para o centro da Alemanha

chegaram a Bergen-Belsen.

Excerto de "Levantamento Factual dos Campos de Concentra��o Alem�es"

Pomares imaculados e bem cuidados,

opulentas explora��es de gado ao longo do caminho.

Os soldados ingleses n�o puderam deixar de admirar o local e os seus habitantes.

Pelo menos... at� come�arem a sentir o cheiro.

Entretanto, amanheceu.

E ent�o pudemos ver de onde vinha aquele fedor.

Uma das primeiras coisas que fizemos

foi mandar formar os homens e as mulheres SS

e fazer deles prisioneiros de guerra.

Os SS ainda l� estavam.

Josef Kramer ainda l� estava!

O Comandante do Campo.

Olhei para a torre e a torre estava vazia!

Estava l� sempre um soldado alem�o com uma espingarda ou l� o que era...

E eu comecei a gritar:

"Os alem�es foram-se embora! N�o os vejo!"

E algumas raparigas correram comigo

e cheg�mos at� ao port�o...

E eu estava atr�s do arame farpado

e assisti � entrada no campo das primeiras tropas brit�nicas.

Mania Salinger Dia da Liberta��o

T�nhamos uma carrinha com um altifalante.

Entr�mos no campo para ver o que pod�amos ver

e claro que o que vimos deixou-nos em estado de choque.

Nunca o esquecerei.

Eles disseram pelo altifalante em v�rias l�nguas:

"Mantenham a calma! Fiquem onde est�o."

"Mantenham a calma! Viemos ajudar-vos."

"Somos soldados ingleses, vem a� mais ajuda."

E foi a loucura total!

Foi um momento inacredit�vel.

Ouvia-se dizer em ingl�s:

"Temos de manter a calma, vamos ficar aqui, eles v�m ajudar-nos."

Esse tipo de coisa...

� muito dif�cil descrever.

H� anos que nos prepar�vamos para morrer e de repente...

... ainda aqui estamos!

Anita na Liberta��o Eu tinha 19 anos quando se deu a Liberta��o.

Foi uma ideia dif�cil de encaixar. Julg�vamos que est�vamos a sonhar,

e os soldados ingleses pareciam-nos deuses!

N�o esper�vamos estar ainda vivos, mas a verdade � que est�vamos.

N�o sab�amos o que nos esperava.

Enviaram-nos...

e n�s fomos...

Perd�o.

Desculpe l�.

� demasiado doloroso.

Excertos do filme "Campos de Concentra��o Alem�es"

Prisioneiros mortos atirados para o ch�o, empilhados em emaranhados retorcidos.

Mulheres mortas, quais est�tuas de m�rmore em afli��o.

Era no meio disto que os reclusos tinham de viver.

E morrer.

Os mortos ali empilhados n�o eram centenas, mas milhares.

E n�o mil ou dois mil...

... mas trinta mil.

Cheg�mos l� e aquilo que vimos...

Sargento Mike Lewis Operador de C�mara do Ex�rcito, 1981

Foi algo que nunca v�ramos, nem mesmo com todo o cen�rio de guerra.

Era doloroso v�-lo, doloroso imaginar que aquilo pudesse acontecer a pessoas.

Havias centenas e centenas de cad�veres empilhados...

O fedor da morte fazia-se sentir por todo o lado.

Havia covas com corpos de pessoas, grandes como campos de t�nis,

com beb�s, meninas, jovens, homens, mulheres, idosos, novos

e a sua profundidade era incalcul�vel.

As pessoas meio mortas a deambular, de olhos perdidos...

Sargento William Lawrie Operador de C�mara do Ex�rcito, 1984

Absolutamente...

... mortas!

Havia uma total aus�ncia de esperan�a. Desespero...

Aquele cheiro pavoroso, o ambiente depressivo...!

Como se o fim tivesse chegado!

Os corpos...

Perdia-se o contacto com a realidade. Eram manequins, bonecos...

N�o sei se voc�s...

N�s mesmos recu�mos para outro espa�o e outro tempo,

outra exist�ncia...

Era imposs�vel associar o que v�amos � nossa pr�pria vida, entende?

Tratava-se de algo completamente � parte. Era outro mundo.

N�o sei se n�s...

Se nos tiv�ssemos envolvido realmente, ter�amos provavelmente enlouquecido.

Estivemos l� cerca de duas semanas a filmar tudo aquilo.

Desde ent�o, nenhum dos filmes que vi

consegue transmitir o sentimento de desespero e horror

do que pode ser feito a pessoas,

que eram simplesmente europeus com outra f�.

Pensei que aquilo me deixaria com o correr do tempo.

Eu queria esquecer.

Mas aquilo permanece em n�s.

Tenho dificuldade em descrever os horrores que vi e de que ouvi falar.

Richard Dimbleby Emiss�o da BBC, 19 de Abril de 1945

Mas eis os factos objectivos.

Transpus uma barreira e encontrei-me num mundo de pesadelo.

Corpos mortos, alguns em decomposi��o,

espalhados pela estrada e ao longo dos sulcos nos campos.

Dos dois lados da estrada havia cabanas de madeira.

Havia rostos � janela.

Rostos emaciados e ossudos de mulheres esfomeadas,

fracas demais para sair c� para fora,

rostos encostados � janela para ver a luz do dia antes de morrer.

E morriam, a cada hora, a cada minuto.

David Dimbleby, Locutor

Aquilo era t�o horr�vel que, inicialmente, a BBC

esperou antes de emitir,

porque duvidaram que o meu pai tivesse descrito correctamente o que vira.

Por isso foram verificar. E s� depois emitiram.

