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Original subtitles

ESTE EPISÓDIO ABORDA ABUSO SEXUAL DE MENORES DE IDADE.

PODE NÃO SER ADEQUADO A ALGUNS ESPECTADORES.

Quero falar sobre o assunto do Stephen,

se você se sentir à vontade, se achar que podemos começar.

Quem é Stephen Collins?

Stephen Collins...

pra mim, não é só um dos melhores atores,

mas também uma das melhores pessoas de Hollywood.

Stephen Collins era um dos atores mais requisitados de Hollywood.

Você se lembra de quando o conheceu?

Só o conheci no teste de elenco.

Como foi quando ele apareceu?

Ele era exatamente como eu imaginava.

No set, ele era uma figura paterna.

Nos últimos 8 meses,

"Sétimo Céu" foi o programa mais assistido do canal.

Ele me mostrou o que eu queria ser,

como ator profissional,

na forma de tratar as pessoas e em como me apresentar.

Por isso foi ainda mais chocante ouvir, sabe...

o que acabou acontecendo.

Stephen Collins era o modelo de pai.

Contudo, as vidas que vemos na TV não tinham nada de reais.

Você não pode acreditar em tudo que ouve.

Não posso dizer que trabalhar no "Sétimo Céu"

foi uma experiência muito positiva pra mim.

O fato de ele estar em um programa

com várias crianças me preocupava muito.

Você disse que tinha outra garota?

- Nunca contei essa história antes. - Se sente bem contando agora?

As pessoas precisam ouvir isso.

Quase nada é simplesmente preto no branco.

Stephen, olhe aqui, por favor.

São nos tons de cinza que a história acontece.

Às vezes, os piores monstros têm os rostos mais bonitos.

Quantas meninas foram, no total?

HOLLYWOOD OS TRANSFORMOU EM ESTRELAS

- Jessica! - Stephen, olhe para a esquerda!

OS FÃS OS TRANSFORMARAM EM ÍDOLOS

Muito obrigada!

A FAMA ESCONDEU SEUS SEGREDOS

Foram só três? Tem certeza?

Tenho.

O LADO SOMBRIO DE HOLLYWOOD

Estou nesse meio há 33...

34 anos já.

Então, estar em Hollywood nos anos 90 foi...

uma baita jornada.

Basicamente, eu ainda adoro assistir TV até hoje.

Nunca imaginei que trabalharia com todas aquelas pessoas

naqueles programas, mas aconteceu.

Eu tinha 17 anos

quando minha mãe e eu pegamos a estrada para Los Angeles.

Tive algumas experiências boas e outras nem tanto.

Eu olhava para o Stephen Collins

como referência de comportamento no set.

Mas depois das notícias,

isso quase me fez questionar meu próprio julgamento.

OS PRODUTORES FALARAM COM MAIS DE 100 PESSOAS

LIGADAS A STEPHEN COLLINS.

QUASE TODAS SE RECUSARAM A PARTICIPAR

OU NÃO RESPONDERAM.

Os únicos que já trabalharam com ele

e aceitaram dar entrevista são todos homens.

Todos são homens.

Bom, o fato das mulheres não quererem falar sobre isso,

pra mim, é um sinal de como elas estão divididas.

Provavelmente tinham um grande carinho por ele

e querem entender como podem ter esse carinho por um monstro,

sejamos honestos.

Stephen Collins e eu, na verdade, temos algo em comum.

Também estudei no Amherst College.

Para entrar lá, você precisa ser uma pessoa muito inteligente.

E ele escolheu seguir carreira na atuação,

o que deixou a família contrariada.

Conheci o Stephen.

A primeira vez que o vi em tela foi em "Todos os Homens do Presidente."

Ele está em cena com dois homens,

um chamado Robert Redford, o outro, Dustin Hoffman.

Mas você só consegue ficar olhando para o Stephen.

Ele tinha uma intensidade quando sussurrava.

Vou colocar dessa forma:

Não teria nenhum problema se escrevesse uma matéria assim.

Lembro de assistir ao Stephen e pensar:

"Quem é esse homem?" Nunca tínhamos visto ele antes.

Eu queria conhecê-lo.

E então, no ano mágico de 1979,

fizeram "Jornada nas Estrelas: O Filme."

Eu estava trabalhando no filme,

e um homem começou a caminhar na nossa direção.

Quando cheguei mais perto, era o Stephen Collins!

"Jornada nas Estrelas: O Filme"

estava deixando todo mundo fascinado,

porque o "Jornada nas Estrelas" já tinha começado

a virar um fenômeno cult.

Eles já faziam convenções,

já tinham os "trekkies"

e a jogada genial, e o que deixava ainda mais forte

era que todo o elenco original continuava sendo a tripulação.

Fizeram o maior alarde quando criaram um personagem novo.

Entrar em uma coisa assim

te joga direto nos holofotes, às vezes, sem muito esforço.

Porque, a menos que faça uma grande besteira,

as pessoas vão prestar atenção em você.

Então chegou um novato...

e ele acabou batendo de frente com o Capitão Kirk.

Vou assumir o controle a partir de agora.

O quê?

Eles mostraram isso muito bem,

porque aquilo era verdade entre William Shatner e Stephen Collins.

Mas ele tinha uma dignidade, uma classe,

repito, uma calma, mesmo nessas cenas tensas,

o que era incrível, e...

diferente de todos naquele filme,

ele teve um romance.

O filme "Jornada nas Estrelas" é do fim dos anos 70,

e acho que esquecemos

que antigamente tinha essa coisa de monocultura,

que era um tema só que dominava a cultura por semanas

ou meses ou por 1 ano, e isso foi antes da internet.

Dependíamos do que as revistas diziam para consumirmos,

porque era o que a monocultura costumava fazer.

Depois disso,

ele ganhou ainda mais energia

e um carisma de estrela.

E nos tornamos amigos muito próximos.

- Só ele ganha abraços. - Pois é...

Naquela época, conseguir um grande papel,

por exemplo, em um filme como "Jornada nas Estrelas"

podia impulsionar sua carreira para sempre.

Stephen conseguiu um grande papel em um filme chamado "A Promessa."

Era um drama emocionante e brilhante.

E ele também em "Salve-me quem puder."

Ela estava tomando algum remédio?

Não que eu saiba.

- Você está tomando algum remédio? - Marty!

Foi maravilhoso vê-lo. Esse filme foi um grande sucesso.

Ele também conseguiu um papel em uma grande série de televisão.

"A Lenda do Macaco Dourado" parecia uma versão barata

de "Os Caçadores da Arca Perdida."

Em 1982, eu era um dos roteiristas e produtores

de "A Lenda do Macaco Dourado."

O personagem do Stephen Collins se chamava Jake Cutter.

Ele havia servido como piloto na guerra,

mas agora tinha um hidroavião

e saía em aventuras por vários lugares.

Como conseguiu o papel de Jake?

Meu agente me ligou um dia, e eu disse:

"Só quero interpretar um herói."

Isso foi o que mais me atraiu para o papel.

Em todas as outras séries que fiz, que eram cheias de ação,

sempre tinha a moça da semana.

Mas nessa série, não fizemos isso.

Só que em um episódio, o Stephen sugeriu

que encontrássemos um jeito forte e marcante dele se apaixonar.

Então, criei uma personagem.

Ela era uma francesa incrível,

e foi muito difícil encontrar uma atriz para o papel.

Então, Faye Grant apareceu.

Todos pensamos: "Meu Deus,

ela saiu direto das páginas do meu roteiro."

Mas, em certo momento...

Eu gosto de você.

Agora, deixe-me explicar uma coisa sobre essa cena.

Ela diz:

Se não me abraçar agora,

sinto que me desfarei em mil pedaços.

E então, nesse momento, ele a abraçou.

E eu olhei para o Stephen... Aquilo não era atuação.

Ele tinha um olhar diferente.

Foi a primeira vez que se abraçaram,

que ficaram tão próximos.

E ele começou a tremer um pouco.

Falaram: "Corta!

Corta!

Corta!"

Finalmente, eles se soltaram.

E esse foi o momento. O Stephen me disse:

"Depois desse abraço, percebi que me casaria com ela."

Na época em que Stephen Collins e Faye Grant se conheceram,

ele tinha 35 anos, ela tinha 25.

Não era uma diferença de idade tão grande.

Ele nunca falava muito sobre a vida pessoal.

Só fui descobrir depois que ele já tinha sido casado antes

e se divorciado.

Ele era muito reservado com a vida pessoal dele.

"A LENDA DO MACACO DOURADO" FOI INDICADA A 3 EMMYS

E VENCEU NA CATEGORIA DE DIREÇÃO DE ARTE.

As pessoas amaram a série logo de cara.

Achei isso na loja de presentes,

nosso próprio macaquinho dourado.

VÍDEO DE FÃ

As mulheres adoravam, os homens adoravam

e, também, as adolescentes adoravam.

Cresci numa cidade bem pequena, em Oklahoma.

Não estamos falando de uma metrópole.

