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Original subtitles

Un ORIGINAL NETFLIX serie documental

Víctor Jara y su música tuvieron un impacto en todo el mundo.

Se convirtió en el símbolo del poder del pueblo.

Era una mezcla entre Bob Dylan y Martin Luther King.

Una música de Víctor Jara es más peligroso de 100 ametralladoras.

Él era una amenaza. Tenían a la matanza.

DE SEPTIEMBRE DE 11, 1973

El golpe chileno llegó a ser conocido como el primer 11 de septiembre.

Victor murió en la peor manera posible:

torturado hasta la muerte.

Es uno de los mayores crímenes sin resolver del siglo XX.

Es muy importante conocer los detalles exactos de lo sucedido.

La siguiente canción es para Víctor Jara,

para quem lutou contra a injustiça e pagou o derradeiro preço.

Para quem é um músico político...

... Víctor Jara...

... continua a ser uma grande inspiração.

Passaram mais de 40 anos e continuamos sem fazer

justiça para Víctor Jara.

Os responsáveis por este crime viveram a vida toda

como se não tivessem feito nada.

A questão permanece, quem matou Víctor Jara?

Hoje, um júri dará a sentença.

Eu não estava no Estádio do Chile.

Tenho as mãos limpas. Nunca torturei ninguém.

Se ele diz que não esteve no Estádio do Chile, está a mentir.

Não há dúvida de que esteve lá, naquele dia,

não há dúvida de que esteve a dar ordens.

Em 1973, alvejou e matou Víctor Jara?

Matou Víctor Jara?

Havia sempre uma guitarra em casa,

porque a minha mãe era cantora.

Ela cantava em funerais, batizados e casamentos.

Ela cantava música tradicional que passava de gerações em gerações.

A primeira coisa que gostaria de dizer sobre o Víctor

é que a vida com ele era divertida.

Ele apreciava a vida e contagiava quem o rodeava.

Víctor e a família eram muito pobres.

Viviam numa daquelas quintas enormes

em que os camponeses viviam de forma quase feudal.

Uma das suas memórias mais antigas era ser arrancado da cama

para ir lavar os pés no fosso, ao lado de casa,

e ir apanhar lenha para acender a fogueira para aquecer a água.

O Chile, naquela época, era um país com muitas injustiças,

com grandes disparidades sociais.

CO-FUNDADOR DA BANDA QUILAPAYÚN

Víamos crianças na rua, a viver na pobreza,

sem sapatos em pleno inverno.

A pobreza deitava-nos abaixo.

Víctor Jara carregava isso consigo.

Em junho de 1960...

MÚSICA DA BANDA FOLK CUNCUMÉN

... quando eu estava a terminar a universidade...

... conheci o Víctor.

O Víctor tinha um reportório tradicional.

Mas também começava a compor as suas músicas.

Por exemplo: "Paloma, quero dizer-te que estou só, que te amo."

É uma música que ele compôs para a Joan. Estava profundamente apaixonado por ela.

Tínhamos uma casinha. Tornámo-la nossa.

Plantámos árvores e um jardim e...

Era a pequena ilha do Víctor, repleta de amor.

O Víctor começou com o amor.

Todas as músicas dele eram de amor.

Somos quem somos graças ao amor.

Queremos ser melhores graças ao amor.

O mundo gira, cria e multiplica-se porque o amor existe.

Mais tarde, ele começou a falar sobre a situação do Chile.

Recolheu as experiências da população.

Ele recolheu todas essas histórias diretamente do povo.

Ele ouvia e escrevia essas músicas.

Em "El Arado", ele fala sobre a experiência dos camponeses.

Firmemente aperto a minha mão

E enterro o arado na terra

Faço isto há anos

Como não haveria de estar desgastado?

Recentemente, a juventude latino-americana tomou consciência

da realidade social do seu país.

E começaram a rebelar-se e a juntar-se à causa da classe trabalhadora.

É um tipo de música rebelde.

CO-FUNDADOR DA BANDA INTI-ILLIMANI

A nova música chilena estava muito ligada a tudo o que era novo

e que estava a ocorrer nos anos 60.

Víctor Jara foi o artista mais inovador da altura.

Vamos libertar-nos Da dominação e da miséria

Quando alguém vive num país muito conturbado,

cheio de protestos dos trabalhadores e dos estudantes,

e faz parte dessa luta,

as suas músicas refletem os tempos.

Limpa, como fogo, está a minha espingarda

Basta de música que não nos diz nada,

que só nos entretém por um momento, mas que nos deixa vazios.

Começámos a criar um novo tipo de música.

Música que nasceu da necessidade.

Uma das músicas mais famosas era "Oração do Lavrador".

Era uma ótima descrição do que se passava no Chile.

Levanta-te e olha para as tuas mãos

Para cresceres, chega ao teu irmão

Dava a ideia de que o rumo que este país seguia

seria dramático.

Na hora da nossa morte, ámen.

Ámen. Ámen.

Allende! Allende!

O Dr. Salvador Allende é candidato à presidência do Chile.

Se ele vencer, será o primeiro marxista de sempre

a ser eleito democraticamente.

A campanha de Allende promete pôr fim

às desigualdades económicas na América Latina

e defende os direitos dos camponeses e dos trabalhadores chilenos.

Os Estados Unidos opõem-se à eleição de Allende

e alertam contra a criação daquilo a que chamam "Outra Cuba".