� quando ele descreve as pessoas como j� n�o se comportando como seres humanos,

que nos apercebemos do que ele est� realmente a dizer, da sua mensagem.

E n�o se aplica apenas � Alemanha nem �quela gente dos campos.

Pode aplicar-se a qualquer um de v�s, em qualquer parte.

Se a civiliza��o se desmoronar desta forma.

No dia ap�s a emiss�o, Churchill declarou:

"N�o h� palavras para expressar o horror

"sentido pelo governo de Sua Majestade e seus principais aliados

"perante as provas destes crimes pavorosos

"que agora diariamente v�m a lume."

O sucesso do cinema na d�cada de 30

atestara a poder da imagem em movimento.

Interessados em explorar o seu potencial papel na guerra,

a Gr�-Bretanha e a Am�rica criaram um departamento de cinema conjunto.

A sua miss�o era produzir curtas-metragens de propaganda,

inicialmente para apoiar o esfor�o de guerra,

e mais tarde para ajudar a gerir uma Alemanha derrotada

quando a guerra fosse vencida.

Na Gr�-Bretanha, a equipa era dirigida

pelo eminente produtor cinematogr�fico Sidney Bernstein.

Sidney Bernstein, Chefe Departamento Cinema, Divis�o de Guerra Psicol�gica

Ap�s as declara��es de Churchill, Bernstein dirigiu-se a Bergen-Belsen.

Quando l� chegou, a equipa de filmagens do ex�rcito j� trabalhava h� uma semana.

O que a equipa brit�nica filmou em Bergen-Belsen

revela todos os n�veis de humanidade

Raye Farr Museu do Holocausto, EUA, 1995-2013

a um n�vel muito mais vasto do que qualquer outra prova cinematogr�fica.

Ao ver as filmagens, sentimos presente toda a hist�ria humana.

Eles usaram a c�mara de uma forma muito espec�fica.

A ideia inicial era coligir provas, reunir provas.

Dr. Toby Haggith Museu de Guerra Imperial

Uma das dificuldades do registo em pel�cula de uma atrocidade � que

para revelar que a pessoa foi assassinada ou torturada,

para o mostrar, temos de nos aproximar da pessoa,

porque temos de mostrar as feridas, dar alguma indica��o de como foi morta.

Ora isso ia contra a tradi��o vigente dos operadores de c�mara de combate,

que se escusavam a registar cenas de pessoas

que tinham sido mortas ou torturadas.

Bernstein voltou de Bergen-Belsen extremamente empolgado.

Regressado a Londres,

come�ou a planear uma longa-metragem documental.

O seu objectivo transparecia nas instru��es dadas

aos operadores de c�mara aliados.

Dei-lhes instru��es para filmarem tudo o que pudesse vir a provar

que aquilo acontecera realmente.

Funcionaria tamb�m como uma li��o para a humanidade.

Quantos aos alem�es,

o document�rio destinava-se tamb�m a ser mostrado ao povo alem�o.

Porque a maioria, quando as tropas avan�aram,

negara saber algo dos campos.

O filme seria uma forma de lhes provarmos que era verdade.

Para come�ar, queria registar os figur�es e as pessoas locais,

o presidente da C�mara e assim,

que viviam a uma dist�ncia razo�vel dali.

Queria regist�-los a ver o que estava a ser feito,

aquando do enterro daquelas figuras tr�gicas.

Alguns dos alem�es que trouxemos para serem filmados

a assistir ao enterro dos corpos nas covas,

j� nem conseguiam olhar.

Eu queria provar que eles tinham visto, queria que houvesse um registo,

porque adivinhei acertadamente:

a maioria das pessoas viria a negar o que acontecera.

Bernstein tamb�m usou filmagens dos oficiais alem�es das SS

a ajudar nas piores tarefas dos campos.

Era urgente processar rapidamente o maior n�mero de corpos poss�vel,

por isso, os SS tiveram de ajudar.

Excertos do filme "Campos de Concentra��o Alem�es"

Quinhentos soldados h�ngaros, capturados com os SS,

foram encarregados de escavar valas.

Os SS foram encarregados da desagrad�vel tarefa

que tinham imposto aos reclusos.

Afinal de contas, n�o era uma tarefa que os perturbasse.

Eles, a Ra�a Superior, haviam aprendido a ser duros.

Conseguiam matar a sangue-frio,

e pareceu adequado aos soldados brit�nicos

obrigar os assassinos a enterrar as criaturas desamparadas e an�nimas

que tinham matado � fome.

A unidade de filmagens do ex�rcito n�o tinha equipamento de som.

Bernstein s� conseguiu aceder a registos de som

quando as equipas noticiosas chegaram.

Estamos a 24 de Abril de 1945.

Sou o artilheiro Illingworth e sou de Cheshire.

De momento, estou no campo de Belsen de guarda aos homens das SS.

N�o h� palavras para descrever o que se v� neste campo.

Quando vemos isto pessoalmente, percebemos aquilo por que lutamos.

As fotografias nos jornais n�o conseguem transmiti-lo.

Os actos que eles cometeram...

Ningu�m diria que foram humanos a faz�-lo.

Agora sabemos realmente o que se tem passado nestes campos.

E eu sei pessoalmente aquilo por que luto.

Quando a proposta de document�rio de Bernstein

foi aprovada pelos governos ingl�s e americano,

ele contratou o melhor montador cinematogr�fico de Londres,

Stewart McAllister.

Juntos, come�aram a montar os filmes feitos pelo Ex�rcito

que lhes iam chegando.

Tinham apenas tr�s meses para completar o filme.

