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Onde você tá me levando, Heitor? Eu tenho horário.
Calma, calma, coração.
É só uma surpresa de Dia dos Namorados. Calma.
-Ah, não, eu odeio. -Surpresa?
Não. Dia dos Namorados.
Pronto, pronto, chegamos. Agora, me dá aqui sua mão.
Ai, ai, ai. Peraí.
-Ai. -Me dá aqui sua mão.
Sai devagar.
-Olha a cabeça, olha a cabeça. -Agora que você avisa?
Ai, eu tenho fobia de ficar de olho fechado.
-Senta aqui. -Peraí. Que lugar é esse, hein?
Calma, calma. Você já vai entender, tá?
Ai, Heitor, o que você tá fazendo?
Calma, amor.
-Você vai entender. -Que isso?
Você vai entender.
-Que isso, Heitor? Fala! -Calma, calma.
O que... Heitor!
Heitor...
Nem o Sol Nem o mar
Nem o brilho das estrelas
Tudo isso não tem valor Sem ter você
Sem você, nem o som Da mais linda melodia
Nem os versos dessa canção lam valer
Nem o perfume De todas as rosas é igual
À doce presença do seu amor
O amor estava aqui Mas eu nunca saberia
Do que um dia se revelou Quando te vi
Nem o perfume De todas as rosas é igual
À doce presença do seu amor
O amor estava aqui
-Mas eu nunca saberia -Heitor, o que é isso?
Do que um dia se revelou Quando te vi
Débora...
você quer casar comigo?
Não.
-Você se precipitou. -Eu me precipitei?
-Você não deveria... você me expôs! -Você é insensível!
Heitor, e aí, vai ou não vai rolar esse churrasco?
-Ah, Leandro. -Eu lá tenho cabeça pra churrasco?
Desculpa, primo, bota a maminha na grelha.
Débora, olha pra cá.
A gente tá junto há dois anos.
Moramos juntos, compramos apartamento juntos.
Por que não agora?
Porque a agência quer que eu vá morar durante um ano em Tóquio.
Quer que eu trabalhe com o grande Toshiro Miyazaki. E aí?
Quem é esse?
Não sei, não tenho a menor ideia.
Só sei que ele é grande. Me falaram.
Heitor... Heitor, pelo amor de Deus...
você sabe que meu sonho é estagiar fora do Brasil.
-lmagina, sabe... -Eu sei, meu amor, eu sei disso, tá?
O que eu não entendo é por que você não me contou isso antes.
Você ia terminar comigo quando, hein?
No check-in do aeroporto?
-Eu ia te falar no momento... -Deixa pra lá, Débora, deixa pra lá.
Tenho um churrasco me esperando.
Sayonara.
Débora, acorda.
Bom dia, Bela Adormecida.
Pera, peraí. Bom dia.
Bom dia, calma.
Bom dia, vamos acordar com calma.
Feliz Dia dos Namorados.
Tô de dieta.
-Ah, é? -É.
Eu não sabia.
Não sabia.
Ontem mesmo, na boate, eu não te falei...
que já tem dez anos que eu não como pão?
-Eu me esqueci. -É.
Mas são certas coisas na vida que a gente não pode esquecer.
Entendeu, Danilo?
Diogo. Meu nome é Diogo.
Whatever.
Ai, não.
Ai, meu Deus.
O senhor pode, por favor, trocar essa flor de mão...
por gentileza?
Não tem espaço.
Obrigada.
Te quiero.
Te quiero.
Era só o que me faltava, meu Deus.
Te quiero.
Te quiero.
Por favor...
tira esse urso paraguaio da minha cara, faz essa gentileza.
Desculpa.
-Te quiero. -Me dá licença.
Te quiero.
-Hi! -Que isso?
-Você é a Débora? -Sou. Que raio é esse?
-Que bom. Segura aqui, bofe. -Meu Deus!
O que significa isso?
Que brincadeira é essa?
Sábado na balada
A galera começou a dançar
E passou a menina mais linda
Você.
Tomei coragem E comecei a falar
Nossa, nossa Assim você me mata
Ai, se eu te pego, Débora Ai, se eu te pego
Debrinha, Debrinha Você não me escapa
Não me escapa
Feliz Dia dos Namorados!
Ai, Debrinha, esse é um presente...
do meu, do seu, do nosso Velberson!
Olha só, meu filho, ou minha filha...
não sei, não consegui até agora identificar o que você é.
Mas eu não tenho nem marido, nem noivo, nem namorado...
nem muito menos, Graças a Deus, um inimigo chamado Velberson.
Ué, mona, mas você não é a Débora Silva?
Eu sou Débora Ferrão.
Débora Silva trabalha lá.
Embaixo.
No almoxarifado.
E por que não disse antes? Eu, hein!
E eu gastando meu latim todo com você.
Onde é que fica essa racha, hein?
O Hospital do Coração é um instituto com tecnologia de ponta.
Já tratou de vários de nossos políticos...
vários dos nossos governantes.
Ele é tão bom que até achou um coração num deles.
Oi, Débora.
Desculpa, eu só tava estudando o vídeo do Gilberto.
-Ele era um gênio. -Era.
Mas precisava você ver o último vídeo dele?
lmagina, esse não é o último vídeo, não.
Gilberto? Gilberto? Pelo amor de Deus, Gilberto?
Por favor, alguém chame um médico.
Acho que é, né?
Ele enfartou durante a campanha do Hospital do Coração?
Até nisso ele foi genial.
Foi mal, eu não sabia.
Cadê minha fotos da Netshoes? Hein?
Não sabe, né?
Queria que você cobrasse do Helder, por favor.
Pode deixar, Débora, é pra já.
Só mais uma coisinha.
Carol, nunca mais...
chega perto da mesa do Gilberto, ok?
Pronto.
Débora, o Marcos quer falar com você na sala dele.
Tô indo.
O que você quer, Marcos?
Dá uma pisadinha nas minhas costas, essa dor tá me matando.
-De novo? -Por favor, por favor!
lsso! Aí, aí!
Não acredito. Você me chamou aqui para isso?
Não. A campanha do Sonho de Valsa...
-pode ser nossa. -Brincou!
Quero essa campanha, hein, Marcos!
Por isso que você foi a primeira pessoa em que pensei.
-lmediatamente. -Jura?
Poxa, obrigada. Nem sei como te agradecer.
Pisa um pouquinho mais perto da bunda que tá tudo certo.
Tá bom?
Ai, garota. lsso.
A encomenda é que a campanha fale do romance moderno, atual...
-Boa! -O amor no dia a dia.
Marcos, pelo amor de Deus. Amor no dia a dia.
lsso já tá muito batido.
Tem que ser uma coisa, sabe, mais...
-mais, sabe? -Peraí, peraí.
Eu entendo que você não tem namorado...
-e tem uma certa dificuldade. -Que é isso?
-Você tá de sacanagem? -Sacaneando, imagina!
-Tá me sacaneando. -Você tem homem?
Marcos?
Não é por que eu não tenho pau, que eu não posso falar de camisinha.
lsso foi romântico!
Tá vendo? Essa sou eu. É pra quando?
-Pra hoje? -Exatamente, hoje.
O jantar com o cliente é às 21 h.
Ou seja, nós temos até às 20h pra sermos geniais.
-Débora, não vai dar. -Como?
Débora, desculpa...
mas eu fiquei de me encontrar com meu namorado às 18h.
A gente vai pra Atibaia.
Menina, já fizemos a reserva do hotel faz cinco meses.
-Chama o Fred! -Gente, eu tô indo embora, tá?
Desculpa, não contem comigo pra nada.
Tchau pra todo mundo.
Bom, sobrou pra nós.
Vem cá que eu vou te mostrar uma coisa.
Olha que coisa mais linda que meu namorado me mandou.
Te quiero.
Carolina, por favor, tira esse urso da minha frente...
me faz essa gentileza.
Obrigada.
Débora, por favor. Hoje é o Dia dos Namorados.
Eu tô achando, tô sentindo aqui...
que meu namorando vai me pedir em casamento hoje!
Babaquice.
Carolina, você quer que eu te diga o que é o Dia dos Namorados?
Dia dos Namorados é a foto de um casalzinho no Facebook.
Com uma legenda embaixo, assim:
"Eu e meu amore tomando um vinho barato...
depois de ficar duas horas na fila de um restaurante.
Agora, a gente vai para um motel trepar...
em cima de uma cama onde 15 casais fizeram isso antes."
lsso é o Dia dos Namorados.
Então, posso contar com você pra fechar essa conta milionária...
pra empresa... ou não?
Pode, Débora.
Você tem razão.
Vou ligar pro meu namorado.
Eu tenho razão.
"Sonho de Valsa, o lado doce do dia a dia."
Não. Não tá bom isso, não.
-Que tal assim: "O amor..." -Já sei. "Sonho de Valsa...
o lado cor-de-rosa da vida." Não, também não.