Tinha um semáforo e um cruzamento de quatro vias.

A TV era uma grande fuga.

E "A Lenda do Macaco Dourado" foi um grande acontecimento.

Era uma fuga para um mundo de fantasia,

especialmente para quem cresceu numa cidade pequena.

Eu queria ser transportada para uma coisa totalmente diferente,

que não fosse a vida real, que não fosse o meu dia a dia.

PRIMAVERA DE 1983

Em 1983,

minha tia Cindy me levou para Los Angeles pela primeira vez,

no feriado prolongado de primavera.

Cindy foi a produtora assistente

do diretor comercial por muitos anos.

E se tornou produtora executiva para o Tony e Ridley Scott.

E quando eu dizia "Cindy Aikens" as pessoas sabiam quem ela era.

Quando fui pra Los Angeles,

estava empolgada para ver coisas novas

e viver coisas completamente diferentes

do que eu conhecia.

Assim que ela me pegou no aeroporto,

fomos direto para o condomínio.

Enquanto subíamos as escadas para o pátio,

ela apontou para o apartamento do lado do dela e disse:

"Stephen Collins mora ali."

Aí ela falou de "A Lenda do Macaco Dourado."

E essa era uma série que eu não perdia.

Descobrir que ele morava ao lado da minha tia.

Sim, eu fiquei completamente deslumbrada.

Lembro que queria conseguir uma foto autografada dele.

Quando bati na porta e ele abriu,

vi um deus alto, loiro, de olhos azuis,

super simpático e que dirigia um carro esportivo.

Essa aqui é a foto que tirei com o Stephen.

Ele me perguntou de onde eu era e o que estava fazendo lá.

Ele parecia muito atento.

Tinha uma energia diferente.

Na hora, ele se inclinava, tocava em você,

olhava fixamente, como se mais ninguém no planeta existisse.

E, para uma criança muito ingênua,

isso era uma coisa muito envolvente.

Disse que era muito fã da série

e pedi uma foto autografada.

Ele disse que a equipe dele providenciaria pra mim.

Aquilo foi incrível para uma garota de 13 anos

que nunca tinha conhecido um astro de cinema.

Foi um acontecimento.

Na foto está escrito:

"Para April, venha nos visitar de novo algum dia."

E ele assina com "Com amor."

E, por algum motivo, achei isso estranho.

Me incomodou.

Fiquei pensando: "Por que ele escreveria isso?"

Por que não escrever: "Prazer te conhecer. Tudo de bom"?

Depois daquele feriado,

me diverti tanto

que a Cindy falou que eu podia passar o verão de 83 com ela.

VERÃO DE 1983

Essa sou eu com 13 anos, eu era muito boba.

Olha o Pica-Pau, o Hulk...

Também fomos para a praia.

Acho que essa foi a primeira vez que entrei no mar.

Depois, fomos para a Disney, o que foi incrível.

No verão, quando fiquei com a Cindy,

ela saía pra trabalhar, e eu ficava no apartamento.

Durante o dia, quase não tinha ninguém por lá.

Uns dias depois de chegar,

eu estava na cozinha fazendo comida.

A cozinha dava para um pátio privativo,

dava para sair por uma porta de vidro.

Eu estava lá dentro, de camisola,

e, quando olhei para fora,

vi o Stephen Collins.

Ele estava no pátio,

andando de um lado para o outro,

segurando um monte de roupas...

completamente pelado.

Eu vi isso mesmo?

Eu vi mesmo o que acho que vi?

Foi chocante, tão inesperado...

Mas eu vi, com certeza.

E sei que ele também me viu ali.

Você pode pensar que qualquer criança de 13 anos,

ao ver isso, gritaria ou pediria ajuda.

Mas, na maioria das vezes, as pessoas não reagem assim.

Quando as pessoas se encontram em situações confusas,

elas travam.

Ele estava no pátio

e ele estava indo do apartamento dele

até a área da lavanderia,

segurando um monte de roupas, todas juntas

e estava completamente nu.

Por que alguém iria lavar roupa pelado?

Sou ex-investigadora da Delegacia de Crimes Sexuais.

Trabalho com casos de abuso infantil

porque as crianças são as verdadeiras vítimas.

Elas são puras, inocentes,

e nada do que acontece com elas é culpa delas.

No caso da April Price, para mim, foi um teste.

E acredito que ele queria ver como ela reagiria.

Se ela iria sair correndo,

se sentiria nojo, se contaria para alguém.

Foi tão fora do comum, tão bizarro,

que, na hora, nem pensei muito sobre isso.

Naquela época, ele estava namorando uma mulher.

A Faye participou de um episódio de "A Lenda do Macaco Dourado."

Lembro dela na série.

Era jovem, bonita, loira.

Ela aparecia, e depois, eles iam para o apartamento dele.

Parecia que ele estava em um relacionamento sério e feliz.

E ela era linda.

Por isso, quando ele passou por mim,

eu nem cogitava nenhuma conotação sexual,

porque sabia que ele tinha uma namorada.

ALGUNS DIAS DEPOIS

Eu sabia que ficaria um bom tempo na Califórnia,

então levei meu Atari. É um videogame antigo.

Eu tinha levado o videogame,

mas tinha esquecido o conector,

aquele adaptador de energia que ligava o aparelho na TV.

Minha mãe mandou ele pelo correio para mim,

e não fazia ideia de como conectar aquilo na TV.

Quando o pacote chegou,

eu estava com o adaptador na mão,

e Stephen estava por perto.

Cheguei nele e perguntei:

"Você sabe como conectar

o videogame para eu poder jogar?"

Ele respondeu que sim, que podia me ajudar.

Aí ele estava na sala do apartamento da minha tia,

instalando o videogame.

E ele se virou...

e a calça dele estava completamente aberta.

Estava completamente à mostra.

Essa garota só queria instalar o videogame dela.

E, de repente, é exposta a alguém

que usa um comportamento sexual para impor domínio e controle.

Isso é traumatizante.

Nessa hora, eu já estava completamente desnorteada.

O que você faz? Como reage a isso?

Qual é o propósito disso?

Por quê? Por quê?

Eu só sei que fiquei extremamente chocada,

muito desconfortável,

mas, ao mesmo tempo, não queria ofendê-lo,

porque ele estava sendo legal comigo, simpático,

estava me fazendo um favor.

Então, tentei olhar para o rosto dele

e conversar como se nada estivesse acontecendo.

Ele jogou conversa fora por um tempo

e depois foi embora.

Quer saber por que você não deve entrar em um carro estranho?

Ele pode te machucar.

Isso foi no começo dos anos 80,

antes da história do "não fale com estranhos."

Como esperar que uma garota de 13 anos

tenha maturidade para saber quando precisa ser rude?

Ninguém ensinou isso pra ela.

Precisamos definir o que é um trauma.

É uma situação

em que a pessoa se sente completamente indefesa,

e isso compromete bastante o sistema regulatório do cérebro,

dificultando a compreensão das coisas e a sensação de bem-estar.

Isso, de fato, causa danos ao cérebro.

E essa menina nova

foi exposta a alguém

que demonstrou domínio e controle através de comportamento sexual.

Isso vai além de invadir o espaço pessoal,

o que já é devastador,

esse homem...

impôs domínio e controle sobre ela

de um jeito traumatizante

e explicitamente sexual.

Sendo adulto, você pensa: "O que é isso? Como ousa?"

Mas eu era uma menina de 13 anos,

isso era totalmente diferente

de tudo o que eu tinha vivido ou...

Nem sabia que reação podia ter tido.

Fiquei assim...

"O que está acontecendo?"

E ela ainda passou por aquele mesmo processo

de tentar justificar e racionalizar,

porque isso foge completamente do que seria uma situação normal

para a maioria das mulheres.

E ele era famoso, por que faria alguma coisa ruim com alguém?

Além disso, o Stephen tinha uma namorada.

Um adulto não trairia

e com certeza, um adulto não se interessaria por uma criança.

Mas esse é o tipo de coisa que só uma criança acreditaria.

Nunca disse nada,

primeiro de tudo, porque todos sabemos

que não iam acreditar em mim.

Nunca disse isso antes,

mas quando eu tinha 4 anos,

tinha um homem que não era bem meu tio,

que costumava ficar de babá.

E ele me fazia sentar no colo dele

para ele poder...

me molestar.

E...

Eu, claro, odiava aquilo.

Lembro que, uma vez,

ele basicamente disse

que eu podia tocar nele se ele pudesse tocar em mim.

Lembro de contar

para a minha família o que tinha acontecido,

e ninguém acreditou.

E, sendo bem sincera,

passei muitos anos da minha vida adulta

pensando naquele trauma, naquela experiência.

Então somamos o que aconteceu

com o Stephen Collins, que era um ator famoso,

carismático, bonito, tudo isso,

esses dois traumas se juntaram.

Quando olho para trás como adulta

e vejo minha reação,

tentando enterrar isso, sem falar nada,

tem motivos para eu ter feito isso,

e agora eu entendo por quê.

Meu cérebro precisou se proteger.