As not�cias de Bergen-Belsen

n�o eram inteiramente novas para o governo brit�nico.

Os servi�os secretos russos j� tinham participado

a descoberta de campos de concentra��o na Pol�nia,

em Junho de 1944.

Mas como era sabido que os sovi�ticos falsificavam relat�rios de atrocidades,

os Aliados desvalorizaram a informa��o.

Agora, perante Bergen-Belsen, os ingleses reconsideraram

e Bernstein alargou o �mbito da sua reportagem

de forma a incluir filmagens dos campos sovi�ticos.

Ap�s a guerra, trabalhei como operador de c�mara na frente.

Capit�o Alexander Voronstov Operador de c�mara sovi�tico, 1986

Na altura, era muito novo, sem experi�ncia nem treino militar.

E de repente, tinha a patente de capit�o, uma pistola no coldre,

uma c�mara de filmar Imo e um objectivo na cabe�a.

Registar o melhor poss�vel as ac��es do nosso Ex�rcito Vermelho.

N�o tinha tempo para pensar em enquadramentos ou efeitos visuais.

Matvey Gershman 8� Ex�rcito Sovi�tico

Caminh�mos e caminh�mos...

Est�vamos t�o cansados, prestes a desfalecer.

Depois os oficiais disseram-nos

que havia um campo mais � frente, Majdanek, onde queimavam pessoas.

Irrompemos pelo campo.

Filmes sovi�ticos Majdanek, 1944

E...

... mat�mos os guardas.

Mat�mo-los ali mesmo.

Seguimos em frente, porque o campo era grande.

Havia casernas pintadas de verde de um dos lados

e armaz�ns pintados do outro lado.

Do lado direito havia gente,

do lado esquerdo, armaz�ns.

O que havia nos armaz�ns? Abrimos um deles. Cabelo de mulher.

Abrimos o seguinte. Sapatos de crian�a...

No terceiro armaz�m, havia outra coisa: contentores de g�s Zyklon.

E cinzas, cinzas...

Armazenavam as cinzas do mesmo modo que armazenavam o cabelo das mulheres.

Os cremat�rios ainda funcionavam, eles continuavam a queimar gente.

Era uma vis�o assustadora.

Deus nos livre de assistir a tal coisa!

Aqueles que lograram sobreviver n�o pareciam seres humanos.

Eram esqueletos, assustadores, esgotados...

Sabiam que seriam os pr�ximos a ser queimados.

Os sovi�ticos encontraram poucos prisioneiros vivos em Majdanek.

Perante o avan�o das tropas,

os alem�es tinham come�ado a esvaziar os campos na Pol�nia,

enviando os prisioneiros para os campos ocidentais,

entre os quais Bergen-Belsen.

As provas filmadas na Pol�nia integraram o document�rio de Bernstein.

Excertos do filme "Campos de Concentra��o Alem�es"

Os prisioneiros pagavam a viagem para Majdanek.

Pensavam que iam ser realojados, e levavam os seus melhores pertences.

Diz-se que as botas dos mortos trazem azar.

E os brinquedos de crian�as mortas?

As m�es deles tinham talvez trazido tesouras.

As tesouras est�o aqui. As m�es n�o.

Mas aqui nesta sala h� parte delas.

N�o se desperdi�ava nada.

Estes fardos cont�m cabelo humano, cuidadosamente catalogado e pesado.

N�o se desperdi�ava nada.

At� os dentes lhes arrancavam, subprodutos de um sistema.

Escovas de dentes, escovas de unhas,

escovas de sapatos,

pinc�is de barbear.

Se um homem em cada dez usa �culos, quantos homens representa esta pilha?

Todas estas coisas pertenceram a homens, mulheres e crian�as como n�s.

Gente normal�ssima, de todas as partes do mundo.

As for�as sovi�ticas continuaram o seu avan�o no Inverno polaco

para libertar outro campo ainda maior,

Auschwitz.

Fiquei ali uns 30 minutos. Nevava muito, n�o se via nada.

� dist�ncia vi muita gente,

vinham todos embrulhados em camuflados brancos.

Sorriam de orelha a orelha.

E n�o pareciam nazis, o que era o mais importante.

Corremos para eles

e eles deram-nos chocolate, bolachas e abra�os.

Foi o meu primeiro encontro com a liberdade.

Nem sequer t�nhamos for�a para nos pormos a dan�ar...

Por isso, debilmente, muito fracamente, come��mos a cantar.

E est�vamos t�o felizes,

est�vamos t�o felizes por aqueles anjos terem vindo dos c�us para nos libertar.

Contrariamente a Bergen-Belsen, que era um campo de prisioneiros,

Auschwitz era um campo de trabalho e um centro de exterm�nio em massa.

Nas suas c�maras de g�s

morreram mais de um milh�o de homens, mulheres e crian�as.

O seu destino era geralmente decidido poucos minutos ap�s a sua chegada.

As portas dos vag�es de carga abriram-se e milhares de pessoas sa�ram.

Perdi o meu pai e as minhas duas irm�s mais velhas na multid�o.

Nunca mais os vi.

Est�vamos agarradas � nossa m�e, e um nazi corria e gritava em alem�o:

"G�meos, g�meos!"

Uma mulher foi ter connosco, e pegou na maleta da minha m�e e perguntou:

"Elas s�o g�meas?"

A minha m�e respondeu: "Sim."

E ela continuou: "Ent�o diga que s�o g�meas. Aqui, � bom ter g�meos."

Quando o nazi voltou, a minha m�e disse: "As minhas meninas s�o g�meas".