E que tal: "Sonho de Valsa..."
Já sei, achei!
"Emoção é vida."
Não, melhor ainda.
"Sonho de Valsa, tão bom quanto sexo."
Mas peraí, a gente não tem que falar de romance?
Carol, você não dá uma ideia que preste e ainda quer me atrapalhar?
Pelo amor de Deus.
Ai, sonho, sonho, valsa...
Sonho, dia a dia, sonho... "Quem tem um sonho, não dança."
"Quem tem..."
Carol, por favor, desliga esse telefone.
Já é a quinta vez que ele toca.
-Concentra. -Nossa, é só uma mensagem...
-do meu namorado. Eu, hein! -Não interessa. Concentra.
Dane-se! Dane-se!
Quero saber qual foi a última ideia boa que você deu.
"Sonho de Valsa, o amor não tem hora."
-Gostei. -Sério?
Claro. É tão imbecil que faz a minha ideia parecer genial.
A gente precisa de uma coisa arrojada, uma coisa moderna.
Romance, moderno.
Sonho, sexo.
Débora, aquele era meu celular.
Jura?
Sabe que eu nem percebi?
Então?
Podemos trabalhar?
Concentra.
Olha a ideia que eu tive.
"Amor todo dia é bom, bom demais."
Me veio assim como uma...
Boa noite, Débora.
Eu sabia que você não ia aguentar o tranco.
-Você é uma mole. -Eu não aguento mais você.
Eu não quero terminar como o Gilberto.
Olha aqui, você não fala do Gilberto, não.
Não fala do Gilberto porque você não é como ele...
-você não é como eu. -Graças a Deus eu não sou como você.
E nada me deixa mais feliz do que isso.
Você não trabalha mais aqui. Só volta pra pegar as suas coisas.
-Ouviu bem? -Tá aí, me enganei.
lsso me deixa mais feliz.
Te quiero.
Assim você me mata
Ai, Dona Débora
Vamos nessa.
Aqui. Valeu.
-Marcos. -Ah, meu amor.
-Que bom que você chegou, Débora. -Marcos, desculpe o atraso.
-Me dá um murro no meio das costas. -Não, não, não, não.
-Não vou dar murro... -Eu tô travado, Débora.
Pelo amor de Deus, não faz isso. No meio do restaurante.
Depois a gente pede, um garçom faz isso.
Eu já pedi, eles não quiseram.
-Então deixa, não era pra ser. -Eu tô travado.
Você sabe que travado eu não funciono.
Atílio, você desculpe o atraso, por favor.
Eu não quero saber, eu não sou palhaço.
Minha hora já deu, eu vou procurar outra agência.
Brincadeirinha!
Vocês precisam ver as caras de vocês.
Fiz isso só pra relaxar.
lmagina se não fosse.
Atílio, foi hilário, foi hilário...
mas não repete que eu não aguento. O coraçãozinho...
Não, não, não, não tem problema, não.
Meu gerente de marketing, o Heitor, ainda nem chegou.
Heitor?
Débora?
Vocês se conhecem?
É, nós fizemos faculdade juntos.
E namoramos.
Tudo bem com você?
Ótimo.
Vamos fazer os pedidos?
Vamos sentar, gente, vamos sentar.
Dá licença.
Olha aqui, meu amor. Senta, por favor.
Obrigada.
O namoro de vocês terminou bem?
Não.
-Fudeu. -É.
-Com gelo? Gelinho pra ela. -Com gelo e sem álcool.
Gente, gente, eu preciso dizer.
Eu não gosto disso.
Se vocês dois namoraram, isso pode atrapalhar a campanha.
Nós temos que ser profissionais acima de tudo.
Um de vocês dois vai ter que deixar essa mesa.
Brincadeirinha!
Que isso! Ele quer me matar.
Pelo amor de Deus!
Peraí. Dá licença.
-Apresenta essa campanha. -Tá bom.
Pelo amor de Deus.
Dá um golinho. Bebe um golinho. Aqui...
Atílio, eu fiquei pensando...
sobre a campanha.
E acho que nós podemos resgatar o lado sexual do Sonho de Valsa.
Sexual?
Mas a campanha lida com amor no dia a dia.
É claro, é exatamente isso.
Não é, Débora, é isso a campanha?
Vou terminar de explicar.
-Só um instantinho. -Por favor, por favor.
Lado sexual em que sentido?
O sexo é muito importante numa relação, todo mundo sabe disso.
Aliás, 45% dos casamentos terminam por falta de sexo.
Ou seja, o sexo é o lado "bom-bom" da vida.
Essa é a pior coisa que eu já ouvi na minha vida.
Lá vem ele de novo.
Lá vem ele com essas brincadeiras dele.
-Fala? -É.
Não, gente. Agora eu tô falando sério.
É... bom, eu não vou mais falar, eu vou mostrar.
-Mostra. -Eu acho melhor mostrar...
porque a pessoa tá falando, o outro não consegue ver...
-a dimensão, né? -Olhando, a gente...
-Ela vai mostrar. -Meu Deus do Céu!
O que é?
Meu iPad ficou no carro. Eu vou buscar.
-Cinco segundos eu tô de volta. -Peraí, Débora, não vai.
Peraí.
Deus do Céu, onde eu coloquei isso?
Paciência.
Peraí, só um instantinho.
Ai, meu... peraí.
Ah, não!
Não o quê?
Nada. Nada, tá tudo certo.
Vamos tomar um drinquezinho?
Você toma um vinho comigo. Você gosta de vinho?
Toma vinho? Que tal?
Não se deve pedir a bebida sem a mulher na mesa.
-Jura? -É.
Sem a mulher na mesa, não se pede vinho.
Não se pede bebida. Que pena.
E o Coringão?
Eu sou Palmeiras!
Esse cara quer me matar.
Não foi...
Burra!
Burra! Burra!
Meu Deus do Céu, eu não vou perder essa campanha...
eu não vou perder essa campanha!
ldiota!
Tudo bem, querida?
Gilberto?
Gilberto!
Que saudade de você! Onde...
Gilberto...
Ai, meu Deus!
Agora que eu tô entendendo. Gilberto, eu morri!
-Fala pra mim, eu morri? -Calma!
-Eu morri! -Calma! Você não morreu.
Não?
Não, ainda.
-Ainda? -É. Olha ali.
Para!
Pelos meus cálculos, você tem ainda uns 30, 40...
-Anos? -Não, segundos!
Porque você vai cair, vai se estabacar...
e, se você se salvar, certamente vai passar um carro em cima de você...
e acabou pra ti, né, amor?
Ai, eu não acredito!
Justamente agora! Eu não acredito!
-Por que eu? Por que eu? -Débora, calma.
Você já tomou seu Rivotril? Já tomou?
Que Rivotril?
Tem Rivotril no céu?
Não, pensando bem, o céu é o Rivotril.
Não ferra, Gilberto!
E você, tá fazendo o que aqui?
-Ué, eu vim mostrar a sua vida. -Por quê?
Você nunca ouviu falar que quando a gente morre...
a vida da gente passa assim feito um filme...
em segundos, diante dos nossos olhos?
Não, não, nunca ouvi essa besteira.
-Passa assim como se fosse... -Mas eu nunca ouvi, dá licença?
Se eu não ouvi, o que eu posso fazer?
Vou dizer que eu ouvi? Eu não ouvi...
Para, para. Todo mundo sabe disso.
Que a vida passa assim em segundos...
uma espécie de "Vale a Pena Ver de Novo".
Só que sem os comerciais.
Vem comigo, amor.
Peraí, Gilberto, como é que você foi pro céu...
se você frequentava boate gay e você era ateu?
Meu amor, eu sou um enviado da Luz.
Ah, conta outra! "Enviado da Luz."
Tu é um veado da Luz e olhe lá. Olhe lá!
Meu amor, você esqueceu que eu cuidei da minha avó...
com Alzheimer a vida inteira?
Fiz tudo por ela, até o fim da vida.
Até a bunda da bichinha eu limpava, e sem reclamar.
Resultado: cheguei no céu bombando.
Tapete vermelho, flash, pá! Gritaria, confusão.
Só não bati cabelo, meu amor, porque quando eu desencarnei...
eu já não tinha franja.
Eu quero saber então como é que é o céu.
O céu é um escândalo. Meu amor, o portal é um escândalo.
-É? -Aí você entra...
É assim, meio friozinho, sabe?
Assim, meio esfumaçadinho.
É meio Campos do Jordão, sabe?
É, saudade da boate gay.
E agora, Gilberto?
Gilberto?
Onde é que eu tô indo?
Não se lembra, querida?
Como é que eu vou esquecer? Este aqui era meu quarto.
Este aqui era... eu!
Esta sou eu.
Atrás do nariz?
-Acho que é. -Engraçadinho.
Eu confesso que eu operei.