Eles não queriam falar sobre isso,

não queriam nem pensar.

Eu só fingia que estava tudo normal,

como se nada tivesse acontecido.

A partir daí, April tentou se afastar do agressor.

Mas, naquela época, o que uma garota tão jovem

poderia fazer para se distanciar de um homem adulto

que morava no mesmo condomínio?

Teve uma vez que eu estava tomando café da manhã

numa das mesas do pátio.

Ele passou de roupão, sentou do meu lado

e começou a falar sobre como meus pés eram bonitos.

Eu fiquei super desconfortável.

Acabei meio que me encolhendo,

porque eu não queria aquilo,

não precisava daquilo, nunca gostei desse tipo de coisa.

Ele virou para mim e disse

que eu precisava aprender a aceitar um elogio.

Agora imagina um homem adulto passando tempo

com uma menina de 12 ou 13 anos.

Só isso já seria estranho.

E aí, ele ainda faz comentários até sobre os pés dela.

Aposto que ele gostava do poder que tinha sobre ela.

Isso é condicionamento.

O condicionamento acontece quando um adulto constrói

uma relação com uma criança com a intenção de abusar dela.

Acho que Stephen Collins estava fazendo a April se sentir especial,

diferente das outras meninas.

Primeiro, Stephen deu um autógrafo para ela,

deu atenção.

Depois, ele se expôs para ela.

E, da terceira vez, ele voltou

e ofereceu outro tipo de atenção.

Dessa vez, foi uma coisa mais sexualizada, mais carregada.

Ele comentou sobre os pés dela,

que é um detalhe específico, como se dissesse:

"Estou prestando atenção em você."

Quando ele começou a assediá-la de fato,

ela já estava envolvida nisso há muito tempo.

Como ela explicaria isso,

se fosse contar para um adulto o que estava acontecendo?

Porque houveram várias situações antes,

e ela não falou nada.

Coloquei aquele episódio de lado.

A Cindy e eu continuamos como se nada tivesse acontecido.

Provavelmente passei a ir mais vezes para o escritório com ela.

Por isso, naquela altura, o Stephen não era a minha maior preocupação.

FIM DO VERÃO DE 1983

Perto do fim da viagem,

eu estava deitada no pátio, de maiô,

mas num canto bem isolado.

Era o maiô que eu usava para tomar sol.

Não era nada sexy, sabe?

O Stephen apareceu no pátio,

e estava bem arrumado,

ele sentou do meu lado, bem perto de mim.

Eu falei: "Daqui a pouco já vou para casa."

De algum jeito, começamos a falar de "A Lenda do Macaco Dourado."

E ele disse: "Tenho algumas coisas da série no meu apartamento."

E, claro, eu me animei e falei:

"Sério?"

Aí ele disse: "Sim, você quer ver?"

É estranho e assustador

que um homem adulto quisesse tanto a atenção de uma criança.

Levantei e, como estava na piscina,

estava só de maiô,

e fui até o apartamento dele.

A parte de mim que ainda estava incomodada

com o que aconteceu antes, ficava repetindo:

"Ele não vai fazer isso de novo.

Ele não vai fazer isso de novo. Vai ficar tudo bem."

Para quem acha que a April foi ingênua

de entrar no apartamento dele,

a verdade é que ele sabia exatamente o que estava fazendo

quando falou da série de televisão.

Ele sabia que essa era a isca

que faria ela entrar.

E ele não levou até ela. Qual é a metáfora clássica?

"Tenho um docinho para você, querida, venha comigo."

A criança é burra por querer o doce?

É exatamente a mesma coisa!

Tinha uns objetos da série

e algumas fotos em cima de um aparador.

Eu fiquei ali, olhando. E ele disse:

"Se importa se eu ficar mais à vontade?"

Eu continuei olhando as coisas

e, quando percebi, ele estava voltando do quarto...

completamente nu.

Me deu um frio na barriga. E pensei:

"Agora eu estou realmente com medo.

Estou no apartamento desse homem, de maiô, e ele está pelado.

Isso é muito ruim, isso é péssimo.

Eu não sei o que fazer."

Estava sentada no sofá,

fiquei tensa, encolhida, tentando ocupar o menor espaço possível

e eu olhava para qualquer lugar, menos para ele.

E ele estava quieto, andando pelo apartamento,

como se nada estivesse acontecendo.

Aí ele foi até um abajur que estava bem do meu lado

e começou a trocar uma lâmpada.

E eu ali, sentada, no mesmo nível dos olhos...

com um homem completamente nu na minha frente.

Eu estava no apartamento dele.

E eu não sabia o que fazer.

Quanto tempo você acha que isso durou?

A situação toda, diria que durou uns 20 minutos.

Pela minha experiência,

muitas vezes esses agressores estão se estimulando.

Ela não lembra disso,

mas o tempo que tudo isso durou me faz questionar

se algo assim estava acontecendo.

E lembrem-se, uma menina de 12, 13 anos não entende isso.

Às vezes, isso nem é memorizado.

Eu estava completamente indefesa, sem saída, no apartamento dele.

E, bem nessa hora,

a Cindy passou lá fora.

Ela tinha chegado do trabalho mais cedo, sem avisar.

No instante em que vi ela...

Pensei, é isso.

"Minha tia está ali! Preciso ir, tchau!"

Pronto, saí correndo.

Ele não teve tempo nem de dizer:

"Não conte para ninguém" ou "Está tudo bem."

Não teve nem chance de se despedir.

Eu já tinha sumido.

Entrei correndo no apartamento e fui direto para o chuveiro.

Ela saiu correndo atrás da tia como uma desculpa,

mas o que ela precisava era do apoio de um adulto.

Precisava que algum adulto

a tirasse daquela situação.

E isso aconteceu no último segundo.

Se a Cindy não tivesse chegado em casa naquele dia,

prefiro nem pensar no que poderia ter acontecido.

Ele teria me estuprado?

Não sei, prefiro pensar que não.

Mesmo ele não tendo tocado nela,

isso ainda foi um crime

porque ele se exibiu diretamente para ela

e ela não tinha como fugir dali.

Foi uma ameaça física.

Meninas mais novas podem achar que, se não há sexo,

não é tão ruim,

porque ninguém nunca disse que isso é errado.

Depois daquilo, literalmente, não falei nada pra Cindy.

Já fiz muitas reportagens sobre Girls Gone Wild

e uma coisa que sempre achei interessante

era o tipo de garota que eles escolhiam para os vídeos.

Era importante que não fossem de Los Angeles ou Miami,

mas que estivessem só de passagem.

Que fossem do interior, do Meio-Oeste,

de qualquer outro lugar.

Algo parecido aparentava acontecer com Stephen Collins.

Uma garota de 13 anos do Meio-Oeste

significava que ele nunca mais teria que lidar com aquilo.

Ela não era alguém que ele encontraria de novo.

Não era alguém que faria sucesso ou teria voz.

Ele não precisaria lidar com as consequências do que fez.

É difícil manter um relacionamento aqui em Los Angeles?

Acho que o que acontece com muita gente

quando chega a Los Angeles ou Nova York, de formas diferentes,

são todas as possibilidades

e a cidade meio que te envolve, e você quer experimentar tudo.

Enquanto tudo isso acontecia com April,

ele estava em um relacionamento com Faye Grant.

"A Lenda do Macaco Dourado" durou só uma temporada.

Depois da série, eles continuaram juntos

e 3 anos depois, eles se casaram.

E 4 anos depois, tiveram uma filha linda juntos.

Avançamos para 1994,

Stephen lançou "Eye Contact", seu primeiro romance.

Ele dedicou o livro à Faye Grant.

A história é uma ficção sobre uma mulher

com compulsões sexuais e várias fantasias.

Um laptop e uma página em branco

são um verdadeiro paraíso para Stephen Collins.

Ele se isola no trailer e escreve thrillers eróticos.

Logo no começo do livro,

tem uma cena em que a mulher fica nua

na frente de um garoto.

Fiquei surpreso, pois era uma história bem sombria.

E, para mim, esse não era o Stephen Collins.

Comecei a receber mensagens.

A secretária eletrônica apitava, e eu ouvia:

"Stephen, acabei de ler seu livro.

Amei, mas de onde saiu isso?"

Ele estrelou em uma série de filmes...

Caramba!

Eu nunca tinha visto isso.

Stephen Collins deu uma entrevista ao Charlie Rose,

mas, na forma como se comporta ali,

parece um antropólogo falando sobre um certo tipo

de, como ele mesmo chama, compulsão.

Acho que o comportamento sexualmente compulsivo, no fundo,

não é muito diferente do alcoolismo.

Ele fala disso como se fosse um especialista.

Mas como?

Nos anos 90, ninguém pesquisava nada no Google.

Como ele descobriu isso? O que ele leu?

O que ele foi atrás?

Você está me dizendo que sabe. Mas como você sabe?

No caso dela, quando fica nervosa,

ela recorre a um ambiente onde tem controle total.

Controle total. Aí está.

É isso, pessoal.