Levaram-nos ao Mengele, e o Mengele olhou para n�s.

O nazi disse: "Arranjei-lhe umas g�meas."

Dr. Josef Mengele M�dico-chefe de Auschwitz

Eva e Vera foram das poucas sobreviventes

das infames e cru�is experi�ncias m�dicas de Josef Mengele.

�s suas m�os, morreram 1500 das suas outras v�timas.

A unidade de filmagem sovi�tica

s� chegou alguns dias depois das primeiras tropas.

Receb�ramos ordens para filmar a liberta��o do campo,

Capit�o Alexander Voronstov Operador de c�mara sovi�tico

mas n�o t�nhamos instru��es concretas de como o dev�amos fazer,

porque n�o imagin�vamos o que ir�amos encontrar.

Penso que nem mesmo os nossos camaradas militares

tinham ideia da escala dos crimes cometidos

no maior dos campos de concentra��o.

A mem�ria do que l� vi nunca me abandonou.

Era mais horr�vel e mais chocante

do que qualquer outra coisa que eu filmara durante a guerra.

Os russos decidiram fazer um filme sobre a liberta��o de Auschwitz.

Mandaram-nos vestir roupa �s riscas por cima da nossa roupa

e disseram-nos para caminhar entre as veda��es

e filmaram-nos entre veda��es.

Tentaram mostrar tudo depois do evento.

Veio uma equipa de cinema

para filmar os reclusos.

Sobretudo os g�meos.

Um soldado russo chamava-me.

Dizia assim: "Vem, vem! Filmar! Filmar!"

Filmaram-nos a caminhar por entre as duas veda��es de arame farpado

e como eu e a Miriam t�nhamos os uniformes prisionais �s riscas,

acab�mos por ficar � frente.

Estas crian�as s�o g�meas.

Os g�meos id�nticos filhos de pais n�o alem�es

eram confiscados e entregues a um centro de experimenta��o.

M�dicos alem�es injectavam-lhes doen�as e tentavam alcan�ar a cura.

O sucesso da cura n�o era importante,

pois as crian�as estavam condenadas, eram an�nimas,

n�o tinham nome, s� n�meros tatuados nos bra�os.

S� agora me apercebo da import�ncia das imagens russas.

� praticamente a �nica documenta��o.

Os russos filmaram o campo. Pode ter sido um m�s depois,

mas mostraram ao mundo aquilo que n�s vivemos.

Tomy Shacham aquando da Liberta��o

Por toda a Alemanha, descobriam-se muitos mais campos de concentra��o.

Os Aliados registaram-nos em filme.

Mais material para o document�rio de Bernstein.

Trezentos quil�metros a sudeste de Bergen-Belsen, em Buchenwald,

os americanos entraram num recinto classificado

como pris�o e campo de trabalho.

Soube que o campo de Buchenwald estava a ser libertado.

Arthur Mainzer Operador de C�mara Americano

Por isso, meti-me no jipe com o meu capit�o da altura,

fomos para o campo de exterm�nio de Buchenwald, e comecei a filmar l�.

Foi chocante.

Os corpos dos prisioneiros amontoavam-se.

Estavam mortos e empilhados.

Cinquenta e cinco mil pessoas morreram por causa deste s�tio.

Aqui, Schoker, o comandante do campo, disse:

"Quero ter um registo di�rio de pelo menos 600 judeus mortos."

Assassinos foram nomeados capatazes ou l�deres de bloco.

As pessoas eram tatuadas na barriga com o seu n�mero de escravo

e obrigadas a trabalhar praticamente sem comida.

As pessoas eram fria e sistematicamente torturadas.

T�nhamos sido informados

que tinham sido vistos grupos estranhos de gente na estrada.

Sargento Benjamin Ferencz 3� Ex�rcito EUA

Pareciam estar todas de pijama e pareciam estar todas a morrer.

Os que foram vistos na estrada eram os que ainda estavam vivos.

Os que n�o conseguiam andar estavam mortos, no ch�o.

J� todos viram as casernas, n�o quero entrar em pormenores.

Custa-me um pouco faz�-lo.

Mas n�o se percebia se estavam vivos ou mortos.

Pass�vamos por cima dum corpo, e de repente erguia-se uma m�o.

Reinava o caos total.

A disenteria, o tifo...

Havia no campo toda a esp�cie de doen�as.

Era putrefacto.

O cheiro dos campos,

os cremat�rios ainda estavam a funcionar...

Os corpos amontoavam-se como lenha em frente do cremat�rio.

Para uma pessoa normal, � dif�cil imagin�-lo.

Senti que espreitara para dentro do Inferno e isso...

N�o � algo que se esque�a rapidamente,

e tenho dificuldade em descrev�-lo.

Algumas das equipas americanas come�avam a filmar a cores.

Mas como o material foi enviado para os EUA para ser revelado,

n�o entrou no document�rio de Bernstein.

Come�ou-se a filmar a cores, no in�cio de 1945, em Janeiro.

Fomos a primeira unidade a usar pel�cula a cores.

At� essa altura, s� se filmava a preto e branco.

E era 35mm.

Mas quando a cor surgiu, usava-se pel�cula de 16mm.

Enviava-se para o laborat�rio que o ampliava para passar nos cinemas,

nos document�rios noticiosos que antecediam os filmes nos EUA.

Film�mos as pessoas que viviam numa cidade chamada Weimar,

que foram levadas ao campo de exterm�nio

para que vissem as cenas de morte e os corpos empilhados

e os fornos onde queimavam os prisioneiros.

Filmei muito material desse com o Capit�o Carter.

Fizemos muitas horas de filme.