Ah, jura? Se você não tivesse me dito...
eu não tinha nem percebido.
-Você não operou. -Operei, sim.
-Não operou. -Amor, operou.
Não, você exorcizou uma coisa horrível da sua cara.
-Que nariz é esse? -Que pessoa má!
Ai, que saudade!
De quê? Do nariz, dá pra entender.
É, praticamente, um ente querido.
Você tá podre hoje, sabia?
Eu sinto saudade disso aqui...
eu achei que nunca mais ia voltar nesse lugar.
É, não deveria ter vindo mesmo.
Ui, creio em Deus Pai! Não, para.
Não, você gostava do Menudo, amor?
-Menudo, era moda, gente! -Ah, gente.
Você gostava de quem? Charles? Do Ricky? Do Ray?
Do Reck? Do Rock? Do Ramon? É tudo com "R".
Ai, você é bobo, sabia?
Filha, 8h. Levanta.
Já vou, mãe.
Minha mãe. Rápido, vamos embora.
Ela pode ver a gente?
lsso responde à sua pergunta?
Ai, que agonia!
Ai, meu Deus. Olha, mas anos 80...
Jesus amado! Para!
Você gostava do Dominó também?
Que dia é hoje?
Um Dia dos Namorados qualquer, dos anos 80.
Você não se lembra?
Não, não me lembro.
Mas eu me lembro que a minha mãe fazia essas cestas.
lsso era uma grande novidade na época.
Olha a Xuxa!
-Xu xu xu, xa xa xa -Que linda!
Sabe que dela eu sinto saudade?
Por que a gente tá aqui hoje?
lh, lá vem o nariz, hein!
-Bom dia, mãe. -Bom dia.
Filha...
-capricha na letra, tá? -Tá.
Eu adoro o jeito que você escreve.
Acho tão lindo!
Então pode deixar que eu vou caprichar.
"Eu te amo, não pelo que você é...
mas pelo que eu sou quando estou contigo."
Jesus! Ainda bem que não tinha Facebook nessa época.
E o pior é que eu acreditava nisso.
Alô?
Tá, peraí que eu vou chamar.
Mãe, é o papai. Ele quer falar com você.
Adalberto, eu não quero conversar.
Não se reprima, não se reprima
Eu já disse, eu só falo com você na frente do juiz.
Adiar a audiência o cacete!
Tô nem aí, Adalberto.
A pensão da nossa filha está atrasada há cinco meses.
Você tem dinheiro, eu sei, não adianta negar, eu não sou idiota.
Você comprou um Monza, que eu sei.
Me contaram... Adalberto, não interessa.
O que é mais importante para você?
O bem-estar da sua filha ou um carro novo...
pra você ficar exibindo pras suas vagabundas?
lh, que bafão!
Claro que eu preciso do seu dinheiro.
Eu não consigo emprego...
eu não me formei, você sabe disso.
A única coisa que eu quero, Adalberto...
é pagar os estudos da minha filha...
pra que ela nunca precise depender de homem nenhum.
Vai pro inferno, Adalberto!
Filha, continua sem mim...
que eu vou no Centro comprar mais fita pras cestas.
-Tá bom. -Tá, filha.
Climão, hein?
Eu nunca assisti uma briga deles.
Mas é como se eu soubesse cada palavra.
Ai, que dia horrível!
Calma, amor, ainda é cedo.
Alô?
Batata?
-Batata? -Ah, não, pelo amor de Deus...
vamos embora.
Calma, calma, amor. Porque agora até eu fiquei curioso.
Foi, foi minha mãe que saiu, sim.
Não, vem, corre.
Ai, que safadinha! Quem é Batata?
Batata é o filho do vizinho aqui do lado.
Ele foi meu primeiro namoradinho.
Mas isso não... isso não importa.
Vamos embora. Me deu uma angústia.
Por onde a gente entrou, hein?
-Ai! -Bu!
Ai, que susto! Não faz mais isso!
Então me diga por que você está fugindo de um momento...
tão idílico de pura safadeza adolescente?
Eu sei por que eu tô aqui hoje.
Porque hoje foi o dia que eu perdi minha virgindade.
Você perdeu a virgindade com um rapaz chamado Batata?
Foi, por quê?
Desculpe dizer isso, amor, mas isso explica muita coisa.
Perder a virgindade com alguém chamado Batata...
é traumático para qualquer mulher.
Pensando bem, nem eu quero ver isso.
Pois fique sabendo que eu adorava ele.
E ele era lindo.
Você vai ver.
E aí, Debrinha?
Ai, Batata!
Ai, Batata! Ai!
lsso é o Batata?
Era.
Jesus, ele usava cabelinho Xororó!
-Chitãozinho, e era moda! -Whatever!
Bicha má!
Ai, Batata!
Espera aí, Batata!
Espera aí!
lsso é pior do que ver bicho no Globo Repórter.
Ai, para!
Para, para, para. Peraí, Batata.
Peraí.
Debrinha, eu achei que hoje fosse rolar.
Sabe o que é, Batata?
Eu queria guardar meu tesourinho mais um tempo.
-Ah, tesourinho! -Sabia que ia falar isso.
Foi como minha mãe me ensinou. Qual é o problema?
Eu, hein!
Eu queria que a minha primeira vez fosse especial.
Ah, não, gata. Calma, olha pra mim.
A vida é curta.
A gente tem que aproveitar cada minuto que a gente puder.
Eu não aguento esse xaveco!
Pera, pensa bem.
Tá pra passar aquele cometa perto da Terra, hein!
-Cometa Halley? -É, esse mesmo.
Vai que ele se choca contra a Terra e bum!
Acaba com a vida, com todo mundo?
Eu não tô crendo que você caiu nessa, amor.
Caí.
E a gente vai perder essa chance?
Debrinha...
os dinossauros sumiram assim, sabia?
Batata, Batata!
Não é melhor usar camisinha?
Tem essa doença nova aí, a AlDS.
Relaxa, gata. Só veado pega AlDS.
Na boa, eu odeio os anos 80, tá?
-É? -É.
Então tá, me ajuda.
Me ajuda.
-Nós precisamos ver isso? -Graças a Deus, não.
Ótimo.
Olha, e eu quero também que você saiba...
que embora não pareça...
esse é um momento muito especial na vida de uma mulher.
E na minha eu diria até que foi mágico.
Ufa! Foi bom, né?
lsso foi mágico?
Mágico você ter sentido alguma coisa, né, amor?
É, a memória da gente engana, mas...
o beijo dele era inesquecível.
Filha, voltei.
Me larga!
Me larga! Minha cabeça!
Doeu muito. Doeu muito.
lmagino.
Peraí.
-Filha, tá tudo bem aí? -Tá, mãe, tá tudo ótimo.
Eu tô com uma cólica monstro, horrível.
Quer um chazinho, filha?
Não...
Mãe, olha só...
eu preciso que a senhora compre um Modess pra mim...
-que o meu acabou. -Eu vi dois pacotes aí ontem.
Mãe, mãe, você não viu nada.
Olha só, eu preciso que a senhora compre um Modess pra mim, pode ser?
-Vou pegar um dos meus. -Não, não, não, não!
Por que não?
Mãe, a senhora usa OB, né?
OB dói, incomoda, é horrível.
E eu sou virgem ainda, né?
Mas eu acabei de voltar da rua.
Mãe, por favor, mãe, please!
Tá bom, filha.
Tá bom, eu vou.
Virgem! Me engana que eu gosto.
Você vai na festa hoje à noite?
Festa, gata? Que festa?
-É, lá na casa do Caniba. -Ah, tá, essa festa?
Eu vou, sim.
Então, a gente se vê mais tarde. Tá?
Festa? Não me lembro dessa festa.
Mas você não vai querer perder o melhor de tudo.
-Melhor? -Vem?
Eu não vi nada bom até agora, Gilberto.
-Gilberto? Gilberto. -Oi?
É mesmo necessário eu lembrar desta festa?
Ah, sei lá, querida. Só sei que dançar essa dancinha é uma delícia.
Gilberto...
Gilberto! Presta atenção.
-Não faz a desencarnada sonsa. -Ah, o que é?
Vamos lá, o que eu preciso ver aqui?
-Várias coisas, meu amor. -Não quero dançar.
A primeira delas é aquela menina nariguda ali, de polaina.
-Qual? -Fantasiada de ovo de páscoa.
Fantasiada nada, aquilo ali era moda.
Sou eu, e daí?
A segunda é aquele rapazinho ali, cheio de espinhas...
que não tira os olhos de você.
É o Heitor.
Você esqueceu que vocês estudaram juntos?
Oi, Débora.
Você quer dançar comigo?
Não enche o saco, CDF!
Você já era um amor, né?
Não enche o saco, veado!
Tô falando, cara, a Débora é uma safadinha.
A napa? Conta outra, bicho, conta outra.