No fim, é sobre poder e controle

sobre outra pessoa, uma pessoa jovem.

Em 1996, ele fez um filme chamado "Sedução Fatal."

Tem uma cena em que Keri Russell está deitada na cama

com o Stephen,

e ele começa a tirar a roupa dela, devagar.

O estranho é que ele deveria evitar esse tipo de papel.

Não seria desconfortável para ele

saber que fez um filme assim e, depois, fez o que fez?

É muito estranho.

Aí, em 1998, Stephen lançou outro romance.

Escrevi sobre uma pessoa que se muda para um apartamento

e descobre que a janela da cozinha dele

dá direto para a cozinha de uma mulher muito bonita.

Ele descobre que a mulher tem uma irmã."

Não dá para dizer que não há coisas em comum

entre o que aconteceu comigo, especificamente,

e o que estava escrito nos livros dele.

Isso me preocupava, porque ele tinha poder.

E esse poder só aumentava

e ele estava cada vez mais conhecido.

Ele está escrevendo livros e super satisfeito consigo mesmo.

E se colocando como um pilar da comunidade.

Ele conseguiu se tornar exatamente

o que queria que acreditassem que ele é,

sem enfrentar nenhuma consequência.

Li vários trechos daquele livro e percebi...

de quem mais ele poderia estar falando, além de mim?

Aquilo era coincidência demais, muito estranho.

Não sei o quanto aquele livro foi escrito em detalhes,

mas sei o suficiente para entender que ele estava falando

sobre ver a filha de uma vizinha ou alguém pela janela.

E eu me lembro da situação toda com uma clareza absoluta.

Eu provavelmente deveria ter feito anos de terapia,

mas nunca fiz.

É muito mais difícil, muito mais complexo,

porque você vê aquela pessoa, vê como todos ainda a amam,

como ela segue com a vida dela, aparentemente feliz.

E ela continua se safando,

a mentira continua crescendo cada vez mais, se espalhando.

E isso gera ressentimento. E isso afeta profundamente a vida.

As pessoas me perguntam,

olhando para trás, como me sinto sobre isso.

O meu sentimento em relação a tudo isso muda a cada dia.

Meu nome é Garth Ancier,

em meados dos anos 90, a WB Network

foi criada pela mesma equipe que havia fundado a Fox Network.

Eu fui o presidente fundador de programação da WB.

Quando está criando um canal,

precisa definir qual será a identidade dele.

No meu caso, as séries mais marcantes que fizemos

foram "Charmed" e "Buffy, a Caça-Vampiros."

Também tivemos o "Programa Dos Irmãos Wayans",

que era muito popular.

E começamos a nos voltar

para séries com famílias como protagonistas.

E, quando digo "família", "Charmed" é sobre uma família,

são três irmãs.

"Buffy" também tem uma família, de certa forma.

Foi aí que percebemos

que fazia muitos anos que não tinha uma série familiar de verdade.

E o que passava pela minha cabeça era:

"Onde está a nossa série de família?"

Porque eu cresci assistindo a uma série

sobre uma família grande,

e queríamos trazer esse espírito de volta.

Meu chefe, que era o presidente, Jamie Kellner,

sugeriu que o pai da série fosse um pastor.

E pensamos:

"É uma abordagem interessante para uma série familiar,

ele não seria só pai dos filhos, mas também da comunidade."

Foi assim que criamos "Sétimo Céu."

Precisávamos de alguém para produzir a série.

Tem uma das nossas séries que era um retrato realista de uma família.

Aaron Spelling já era um produtor muito famoso na época.

Ele fez "Ilha da Fantasia," "O Barco do Amor,"

"Hotel", "Dinastia".

E, claro, sempre há um carinho especial pelo seu último projeto,

por isso "Barrados no Baile" é muito especial pra mim.

Trabalhamos com ele primeiro na Fox,

com "Barrados No Baile" e, quando fomos para a Warner,

sabíamos que ele era um produtor comercial confiável.

Mas o Aaron nunca tinha feito uma série sobre a família de um pastor.

Mas, como ele já tinha produzido tantos programas

e era o produtor mais talentoso da nossa era,

comecei a achar que seria bom

ele fazer uma coisa que nunca tinha feito antes,

para que pudesse criar outras coisas.

No fim das contas, qualquer série roteirizada

depende primeiro da qualidade do texto.

E, claro, o elenco também precisa ser ótimo.

Esse era o equilíbrio que precisávamos acertar.

Lembro que, em "Sétimo Céu",

escalamos as crianças primeiro, porque era mais fácil

do que escolher os adultos.

O ator do pai precisava ser alguém que convencesse como pastor.

E nenhum dos nomes que víamos parecia funcionar.

Tentamos e erramos várias vezes.

Foi quando eu disse para o Aaron:

"Sei que é um tiro no escuro,

mas lembro de um homem de 'A Lenda do Macaco Dourado'."

Era uma série de aventura,

mas esse ator tem uma vibe

que combina com um pastor."

O Aaron assistiu e disse:

"Entendi. Dá certo."

E assim escalamos ele.

A abertura de "Sétimo Céu" é simplesmente icônica.

Também é muito a cara dos anos 90.

Tem aquela guitarra, aquele estilo...

É brega.

Eu amava "Sétimo Céu" quando era criança.

Sentia como se fizesse parte daquela família.

E eu realmente queria fazer parte.

E eu acabava me imaginando fazendo parte da família,

talvez antes do Simon.

Os personagens principais eram o reverendo Camden,

o chefe da família, e seus cinco filhos.

Catherine Hicks era a mãezona.

Ela fazia o papel da mãe na série.

Ela ama os filhos, mas estava sempre sobrecarregada.

Era muita coisa para lidar.

Quando você vê alguém como a Catherine, precisa entender

que é essencial ter atores experientes no set.

Catherine Hicks trabalhava na TV

desde que tinha se formado na faculdade

e estava em uma novela do Aaron Spelling que não durou muito.

O resto do elenco, em grande parte, eram rostos novos.

Barry Watson parecia um pouco mais tímido e reservado,

como o filho mais quieto da família.

Jessica Biel interpretava Mary Camden.

Jessica Biel fazia o papel daquela típica garota

que não tinha noção de como era bonita.

Ela estava aceitando a própria aparência,

mas era um pouco desajeitada por causa da altura,

o que a deixava mais vulnerável, mesmo sendo muito bonita.

"Sétimo Céu" é o motivo pelo qual todo mundo conhece a Jessica Biel.

Foi essa série que colocou ela no mapa.

Cada cena em que ela aparecia, ela brilhava.

E acabou se tornando a grande atriz que é hoje.

A Jessica Biel tinha esse tipo de personagem,

e a Beverly Mitchell acabou assumindo o papel da garota comum,

que não era tão alta quanto a irmã,

mas era a melhor amiga de todo mundo.

David Gallagher interpretava o Simon,

o filho mais novo,

e a maioria das lições mais absurdas aconteceram com ele.

Por exemplo, ele faz um gesto obsceno

para os amigos na escola.

E agiram como se fosse um assassinato.

A menina que fazia a Ruthie é a Mackenzie Rosman.

E a Ruthie é uma pestinha na série, sinceramente.

Uma pirralha de verdade.

Tem um episódio em que...

Alguém parecido comigo já sequestrou um avião?

E o Stephen Collins interpretava o reverendo Camden.

Ele era o "Deus" da série.

O salvador. Ele resolvia todos os problemas.

Stephen Collins, como o pai da série,

era o coração da história. Ele era o centro de tudo.

A forma dele transmitir aqueles valores,

que fazia "Sétimo Céu" acontecer.

Disseram que você estava com um amigo na casa dele,

e que tinha uma cerveja na mesa.

Não sei, me parece problemático.

Ele era o exemplo máximo do que um pai devia ser.

Fumar um baseado é problemático.

Ele tinha um jeito calmo de falar,

mas sempre com um certo tom de julgamento por trás.

Você já experimentou maconha?

Acho que nunca mencionamos

que tipo de pastor ele era, especificamente.

Nenhum de nós via a série como um programa religioso.

Víamos como um programa sobre moral, sabe?

Ensinando o certo e o errado

através de figuras parentais que fossem confiáveis.

Não nos preocupamos com a recepção do público,

porque estávamos fazendo uma série

sobre criar filhos com valores.

Se você pensar nas séries que vieram antes de "Sétimo Céu",

os pais dessas outras produções nem sempre eram acessíveis.

Essa série era diferente.

Mudou não só a forma como víamos a paternidade na cultura pop,

mas também influenciou como enxergamos os pais na sociedade.

Olhe como essa família é funcional.

Em todo episódio, eles abordavam algum problema

que acontecia na sociedade.

Falavam sobre gangues, falavam sobre racismo,

drogas...

Tinha até crianças cheirando tinta no corredor da escola.

O que fazia você se sentir bem com a sua própria vida.

Porque você não era viciado em drogas,

não estava cheirando tinta no corredor

e seu vizinho não era de uma gangue.

Andrew Keegan interpretou o Wilson

que se envolveu com a Mary, eles tiveram um romance.