Como todos os artistas da altura,

participámos intensamente no Movimento de Unidade Popular.

Aquele que, de entre nós, carregava a bandeira com mais orgulho era Víctor Jara.

Vem, vem Vem comigo

Vem, vem Vem comigo

Vamos percorrer a estrada

Até onde nascerá um novo destino

Vem

Durante a campanha eleitoral, acompanhámos Allende a muitos sítios.

As músicas de Víctor eram a banda sonora desse momento da História.

A sua música era essencial para a vitória de Allende.

NÃO HÁ REVOLUÇÃO SEM CANÇÕES

Allende disse que não havia revolução sem canções.

É oficial, Salvador Allende foi eleito Presidente do Chile.

A 4 de setembro de 1970,

estávamos a ouvir as notícias das eleições na rádio,

fomos até ao centro e foi uma festa gigante.

Desconhecidos beijavam-se, abraçavam-se, cantavam, dançavam

pela noite fora.

O Presidente da República, o camarada Salvador Allende.

O mundo estava de pantanas.

Havia uma mudança total nas relações humanas

e havia uma mudança porque

sentia-se, pela primeira vez, a presença da classe trabalhadora no Chile.

Ouvia-se a sua voz, estavam presentes em tudo.

E isso era maravilhoso.

Depois de ajudar Allende na eleição,

Víctor Jara tornou-se um fenómeno à escala mundial.

Tinha muito sucesso.

Não me lembro de concertos do Víctor que não terminassem com ovações de pé

e com as pessoas a pedirem mais.

Ele tinha uma ligação espiritual com as pessoas.

MÚSICO DA BANDA INTHILLIMANI

Nós tocávamos para apoiar Allende como presidente.

Depois percebemos que a ala direita, a oposição a Allende,

estava a tornar-se mais agressiva.

Formavam-se grupos paramilitares.

Vimos que as forças de direita queriam uma rutura na sociedade

só porque estavam a perder poder.

Metade da população,

aqueles entre nós que apoiavam Allende e a democracia,

eram considerados delinquentes ou suspeitos.

Se fôssemos mandados parar por um soldado tínhamos de provar a nossa inocência.

Insultavam-nos. Gritavam connosco na rua.

São todos degenerados corruptos!

Estes comunistas nojentos deviam ir-se embora do Chile!

O Víctor teve várias situações difíceis.

Uma vez, foi cantar a uma escola.

Numa música, ele denunciava um ministro

que tinha ordenado uma ofensiva que matou muitas pessoas no sul do Chile.

Tem de responder, Sr. Perez Zujovic

Porque reagiu a pessoas indefesas Com fogo

E o filho desse senhor estava lá.

Ele começou a gritar com o Víctor e o que se seguiu foi terrível.

Começaram a atirar pedras, foi terrível.

E se o Víctor não tivesse fugido, tê-lo-iam linchado.

Sabíamos que eram tempos complicados,

mas achávamos que tudo se resolveria.

Nunca imaginámos que tal violência pudesse acontecer no Chile.

Todos os que presenciaram o que aconteceu no Chile a 11 de setembro,

a sua vida mudou completamente. A minha mudou.

11 DE SETEMBRO, 1973

O 11 de setembro começou como um dia normal

a levarmos os filhos à escola.

Quando regressei, o Víctor estava a ouvir rádio.

O tão temido golpe de estado, hoje, tornou-se realidade.

Ouvimos as operações militares que se estavam a desenrolar.

As pessoas devem ficar no local de trabalho,

ocupar as fábricas e preparar-se para a luta contra o fascismo.

Incitaram os trabalhadores a reunir-se no local de trabalho

e o Víctor foi para a universidade.

Era o seu local de trabalho.

Cerca de duas horas antes do bombardeamento do Palácio La Moneda.

Temos relatos de que em Santiago, Chile,

se desenrola um golpe militar.

O Presidente Allende está cercado no Palácio La Moneda e está a ser atacado.

VOZ DO PRESIDENTE ALLENDE

A Força Aérea bombardeou as torres.

Acabei de falar com os trabalhadores. Não me demitirei.

Pagarei com a minha vida a lealdade do povo.

É a nossa história e serão as pessoas que a escreverão.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores!

Há alguns minutos, o Presidente Allende foi dado como morto.

Fomos informados de que o líder do golpe de estado é o general Pinochet,

Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Chile.

A Forças Armadas agiram unicamente por patriotismo,

para salvar o país do caos

que foi causado pelo governo marxista de Salvador Allende.

O Víctor conseguiu falar comigo à tarde e disse que...

... teria de ficar na universidade, porque havia recolher obrigatório.

Disse que me amava muito...

... que eu deveria ser corajosa e despediu-se.

Foi a última vez que falei com ele.

PRESO POLÍTICO

Na manhã do dia 12,

ficámos chocados ao ver avançar, na direção da universidade,

uma companhia com cerca de 100 soldados.

PRESO POLÍTICO

Foi onde chegaram com os canhões e a artilharia.

Depois, sem qualquer aviso,

começaram a disparar contra o edifício central da universidade.

Mandaram todos sair, deitaram os professores e os alunos no chão

com as mãos atrás da cabeça. Entre eles estava o Víctor.

O Víctor fazia parte do departamento de comunicações da universidade.