Acredita em mim, cara, ela faz tudo, sabe tudo.
E veio falar pra mim que era virgem, cara.
-É mesmo? -Falou pro Batatinha que era virgem.
Só um otário cai nessa.
Cara, eu não perdoei, não. Fiquei a tarde inteira assim.
A tarde inteira, cara.
E olha só o que ela me deu de presente.
Pro Batatinha dela, cara. Olha só, toda de sedazinha.
-É... -Você pegou emprestado?
Batata!
Que isso, cara?
Você roubou a minha calcinha?
Poxa, Batata, a gente se conhece desde criança.
-Olha, Debrinha... -Eu confiava em você.
Debrinha, deixa eu falar também.
Essa calcinha aí é...
É de outra menina, pô.
E você acha que isso melhora as coisas, Batata?
-Debrinha... -Sai da minha frente, me larga!
Sai da minha frente!
-Pô! -Toma a calcinha, toma.
Débora, não fica assim, não fica triste.
Toma aqui um refresco, um suco de laranja.
Eu odeio suco de laranja.
Mas tá com vodca, eu garanto que você vai...
Tá com vodca, você vai gostar.
Amor, você perdeu a virgindade e aprendeu a beber no mesmo dia.
E eu não me lembrava de nada disso.
Dá aqui essa garrafa!
Dá a garrafa, dá a garrafa.
Agora eu sei por quê.
Cuidado com essa garrafa, é do meu pai, hein!
Nariguda.
Segura a calcinha. Segura a calcinha.
Peraí. Batata, olha só.
Que foi, Quatro Olho?
Olha só, você sacaneou uma menina muito legal, cara.
lsso não tá certo. Tá errado, tá?
-Quem? -A Débora.
Quem perguntou?
Olha a carinha dele de bobão. Olha lá!
Devolve essa calcinha, vai, Batata. Por favor.
Me devolve essa calcinha, por favor.
Por quê?
Você vai querer usar?
Vai ficar uma gracinha, não sei se vai caber em você.
O Heitor brigou por causa de mim?
Por que ele nunca me contou?
Porque homem nenhum gosta de contar que tomou uma surra.
Vai que eu tô segurando. Vai que eu tô segurando.
Eu não quero ver mais nada.
Mais nada, eu cansei.
Eu adorava vir aqui.
Aqui eu escrevia meu diário, via o dia nascer.
Era meu paraíso particular.
É por isso que você está ali, deitada na grama?
É, aquela pateta ali sou eu.
Mais sozinha do que nunca.
Oi, Débora. Tudo bem?
Eu pareço bem?
Não, não...
Então, não faz pergunta idiota.
Tá, então, deixa que eu falo, então.
Eu sei que você mal sabe que eu existo, mas...
a gente estuda junto há cinco anos, né?
E eu... eu gostava de você.
Eu gosto de você.
E eu tava pensando...
Quem sabe se você não desse uma chance...
Se a gente pudesse se conhecer melhor...
quem sabe se a gente... Quê?
Débora?
Para!
Ah, para! Para de gritar!
Fazer esse escândalo todo por uma morte que vai ser tão besta!
Por que a gente voltou pra cá?
Porque é aqui que você está, meu amor.
Na verdade, você nunca saiu daqui.
A gente só fez um pitstop...
para você ver em que momento da sua vida você se tornou...
essa mulher tão infeliz.
Mas eu não sou uma mulher infeliz.
Eu posso ter perdido algumas oportunidades...
mas quem nunca perdeu?
E eu tenho a vida que eu sempre quis!
Ah, jura, tanajura, que você acha isso?
-Eu tenho certeza! -Tá bom.
Então, vamos dar uma outra voltinha.
Mas outra voltinha pra onde?
Pra vida que você sempre quis.
Cadê o Gilberto, hein?
O que você tá mexendo aí?
Fuxicando, amor.
Aliás, a coisa boa de ser espírito é isso, né?
Fuxicar coisa alheia. Adoro!
-O que é isso aqui? -Creme antirruga. Deixa isso pra lá.
Querida, mas por que você não tem usado?
Perdão, você tem usado. Não parece.
-É que você... -Muito engraçadinho.
-Chega. -Muito engraçadinho.
-lsto aqui... olha! OB! -Solta! Solta!
-O que é que tem? -Tamanho GG?
Que isso?
Muito bem! Pelo visto, você alargou bem, né?
-Quê? Tá maluco? -Os horizontes, meu amor.
Os horizontes, deixa de ser maliciosa.
Não, não, não, me responda, pelo amor de Deus.
O que a gente tá fazendo aqui?
Nós viemos rever o seu dia de hoje.
Eu não preciso rever o meu dia de hoje.
Não preciso mesmo. Eu sei exatamente o que eu fiz.
Meu amor, todo mundo acha que a vida acontece...
quando a gente tá vendo.
Mas a vida acontece, justamente, quando a gente não está olhando.
-Preciso ver isso? -Não, mas eu preciso.
Que bofe, hein?
-Entendeu, Danilo? -Diogo. Meu nome é Diogo.
Whatever.
Ai, que furo horrível. Pode me detonar.
Eu não vou nem me defender, pode me detonar.
Eu fui fria, eu fui insensível...
eu magoei o pobre rapaz.
Meu amor, eu vou dizer uma coisa pra você...
-Eu sei, pode dizer. -Você não magoou.
Esse menino não tá nem aí pra você.
Tá? Não tá nem aí. Tá?
Gilberto, eu vou te contar. Você é uma bicha invejosa, né?
Ah, você não tá nem aí. Coitado.
Aqui, olha.
Cafezinho na cama pra mim. Olha como ele foi fofo.
Esse rapaz, coitado, tá de quatro por mim.
É, fofo. Ele ficou de quatro pra mim também, ano passado.
-Quê? -É.
Valdir. Valdir é o nome verdadeiro da criança.
É, garoto de programa. Tá bom pra ti?
Tá bom?
Garoto... duvido.
-Eu duvido. -Aí, eu não posso fazer nada.
Tá aí, eu duvido.
Que...
Eu nunca saí com garoto de programa...
eu nunca paguei, aliás...
eu não pagaria nunca pra sair com ninguém.
Fique sabendo.
Programinha caro, hein?
-Eu paguei menos. -Filho duma...
Alô, Carol. Débora.
E aí? Mandou subir o vídeo da campanha?
Vídeo Carol 2.
Tiago! Tiago, atende aí a porta pra mim, por favor.
Tá tocando.
Oi.
Valeu!
"Filha, eu sei que você não tem namorado.
Mas quem sabe uma cestinha não te anima a arrumar um...
não é? Feliz Dia dos Namorados.
-Beijo, mamãe." -Quem era?
Ninguém, querida, erraram de apartamento.
Eu já vou. Um beijão.
Tá. Bate a porta.
Se cuida, hein!
Ele não vale nada.
Ele roubou a cesta que a minha mãe me manda todos os anos!
É.
E você sequer percebeu isso hoje, né?
Mas é porque eu tô de dieta, né?
Você.
Gente, eu amei essa drag!
Você pegou o cartão dela ou não?
Cartão pra quê? Pelo amor de Deus!
E lá tem Parada Gay no além?
Fica quieta. Deixa eu ver a performance da colega.
Ai, Débora, esse é um presente...
do meu, do seu, do nosso Velberson!
Ué, mona, mas você não se chama Débora Silva?
Eu sou Débora Ferrão.
Débora Silva trabalha lá.
No almoxarifado.
Eu, hein! Onde é que fica essa racha, hein?
E se vocês puderem se livrar dessas flores...
a minha rinite agradece.
-Um bom dia de trabalho pra todos. -Sentiu o poder?
Hein? Viu quem manda aqui no pedaço?
Se é que a gente vai ter um bom dia depois disso.
-Que isso, Gil? -Ah, desculpa, amor.
-Força do hábito. -Mas... Gilberto?
Escuta aqui uma coisa.
Você fazia isso quando era vivo?
-Eles faziam isso? -Fazia, fazia.
Todo mundo fazia. E eu também fazia de vez em quando.
E por quê?
Porque você é a pessoa mais odiada dessa agência.
-lsso não é verdade! -Ah, não?
Não.
Será que aquela vaca mal comida vai liberar a gente mais cedo hoje?
Ah, tá. Vai sonhando.
Aquela piranha não tem vida fora daqui, não.
Peraí, a Roberta me chamou de piranha?
-Meu Deus do Céu! -Piranha, piranha.
Piranha, com todas as letras. Contigo, ela pegou leve.
Chamar de piranha é pegar leve?
Eu vou te falar uma coisa, Roberta, aquela mulher me deixa louca, entendeu?
Tem horas que eu tenho vontade de pegar aquele narizinho dela, sabe?
-Quebrar assim. -Que violência.
É que ela pensa que ninguém sabe que aquilo ali é operado.