Andrew, aqui!

Você conhece Andrew Keegan.

Ele apareceu em todos os programas teens e filmes famosos.

A indústria do entretenimento... ela te usa e depois te descarta.

Depois que Andrew Keegan saiu de "Sétimo Céu,"

ele fundou uma organização chamada "Full Circle,"

que a mídia logo rotulou como um culto.

Desde o começo, a imprensa caiu em cima.

Essa foi, basicamente, nossa primeira matéria.

Sou Mike Pearl, sou jornalista e trabalhei para revista "Vice".

Era uma história bizarra,

um ex-ator mirim resolveu criar uma religião chamada "Full Circle."

Uma freelancer da revista conheceu alguns membros.

Era um culto de dieta.

Não era como se os portões do céu fossem se abrir

ou coisa do tipo.

Eram pessoas vestindo roupas largas de linho,

tocando tamborim, se divertindo

e, com sorte, fazendo alguma ação de caridade.

O mais irônico é que ele veio de uma série com temática religiosa

e depois decidiu criar a própria religião.

Isso, sim, é ironia.

Não sei se acho irônico, é muito maluco.

Conforme fui ficando mais velha, chegou a fase dos 20 anos,

e eu estava determinada a não deixar

que isso definisse a minha vida de forma alguma.

Não me dei ao trabalho de gastar muita energia com isso.

Mas, por volta de 1996, fiquei sabendo

que ele estava interpretando um pastor em uma série,

um homem de família.

E isso me incomodou.

Acho que todos entendem

que, quando uma série começa a fazer um sucesso estrondoso,

não tem como escapar da divulgação dela.

Você não consegue deixar de ver um comercial,

ouvir uma chamada em um programa de entrevista

ou num jornal, ver uma capa de revista.

E o fato dele estar numa série

cercado de crianças me preocupava muito.

Parabéns. Boa sorte para vocês. Obrigado.

As atrizes tinham 7, 13 e 14 anos.

Isso foi um grande alerta pra mim.

Conversamos, somos amigos.

Vocês fazem o papel de pai e filha na série, mas...

Só na série.

Foi aí que comecei a perceber

como meu silêncio estava me pesando.

De alguma forma, criamos esse vínculo desde o começo da série.

- Temos uma conexão forte. - Isso é ótimo.

- E... - Pode continuar.

Não é bem uma relação de pai e filha.

Também não é como irmão mais velho e irmã caçula,

porque eu seria um irmão bem mais velho.

Comecei a me perguntar

se não era só comigo.

Será que eu tinha sido só o começo de algo maior?

Com 20 anos,

trabalhei como supervisora de roteiro em Hollywood.

Era mais uma forma de seguir os passos da Cindy,

aproveitando os contatos que ela tinha.

Eu estava determinada a não deixar que isso

tivesse qualquer influência sobre a minha vida.

Mas agora ele estava em uma série cercado de outras crianças.

Tudo estava mudando.

E era hora de contar para Cindy o que tinha acontecido.

Sentei com a Cindy e contei para ela,

em primeiro lugar, das situações.

Ela ficou furiosa.

Disse que, se soubesse naquela época,

teria ido direto para a Polícia.

Aí falei: "Esse é o meu dilema.

Esse é o meu maior problema.

Ele está em uma série cheia de crianças.

Eu devo falar alguma coisa?"

E percebemos, na mesma hora, o que isso significaria.

Se eu dissesse alguma coisa, primeiro, seria a mentirosa.

Ninguém acreditaria em mim. E eu perderia a minha carreira.

As pessoas estavam apaixonadas ou obcecadas

por uma persona criada por um roteiro.

Por isso, eu fiquei em silêncio. Não falei nada.

Você viu o Stephen trabalhando com as meninas mais novas?

- Como era isso? - Ele era uma figura paterna.

Nunca vi ele trabalhando com as meninas mais novas,

porque eu não estava lá com frequência.

Eu trabalhava diretamente com todas as mulheres da série.

Isso incluía a Catherine, a Beverley,

a Mackenzie e a Jessica Biel,

além de todas as atrizes convidadas que passaram pelo programa.

O ambiente sempre foi muito animado e tranquilo.

Parecia uma família.

É isso que somos. Somos uma família aqui.

Bom, sejamos sinceros.

A maioria dos atores traz muito de si para os personagens.

É parte do motivo pelo qual você escala alguém.

No fundo,

você sempre está interpretando uma versão de si mesmo.

Por exemplo,

eu dava festas para ver o Oscar na minha casa todo ano.

Uma vez, o Stephen estava lá,

e meu sobrinho, que era bem novo na época,

estava aprontando longe dos olhos de todos, porque era travesso.

Aí o Stephen chegou em mim e disse:

"Precisamos conversar sobre uma coisa."

E ele assumiu o papel de figura paterna, dizendo:

"Seu sobrinho está fazendo coisas que acho que você devia saber."

E ele fez isso com gentileza, sem arrogância nem nada.

E foi na minha casa.

Esse era o jeito dele.

"Sétimo Céu" foi ao ar na Warner.

Na primeira temporada,

a série tinha uma média de 3 milhões de espectadores,

o que não é um número tão grande.

O sucesso não veio tão rápido.

Também não era uma série que as pessoas comentavam:

"Nossa, você viu aquele episódio?"

Não era uma série muito falada em Los Angeles,

mas tudo bem.

Tem um público enorme por aí, com visões e gostos diferentes.

Você tem que fazer programas para todos eles,

não só para você.

E algumas pessoas começaram a perceber

que essa série tinha uma coisa especial.

Meu nome é Melissa Henson.

Sou vice-presidente de programação

do Conselho de TV e Mídia para Pais.

O Conselho de TV e Mídia para Pais

é tipo um grupo de monitoramento.

Ele surgiu porque as pessoas começaram a perceber

que a TV estava cada vez menos adequada para o público familiar.

No final dos anos 90,

começaram a surgir séries como "Friends" no horário nobre.

Tinha episódios em que os personagens

tiveram pornografia de graça na TV

e ficavam com medo de desligar a TV para não perderem o acesso.

Estava cada vez mais difícil encontrar programas

que os pais pudessem assistir com os filhos por perto,

quanto mais assistir junto com eles.

Mas, em 1996, "Sétimo Céu" estreou na TV.

Ela chamou nossa atenção porque retratava uma família religiosa,

com um pai pastor.

Isso já fazia da série algo único.

O pai era uma figura respeitável, e não um personagem bobo.

Alguém a quem os filhos recorriam para pedir conselhos.

Quando olhamos para "Sétimo Céu", dá para se perguntar:

"Quantas séries de TV

realmente contavam histórias com lições morais?"

Tinha a série "Doutora Quinn" e "O Toque de um Anjo",

mas elas não eram necessariamente voltadas para as crianças.

Já o "Sétimo Céu" era um programa

que eles procuravam assistir por conta própria.

Não era aquele tipo de série que a mãe obrigava o filho a assistir.

Era uma coisa que eles queriam ver.

E, claro, ajudava o fato de terem a Jessica Biel,

que provavelmente atraía muitos adolescentes,

e o Barry Watson, que devia chamar a atenção das meninas.

O Conselho de TV e Mídia para Pais adorava "Sétimo Céu."

De tempos em tempos, lançávamos nosso ranking

dos 10 melhores programas para famílias,

e "Sétimo Céu" sempre ocupava o primeiro lugar na nossa lista.

Um guia de TV colocou a série na capa.

O título era: "O melhor programa que você não está assistindo."

Então, na segunda temporada, a série recebeu

uma enxurrada de indicações ao Emmy.

Então, começaram a pensar:

"Talvez eu devesse assistir a essa série".

E, de repente,

a série passou a ter uma audiência absurda.

Quem começa a assistir, se apaixona e não para mais.

Barry!

A estreia da segunda temporada

foi, na época, a hora mais assistida do canal.

Teve mais de 12 milhões de espectadores.

Nunca vi uma série de horário nobre

ir ao ar duas vezes por semana.

Ela acabou se tornando uma raridade dentro da TV.

A maioria das pessoas quer ver a série.

Por isso está fazendo tanto sucesso.

Tem humor, tem ousadia...

Era real, era simples.

Eram seus vizinhos, sabe?

- Stephen, olhe para cá! - Eu amo sua série!

Muito obrigada!

O grande trunfo dessa série

é que ela ensina muito, mas sem ser moralista.

Eles abordavam temas pesados às vezes,

mas sempre de um jeito muito responsável.

Jessica, olhe para cá!

Nos últimos 8 meses,

"Sétimo Céu" tem sido a série mais assistida do canal.

O elenco, pelo que vejo, é uma família.

E eu amo todos eles.

Eles eram muito reconhecidos,

e acho que o Stephen acabou se tornando

uma espécie de "pai de todos."

Sabe...

às vezes, os piores monstros têm os rostos mais bonitos.

"Você não pode simplesmente confiar

em quem é simpático, gentil e carismático."

Nem todo mundo que é legal com você quer o seu bem.