Levaram-se l� os cidad�os alem�es de Weimar.

Eles tamb�m tinham de ver,

tinham ver aquilo por que "eles" tinham lutado,

e aquilo contra o que "n�s" t�nhamos lutado.

Chegaram animados como turistas �quela c�mara de horrores.

Pois era disso que se tratava: uma verdadeira c�mara de horrores.

Estas cabe�as reduzidas pertenceram a dois prisioneiros polacos

que tinham escapado e tinham sido recapturados.

Alguns dos visitantes impressionaram-se com o que viram

e tiveram de ser assistidos pelos ex-reclusos.

Sabiam da exist�ncia do campo

e n�o tinham tido pejo em aproveitar a m�o-de-obra barata que aquele fornecia,

desde que o cheiro do campo n�o lhes chegasse ao nariz.

O Supremo Comandante da Europa, o General Eisenhower,

veio aos campos para os ver com os seus olhos,

dizendo aos rep�rteres que o acompanhavam:

"Disseram-nos que os soldados americanos n�o sabem por que lutam.

Agora, ao menos, saber�o contra o que lutam."

Eisenhower organizou uma visita ao campo para jornalistas,

senadores, congressistas e uma delega��o parlamentar brit�nica,

para que pudessem difundir aquilo que tinham visto.

Em finais de Abril, os americanos, ao aproximarem-se de Munique,

entraram noutro campo, que filmaram.

O filme foi enviado para Londres, onde foi visto num laborat�rio de revela��o.

Uma manh�, est�vamos � espera das provas,

John Krish, montador

e recebemos uma folha que continha o nome do operador,

a dura��o do filme,

e repar�mos que a dura��o era muito superior � habitual.

No cimo da folha, estava uma palavra que nos era totalmente desconhecida.

Estava escrito: D-A-C-H-A-U.

N�o faz�amos ideia do que era, se eram iniciais ou o que seria...

Mas rapidamente descobrimos,

porque assim que come�aram a projectar o material,

foi como olhar para o mais pavoroso inferno que se possa imaginar.

E sobretudo em negativo.

Onde os pretos eram brancos e os brancos eram pretos.

O filme era efectivamente grotesco,

mas visto em negativo era devastador.

E foram quatro horas ininterruptas daquilo. Nenhum de n�s queria parar.

E ver aquelas pilhas de corpos,

aquelas salas cheias de corpos empilhados.

E havia algo que parecia um churrasco gigantesco feito de sulipas de comboios.

Via-se que tinham tentado queimar os corpos,

antes da chegada dos americanos,

para tentar minimizar as atrocidades, mas...

Nenhum de n�s... ningu�m mesmo conseguia falar

e penso que cada um de n�s pensava

que oxal� n�o lhe calhasse a ele a tarefa de montar aquilo.

Quando acabou, fic�mos ali absolutamente im�veis.

Ningu�m foi fumar, ningu�m conseguia falar.

N�o faz�amos ideia do que se tinha passado naqueles campos!

Richard Crossman, especialista na Alemanha e escritor,

pertencia � Divis�o de Guerra Psicol�gica em Londres

e foi enviado a Dachau para fazer um relat�rio.

Aquilo que l� vivenciou, viria a condicionar mais tarde

o seu gui�o final para o filme de Bernstein.

Gui�o de Richard Crossman para "Campos de Concentra��o Alem�es"

Nos �ltimos tr�s meses,

os registos oficiais indicam que foram aqui processadas 10 615 pessoas.

A sua roupa foi entregue � Deutsche Textil und Beckleichungwerke GmbH,

uma empresa privada pertencente a oficiais das SS,

que reunia e reparava o vestu�rio com a m�o-de-obra gratuita dos prisioneiros,

para depois o voltar a vender ao dep�sito de roupa do campo

para ser usada por novos prisioneiros.

Os prisioneiros chegavam ami�de de comboio,

mas n�o houvera pressa em descarregar este.

Foram-se embora, deixando os prisioneiros a morrer de frio, fome

e tifo.

Encontr�mo-los assim,

congelados na neve, ao longo da estrada.

Por milagre, 17 homens tinham sobrevivido.

Os restantes, cerca de 3 mil, tinham morrido.

Os alem�es sabiam da exist�ncia de Dachau, mas n�o se importavam.

No in�cio de Maio,

o alcance do document�rio de Bernstein tinha aumentado.

Ele queria um realizador

e lembrou-se do seu amigo, Alfred Hitchcock,

j� ent�o um nome importante em Hollywood.

O Alfred Hitchcock era um realizador famoso

e lembrei-me que ele, um homem genial,

poderia ter alguma ideia de como montarmos aquilo.

E tinha.

Hitchcock estava a trabalhar na Am�rica e n�o se encontrava dispon�vel,

mas aceitou participar mais tarde, como supervisor de realiza��o.

Viria a ser o seu �nico trabalho conhecido enquanto documentarista.

Deixei a Am�rica e fui para Inglaterra para trabalhar num filme de guerra.

Senti que tinha de contribuir de alguma forma.

O servi�o militar estava fora de causa.

Eu j� n�o tinha idade e tinha excesso de peso.

No entanto, senti essa necessidade.

E o meu amigo Bernstein,

que dirigia a sec��o de filmes do Minist�rio Brit�nico de Informa��o,

organizou a minha ida.

8 de Maio de 1945

Antes que Hitchcock pudesse reunir-se � equipa de Bernstein,

os Aliados declararam a vit�ria na Europa.

A guerra acabara,

mas os desafios da gest�o da paz apenas come�avam a manifestar-se.