Depois começaram a levar-nos para o estádio...

UNIVERSIDADE DO CHILE

... que se chamava Estádio do Chile.

ESTÁDIO NACIONAL DO CHILE

Saímos dos autocarros e começaram a bater-nos,

enquanto nos levavam para o estádio.

Havia cinco ou seis mil presos políticos.

Chegámos todos magoados e feridos, a sangrar, com a roupa rasgada,

muitos estavam descalços.

Muitos chegaram sem calças, em cuecas, sujos e arrastados pelo chão.

SOBREVIVENTE

Despiram-me.

Deixaram-me em cuecas e sutiã.

Com as armas pressionadas contra mim. Revistaram-me.

Tocaram-me em todo o lado.

Vi lá muita coisa.

Mataram um jovem.

Devia ter 12 ou 13 anos.

Um amigo meu subiu as escadas. Ele gritou: "Viva Allende!"

E atirou-se.

Eu estava na fila. Um oficial observou os prisioneiros

e tirou o Víctor Jara.

O oficial histérico explode de raiva contra o Víctor.

"És aquele filho da puta do Víctor Jara,

o cantor das músicas comunistas. Eu já te ensino a cantar!"

"És o Víctor Jara! Filho da puta! Canta agora, idiota, canta!"

E bateu-lhe.

O soldado levantou a metralhadora e atingiu o Víctor nas costas.

Outro soldado voltou a bater-lhe e fê-lo cair de joelhos

quase aos pés do oficial.

O Víctor tentou proteger a cara com as mãos.

Mas quando abriu as mãos, um dos soldados pontapeou-o

e quase rebentou com um olho do Víctor.

Um oficial da Força Aérea aproximou-se, a fumar,

atirou o cigarro para perto do Víctor e disse-lhe: "Fuma, idiota!"

O Víctor disse que não fumava.

O oficial gritou: "Fuma, idiota!"

Perante isto, o Víctor, com uma mão hesitante e a tremer,

tentou pegar no cigarro.

O oficial esmaga-lhe os pulsos e diz:

"Tenta tocar guitarra agora, com as mãos nesse estado, filho da puta."

PRESO POLÍTICO

O estado em que vi o Víctor... Estava destroçado, destruído por dentro.

Ele tentava levantar-se, mas estava sempre a cair.

Batiam-lhe para que ficasse de pé.

A última vez que vimos o Víctor vivo foi ali em cima,

com a cara a sangrar, a olhar das bancadas,

para cerca de mil a dois mil presos políticos.

Era o povo dele.

Víctor não foi apenas fuzilado.

Não lhe encostaram uma arma à cabeça e dispararam. Não.

Ele foi assassinado da pior maneira possível.

Torturado até à morte.

Com as mãos atrás da cabeça,

levaram-nos para a frente do estádio.

E vimos uma situação dantesca.

Havia 20 a 30 cadáveres empilhados.

E entre essa montanha de cadáveres estava o corpo inerte de Víctor Jara.

A 18 de setembro,

no início da manhã,

um jovem veio a minha casa...

... para me dizer que o corpo do Víctor tinha sido reconhecido na morgue.

Fui com ele, entrámos pela porta de lado,

e vi-os, pela cidade de Santiago, centenas de cadáveres

de trabalhadores e estudantes chilenos,

alguns ainda tinham as mãos atadas atrás das costas.

Com terríveis ferimentos de metralhadora.

Entre esses corpos, encontrei o do Víctor.

Um corpo muito espancado e cheio de sangue.

Meio despido e cheio de ferimentos de metralhadora.

Tinha as mãos separadas dos pulsos, a cara cheia de sangue.

ATUALMENTE

Foi o dia em que a minha primeira vida terminou.

A pouco e pouco, fui obrigada a começar uma vida completamente diferente

da que tinha vivido até àquele momento.

Da memória do corpo do Víctor na morgue, consegui...

... encontrar uma voz.

Uma voz

para acusar, acusar, acusar, testemunhar.

Tive de continuar a partir do momento em que mataram o Víctor.

Tive de correr para onde ele tinha parado. Tive de...

... continuar e tentar, de certa forma, não ocupar o lugar dele,

mas o meu lugar naquilo por que o Víctor lutava.

Gostaria de dizer só uma palavra.

Estou emocionada por saber que, tantos anos depois,

a memória do Víctor continua a viver através de todos vocês.

Estive nos Estados Unidos.

Estive no Japão. Estive na Austrália.

Em quase todos os países da Europa,

onde as pessoas desejaram, através de mim, do Víctor,

através do símbolo que o Víctor é, expressar a sua preocupação pelo Chile.

ADVOGADO DA FAMÍLIA JARA

A Joan estava determinada a fazer justiça

e a responsabilizar os autores da morte do Víctor

e passou décadas a fazer isso.

Ela moveu mundos e fundos para tentar fazer justiça.

PELO DIREITO DE VIVER EM PAZ EM HONRA DE VÍCTOR JARA

Eu impulsionei o processo do homicídio do Víctor.

As Forças Armadas não davam informações sobre os responsáveis.

Não houve desenvolvimentos durante anos e anos...

... e anos.

Os números oficiais dizem que a junta de Pinochet matou mais de 3 mil pessoas

entre 1973 e 1990.

Deram proteção aos assassinos.

Houve um pacto de silêncio entre eles.