Nem imaginava, quando me mudei para Hollywood

e comecei a trabalhar na indústria,

que veria Stephen Collins de novo,

porque eu trabalhava principalmente com comerciais de TV.

Por volta de 1997,

me chamaram pra fazer as chamadas promocionais de um canal de TV.

Eu estava sentada na mesa do refeitório,

fazendo meu trabalho, quando me entregaram a lista de gravações.

E eu pensei: "Meu Deus."

Stephen Collins estava vindo fazer umas gravações.

Era alguém que eu não via há uns 14 anos.

E eu só pensava:

"O que eu posso fazer? Não tem nada que eu possa fazer."

Eu estava ali, pensando:

"Meu Deus, eu devia falar com os produtores?"

Não, porque não tinha saída. Eu estava presa.

Continuei sentada ali na mesa.

E, em algum momento, ele me viu.

E no momento em que ele me viu, ele soube.

Dava para ver no rosto dele. Na expressão inteira dele.

Ele sabia exatamente quem eu era.

Aí, no intervalo...

quando ele terminou,

esperou até que ninguém mais estivesse na mesa.

Ele chegou em mim e disse:

"Quero que você saiba

que o que eu fiz foi extremamente errado.

Me sinto muito mal por isso.

Por favor, me perdoe."

De repente, pensei:

"Não preciso mais me preocupar com isso.

Ele está arrependido. Ele sabe que errou."

Por isso, fiquei em silêncio. Não falei nada.

Hoje, pensando bem, acho que ele não foi sincero.

Acho que foi só controle de danos.

Porque, de repente, uma das "indiscrições" dele

estava ali, na frente dele, e eu era alguém

que podia abrir a boca e acabar com a carreira dele.

Não conheço o Stephen Collins,

mas tenho um receio muito grande

de que ele não se importa com as pessoas

sobre as quais tem poder e controle.

Ele é manipulador,

se aproveita do afeto das pessoas,

e é muito pior do que a April imaginava.

O problema com "Sétimo Céu",

sobre o elenco, o que acontece com atores

que nunca tinham sido estrelas da TV antes

é que, no começo, eles ficam muito felizes pela oportunidade.

Mas, conforme a série vai ficando cada vez mais popular,

eles começam a querer fazer outras coisas.

No ano 2000, enquanto ainda estava na série,

Jessica Biel posou para uma revista chamada "Gear".

Na capa, ela estava sem blusa.

Foi um daqueles momentos estranhos da minha carreira

que eu fico pensando...

Foi um ensaio fotográfico que eu fiz.

Fiquei totalmente exposta. Não foi uma coisa planejada.

Foi aquela coisa de: "Agora sou uma mulher.

Claro que posso usar esse biquíni."

Essas coisas, quando você é jovem,

simplesmente acontecem de um jeito que você não espera.

Nunca achei que isso fosse um grande problema.

Todas as nossas séries

tinham protagonistas femininas muito fortes.

Como ela fazia parte de uma série

sobre amadurecimento e moralidade,

ver ela com menos roupa

do que usaria em um episódio de "Sétimo Céu",

provavelmente causou um impacto maior.

Mas Stephen Collins fez questão de comentar sobre isso.

Ele disse:

"A imprensa errou a idade da Jessica Biel

nas reportagens recentes.

Ela não tem 18 anos, como foi amplamente divulgado,

ela tem 17, é menor de idade

e, por isso, o ensaio fotográfico dela foi pornografia infantil.

Não quero que minha filha ache que isso é algo aceitável."

Que ironia do destino, mas Stephen Collins estava certo.

Mas será que isso era para esconder quem ele era?

Ele queria ser visto como o homem certo nessa história,

para garantir que ninguém suspeitasse de nada.

Jessica ainda tinha mais 2 anos de contrato com "Sétimo Céu"

mas, na prática, ela foi basicamente retirada da série.

A personagem dela virou uma adolescente problemática

que foi mandada para morar com os avós.

A Jessica Biel estava se tornando uma estrela muito grande na série

e queria fazer outros trabalhos.

Por isso, sabe, tentamos manter...

o que havia de especial na série,

mas ao mesmo tempo respeitar os atores.

A Jessica voltou para alguns episódios aqui e ali,

só para cumprir o contrato.

A personagem dela aparecia e sumia o tempo todo.

Ela não era uma parte tão grande da série,

mas a série continuava um sucesso.

A saída da Jessica Biel aconteceu no episódio 95,

e chegar a 100 episódios é um marco.

É um sinal de sucesso.

Quero agradecer ao Aaron, em nome do elenco.

Quando você trabalha em uma série dele, pode ter certeza

de que tudo vai funcionar bem

e ser conduzido com o maior profissionalismo da indústria.

É uma sensação incrível, de verdade.

Principalmente quando você tem um elenco como esse.

Trabalhar com eles é um prazer.

100 episódios é um número enorme para uma série.

Pelos padrões de hoje, quantas séries chegam a isso?

Quase nenhuma.

Essa é minha série favorita de todas em que trabalhei.

Nem sei o que dizer.

Me sinto muito honrada por ter feito parte

de uma série tão maravilhosa.

Chegar a 100 episódios significa que a série pode ser redistribuída,

sendo reprisada indefinidamente e alcançando novas gerações.

E isso pode significar mais dinheiro para os produtores,

roteiristas, atores, todos envolvidos na produção.

Não sei quanto tempo essa série vai durar.

Se der para continuar

e manter a série sempre renovada, isso é incrível.

Mas na sexta temporada,

Barry teve um susto com câncer

e não conseguiu participar de todos os episódios.

Por isso, os produtores foram muito espertos

ao introduzir novos personagens, novos membros do elenco,

histórias diferentes,

com personagens diferentes, tivemos novos vizinhos.

A série, na verdade, teve muitas participações especiais.

Mary-Kate e Ashley Olsen participaram.

Ashlee Simpson foi um personagem regular por 2 temporadas.

Um dos personagens que realmente se destacou,

e que eu amava, foi do George Stults.

- Vou fazer um bolo para você. - Mas qual bolo?

O que você quiser. É seu aniversário.

O George e o irmão dele eram um barato.

Sou Jeremy London.

As pessoas me conhecem mais por "Barrados no Shopping"

e por interpretar Griff em "O Quinteto."

Já trabalhei em séries vencedoras do Emmy e do Globo de Ouro,

mas para os fãs de "Sétimo Céu", a série era muito especial.

Na sétima temporada, Jeremy London entra como um jovem pastor.

Ele interpretou esse papel por 2 temporadas.

Chandler!

Foi um sopro de ar fresco.

Era um cantinho de... bom, não vou dizer "céu,"

porque isso é brega, mas era um lugar de paz.

Meu nome é Kyle Searles

e meu amigo Tyler Hoechlin

conseguiu um papel fixo em "Sétimo Céu" como Martin.

E eu fazia o melhor amigo excêntrico dele, o Mac.

Quem era aquela garota, a loira?

Aquilo não era uma garota. Era uma mulher.

Ele era o homem que se metia em confusão

e causava problemas, se é que me entende.

Ei, li seu capítulo da tarefa de Literatura Inglesa.

Ficou muito bom.

É que entreguei o trabalho da minha professora particular,

só que com meu nome nele.

- Por que você fez isso? - Sei lá.

Isso aí é o pai clássico.

Precisamos conversar.

Antes de entrar para o "Sétimo Céu",

eu era só mais um ator batalhando por um papel.

E, quando fui escalado como o Mac,

cheguei num set onde todo o elenco

já era praticamente uma família.

Eles eram super unidos,

e isso me deixou nervoso.

Pensei: "Eles não vão me aceitar."

Mas lembro do meu primeiro dia no set.

O Stephen chegou direto em mim,

estendeu a mão, se apresentou.

E eu pensei: "Eu sei quem você é,

não precisa me dizer seu nome."

Ele era muito bom em deixar as pessoas à vontade.

Você se sentia aceito na hora.

Stephen Collins era o "pai de todos."

Queria que ele fosse meu pai.

Na verdade, ainda quero.

Ele ia para o trabalho dirigindo um carro velho

e surrado todo santo dia,

mesmo ganhando dinheiro suficiente para chegar no carrão, se quisesse.

Podia estar todo arrumado, impecável,

mas usava aquele look casual típico:

camisa jeans e calça jeans.

Eu sempre pensava: "Quero ser assim.

Preciso me espelhar mais nele."

Entre uma tomada e outra,

o Stephen ia conversar com os figurantes.

E isso era outra coisa que você não via com frequência.

Pelo menos, eu não via.

Normalmente, os protagonistas nem se misturavam

com os figurantes.

E, claro, as mulheres queriam falar com ele.

Isso, na verdade, me preocupa.

Parece que ele fazia questão de trazer

as pessoas para o círculo dele.

E, às vezes, isso é um sinal de sociopatia.

Não o conheço, mas fico preocupado que seja esse o caso aqui.

Não posso dizer que trabalhar em "Sétimo Céu"

foi uma experiência muito positiva pra mim.