Dá pra notar?
Uma vez eu pensei em envenenar o cafezinho dela.
-O quê? -Mas por sorte...
eu consegui me controlar.
Aí, eu só cuspi, como eu faço normalmente.
-Vamos trabalhar. -Vamos.
Eu vou te contar, isso é uma falta de respeito.
Pois fique sabendo que existem muitas pessoas aqui dentro que me admiram.
-Qual é a graça? -Ah, Dé, para!
Quem é essa pessoa louca? Me fala.
-Não, fala assim, na lata. -Não, não, não. Eu não sei.
Não sei responder coisas muito rápido.
Quando as pessoas me perguntam: "Qual o país que ficou mais tempo?".
"Qual a cor que você mais gosta?" "Qual a última data da menstruação?"
Não sei. Eu não lembro. Nunca lembro...
Helder!
Me veio agora na cabeça, Helder.
O Helder me adora. Eu coloquei...
Diretor de criação. Eu que coloquei o Helder aqui dentro.
Sensível, inteligente, bem preparado. Meu amor...
outra prateleira.
Esse gosta de mim, me admira. E muito.
Acho.
Helder?
Carol! Entra, fofolete. Entra, entra.
Tá sentindo?
Tá sentindo?
Essência de almíscar, para limpar o ambiente.
-Em que posso ser útil? -Olha só...
a Débora quer ver a arte da campanha da Netshoes.
Mas de novo?
12 vezes. De ontem pra hoje, ela me pediu 12 vezes...
pra ver essa campanha.
A 7ª vez foi às 3h da manhã, na minha casa.
Ela me ligou.
E ela sabe muito bem que ela só vai ficar pronta...
às 5h da tarde de hoje.
Mas ela quer para agora de manhã.
Sabe de uma coisa? Ela tá coberta de razão.
Da próxima vez, eu tentarei ser mais rápido.
-Tá ok? -Tá bom.
Pode deixar. Vou falar pra ela.
-Manda um beijinho pra ela. -Tá bom.
Oh, meu Deus, eu odeio essa mulher!
Netshoes!
Toma aqui meu Netshoes!
Chupa. Chupa!
Você... você...
-Ele pode ver a gente? -Será que ele é médium?
Vem cá, você. Vem cá.
Você quer? Tá aqui sua Net...
Aqui sua Netshoes!
Olha aqui!
Quer saber da Netshoes?
Morra! Morra! Morra!
Morra!
E aí? Gostou do que viu?
Já entendi tudo.
Eu sou a pessoa mais odiada desse mundo.
Não sei ainda como eu não levei um tiro.
Nem eu.
-Tô brincando, viu? -Mas eu não.
Olha só, Gilberto, fique sabendo...
que, pelo menos, eu não sou uma pessoa invisível.
Eu não passo despercebida.
E pode ter certeza que esse ódio, no fundo, é respeito puro.
Pois é, Fred, assim que eu soube da campanha...
a primeira pessoa que eu pensei foi você, garoto.
Eu sei, Marcos, você não precisa nem falar, a gente é parceiro.
-Você é um gênio, garoto. -Ah, para!
Ele falou que o primeiro nome tinha sido o meu!
-Gente, o que é isso? -Respeito puro.
A Débora é boa...
mas as campanhas dela são frias demais...
técnicas, sem emoção. Você tá entendendo?
lsso porque você não viu ela na cama.
Que isso?
-Você foi pra cama com esse cara? -Claro que não!
Você acha que eu vou... que eu vou ter alguma coisa com esse...
-Que isso, garoto? -... com esse babaca?
Meu amor, depois do Batata, eu acredito em qualquer coisa.
Olha, eu vou te dizer uma coisa.
Eu acho que ela não gosta muito de homem, não.
-Não! -Tô falando.
-Pra mim, ela é sapata e não sabe. -Não!
-É! -Gente!
-Tem certeza que ele não te pegou? -Claro...
Cala a boca!
Eu gosto da Débora, eu acho até ela bem gostosinha.
Olha, não. Sabe...
ela decepciona um pouco. Muita, muita celulite...
e o peito é meio caído.
Meio caído, tipo muxibinha, sabe?
-Não parece! -Ah, não!
-Pra mim, chega! -Muxibinha?
Aí, dá uma desanimada.
-Parece aquelas bexigas... -Amor, acredita no colega.
lsso não vai adiantar nada.
-Vai, sim. -... cachorrinho...
Eu vi "Ghost", eu vou concentrar meu ódio todo.
E eles são brigados. Parece que um não olha pro outro.
-Um pra cá, um pra lá. -Cada um tá olhando pra um lado.
E meio assustadinho também. Quando você bota na luz...
-Assustou? -Não é pra tá pra fora...
é pra tá escondidinho, entendeu?
-Não sabe pra onde vai. -Não sabe pra onde vai!
Você não quer treinar primeiro com uma moedinha?
Uma vez, foi fazer topless na praia, matou dois tatuís na areia.
Que isso?
Eu quero acabar com a vida desse...
-É muito caído. -merda.
O que foi, garoto?
Fred?
Fred, o que houve, meu filho?
-Teu nariz tá sangrando, garoto. -Eu não sei, Marcos.
Vai pra casa, eu vou passar a campanha pra Débora.
Não, Marcos. Não, peraí!
Eu tô ótimo. Eu posso fazer a campanha.
-Ai, meu pé! -Que isso, garoto?
Vai pra casa.
Eu já perdi o Gilberto, ano passado.
Eu não quero isso de novo.
Você vai pra casa se cuidar.
Não, Débora, não, não!
-Chega, Débora! Chega! -Me solta!
-Unhada no saco dói? -Dói, meu amor.
Dói, dói, sim. Dói além da vida.
Mas você não pode fazer isso.
Eu sei que esse Fred é um idiota, sem talento.
Só tá aqui porque é filho do dono da agência.
Mas ele já teve o que merecia, Débora.
Você precisa elevar o seu espírito.
Você não pode fazer isso.
Você sabia que ele ganhava muito mais do que você?
Ok. Depois me conta como é que foi.
Peito muxibinha é o cacete.
Gilberto, eu quero ir embora desse lugar agora.
Eu quero saber por que você não publicou o meu livro.
Meu Deus do Céu!
Gilberto...
Gilberto, presta atenção numa coisa.
Eu não sei se você ainda não entendeu.
Você morreu. Entendeu?
Você tá morto! Morto!
Você virou pó! Você não existe mais!
Poeira, fiapo. Acabou!
Você acabou. Você não vale merda.
Nem merda você vale.
Porque com merda, a pessoa ainda faz estrume...
e, com você, não dá pra fazer mais nada.
Mais nada. Que diferença faz se eu publiquei teu livro ou não?
Que diferença faz?
Faz diferença.
Porque ele é...
a única coisa que eu deixei nesse mundo...
e eu esperava mais de você.
Tá bom.
Olha só.
Se eu não publiquei, outra pessoa vai publicar.
Relaxa.
Débora, olha aqui o material da campanha do...
-Deixa aí em cima, idiota. -Ele não pode te escutar.
Ah, eu esqueci. É força do hábito.
Ele roubou o meu livro.
Meu Deus do Céu.
-Deixa, deixa. Deixa ele ir. -Mas ele pegou seu livro.
Tá tudo bem.
Eu não estou aqui para resolver a minha vida.
Eu estou aqui para mostrar a sua, tá? Deixa pra lá.
É claro que a nossa relação é muito importante pra mim, é claro.
Não é nada com você, não. Por favor.
Me entenda.
Tá, eu vou ver o que eu posso fazer.
Também te amo.
Você tá feliz agora?
Eu não tenho culpa, se ela não sabe separar as coisas?
Ela não sabe...
Na boa, Carol.
Eu não sei como você deixa a Bruxa do 7 1 falar assim com você.
Quem é Bruxa do 7 1? Eu?
É um dos seus 500 apelidos, meu amor.
Como é que você aguenta?
Ah, Gilda, eu entendo a Débora.
Ela é a melhor diretora de criação do mercado.
-É, mas é de um mau caráter. -Não, peraí.
Peraí, a Débora é uma boa pessoa.
Ninguém é como é porque escolheu ser assim.
As pessoas reagem de forma diferente sob pressão.
E a Débora vive sob pressão.
Eu não tô acreditando. A Carol me defende.
A única.
E eu ainda mandei ela pra rua.
Que material é esse que ela tá vendo?
-Nossa, muito bom! -É.
Tudo criação dela.
E você, muito da egocêntrica, nunca tinha reparado.
Tudo dela.
Peraí, Gilberto.
Olha só, esse lance da Carol não é verdade, tá?
Se ela fosse boa, eu admitiria.
Eu sou uma profissional honesta. Eu sei reconhecer um talento.
Nunca reconheceu antes, por que tá reconhecendo agora, meu amor?
Mas eu não preciso saber todas as respostas.