Nos campos de concentra��o,

prosseguia o enorme esfor�o de apoio aos milhares de reclusos ali encalhados.

Em Bergen-Belsen, a equipa do Ex�rcito continuava a filmar

e a enviar o material para Londres.

Eu tinha a temperatura elevada, porque tinha apanhado tifo,

e estava a pensar que ia morrer.

Pensei at� que j� tinha morrido,

porque ouvia m�sica...

Penso que eram as gaitas de foles dos escoceses.

Acho que a frente brit�nica tinha uma brigada escocesa com gaitas de foles,

e ouvi uma m�sica que nunca ouvira at� a�.

N�o os vira,

porque n�o conseguia ir � janela, mas ouvi-os.

E estava a pensar que tinha ouvido falar tanto em anjos,

que cantavam e tocavam m�sica, de modo que pensei:

"Estou no c�u."

Foi espantosa a rapidez com que aqueles desgra�ados,

que estavam praticamente reduzidos ao estado animal,

retomaram a sua condi��o humana.

Algumas das raparigas, das mulheres,

que estavam em muito mau estado, come�aram rapidamente a arranjar-se,

a lavar-se, a arranjar o cabelo, e a voltar a ser seres humanos.

Foi incrivelmente r�pido.

No espa�o de duas ou tr�s semanas retomaram a sua condi��o humana.

E eles que tinham sido completamente desumanizados,

sem qualquer margem de d�vida.

Ao catalogar os seus filmes,

os operadores de c�mara do Ex�rcito registaram as suas notas nas folhas.

Um deles comentou:

"Foi interessante reparar que mal foram asseguradas

"as necessidades b�sicas de comida, descanso e calor,

"os pacientes, em particular as mulheres,

"come�aram imediatamente a pedir roupa.

"A roupa transformou-se numa necessidade m�dica,

"um poderoso t�nico contra a perigosa apatia dos que estavam muito fracos."

O filme de Bernstein documenta de forma �nica este processo de recupera��o.

A roupa era outro problema urgente,

portanto foi montado um departamento de arranjos de costura

e a roupa trazida de cidades vizinhas n�o tardou a ser experimentada

e comentada pelas mulheres, como elas adoram fazer.

Em finais de Junho de 1945,

Hitchcock, j� despachado de Hollywood,

chegou finalmente a Londres para trabalhar com Bernstein.

Os americanos tinham tardado em mandar o seu material,

mas apesar disso, o filme come�ava a tomar forma.

A visita de Hitchcock foi curta, mas intensa.

Depois de visionar o material, voltou para o hotel Claridges, em Londres.

A�, fez uma s�rie de propostas com vista a completar o filme.

Peter Tanner, Montador

Lembro-me de o ver no hotel, a andar para c� e para l�,

e a dizer: "Como vamos torn�-lo convincente?"

Tent�mos usar planos t�o compridos quanto poss�vel,

a usar panor�micas, para que n�o houvesse sugest�o de falsifica��o.

E a ir de personalidades respeit�veis ou altos membros da igreja

directamente para os corpos e cad�veres,

para que n�o se pudesse sugerir que est�vamos a falsificar o filme.

Hitchcock ficou siderado pelo contraste

entre as vidas normais dos alem�es que moravam perto dos campos

e o pesadelo que neles se vivia.

Sugeriu o uso de mapas para real�ar essa proximidade.

O Alfred Hitchcock, um dos seus contributos para o filme

foi a sua conceptualiza��o particular dos mapas.

Achou que eles eram muit�ssimo importantes,

que n�o deviam limitar-se a cartografar as atrocidades

ou mostrar a proximidade dos campos de concentra��o aos centros populacionais.

Deviam faz�-lo num mapa muito simples, assim como um atlas escolar.

Quer�amos saber se os alem�es na proximidade dos campos

sabiam da sua exist�ncia.

O Hitch fez um desenho, tra�ando c�rculos a quil�metro e meio do campo,

a 3km, a 15km, a 30km...

A ideia dele era mostrar a �rea em que cada campo estava inscrito

e mostrar que os alem�es tinham levado uma vida normal.

Ebensee � um retiro de f�rias nas montanhas.

Aqui o ar � limpo e puro.

Cura doen�as, e vive-se um ambiente agrad�vel.

Impera uma paz tranquila.

Excertos do filme "Campos de Concentra��o Alem�es"

Neste local, os oficiais em licen�a da Luftwaffe ou das SS Panzer

podiam descansar, comer bem, respirar fundo...

... encontrar o amor.

Tudo � encantador e pitoresco.

Mas os campos de concentra��o tinham integrado o sistema econ�mico alem�o,

o que tamb�m se aplicava aqui.

Podiam ver as montanhas, mas de que serviam as montanhas sem comida?

Enquanto Bernstein e Hitchcock trabalhavam,

os acontecimentos na Europa p�s-guerra assumiam contornos inesperados.

Em muitos dos campos,

milhares de sobreviventes ali permaneciam, encalhados...

Est�vamos perante um n�mero, pelo menos em Belsen,

de mais de 20 mil que se recusavam a partir.

E o mesma sucedia noutros campos de trabalho,

Leonard Berney Comandante do Campo de Deslocados

na parte brit�nica da Alemanha, bem como na parte americana.

De repente, t�nhamos em m�os um outro grande problema:

como gerir este enorme desastre humanit�rio?

Nasci em Bergen-Belsen, no campo dos deslocados.

Os meus pais foram ambos libertados em Belsen.

A minha m�e montou uma unidade para ajudar a equipa m�dica brit�nica

para tentar salvar o maior n�mero poss�vel

dos milhares de sobreviventes em estado cr�tico.