Saí da série porque fui demitido.

O Jeremy é um bom homem.

É super talentoso, super aberto.

Mas ele teve um problema sério com drogas.

Enquanto trabalhava em "Sétimo Céu,"

minha esposa e eu estávamos dentro do carro, na rodovia,

e a coisa saiu do controle.

Começamos a gritar e brigar por uma coisa que nem valia a pena.

E, naquele exato momento, tudo mudou.

PRESO APÓS INCIDENTE DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

LONDON VIVE EM PRISÃO DOMICILIAR

INFERNO NO "SÉTIMO CÉU"

Há dúvidas se a esposa do Jeremy

também tinha problemas com drogas na época.

E isso foi enquanto trabalhava em "Sétimo Céu?"

E você ainda tinha que lidar com a imprensa...

Diziam que eu batia em mulheres, que eu era agressor.

E, por causa disso...

começaram a falar coisas horríveis sobre mim.

De repente, eu era uma pessoa horrível,

quando, na verdade, não era.

E claro que comecei a fazer tudo que podia para...

Desculpe.

Sinto muito por você.

Hollywood me abandonou e escolheu acreditar em mentiras sobre mim.

Acho que uma das coisas mais estranhas sobre essa indústria

é que o mundo está sempre assistindo.

Ele quer te engolir

e quer te ver fracassar.

O ano desse incidente

também foi o último ano do Jeremy em "Sétimo Céu."

O que me surpreende

é que Stephen Collins nunca disse nada sobre publicamente.

No canal, aprendemos da maneira difícil

que lançar um canal era um desafio completamente diferente.

A maioria das nossas séries acabou se tornando parte da cultura pop.

Mas, então, veio a fusão com a UPN

para criar uma nova marca do zero.

Era uma equipe totalmente diferente que ia começar a CW.

Minha função era encerrar a WB.

Internamente, já tínhamos discutido

que "Sétimo Céu" terminaria na décima temporada.

Fui até o Aaron Spelling

e disse que queríamos dar um encerramento natural à série.

E ele respondeu: "Está cancelando minha série?"

Lembro quando anunciaram

que aquela seria a última temporada.

Os veteranos do elenco

e da equipe já estavam prontos, sabe?

A pior parte de fazer "Sétimo Céu"

era que eu parecia estar vivendo sempre o mesmo dia.

Porque, sabe, estávamos de novo na cozinha,

estávamos de novo na sala.

Eles estavam prontos para a próxima oportunidade,

para a próxima fase da vida.

Obrigado, pessoal.

Acho que os atores mais novos estavam curtindo.

Então, por que parar naquela hora?

Conseguir um grande papel novo era tão difícil.

Quando deixei a série, chorei.

Eu sentia uma conexão muito forte

com as pessoas com quem trabalhei.

Foi, de certa forma, o fim de uma era.

Mas, desde então, não surgiu nada

que as famílias possam assistir

com os filhos com 100% de tranquilidade.

Sou mãe de um filho de 16 anos.

Quando ele estava na pré-escola,

era fácil encontrar coisas adequadas para ele assistir.

Mas, quando chegam aos 8, 9 anos,

fica muito difícil encontrar uma coisa

que seja seguro e apropriado.

A série iria acabar naquela temporada.

Mas, como a nova emissora não tinha programas suficientes,

decidiram trazer a série de volta

depois que ela já tinha sido encerrada.

A décima primeira temporada foi como um bônus.

Isso diz muito sobre o elenco.

O público viu e disse: "Queremos mais."

"Sétimo Céu" durou 11 temporadas,

e o último episódio teve uma audiência de 9 milhões de pessoas,

que não queriam que a série acabasse.

É a série familiar de maior duração da história.

Trabalhar em "Sétimo Céu" definiu, na minha cabeça,

o que um set de filmagem deveria ser.

Quando olho

para a minha experiência na indústria,

tem poucas pessoas

que posso dizer...

que realmente me ensinaram alguma coisa.

Stephen, com certeza, está no topo dessa lista.

Provavelmente, em primeiro lugar.

APÓS 243 EPISÓDIOS, "SÉTIMO CÉU" FOI ENCERRADA EM 2007.

Pouco antes de "Sétimo Céu",

eu tinha interpretado uma sequência de vilões.

Aí veio "Sétimo Céu"

e agora fico pensando:

"Será que algum dia vou poder interpretar um vilão de novo?"

Depois de "Sétimo Céu",

Stephen Collins fez muitos papéis de pai.

Ele apareceu em "The Office" como um pai,

apareceu em "Revolution", a série do J.J. Abrams...

E apareceu na segunda temporada

de "It's Always Sunny in Philadelphia."

Meus lindos filhinhos estão aqui?

Quando vi ele aparecendo na tela, eu surtei.

Porque é exatamente o oposto de "Sétimo Céu!"

Não consigo nem descrever o quanto a segunda temporada é bizarra.

Tem episódios inteiros de "It's Always Sunny in Philadelphia"

que são tão ofensivos que você não acha em lugar nenhum,

nem estão mais disponíveis em streaming.

Acabei de te ver em um episódio de "It's Always Sunny in Philadelphia"

e você estava hilário!

Vai interpretar esse personagem de novo?

Ver ele naquele programa

significa que ele foi canonizado da mesma forma

para um público diferente, que não assistiu "Sétimo Céu."

Uns 7 anos depois do fim de "Sétimo Céu",

eu não fiz muito esforço

para manter contato com ninguém,

nem mesmo com o Stephen.

Mas lembro de ter recebido uma ligação.

Era um repórter do TMZ,

dizendo que queria me entrevistar

sobre a "bomba" envolvendo Stephen Collins.

Eu não fazia ideia do que ele estava falando.

E perguntei: "Quando você diz bomba,

está falando de uma coisa ruim, não é?"

E ele respondeu: "Com certeza."

Li sobre isso no jornal e meu coração parou na hora.

Pensei: "Como aquilo podia ter acontecido?"

Em menos de um dia, falei com o Tom Greene.

E a primeira coisa que ele disse foi:

"Você ficou sabendo?"

TOM GREENE ROTEIRISTA E PRODUTOR

Perguntei: "Do quê?"

E ele respondeu: "Do Stephen."

No dia 7 de outubro de 2014,

o TMZ divulgou uma gravação, um áudio

de uma sessão de terapia dele com a esposa.

A gravação foi feita em uma sessão de terapia em 2012,

2 anos antes de ser vazada.

Ficou claro que era uma sessão

entre Stephen, a esposa e a terapeuta.

E foi uma sessão gravada secretamente,

sem o consentimento dele, pela esposa.

- Stephen, aqui! - Stephen, olhe para cá!

Nessa época, ele já estava tendo sérios problemas

no casamento com a Faye.

Nessa gravação, o Stephen conta a experiencia dele

com uma garota que ele supostamente abusou antes da April.

E você se expos na frente da irmã dele de 10 anos.

Você teve uma ereção?

Não, quer dizer, não.

- Mais ou menos, eu acho. - Mais ou menos?

Talvez, eu acho.

Em 1973, a criança tinha 10 anos,

Stephen tinha 25.

Ele morava em Nova York, na época.

No começo, ouvi alguns boatos,

mas não liguei ao meu Stephen Collins,

porque isso não tinha a menor chance.

O meu Stephen Collins sendo acusado dessas coisas?

É como acusar um santo.

Minha reação foi defender

porque eu já tinha passado por uma situação parecida,

e eu não fiz nada de errado.

Como você falava com ela?

Que tipo de coisas você dizia?

A exposição aconteceu umas duas vezes.

Duas vezes? Com uma criança de 10 anos? Certo.

Bom, sabe, ela tinha 11 anos, e depois 12 e 13.

Meu Deus!

Foram três incidentes em uns três anos.

Ele admitiu ter se exposto para a vítima duas vezes

e, na última vez, o pior aconteceu.

Teve uma hora que ela me tocou.

Eu coloquei a mão dela no meu pênis.

Você colocou a mão dela no seu pênis?

Ele parece meio irritado

por ter que contar essas histórias para a Faye.

Eu também já tinha falado disso. Já tinha contado isso.

Foi antes, quando estávamos no hotel.

Ela sabia que tinha uma coisa muito errada e foi atrás.

E era isso que o irritava:

o fato de que ela estava desmascarando ele.

Depois, Stephen começou a descrever

outra suposta vítima, que parece ser a April.

Como as outras meninas chamavam?

Era sobrinha da mulher que morava no apartamento da frente.

Apesar de estar bipado, obviamente, eu sabia que era meu nome

que ele tinha dito naquela gravação.

E isso tomou proporções nacionais.

Quantas vezes com ela?

Uma vez.

Foi tão nojento.

E aí, a esposa dele perguntou: "Você namorou ela?"

- Eu preciso saber. - Não.

Tudo bem.

Isso me deu tanta repulsa,

ouvir ela perguntando: "Você namorou ela?"

Me deu vontade de vomitar.

Mas o pior de tudo, o golpe mais forte,

foi perceber que eu não era a única.