Aliás, onde é que a gente tá?
Tudo bem, tudo bem, Atílio. Vamos mudar nossa conta de agência.
Você que manda.
Você tem alguma em vista?
Tenho, sim. A Agência Pointer.
Você viu?
-O quê? -Viu?
Reparou a cara que ele fez quando ele ouviu "Agência Pointer"?
-Não, eu não vi nada. -Ah, para. Deixa de ser lenta.
Você não percebeu a cara do bofe...
o brilhozinho no olhar?
Não, não vi. Quer saber mais?
Eu duvido que o Heitor tenha pensado em mim nesse momento.
O jantar tá marcado pras 21 h. Posso contar com você?
Eu tinha marcado um jantar com a minha namorada hoje, mas...
Viu?
Claro, tudo bem. Pode contar comigo.
Eu confirmo o restaurante mais tarde. Um abraço.
-E aí? -É, você ouviu o que ele falou?
-Ouvi, sim. -O Heitor tem namorada.
Não sei o que a gente tá fazendo aqui.
Meu Deus do Céu!
Você tem certeza de que você acha mesmo...
que o Heitor não pensa mais em você?
Eu não acho, eu tenho certeza.
E isso aí quer dizer o quê? O que você acha?
Eu, hein!
Vai dizer que você nunca procurou namorado na internet?
Ex-namorado, nunca?
-Meu Deus! Meu amor! -Nunca?
Tá difícil te ajudar. O processo... Aí.
Quê?
O que é, Gilberto?
Eu, hein!
Gilberto, solta meu anjo da guarda, faz essa gentileza.
Oi. A Marina está aí?
Heitor!
Mozão!
Mozão, olha, presta atenção, galera!
Enquanto os namoradinhos de vocês só mandam flores...
o meu vem me visitar.
Não é, não, more?
Outro aviso pra vocês.
Pras menininhas aí, todas de plantão...
Ó, tem dona, hein?
-Tem não, more? -Tem, amor.
Tem não, amor? Fala alto, cacete!
O Heitor tá namorando uma delegada?
É. Gostosa, né?
O que você entende de mulher, meu filho?
É, mas eu entendo de homem.
Tenho a alma um pouco feminina.
Justo hoje, Heitor?
Sinceramente, eu não entendi.
Quem é que marca compromisso de trabalho...
justamente no Dia dos Namorados?
O pessoal do escritório que você conhece muito bem.
Desculpe.
Não, tudo bem, vai.
Não, não é o menor problema.
Eu posso encontrar lá com você, mais tarde.
Não...
Não, acho melhor não.
Sabe o que é, amor?
Essas coisas demoram muito.
Essa reunião pode levar horas.
E quem mais vai tá lá?
O pessoal da agência...
eu...
o Atílio.
Olha só, amor. Não fica chateada, não.
A gente pode sair amanhã.
-Você entende, né, amor? -Claro, que isso!
Tô mais do que acostumada a cancelar compromisso...
por causa de tocaia, né? Enfim...
Estourando boca de fumo, prendendo alguém.
Pois é...
trabalho é tudo igual, né?
Você entende, né, amor?
Claro. Claro que eu entendo, more!
More!
Mozão.
Mas avisa todo mundo amanhã que você é meu, ok?
Já estão todos avisados.
Onde é que fica o toalete mesmo?
Corredor, primeira à direita.
Agora, aqui é banheiro, tá?
Toalete é meio veadinho, evita.
Obrigado pelo toque.
Ai, ai...
E então?
-O quê? O quê? -Ela, o que achou?
Não vi nada. A única coisa que eu vi...
é que o Heitor tá namorando a Capitão Nascimento.
Disso, eu tive certeza. Aliás, graças a Deus!
Obrigada, Senhor, que ela não sabe que nós vamos nos encontrar hoje.
Ela não vai fazer isso.
-Pior que vai, amor. -Ela não vai fazer isso.
Vai.
-Ela não vai fazer isso. -Fica atenta, ela vai.
Meu Deus do Céu. Vira essa boca pra lá.
Deixa de ser vodu! Deixa de ser uma bicha vodu.
Ela não vai fazer isso, ela não vai fazer isso.
lsso vai dar merda!
Pior que já deu.
Sobrou pra mim.
Ah, meu Deus!
Você viu a Marina?
Vem comigo.
Oi, querido.
Senta aí.
Vamos bater um papinho?
Marina, é melhor não.
Eu só vim aqui me despedir rapidinho.
lmagina, vai ser super-rápido.
Não vai nem doer.
Vamos ver se o periquito abre o bico, não é não, Tonhão?
Ele vai abrir, doutora.
Periquito? Que periquito?
Peraí. lsto aqui é uma sala de interrogatório?
Ô, amore!
Eu não posso conversar com meu namorado fofo...
em qualquer lugar?
-lsto aqui é um lugar ótimo. -Não!
Não é, e eu vou embora.
Marina, que loucura é essa?
Não, isto aqui não é loucura nenhuma.
É só uma DR.
Discussão de Relação.
-Não, é tortura. -Mesma coisa.
-Eu tô com pena dele. -Agora eu descobri porque eu era gay.
Então tá, Marina, vamos lá.
Você quer conversar? Vamos conversar.
O que você quer?
Há quanto tempo a gente tá junto, Heitor?
Que tipo de pergunta é esta, Marina? Você é melhor do que eu...
-Só responde. -4 anos e meio.
-É um bom tempo, você não acha? -Acho.
E você não acha também que eu sou uma boa namorada, Heitor?
Acho.
Você não me acha bonita, inteligente...
-Acho. -gostosa?
Muito.
Sua família não me adora, Heitor?
Adora.
E a sua mãe não me acha uma nora perfeita?
Sim, ela sempre diz isso.
Você não me acha boa de cama, Heitor?
Marina, você tem certeza que quer falar...
-Só responde. -Sim, acho.
Ah, você acha?
Eu compre aquela lingerie vermelha porque você adora, seu cretino!
Marina, olha só, eu não me sinto confortável...
-Tá, comprou! -Comprei.
Não comprei só a lingerie vermelha, não.
Eu me fantasiei, ainda por cima, de Mulher Gato...
-de colegial, de freira. -De freira?
Cala a boca, Tonhão! Responde, Heitor.
Tá, tá, você comprou tudo isso.
Você é tudo o que eu sempre quis numa mulher.
Eu não tenho do que reclamar.
Tonhão!
Que ótimo.
Era exatamente isso que eu queria ouvir.
Agora, se você me acha essa mulher perfeita...
e eu concordo com você, plenamente...
me diz:
por que é que você nunca me pediu em casamento?
Ah, sei lá, Marina.
A gente já conversou sobre isso.
Eu quero curtir o nosso namoro.
Eu não sou de apressar.
Ah, então, se você não é de se apressar...
por que você criou esse circo todo com a sua família...
só pra pedir a mão daquela vagabunda da Débora em casamento...
um ano apenas depois de você morar com ela?
Boa pergunta.
Vem cá, quem foi que te falou sobre isso?
A sua mãe me adora, esqueceu?
Olha só, Marina, aquele pedido de casamento que eu fiz pra Débora...
foi um arroubo...
uma idiotice que a gente faz quando a gente é novo.
Não quer dizer que eu gostava mais dela antes...
-do que eu gosto de você agora. -Ah, é?
Então por que você escondeu de mim que vai se encontrar com ela hoje?
Porque é uma reunião de trabalho. Eu juro.
Eu não queria te chatear falando dela.
Qual a necessidade disso?
Você ainda ama a Débora?
-Claro que não. -Fala a verdade!
Doutora, quer que eu quebre um dedo dele?
-Epa! Que isso? -Senta aí e relaxa, Heitor.
Eu não vou quebrar dedo nenhum, não.
E olha bem aqui no fundo do meu olho e responde:
você ainda sente alguma coisa pela Débora?
Não, eu não sinto nada.
-Bom, vamos embora, né? -Não. Calma, bonitinha.
Calma que ainda não acabou.
Eu não acredito em você.
Desculpa, eu sei o que eu sinto. É a minha palavra contra a sua.
Você tá mentindo.
Só não sei se é pra mim ou pra você.
Eu não sei como é que eu posso provar isso.
Só se eu passar por um detector de mentiras.
Ah, ótima ideia! Tonhão, pega o polígrafo.
Senta aí, meu irmão. Senta aí.
-Vocês têm um detector de mentiras? -Modernérrimo, meu amor.
Veio da ClA, está em fase de teste no Brasil.
Você sabe que isso não funciona 100%.
-98%. -E não é aceito nos tribunais.
-Esse é. -Olha aqui, Marina.
Você sabe muito bem que sou incapaz de mentir pra você.
Você sabe disso.
-Mentira! -Tonhão, você quer cooperar?
Não fala olhando pro Tonhão. Fala olhando pra mim.