Pinochet era, aos olhos do mundo,

um dos ditadores mais violentos da América Latina.

É a amargura da injustiça neste país.

Quem abusou, torturou e assassinou,

na grande maioria, saiu impune.

Cerca de 30 mil pessoas foram vítimas de abusos dos direitos humanos

e cerca de 27 mil foram torturadas.

Quando Augusto Pinochet foi preso, a 16 de outubro de 1998,

houve uma mudança incrível na história do Chile.

Pinochet foi preso em Londres por acusações de tortura e genocídio

graças a um mandado emitido por um juiz espanhol.

O homem cujo nome era sinónimo de violações dos direitos humanos

tinha sido detido.

A imunidade dele chegara ao fim, a impunidade dele fora estilhaçada.

Ainda há esperança para as suas vítimas e as famílias,

porque no início do mês, um juiz chileno decidiu reabrir uma investigação

da morte do cantor popular Víctor Jara.

Creio que a investigação foi reaberta graças às cerca de 40 provas

que conseguiu, que todos vocês, conseguiram descobrir.

Nos primeiros anos, havia um grande medo de falar.

Mas, agora, as pessoas estão dispostas a falar sobre as suas experiências

e sobre o que viram e quem viram.

Os soldados eram muito jovens,

17, 18 anos, que tinham sido recrutados. Foram obrigados a servir no exército.

Alguns dos soldados mais novos que participaram nestas atrocidades

começaram a quebrar fileiras.

Um deles estava ligado ao caso Jara.

Jose Paredes foi a primeira pessoa a levar o caso para o próximo nível

quando identificou um tenente, Pedro Pablo Barrientos.

Paredes afirmou ter visto Barrientos a matar Víctor Jara.

Ele estava muito ferido.

Muito ferido.

Tinham-no sentado, de pé,

amarrado? - Tinham-no sentado.

Tinham uma cama de campanha. Era onde ele estava.

E bateram-lhe muito.

- Quem o alvejou? - O Barrientos.

Como é que o alvejou, Jose?

Quase à queima-roupa.

JORNALISTA CHILENA

Foi muito importante, porque foi a primeira vez

que alguém do exército admitia ter visto

e estava a apontar o dedo,

a identificar a pessoa que matou Víctor Jara.

Muitos chilenos do regime de Pinochet decidiram vir para os Estados Unidos,

quando se tornou claro que o regime de Pinochet estava a chegar ao fim

e que o exército não os protegeria.

Essas pessoas foram viver felizes para sempre

até os investigadores dos direitos humanos as terem apanhado.

E foi o que aconteceu no caso de Pedro Barrientos.

Foi muito difícil encontrá-lo, no início.

Na verdade, En La Mira da Chilevision fez um especial de investigação

e souberam que ele estava na Florida.

Joan apelou ao público que os ajudasse a encontrar este homem.

O oficial que se tinha refugiado aqui tinha obtido...

... cidadania norte-americana.

Termos sido contactados pelo CJA, o Centro para a Justiça e Responsabilização,

foi uma dádiva.

Nós, no Centro para a Justiça e Responsabilização,

estávamos muito interessados em ver se era possível

abrir um processo contra este homem que facilitasse a extradição.

O processo da família Jara contra Barrientos

era um caso cível.

Nos Estados Unidos, temos uma alínea em particular

que permite que pessoas que são vítimas de tortura

levem a tribunal os responsáveis pela tortura.

Levámos o caso a tribunal e encontrámo-nos com Paredes

e falámos com ele sobre a vinda aos Estados Unidos para dar depoimento.

Ele foi muito credível. Acreditámos nele.

Achávamos que tínhamos hipóteses.

Apesar de ser um julgamento cível, e não criminal,

podia implicar a extradição de um criminoso

que tinha sido diretamente responsável pela tortura e morte do Víctor.

A minha irmã chamou-me e disse:

"Pablo, um soldado disse na televisão que mataste o Víctor Jara."

E a minha pergunta foi: "Quem é Víctor Jara? Quem é?"

Ela disse-me: "Pedro Pablo, pedem a tua extradição."

Eu não matei Víctor Jara. Não estive no Estádio do Chile.

Tudo o que dizem é mentira.

Querem-me no Chile como um troféu político.

Nunca fomos ricos.

Mas éramos ricos nas lições que a nossa mãe nos ensinava.

O meu pai abandonou-nos quando eu tinha dois anos.

Vivíamos do que o mar nos dava. Tínhamos peixe, marisco.

Havia sempre música em nossa casa.

Eu acordava com música, porque os meus irmãos estavam sempre a cantar.

Estavam sempre a tocar instrumentos.

Aos domingos, íamos ver a banda do regimento

quando os soldados içavam a bandeira nacional.

Eu não perdia um domingo.

Entrei na escola militar aos 16 anos.

Começar esse regime militar, essa nova forma de vida,

deixar a cidade onde morava e ir sozinho para Santiago,

era um sonho.

EX-MULHER DE BARRIENTOS

Coheci o Pedro Pablo em minha casa. Ele veio com um amigo.

Eu tinha 15 anos e ele tinha 18.

Ele era divertido. Era educado.

Tinha personalidade, mas era reservado.

Esse período da minha vida com a Maria Teresa foi muito bonito.

Fui para a Faculdade de Engenharia acabado de casar.

Deixei a escola como tenente.