Você disse que tinha outra menina?

É tudo tão triste, tem uma terceira menina.

Ele admite ter cometido atos

com a babá dos filhos,

e aí a gravação para de repente.

Não sei por que a Faye gravou isso.

Algumas pessoas acham que foi porque ela gravava as sessões

para poder ouvir depois e refletir.

Outras acham que ela gravou porque sabia

o que ele tinha feito e queria provas.

E tem uma terceira teoria:

que ela fez isso para conseguir um acordo no divórcio

e usaria a gravação como chantagem.

O que sabemos é que nem ele nem a equipe dele

negaram que a gravação é real.

A Aisha está completamente certa.

A forma como isso foi gravado

e o fato de ter sido vazado é, sem dúvida, problemático.

Isso é uma coisa terrível, não está certo.

Mas o comportamento que foi revelado também não é certo.

Se eu tiver uma fita sua matando alguém,

não interessa por que eu quero que você se ferre,

você matou alguém de todo jeito!

Ela enxerga isso com clareza, e ela está certa.

Não importa como tudo veio à tona,

Em um tribunal, isso é uma coisa.

Mas, no tribunal da opinião pública, os fatos contam.

Sabendo que ele admitiu esses atos,

especialmente um em particular,

de ter tocado uma criança de 10 anos,

como você se sente em relação a isso?

Isso não tem nada a ver

com o Stephen Collins que eu conhecia.

Aliás, eu nem sabia de todos esses detalhes sobre a gravação.

Você ouviu a gravação?

Acho que não cheguei a ouvir a gravação.

Acho que foi aquele instinto

de querer enfiar a cabeça na areia.

Me conta como foi a primeira vez que você ouviu esses rumores.

Alguma coisa aconteceu, eu não sei o quê.

Mas você está mexendo com alguém que eu amo e me importo.

E ver alguém atacando ele

ainda me deixa com muita raiva.

No áudio, o Stephen diz que houve três incidentes.

O primeiro aconteceu em...

Sabemos que são palavras dele.

Então, não é uma mentira.

E eu sinto muito por te contar isso.

É difícil. Muito difícil.

Sou pai...

antes de qualquer coisa, acima de tudo.

E meu primeiro pensamento

é sempre na criança.

Stephen Collins estaria morto se fosse minha filha.

NOVA YORK 2012

Depois que gravou a sessão de terapia de casal,

ela mandou um e-mail para a vítima de 1973.

A vítima fez um boletim de ocorrência na Polícia.

Durante a investigação, essa primeira vítima,

revelou para a Polícia, em depoimento,

que aquele contato envolveu muito mais coisas.

Não foi somente o fato dele ter pegado a mão dela

e colocado nos órgãos genitais dele,

ele movimentou a mão dela até terminar.

A Polícia de Nova York abriu um inquérito contra Stephen Collins.

Eles iniciaram uma investigação

e convocaram ele para tomar um depoimento.

As informações desse caso

não podem ser divulgadas,

porque envolvem uma menor de idade.

Mas posso dizer que o investigador responsável

achou o Stephen bem esquisito.

Mas já havia um problema no caso:

o prazo de prescrição.

O prazo de prescrição determina quanto tempo depois

da denúncia um crime ainda pode resultar em prisão.

Em crimes sexuais,

geralmente o prazo é de 5 anos

a partir do aniversário de 18 anos da vítima.

A vítima de 1973 tinha, basicamente,

até 1986 para fazer uma denúncia que pudesse levar a um processo,

mas ela não fez isso. Ela só fez a denúncia em 2012.

Nenhum processo foi aberto contra Stephen Collins,

porque o prazo já tinha expirado.

Mas a investigação continuou,

porque ainda poderiam surgir outros casos

que pudessem ser levados à Justiça.

PRIMEIRA MENINA - 1973

Havia um período de 10 anos entre cada incidente

que Stephen Collins tinha admitido ter abusado dessas crianças.

Com certeza podia haver mais vítimas.

Depois que ouvi a gravação,

na manhã seguinte, liguei para a Polícia de Los Angeles,

porque sabia que já havia uma investigação em andamento.

Quando liguei, disse:

"Estou ligando por causa da gravação do Stephen Collins

que foi ao ar ontem à noite"

e dei meu nome. Eu disse:

"Sei que ele mencionou uma April

e sei que o nome do condomínio era Havenhurst."

E, na mesma hora, eles perceberam que eu estava falando a verdade.

Depois disso, a Polícia de Los Angeles

mandou um investigador para falar comigo

e registrar meu depoimento.

E a Polícia de Nova York mandou dois investigadores

para me entrevistar e também coletar um depoimento.

Mas eu sabia desde o início que, quando dei meu depoimento

para a Polícia, o prazo de prescrição já tinha expirado.

SEGUNDA MENINA - 1983 TERCEIRA MENINA - 1994

As investigações contra ele não deram em nada.

Em um dos casos, a menina em questão, de 1994,

nunca denunciou oficialmente.

Por isso, não tinha nada para seguir.

STEPHEN COLLINS NÃO ENFRENTOU PROCESSOS CRIMINAIS OU CÍVEIS

PELOS SEUS SUPOSTOS CRIMES SEXUAIS CONTRA MENORES.

Sr. Collins, como vai? Como é que está?

- Bom te ver! - Que bom que veio.

Não ouvi falar muito sobre essas garotas.

Mas o que percebi

foi que "Sétimo Céu" saiu do ar por um tempo.

E como você se sente sobre tantas emissoras terem retirado a série?

Ele também saiu do sindicato,

mas, dá para entender,

ele era o rosto da série,

você precisa ter uma reação.

Naquela época, ele tinha dois filmes programados.

Ele estava escalado para a série "Scandal."

Tudo isso estava acontecendo e, de repente, acabou.

Obrigado, Sr. Collins.

- Bom te ver. - Obrigado.

- Sr. Collins, foi um prazer. - Muito obrigado.

Na situação de Stephen Collins, a maioria das pessoas some,

depois que uma coisa assim vem à tona.

Mas essa nunca foi a abordagem dele.

Em dezembro de 2014,

Stephen Collins decidiu dar uma entrevista para Katie Couric.

- Você nunca viu isso? - Não.

- Certo, vou puxar o vídeo aqui. - Tudo bem.

Pronto. Quando você quiser.

Sei que as pessoas vão julgar e duvidar,

e não posso fazer nada quanto a isso.

Tudo o que posso fazer é contar a minha verdade.

Olhando para isso, é difícil interpretar o que estamos vendo,

porque, sem dúvida, têm assessores, advogados,

pessoas dizendo o que ele deve ou não falar

para não se prejudicar.

Isso tudo foi muito bem calculado, com certeza.

No primeiro incidente, qual era a idade da vítima?

10 anos.

Notei que ele não parece muito incomodado de dizer isso.

Não tinha ideia que a primeira tinha 10 anos.

Quer dizer, tudo isso é ruim,

não me entenda mal, mas...

Estou tremendo agora.

Bom, em 1973,

por duas vezes

eu me expus para essa jovem.

Interessante, não?

Ele chama ela de "jovem." Ela tinha 10 anos.

Quantas mulheres de 10 anos você conhece?

Eu não conheço nenhuma. É uma escolha de palavras curiosa

para alguém que era nova demais até para ter menstruado.

Ele manipula a linguagem de um jeito tão sutil,

que distorce completamente o que ele fez.

E eu...

eu peguei a mão dela

e coloquei de uma forma

que ela estava me tocando de forma imprópria.

Ele disse: "Ela estava me tocando de forma imprópria."

Você estava molestando uma criança!

Ela não está te tocando de forma imprópria!

Ele usou muitas palavras para dizer:

"Eu a forcei a me masturbar."

Acho que nós ficamos sentados lá.

Não conseguíamos nos mexer.

Ele disse:

"Nós percebemos que uma coisa terrível tinha acontecido."

Como se estivessem juntos.

Muitas vezes os pedófilos veem as vítimas como cúmplices.

A menina tem 10 anos! Não a envolva!

É uma criança!

E acho que depois de uns...

45 segundos,

peguei a mão dela e afastei.

Ele foi muito preciso

ao dizer que aconteceu por um certo número de segundos,

não teve conversa, foi muito rápido.

45 segundos.

Essa é a interpretação dele. Ele disse que foram 45 segundos.

Vamos ser justos e dizer que foram 45 segundos.

Acho que você devia parar

e contar 45 segundos

e me dizer se não acha que é muito tempo

para uma criança de 10 anos ficar com a mão no seu pênis.

Foram duas vezes em 1982,

20 anos atrás.

Muitos homens acusados de violência sexual fazem isso,

tentam enquadrar a situação

com base em quantos anos se passaram desde que aconteceu.

Mas o que isso tem a ver?

Você não admitiu na época.

Você não pediu desculpas.

Você não teve que se apresentar à Justiça.

Não pagou multa.

Não sofreu nenhuma consequência.

E sim, você teve 20 anos para viver livremente,

apesar de estar admitindo agora o que fez.

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