Você ainda sente alguma coisa pela Débora?
Eu me recuso a responder!
Acho que ele ama ainda, hein, doutora.
-Tonhão, por favor! -Fala olhando pra mim!
Olha aqui, Marina, presta atenção. Eu não sou perfeito, tá?
E muitas vezes eu sinto que, perto de você...
eu até pareço meio babaca.
-Agora ele falou a verdade. -Mas...
Mas eu já superei essa fase. Hoje eu me sinto bem ao seu lado.
Eu me sinto completo.
O que eu sinto por você hoje é mais forte que qualquer outra coisa.
Ah, não, chega, chega! Tudo tem limite!
Tá bom, eu assumo. Tá? Você tem razão.
A Débora ainda mexe comigo.
O que você esperava, hein?
Ela foi minha paixão de adolescência.
Ela foi um erro.
Mas a gente não escolhe essas coisas.
Eu não queria ter gostado da Débora.
Mas, é aquilo...
Todo mundo tem alguém que marca sua vida.
Todo mundo já amou alguém...
que não te amou da mesma forma.
É, eu sei. Claro.
Claro que eu sei disso.
E esse alguém, pra mim...
é você.
Desculpa, doutora.
lsso tudo é muito triste, até pra mim.
Não dá...
Marina, olha só.
Vamos ser maduros?
Olha, Heitor, desculpa. Eu...
Eu não sei se eu sou madura suficiente...
pra viver à sombra da Débora.
Talvez você não goste, não me ame do jeito que eu gostaria, mas...
eu me amo.
O Heitor ainda gosta de mim.
O que importa aqui agora não é o que o Heitor sente por você...
e sim o que você ainda sente por ele, né, amor?
Ué, o quê?
Eu terminei com ele porque eu priorizei o meu trabalho.
Não, meu amor, você terminou com ele porque você...
é recordista mundial em reprimir o que sente.
Me engana que eu gosto.
O que morreu entre vocês dois foi a relação.
Mas o que você sente por ele está aqui, vivo dentro de você.
Você sabe muito bem disso.
Não, eu não...
-Aquela sou eu? -É, por quê?
Gilberto, você acha que eu posso evitar o meu acidente?
Débora, não!
Mas você viu o que eu fiz com o Fred.
-Eu posso mudar isso ainda! -Não! Não pode.
Você não mudou uma vírgula do seu dia.
Tudo o que você fez, você fez pra si mesma.
Tudo terá o fim que está marcado pra ter. Você entendeu?
Não.
Eu posso mudar a história, sim!
-Eu vou tentar me salvar! -Débora, Débora...
Ah, meu saco celeste depilado!
Burra! Burra!
Eu não vou perder essa campanha!
-Não corre assim, não. -Desiste, Débora.
Não vai adiantar nada isso. Desiste.
Olha, eu não vou morrer hoje, tá?
Meu amor, isso não depende de você, tá bom?
-Você não vai mudar a sua vida. -É, mas eu preciso mudar.
Então, a senhora concorda que vivia errado?
Eu concordo que eu dirijo mal pra cacete, tá?
E que eu tive um dia péssimo, é isso.
Quer saber? Eu não tô aqui pra capotar...
nem pra desencarnar pela segunda vez, tá bom?
Beijo, obrigado, até logo.
Peraí, onde é que... olha só, seu medroso...
quem vai morrer sou eu.
Oi? Oi!
Ei, querida, meu amor! Honey!
Lindona, gata, presta atenção em mim. Só um instantinho.
Olha só, você não precisa correr desse jeito, entendeu?
Você tem uma vida inteira pela frente.
Olha só que beleza. Já imaginou?
Só um toque, coisa rápida, te garanto. O airbag desse carro não funciona.
Presta atenção no que eu tô te falando!
Por que você não me ouve? Por que você não ouve você?
Por que você não ouve ninguém?
Para esse carro agora!
Para!
É...
a vida é o que a gente faz da vida.
Você acabou de ver o que você fez da sua, amor.
Mas isso não é justo. Eu tinha uma vida inteira pela frente.
Eu podia ser reprimida, eu podia ser grossa...
eu podia ser o que fosse, mas eu não era burra.
Se eu continuasse viva, eu ia mudar.
Eu ia encontrar o melhor pra mim.
Você tem certeza que você ia mudar?
Eu tenho certeza. Meu futuro ia ser luminoso.
Então, vamos conhecer esse seu futuro luminoso.
Uau! Esse é o meu futuro?
Eu só não entendi o por que do "uau".
-Olha ali. Eu sou uma... -Merda.
Desculpa, Fred.
Quantas vezes eu já falei que não quero você na minha mesa?
Várias, várias vezes você já falou isso.
Meu Deus! O que você fez?
Ah, eu não sei. Eu devo ter vendido a alma, só pode.
Não tô nem aí pra sua alma, amor. Tô falando do seu cabelo.
Que corte horroroso!
-E que porcaria de faixa é essa? -É isto que vim te mostrar.
lsto aqui é o brinde pra campanha do novo presidente.
O nosso presidente de 2036, o Sr. Tiririca. Gostou?
lsto aqui ia ser mais útil no meu banheiro.
Eu quero uma ideia de brinde nova, hoje!
-Hoje? -Hoje, tá?
Porque a agência da Carol Werneck já tá de olho no nosso candidato.
Tá vendo?
E se eles roubarem mais essa conta da gente, eu juro por Deus...
eu te demito igual você demitiu ela desta agência.
Pode deixar, Fred.
Sr. Fred, tá?
Não é só porque a gente já foi casado...
que você pode me tratar com liberdade aqui dentro.
-Sim, senhor. -Eu vou lá fora tomar um café.
Quando eu voltar aqui pra minha sala...
eu quero essa campanha nova na minha mesa.
Aproveita e troca de roupa, você tá parecendo o Pequeno Príncipe.
Debrinha?
Debrinha, minha nega. Tá aí? Hein, tá aí?
-Não. -Ah, deixa de ser mentirosa.
Eu tô ficando cego, mas não tô ficando surdo.
Eu sei que você está aqui por perto.
O que você quer, Marcos?
Eu quero uma massagenzinha nas costas. Agora!
Não empurra!
Você vai ver o agora.
Quer massagem nas costas?
-Toma, toma. -Mais em cima.
Em cima, eu vou dar na cabeça.
Quer uma massagem, é?
Me caguei.
Peraí, ele publicou o meu livro como se fosse dele?
Ah, Gil, deixa isso pra lá.
A gente ainda vai dar muita risada disso no céu.
Quem disse que você vai pro céu?
Licença, Débora, quer um café?
Cremoso, como eu gosto?
Sim, muito.
Pode trazer. Pode ir.
Ah, sim.
Tem um senhor aqui fora querendo falar com você.
-Eu não tô pra ninguém. -O nome dele é Heitor.
Heitor? O que ele quer falar?
Não sei, acho que é assunto pessoal.
Tá. Tudo bem.
Pode deixar ele entrar em cinco minutos.
Gente, o que é isso, hein?
Desencarnei na época errada.
Silicone inteligente.
O futuro é uma maravilha.
Bela porcaria este negócio.
Eu tô pensando, não deve existir homem broxa no futuro, né?
Menina, o que é isso?
A genética do bofe, que coisa boa. Você viu?
-Nossa! -Envelheceu bem, menina.
Ele não envelheceu nada.
Gente, homem tem uma sorte, né?
Heitor...
puxa, você tá ótimo.
Não, eu não sou quem você está pensando.
Eu sou o Heitor, só que júnior.
Filho do Heitor que você conheceu.
Claro, como eu não imaginei?
Mas e aí, como está o seu pai?
Ele faleceu no ano passado.
Ai, desculpa, eu não soube.
Olha...
eu não te conheço, nem queria te conhecer...
quer dizer, a última coisa que eu desejo...
é que a minha mãe saiba que eu tô aqui.
Eu só vim entregar isso.
O meu pai me deu no hospital. No dia em que ele faleceu.
E...
me fez prometer que eu ia entregar para você hoje.
Então, hoje é o Dia dos Namorados.
Você não sabia?
Não. Só me toquei agora.
Esta música é um clássico?
-Tô bege. -Eu também.
lmagina como deve ser a música de hoje.
Ah, notícias.
"Madonna se casou com Justin Bieber em 2021."
Ah, para, gente. lsto aqui é golpe de marketing.
Ah, gente, por favor, você não vai ler essa porcaria?
Não, tem coisas que dizem respeito a você, amor.
-Posso ler? -Não.
"Débora Ferrão, publicitária de sucesso...
diz que o maior baque de sua vida foi a morte de sua mãe...
num naufrágio, em 2013."
Ai, desculpa, amor. Foi inconveniente.
-Não era isso que eu queria ler, não. -Minha mãe?
"Mas Débora diz que é muito feliz sozinha...
e que tem pena das mulheres que precisam de marido e filhos...
para serem felizes."