Ao mesmo tempo,

o meu pai assumiu o papel de l�der pol�tico dos sobreviventes.

A maioria n�o queria regressar ao seu pa�s de origem,

preferindo partir e instalar-se na Palestina ou noutro local,

nos Estados Unidos ou no Canad�, por exemplo.

E ao que se sabe, os americanos disseram que n�o.

"N�o vamos acolher ex-reclusos. Temos os nossos problemas."

Os ingleses disseram que n�o. "Nem pensar em acolher

centenas de milhares desta gente ap�trida."

A situa��o era essa.

Ent�o, claro est�, sentia-me no c�u. Era livre.

Estava na Alemanha, mas estava livre. Podia ir para onde quisesse.

E pensei: "Quero voltar � Pol�nia?"

A situa��o na Pol�nia era t�o m� para os judeus...

Voltaria para a Pol�nia? Mas para onde haveria eu de ir?

E na altura ouvi falar da Palestina, de Israel.

E pensei: "A� est� a minha esperan�a."

Durante Maio, Junho e Julho

muitos sobreviventes judeus, ignorando a posi��o do governo brit�nico,

foram para a Palestina,

onde se depararam com a rejei��o ou foram instalados em campos.

A situa��o dos refugiados era um elemento complicador

no clima pol�tico do p�s-guerra, em permanente desenvolvimento.

Ou�a, o alegado filme de Hitchcock, o filme de Bernstein,

foi feito com a melhor das inten��es,

mas a dada altura tornou-se uma inconveni�ncia pol�tica.

Teria provocado uma forte empatia no espectador normal,

que teria tentado ajudar aquelas pessoas.

Mas um filme feito sob o g�nio de Hitchcock

teria prejudicado a posi��o pol�tica do governo.

Entretanto os brit�nicos j� estavam a ter problemas suficientes com os judeus.

Branko Lustig Produtor de "A Lista de Schindler"

E mostrando o filme �s pessoas,

talvez elas viessem a dizer:

"Porque � que os ingleses n�o deixam estas pessoas que j� sofreram tanto

ter a sua pr�pria terra?"

A coliga��o de guerra da Gr�-Bretanha enfrentava outros problemas mais s�rios.

Uma Alemanha derrotada, dividida entre os Aliados,

tornara-se agora responsabilidade dos vencedores.

Sendo a na��o mais intensamente envolvida na tarefa da reconstru��o,

a Gr�-Bretanha n�o queria de todo alienar o povo alem�o,

cuja ajuda seria vital.

Al�m disso, j� se vendo sinais do que viria a ser a Guerra Fria,

a Alemanha era agora vista como um potencial aliado futuro

contra a Uni�o Sovi�tica.

O que se sentia na Alemanha ocupada,

Museu de Guerra Imperial tanto no sector americano como no brit�nico,

Kay Gladstone

era que os alem�es j� tinham sido t�o bombardeados com a ideia da sua culpa,

que de momento, j� n�o havia necessidade dum filme do g�nero.

A Am�rica, contudo, queria muito mostrar uma curta-metragem na Alemanha

e come�ara a dar mostras de impaci�ncia com os lentos progressos de Bernstein.

Houve conversas secretas com o realizador de Hollywood Billy Wilder,

ele pr�prio um refugiado austr�aco dos nazis,

no sentido de afastar a montagem do filme de Londres.

Em finais de Junho,

um oficial americano da Divis�o de Guerra Psicol�gica

escreveu um relat�rio confidencial para o seu superior em Washington,

sugerindo que "a equipa de Bernstein fosse desresponsabilizada do filme".

"Acreditamos que para o Sr. Bernstein ser� um al�vio ver-se livre do filme.

"E agora que Billy Wilder aceitou colaborar,

"estamos preparados para prosseguir com o trabalho.

"Seria nomeado produtor e supervisor de realiza��o do filme."

O envolvimento dos americanos parece ter chegado ao fim

em finais de Junho de 45,

quando j� estavam exasperados pela falta de progresso dos ingleses.

Consequentemente, retiraram-se,

e realizaram um filme muito mais curto, realizado por Billy Wilder,

que acabou por ser exibido no sector deles.

O filme chamava-se "Death Mills".

"Isto � a tradu��o do filme 'Death Mills' que o nosso Governo mostra aos alem�es.

Lembra que atr�s da fachada de espect�culos e desfiles nazis

milh�es de homens, mulheres e crian�as foram torturados at� � morte,

o pior genoc�dio da hist�ria da humanidade."

O tema era semelhante,

mas o seu tratamento era completamente diferente.

O filme brit�nico, o de Bernstein,

era um filme com um cunho art�stico

com uma mensagem muito mais profunda,

alertando a humanidade para o que se tinha passado.

O filme americano era mais prepotente,

uma curta-metragem acusando simplesmente os alem�es

de terem cometido tais crimes.

Em Belsen, apanh�mos o comandante do campo, Josef Kramer,

o Monstro de Belsen.

Excertos do filme "Death Mills"

Homens ou mulheres, eram a elite nazi, os protegidos de Himmler.

Amazonas, transformadas em assassinas nazis,

usavam implacavelmente o chicote,

experientes em tortura e assass�nio.

Mais letais que os homens.

Quando os ex�rcitos Aliados se aproximavam,

os nazis costumavam tentar transferir os prisioneiros.

Milhares morreram sufocados em vag�es de carga sobrelotados.

Muitos dos mortos e dos moribundos foram atirados � �gua.