Quando tive a oportunidade de eleger o presidente...

... decidi votar em Salvador Allende.

Porque ele tinha boas políticas.

Porque cresci num sítio onde existia pobreza.

De repente, um homem aparece e diz: "Vamos erradicar a pobreza."

E eu pensei que ia ser socialista.

Na época de Salvador Allende, as coisas tornaram-se muito difíceis.

O país não tinha comida. Não havia nada.

Tínhamos de estar na fila para comprar leite.

O café e o leite são racionados.

O país começou a ter problemas. Havia greve dos camionistas.

Os trabalhadores faziam greve em várias fábricas.

Se o sangue tiver de correr, que corra.

O povo estava nas ruas.

Os discursos de Salvador Allende tornaram-se cada vez mais duros.

Temos de fortalecer o poder popular.

Em 73, éramos um país dividido.

10 de setembro foi um dia especial.

Os soldados chegaram e bateram-nos à porta.

Disseram-nos que tínhamos de estar prontos

porque provavelmente íamos a Santiago para cumprir ordens.

Ele deu-me um beijo e saiu.

Ele disse: "Não sei para onde vamos em Santiago. Não sei o que vai acontecer."

Às 7h30 chegámos ao Arsenal do Exército.

O major disse-nos:

"Quatro soldados da vossa unidade vão ser guarda-costas."

Foi quando eu escolhi o Hinojosa.

EX-SOLDADO

Fui escolhido, com outros soldados, para guarda-costas do major.

Acompanhei o Hinojosa como parte da equipa de segurança.

Fomos ao Ministério da Defesa.

Por volta das 11h, começaram a bombardear o Palácio La Moneda.

Ouvimos pela rádio que Salvador Allende tinha morrido.

Pinochet discursou e assumiu o poder.

A partir desse momento, estive sempre com o major.

Estava no Ministério da Defesa com o meu pelotão.

Patrulhámos o sector para o qual fomos destacados,

que tinha uma entrada e uma saída pelo Arsenal do Exército.

Durante 24 horas por dia, do dia 11 ao dia 16,

estive com o tenente Pedro Pablo Barrientos Nunez.

Durante essa altura, não tivemos ordem para ir ao Estádio do Chile.

ESTÁDIO DO CHILE

Estávamos só numa área.

O Estádio do Chile era muito longe da área que patrulhávamos.

Não estive no Estádio do Chile. O que mais lhes posso dizer?

EX-SOLDADO

Conheci o tenente Barrientos quando entrei para o exército.

Porque ele era o comandante da nossa divisão.

O Sr. Paredes acusou-o na televisão, mas ele não esteve no Estádio do Chile.

Nunca. A nossa companhia nunca foi ao Estádio do Chile.

O Barrientos não esteve lá.

Isto de me colocarem no Estádio do Chile tem uma explicação simples.

Primeiro, no programa En La Mira,

disseram que eu era o responsável pelo Estádio do Chile.

E quando isso é repetido vezes sem conta, durante semanas,

começa a ficar na memória das pessoas, naquela altura,

que eu estava no Estádio do Chile.

Depois da reportagem, os soldados começaram a colocar-me

no Estádio do Chile.

Quando o En La Mira foi transmitido, eu disse à minha esposa:

"São só mentiras. Nada daquilo é verdade."

"Porque dizes isso?", perguntou ela. "Porque estive lá!"

Nunca fomos ao Estádio do Chile.

Nem naquela data nem depois.

O soldado Paredes foi ao En La Mira implicar-me na morte de Víctor Jara.

Mas, mais tarde, admitiu que o dissera, porque estava a ser pressionado

pelos investigadores da Polícia.

EX-SOLDADO

Eu inventei as histórias. Era tudo mentira.

Eu estava extremamente stressado. Muito stressado.

Senti que estava encurralado

e que tinha de dizer aquilo.

No fim, explodi e disse:

"O meu tenente Barrientos matou-o."

Não queria mais interrogatórios.

Estava ressentido com ele.

Quando era subalterno dele...

... ele batia-me muito.

Quando me perguntaram quem tinha sido, eu disse: "O tenente Barrientos!"

Mas não era verdade.

Não era verdade.

Juro por Deus e pela campa do meu filho. Era tudo mentira.

Perceber que não podíamos contar com Jose Paredes foi muito difícil.

A primeira sensação foi de desespero.

O que vamos fazer?

Onde vou buscar energia para reconstruir esta estratégia?

Depois de Paredes se encontrar connosco e dizer que não ia participar,

a Polícia Nacional Chilena começou a investigar este caso com empenho.

Conseguiram construir um caso que implicava o Barrientos.

Mas, naquele momento,

tivemos de nos perguntar se tínhamos provas suficientes para ir a tribunal.

Precisámos de mais soldados que pudessem identificar Barrientos em vários papéis,

mas tinham medo de depor contra Barrientos.

Em 1973,

havia muitos jovens a cumprir o serviço militar obrigatório.

Devia ter durado um ano, mas deu-se o golpe.

Tiveram de fazer coisas horríveis e viram coisas horríveis.

Esses jovens de 18 anos saíram de casa dos pais

para o exército, um golpe de estado, repressão, tortura

e execuções.

Sinto-me culpado, porque fiz muitas coisas que não devia ter feito.

Torturei pessoas, mas estava a seguir ordens.

Até ao dia de hoje...