Abre aspas:
"Nunca acreditei em amor romântico e sou muito feliz assim".
Fecha aspas.
É, é isso mesmo.
Se eu disse, então deve ser verdade.
Merda de vida!
Ou quase.
Oi, Débora.
Eu não sei se você verá esta gravação...
mas eu tinha que tentar.
Eu só tô fazendo isso porque eu descobri que...
eu não tenho mais muito tempo.
Sabe, eu tive uma boa vida.
Casei, tive filhos, amei.
Mas, eu juro, Débora...
ainda assim, eu penso em você.
Só que, depois de tudo o que aconteceu entre a gente...
eu prometi a mim mesmo que, desta vez...
eu não ia dar o primeiro passo.
Então, eu esperei.
Passei anos esperando uma ligação de aniversário.
Um convite pra um almoço.
Um chopp, um café que fosse.
Só que esse convite nunca aconteceu.
Eu cheguei a me sentir um tolo por isso.
Mas hoje eu sei que...
negar o que a gente sente é negar o que a gente é.
Eu não quero morrer...
negando o que eu sinto por você.
Eu não quero morrer...
sem me imaginar ao seu lado uma última vez.
Ou sem fazer um último pedido.
Você...
quer dançar comigo?
Eu te amo.
Eu também te amo, Heitor.
-Por que eu disse isso? -Porque é verdade, amor.
Eu não posso morrer agora, Gilberto.
Tarde demais, querida.
Nem sempre dá tempo de a gente corrigir os nossos erros.
Eu preciso voltar. Eu preciso consertar a minha vida.
Eu sei que eu posso, eu vou conseguir.
Em breve, a gente se vê no além.
Boa sorte.
E boa morte, amiga.
Gilberto, por favor, volta aqui!
Ô, mulher, você veio de onde?
Eu tô viva!
-É o que parece, né? -Eu tô viva!
Ai, que máximo!
Moço, o senhor não tem ideia. O senhor não tem ideia!
Eu vi a minha vida passar assim, na frente dos meus olhos.
lsso aconteceu comigo também.
Uma vez, eu bati meu caminhão, aí eu vi...
-lsso. -minha vida passar na minha frente.
É uma merda.
A minha também. A minha é uma merda.
-Bate aqui. -Então tá bom.
Marcos, e a Débora, hein?
Calma, calma, Atílio. Ela já tá chegando.
Vamos ter calma, gente. Vamos ter calma.
Meu querido, aquele karatê assim, que eu gosto.
lsso. Ai, bom. Bom, assim.
Olha aí. Não falei?
-Débora, você tá bem? -Tô.
Eu só bati o carro, caí de um viaduto de 8 metros...
mas, fora isso, eu tô ótima.
Por favor, uma água sem gás.
Peraí, peraí, você tem que ir para um hospital.
-É, eu também acho, Débora. -Eu sei o que é o amor.
Prestem atenção.
Atílio, estes aqui são meus pais.
Eu não tenho muitas boas lembranças do meu pai.
Até porque, a separação deles foi muito difícil.
Mas uma coisa eu tenho certeza.
Um dia, eles se amaram de verdade.
E eu sou o fruto desse amor.
Mas esse amor acabou.
E sabe por quê?
Porque ele não foi alimentado.
E esse é o segredo, Atílio.
O amor, ele tem que ser alimentado.
Uma grande história de amor...
é feita de pequenos gestos.
Todos os dias.
A conta é de vocês.
Pera, peraí, Atílio. Não brinca.
É brincadeira de novo?
Agora é sério.
Vamos brindar, vamos brindar.
-Ela merece, peraí, peraí. -Parabéns, Débora, parabéns.
-É uma ideia de gênio. -Parabéns.
Você não sabe o que é isso.
-Parabéns. -Tá chorando, tadinho.
Tá emocionado.
À nossa, à nossa!
Gênio! Gênio! Gênio! Ela é gênio!
Heitor, Heitor.
É...
eu quero dizer que foi muito bom te reencontrar.
-É, foi. -Heitor...
só mais uma coisinha.
Eu sei que eu tô sumida, sei que eu não liguei mais...
mas a gente pode consertar isso.
Eu quero te convidar pra jantar.
Ou então um chopp, ou, quem sabe, até um cafezinho...
Olha, Débora...
eu não sei o que aconteceu hoje...
mas eu sei que você não é assim.
Então...
vamos continuar mantendo distância.
Distância?
Eu achei que você esperasse esse convite...
De onde você tirou essa ideia?
É...
acho que eu bati a cabeça.
Então, procura um médico.
Falo sério. Boa noite.
Oi, mãe. Tudo bem?
Liguei, sim.
Mãe, olha, eu liguei pra dizer que você pode viajar...
pra qualquer lugar do mundo, menos pro Caribe, tá?
É. Me promete uma coisa?
Que você nunca mais vai subir num barco?
Não, mãe, nem cruzeiro do Roberto Carlos.
Eu compro um DVD pra você.
Tá, também te amo, mãe.
Débora! Posso saber que história é essa...
de você pedir a minha cabeça aqui na agência?
Ué, não pedi tua cabeça.
Eu apenas disse que, se você continuasse, eu sairia.
-Eles escolheram. -E o que foi que eu te fiz?
Além de dizer pra todo mundo que tem um caso comigo?
-Nada. -Você não tem como provar isso.
-O Marcos confirmou. -Merda!
Olha só, eu quero que você me devolva, agora...
os originais do livro do Gilberto que estavam em cima da minha mesa.
-Não sei do que você tá falando. -Não? Não sabe, não?
Acho bom você lembrar. Senão...
Senão o quê?
Garoto.
-Olha ela aí! -Olá!
As passagens.
-lsto é pra você, Débora. -Pra mim?
Olha, passagens pro Nordeste. Obrigada, Marcos.
-lmagina. -Adoro.
Pra onde você quiser. Você merece.
Tira uns dias pra você, meu amor, que tal?
Aliás, você pode pedir o que você quiser.
-O que você quer? Pede, pede. -lmagina. Nem tenho...
Uma máquina de café pra minha sala.
Máquina de café na salinha dela.
Ok, tranquilo, tranquilo.
E, Débora, mais uma vez...
parabéns pela sua campanha.
-lmagina. -Bonitinha.
Ai, gente, olha. Obrigada pela força...
mas eu não quero falar nada com ninguém, não, sabe?
Não quero processar a empresa, nada disso.
Quero pegar minhas coisas e ir embora.
Carol, quero falar com você.
Não, não, não precisa ninguém sair. Podem ficar.
Eu quero te pedir desculpas.
Eu, ontem, fui muito egoísta.
Eu fui mesquinha, eu perdi a cabeça.
lsto aqui é pra você.
Um celular novo.
-Obrigada, Débora. -E eu...
Carol, eu quero que você fique.
Não, Débora, cansei de ser a sua assistente.
Eu sei que eu posso ser muito mais do que isso.
Eu não quero você como minha assistente...
eu quero você como minha parceira.
Aqui...
a mesa do Gilberto agora é sua.
Yes!
Acho que agora a gente pode conversar.
-É essa a chave? -lsso.
Muito obrigada.
Yes!
"O amor não é uma loucura que se faz por alguém.
O amor é uma loucura que a gente faz por nós mesmos.
Basta estarmos na hora certa, no lugar certo...
que todo se arranja."
É, pai, aí eu pedi transferência para o Rio de Janeiro.
Pois é, a única coisa que me segurava em São Paulo...
era o meu namoro com o Heitor. E a gente terminou mesmo.
Sei lá, a gente...
a gente estava se enganando sem saber.
Acontece.
Mas eu vou ficar bem, pai.
Não, tudo certo.
-Heitor. -Débora.
O que tá fazendo aqui?
Nada, estava passando e resolvi parar...
pra saber como você estava.
-Tudo bem. -Que bom.
-Só isso? -Não?
Eu quero falar outra coisa com você.
O quê? Pode falar.
Não reprima seus instintos que isso não é natural.
Sai do sério, fala alto...
dá um grito forte quando queira gritar.
lsso é Menudo?
É saudável, relaxante, recupera E faz bem à cabeça
Por isso Canta, dança, sem parar
Sobe, desce, como quiser
Sonha, vive, como eu
Pula, grita
Não segure muito teus instintos Porque isso não é natural
Sai do sério, fala alto
Dá um grito forte Quando queira gritar
É saudável, relaxante, recupera E faz bem à cabeça
Por isso Canta, dança, grita
Não se reprima Não se reprima
Não se reprima
Não se reprima Não se reprima
Pode gritar
Não se reprima Não se reprima
Não se reprima
Dança, canta, sobe, desce Vive, corre e pula como eu!
É!
Definitivamente, a vida é...
o que a gente faz da vida.
Não é, amor?
Te quiero.
Ah, jura? Que amor!
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