Se os Aliados avan�assem demasiado depressa,

os nazis tentavam matar os prisioneiros

para que n�o restassem testemunhas dos seus crimes.

Em Majdanek, em Ohrdruf, em muitos outros campos,

milhares foram assassinados mesmo antes da liberta��o.

"Temos de o mostrar ao maior n�mero de alem�es poss�vel."

Estava-se em 1945.

Eles dir�o: "� uma fabrica��o, s�o figurantes com maquilhagem."

"Isto � Hollywood, feito por judeus."

Mas aonde arranjar�amos n�s tais figurantes? Eles eram s� pele e osso!

Decidimos fazer a estreia em W�rzburg.

Uma estreia, como se faz em Hollywood.

Estavam a passar uma opereta com Lillian Harvey.

Quando acabou, eu disse: "Por favor, n�o se levantem. vejam isto."

Havia 500 pessoas no p�blico. No final, restavam cerca de 75.

Ignorando a turbul�ncia pol�tica em torno deles,

a equipa de Bernstein continuou a trabalhar at� Julho.

No final do m�s, Hitchcock regressou a Hollywood.

A 4 de Agosto,

chegou um comunicado do Minist�rio de Neg�cios Estrangeiros brit�nico:

"De momento, a pol�tica na Alemanha

"vai no sentido de encorajar e estimular os alem�es a sair da sua apatia,

"e h� pessoas no c�rculo do Comandante Supremo que dir�o:

"'Nada de filmes de atrocidades'."

Em Setembro, a montagem do filme tinha sido cancelada.

O filme inacabado, juntamente com a listagem de planos,

as notas dos operadores de c�mara, os filmes e o gui�o de Crossman

foram classificados e arquivados.

Bernstein prosseguiu o seu caminho,

atravessando o Atl�ntico para iniciar uma parceria com o seu amigo Hitchcock.

O �ltimo registo de Bernstein relativamente ao assunto

� uma carta de Hollywood para o montador Peter Tanner,

em que diz: "Um dia perceber�s que o nosso trabalho n�o foi em v�o."

O document�rio de Bernstein foi posto na prateleira.

Mas os filmes que ele usara ainda viriam a p�blico.

No Outono de 1945,

iniciaram-se os julgamentos dos criminosos de guerra nazis,

e os procuradores descobriram que tinham uma fort�ssima fonte de provas.

O primeiro a ser julgado foi Kramer e a sua equipa de Bergen-Belsen.

Kramer foi condenado por crimes de guerra e recebeu a senten�a de morte.

Anita, que sobrevivera a Auschwitz e a Bergen-Belsen

e que aparecera no filme brit�nico da liberta��o,

foi uma das testemunhas arroladas.

Perguntaram-me se queria ser testemunha, e eu disse: "Sim, claro."

Parecia uma pe�a de teatro e dissemos:

"H� ali gente a defender estas pessoas? Ser�o loucos?"

"O crime est� patente, v�-se bem!"

Mais tarde, em Novembro,

o Tribunal Militar Internacional, ou IMT, come�ou em Nuremberg.

Tamb�m aqui foram usados os filmes como prova.

Os filmes refor�aram certamente a Acusa��o.

No IMT, as pessoas viram as imagens atentamente

e estas serviram para informar o p�blico presente no tribunal

e confrontar os arguidos com uma quantidade de provas inquestion�veis

das suas actividades ao longo de v�rios anos.

Estamos agora prontos para ouvir as alega��es da Acusa��o.

Esta foi a concretiza��o tr�gica

de um programa de intoler�ncia e arrog�ncia.

A vingan�a n�o � o nosso objectivo.

Nem procuramos simplesmente uma compensa��o justa.

Pedimos a este tribunal

que ateste atrav�s de uma ac��o penal internacional

o direito de cada um a viver em paz e dignidade,

independentemente da sua ra�a ou religi�o.

Fui nomeado Procurador Principal naquele que foi seguramente

o maior julgamento por homic�dio da hist�ria da humanidade.

Foi o meu primeiro caso. E eu tinha 27 anos.

... demonstrar� que o massacre cometido por estes arguidos

foi estimulado n�o por necessidade militar...

Embora o document�rio de Bernstein de 1945

tenha sido discretamente interrompido,

a sua hist�ria n�o ficou por ali.

Setenta anos depois, uma equipa do Museu de Guerra Imperial completou-o,

recorrendo �s indica��es de planos originais, ao argumento e �s provas,

para reconstruir meticulosamente o final planeado por Bernstein e Hitchcock.

Sab�amos que era uma pe�a cinematogr�fica poderosa,

al�m de ter sido feita pelos melhores t�cnicos e criadores da �poca.

A nossa inten��o foi produzir e completar o trabalho dos seus criadores originais.

Cenas finais de "Levantamento Factual dos Campos de Concentra��o Alem�es",

montadas pelo Museu de Guerra Imperial.

Este foi o fim do caminho

que eles haviam iniciado de forma t�o confiante em 1933.

Doze anos...

N�o.

Em termos de barbaridade e brutalidade, eles tinham recuado 12 mil anos.

E se o mundo n�o aprender a li��o transmitida por estas imagens,

a noite cair�.

Mas com a gra�a de Deus, n�s que vivemos, aprenderemos.

Um filme de Andr� Singer

Com narra��o de Helena Bonham Carter

Produzido por Sally Angel e Brett Ratner

Escrito por Lynette Singer

Com a fotografia de Richard Blanshard

E com a montagem de Arik Lahav e Stephen Miller

E a composi��o musical de Nicholas Singer

Tradu��o SARA DAVID LOPES

Adapta��o para esta vers�o marcelvf

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