... eu sofro.

Causa-me sofrimento.

ADVOGADO DA FAMÍLIA JARA

Acredito que há muitos mais soldados que sabem a verdade sobre Víctor.

É provável que sejam visitados por oficiais que lhes dizem:

"Não falem sobre isto. Não confessem."

Têm medo de dizer a verdade sobre o que viram, o que fizeram

ou o que sabiam.

Continuam a ter medo dos seus superiores.

Barrientos deixou o país em 1989.

Quando a democracia estava a regressar ao Chile, mudou-se para a Florida.

Creio que Barrientos veio para os Estados Unidos

para não ter de enfrentar a justiça no Chile.

Os Estados Unidos são um país lógico para muitos militares da América Latina

procurarem refúgio.

Apoiámo-los durante o golpe de estado.

Salvador Allende tornou-se o primeiro presidente socialista

a ser eleito democraticamente no mundo.

E isto causou medo

no coração dos Estados Unidos, sobre o governo de Kissinger e Nixon.

Kissinger escreveu a Nixon:

"Não podemos contestar a sua legitimidade, pois foi eleito democraticamente.

Temos de minar a sua capacidade para governar,

para que não se apresente ao mundo com um modelo de sucesso."

A CIA foi enviada por Richard Nixon e Henry Kissinger

para destronar Allende e ajudar a levar Pinochet ao poder.

EX-AGENTE DA CIA

Entrei para a CIA pouco antes de ser destacado para Santiago, no Chile.

Tínhamos de combater os comunistas,

e achámos que o Chile representava um risco enorme.

Isso levou a mais contactos com o exército chileno

e a um longo esforço de propaganda para reunir fundos

para o jornal de direita do Chile, El Mercurio,

para que se tornasse o centro da propaganda e oposição contra Allende.

Quando Allende chegou ao poder

a CIA tomou ações políticas,

mas não agiu com o exército na conspiração para depor Allende.

Não conduzimos os tanques,

não pilotámos os aviões que atacaram o Palácio La Moneda,

mas criámos as condições para apoiar

o que se tornou um dos regimes mais sangrentos da história da América Latina.

Havia relatos de abusos dos direitos humanos.

E ficou claro que tinha sido brutal. Não foi um golpe de estado sem sangue.

FUNDAÇÃO DA VERDADE CHARLES HORMAN

Os Estados Unidos estiveram envolvidos

na queda de um governo eleito democraticamente,

na colocação do exército no poder e no apoio que lhe deram.

O meu marido, Charles, um americano,

estava a seguir o que se passava no Chile como jornalista e realizador.

O Charlie reuniu-se com militares americanos que estavam

muito orgulhosos do sucesso do golpe e que assumiam os louros.

O Charles ficou muito desconfortável porque sabia que era uma operação ilegal

que estava a decorrer.

O Charles foi detido.

Depois disso fui ao Consulado e dei-o como desaparecido.

Mais tarde, soube que o Charles tinha sido morto no estádio.

Não acredito que os chilenos tivessem matado o Charlie

sem terem uma autorização do governo americano.

Fomos ao Congresso e depusemos.

A reação foi: "Céus, isso é terrível. Não deveria voltar a acontecer."

Mas não houve qualquer investigação.

Eu e a Joan sentimos que as lições do Chile,

dos crimes contra os direitos humanos, da missão terrível

de levar esses casos a tribunal são muito importantes.

Há 44 anos que procuramos justiça.

A tragédia não foi só minha, foi uma tragédia coletiva.

E eu fui uma das sortudas que conseguiu ver o marido morto.

Ao contrário de outras pessoas, cujos familiares desapareceram.

E empenhei-me

em bater às portas fechadas do sistema judicial.

Ninguém pediu perdão pelo que aconteceu.

O Víctor é mais do que um homem, é um símbolo de muitas coisas.

Ainda não fizemos justiça a Víctor Jara.

E a família Jara, como muitas outras famílias,

passou décadas a lidar com isto.

Temos de manter a calma e saber que temos muito trabalho pela frente.

O crime destrói a vida,

mas passar 40 anos à procura de justiça também a destrói.

Joan Jara é admirável.

Tem sido incansável, mas não estará cá para sempre.

Tenho 90 anos.

É um...

Um último esforço.

Decidimos que não podemos desistir da Joan.

Mantém-se a necessidade de justiça.

Temos de encontrar todos os soldados com ligações ao Estádio do Chile,

sobretudo, nos dias da tortura e morte de Víctor Jara.

A equipa de advogados viajou para o Chile.

Fomos ao Chile, à procura de outras testemunhas.

Isso é muito difícil.

Os soldados não queriam dar a cara.

Se tiverem 60, 70, 80 anos

e nunca estiveram envolvidos em processos legais

pelos crimes que cometeram, porque começariam agora a colaborar?

Almudena foi muito persuasiva a falar com os soldados

e creio que criou uma ligação com eles.

Foi uma montanha-russa, mas consegui pormenores

da parte dos soldados.

EX-SOLDADO

Na noite do dia 11, fomos ao Estádio do Chile.

A 11 de setembro, levaram-nos para Santiago, para o Estádio do Chile.

Garanto que Pedro Pablo Barrientos estava no Estádio do Chile

nos seis dias em que lá estivemos.

Vários soldados testemunharam

que Barrientos estava no estádio.

Nesse momento,

tínhamos provas suficientes para ir a tribunal.

TRIBUNAL FEDERAL, ORLANDO 13 JUNHO, 2016

A história sangrenta do Chile chegou a um tribunal da Florida,

onde, na segunda-feira de manhã, um ex-soldado chileno será processado

pela família do cantor revolucionário chileno, Víctor Jara.

Com testemunhas falsas...

... com argumentos falsos...

... porque a base do processo era o soldado Paredes.

Acusaram-me de má-fé.

É uma perseguição política.

Quem viajou para os Estados Unidos,

para depor, não foram os soldados.

Previmos que haveria algumas dificuldades em conseguir os vistos.

Então, os soldados depuseram em videoconferência.

VÍDEO DE DEPOIMENTO

Enquanto esteve no Estádio do Chile, viu o tenente Barrientos?

Sim.

Barrientos veio da escola militar com as nossas ordens.

Vi que levava uma pasta.

Sabíamos que levava as ordens do dia.

O tenente Barrientos era responsável pelo grupo.

Era o oficial mais antigo.

Ele organizou a patrulha

e deu as ordens.

Eu via o tenente Barrientos do meu posto, no terceiro piso.

Sempre que olhava para baixo, ele estava a falar com os soldados.

Quantas vezes viu o Sr. Barrientos no Estádio do Chile?

Várias vezes, não sei quantas.

Em alguns casos, os soldados diziam coisas

cujo impacto desconheciam.

Não tinham noção do impacto do que estavam a dizer.

"Sim, tenho a certeza. Vi o Barrientos nesse dia.

Sim, vi-o fazer isto e aquilo."

Devem ter pensado que era uma coisa banal.

Conhece os dois guardas que estavam com ele naquele dia?

Sim.

Quem eram?

O Quiroz estava lá.

As pessoas davam depoimentos.

Diziam que eu estive lá, mas não estive.

O que mais posso dizer?

- Conhece algum Hinojosa? - Sim, era o outro guarda-costas.

Nunca fui ao Estádio do Chile com o Pedro.

Os antigos guarda-costas de Barrientos, Hector Hinojosa e Francisco Quiroz,

declararam que o tenente Pedro Barrientos não tinha estado no estádio do Chile,

mas outras testemunhas alegam que esteve lá nos dias fatídicos.

Os álibis de Barrientos eram inconsistentes

porque os soldados os colocaram no estádio com eles.

Eles viram-nos lá.

Muitas pessoas colocavam Barrientos no estádio.

Com base nas provas, não havia dúvidas de que esteve lá, naquele dia,

e que esteve a dar ordens.

Mas ainda não tínhamos alguém que o tivesse visto a puxar o gatilho.

Era a testemunha que nos faltava.

EX-SOLDADO

Não faziam ideia de quem tinha sido o autor material

da morte de Víctor Jara.

E eu disse-lhes: "Eu sei quem foi."

Entrei para o exército chileno em 1978.

Estava a fazer o serviço militar quando o Barrientos me escolheu para guarda-costas.

O Barrientos andava sempre armado.

E gabava-se de ter matado o Víctor Jara com aquela arma.

Apesar de Navarrete não ter visto Barrientos a puxar o gatilho,

foi a testemunha que corroborou a autoria material,

o responsável, que cremos ser o correto.

Navarrete ouviu Barrientos gabar-se

de ter matado "o comunista do Víctor Jara" em mais de uma ocasião.

O soldado Paredes mentiu.

E o soldado Navarrete também.

Ninguém diz que matei o Víctor Jara, exceto esses dois,

que foram ambos pressionados pelos investigadores da Polícia.

Mais ninguém diz isso.

O nosso advogado disse-me:

"Os Jara e os advogados deles não têm provas. Nenhuma.

E as provas estão do vosso lado."

Há duas coisas que se têm de provar num julgamento cível.

O que aconteceu, a responsabilidade do réu

e também o impacto nas vítimas.

Apresentámos várias fotos de família

e falar de como era a vida familiar.

E passámos a música.

Quando vou trabalhar penso em ti

Pelas ruas do bairro penso em ti

Era uma música sobre um ativista que cantava para a esposa.

É uma música para a Joan.

Soube através de alguns chilenos, que estavam na galeria,

a emoção que sentiram ao ouvir a voz de Víctor

na sala de audiências.

Aquela voz maravilhosa saiu da sepultura e falou com o júri.

E Barrientos teve de ouvir.

Foi muito emotivo, fiquei emocionado.

Se alguém me mostra um homem que adora as filhas,

e me apresentam uma vida em fotos repletas de felicidade,

isso é brincar as emoções.

Não é jogar limpo.

O júri demorou bastante.

Passámos dias à espera, cheios de nervosismo.

A família Jara estava nervosa nos primeiros dias,

mas disseram-me que sentiam que o caso tinha sido provado.

Sabiam o que tinha acontecido

e, perdessem ou ganhassem, estavam muito satisfeitos com o julgamento,

o que...

Desculpem, foi muito importante para mim.

53 anos depois do assassinato chocante de Víctor Jara,

um tribunal cível dos Estados Unidos

deu Pedro Barrientos como culpado pela morte atroz.

Pedro Barrientos foi condenado a pagar 28 milhões de dólares

à família do cantor.

O veredito foi um dos mais avultados desse ano, nos Estados Unidos,

foi impressionante e mandou uma mensagem importante.

Estou feliz, no sentido em que...

... o que tentámos fazer...

... durante mais de 40 anos...

... hoje tornou-se realidade.

Por razões políticas, destruíram a minha vida.

Pediram a minha extradição.

Disse-vos que não apareceria neste documentário

a não ser que me assegurassem um detetor de mentiras.

Preciso de uma forma de mostrar ao mundo que sou inocente.

O polígrafo determinará quem mente e quem diz a verdade.

Não tenho receio, porque estou inocente.

- Está atualmente na Florida? - Sim.

Esteve no Estádio do Chile entre o dia 11 e o dia 16 de setembro

de 1973? - Não.

Tem de perceber que sempre que respira fundo...

- Sim. - ... mexe-se.

É muito importante que respire normalmente.

O movimento é inimigo do polígrafo.

Torturou alguém antes ou depois

do 11 de setembro de 1973 no Chile? - Não.

Em 1973, alvejou e matou Víctor Jara?

Não.

Acabou. Pode descontrair.

Fizemos três sessões,

tentámos dizer-lhe para não se mexer e não respirar fundo,

10 vezes por sessão.

Ele mexeu-se e respirou fundo 30 vezes ao longo das três sessões.

Na pergunta:

"Torturou alguém durante ou depois do golpe de estado no Chile?"

ele mostrou 99 % de erro.

Na pergunta: "Em 1973, alvejou e matou Víctor Jara?"...

... mostrou 97 % de erro.

Eu analisei tudo,

e os resultados foram inconclusivos.

Foram inconclusivos, porque estava a respirar fundo

e a mexer-se.

O computador não conseguiu analisar de forma a obter resultados.

Sim, mas isso é bom ou mau?

Não é bom nem mau, já que não posso mostrar os resultados.

Percebe?

Ele ignorou as minhas instruções.

Na minha experiência de mais de 30 anos,

quem faz isto costuma estar a mentir.

Mas fazem o teste.

Estou?

Os resultados foram inconclusivos.

Não é bom nem mau.

O que significa isso?

Não ficou claro se eu estava a mentir ou a dizer a verdade.

Barrientos foi declarado responsável pela tortura e assassinato de Víctor Jara,

foi acusado desses crimes no Chile,

mas continua a ser um cidadão americano, a gozar das liberdades dos cidadãos.

Pedro Barrientos parece ser a definição de Donald Trump

de um "bad hombre", uma má pessoa,

que veio para os Estados Unidos depois de ter cometido muitos atos de violência,

de ter mentido sobre eles

e que não deveria viver em paz para sempre

nos Estados Unidos.

Quando vou dormir...

... penso sempre...

... na injustiça que cometeram contra mim

em relação à morte de Víctor Jara.

Sou um dos troféus políticos de que o Chile precisa.

Garanto-vos. Não me apanham no Chile. Prefiro morrer.

Não me arrependo de nada, porque não fiz nada de errado.

Não matei ninguém. Não maltratei ninguém.

Lembro-me do dia em que o Víctor foi assassinado.

Eu estava sentado ao lado dele.

E ele disse-me: "Dá-me papel e lápis."

Passei-lhe o meu bloco de notas,

que tinha folhas em branco, e um lápis.

E o Víctor começou a escrever, rapidamente.

Muito concentrado. Lá fora, ouvíamos barulho e gritos.

Mas ele estava concentrado, a escrever, talvez pressentindo que ia morrer.

Quando apareceram dois soldados e o agarraram à bruta.

O Víctor atirou o caderno, eu apanhei-o e guardei-o.

E ali estava a sua última música,

o último poema de Víctor Jara, chamado "Estádio do Chile".

É assim: "Minha canção, quão tenebrosa é a tua melodia,

quando tenho de cantar sobre o horror.

O horror que estou a viver.

O horror com que morro. Horror."

Escreveu-a duas horas antes de ter sido assassinado.

Pelo Víctor, eu não queria falar da morte dele.

Mais uma vez.

Queria trazer ao Chile a vida do Víctor.

Foi incrível sentir que as pessoas o adoravam.

Geração após geração viu-o como...

... um exemplo.

Cantou as músicas dele.

TODOS OS ANOS, O FESTIVAL DAS MIL GUITARRAS POR VÍCTOR JARA

ACONTECE EM SANTIAGO, NO CHILE, PARA CELEBRAR A SUA VIDA E MÚSICA

O direito de viver em paz

A 3 DE JULHO DE 2018 OITO OFICIAIS CHILENOS REFORMADOS

FORAM CONDENADOS A 15 ANOS PELO SEU ENVOLVIMENTO

NA TORTURA E MORTE DE VÍCTOR JARA.

PEDRO BARRIENTOS NÃO FOI INCLUÍDO NO PROCESSO,

UMA VEZ QUE VIVE NOS ESTADOS UNIDOS.

APESAR DE O SISTEMA JUDICIAL CHILENO

TER RENOVADO ESFORÇOS NO SENTIDO DA SUA EXTRADIÇÃO,

BARRIENTOS AINDA ESTÁ EM LIBERDADE NA FLORIDA

EM 2003, O ESTÁDIO DO CHILE MUDOU O NOME

PARA "ESTÁDIO VÍCTOR JARA"

ESTÁDIO VÍCTOR JARA

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