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Original subtitles

"ANTONIO GRAMSCI: OS DIAS DO CÁRCERE"

A audiência está aberta.

O Tribunal Especial para a Defesa do Estado...

chama o réu Antonio Gramsci para responder...

pelos fatos de que é acusado...

instigação à guerra civil...

apologia do crime e incitamento à luta de classes.

Sou comunista.

Minha atividade política é conhecida.

Há anos tenho vivido com seis agentes da polícia...

que me vigiam.

Não tive atividades clandestinas, não foi possível.

Fui preso embora fosse deputado em exercício.

Mas se ser comunista comporta responsabilidade...

eu a aceito.

Entre os escritos apreendidos se fala de guerra...

e de tomada do poder pelo proletariado.

O que significam estes escritos?

Todas as ditaduras de tipo militar...

acabam, cedo ou tarde, devastadas pela guerra.

Neste caso caberá ao proletariado...

tomar as rédeas do País e construir seu destino.

O Tribunal Especial para a Defesa do Estado...

condena...

Antonio Gramsci a 20 anos, 4 meses e 5 dias de reclusão.

Condena Umberto Terracini a 22 anos, 9 meses...

Vocês conduzirão a Itália à ruína.

A nós, comunistas, caberá salvá-la.

1... e 51.

57.

Fogo de Santo Antônio, não há nada a fazer. Vejamos.

Periodontite expulsiva por distúrbios glicêmicos...

esgotamento nervoso...

Bem...

Ettolatteo e seis injeções de Cerebrofosfan.

Foram generosos com você...

trazendo-o a Turi, para uma prisão de doentes.

Preciso de cuidados médicos.

Sim, todos precisamos de cuidados.

Já perdi 12 dentes na prisão.

E quer que o Estado lhe pague a dentadura?

Vamos ver.

O segundo molar esquerdo está caindo.

Eu sou médico...

cirurgião especializado em doenças digestivas...

e como médico sou obrigado a tratá-lo.

Mas, como fascista, porém...

Cama no. 3.

Mas você é o Gramsci!

Gramsci? Que Gramsci? O Gramsci é um gigante.

- Você, assim... - Meu nome é Gramsci.

Ah! Então é um chefe.

A anarquia começa cortando a cabeça de todos os chefes...

senão não há liberdade, apenas sede de poder.

O que você acha?

Responda!

Bem, até você é ambicioso.

Não quer convencer o mundo a cortar a cabeça de todos os chefes?

Usam os outros. Querem-nos servis.

Você, ao contrário, quer abrir os olhos das pessoas...

quer formá-las para que deem continuidade às suas ideias.

Pensa segundo o interesse das massas, não é?

Claro!

Então você também é chefe, ainda que não saiba disso.

Um chefe revolucionário não para lhe cortar a cabeça.

Ouça! Sem rodeios...

Na União Soviética, há centenas de anarquistas na prisão.

Você sabe disso e aprova.

Quantos anarquistas vocês eliminaram na URSS?

Sei que deve se defender o poder dos operários e dos camponeses.

A ditadura do proletariado, não é?

Mas vocês pisam muito mais na liberdade do que os burgueses.

A liberdade? Conquista-se e se defende.

Cortando a cabeça de todos...

os tolos deste mundo.

Deixe-o falar! Não sabe fazer outra coisa.

Espere, arrumo mais lugar.

- Desgraçado. É um "tubo"? - Um "tubo"?

Sim, tuberculoso. Aqui dentro nos chamam de "tubos".

Ele faz isso sempre depois de comer.

...e de ter um bom parto, como é seu costume.

Disso tenho certeza.

Não se abata, porque um dia nos reencontraremos...

e comeremos a polenta seca, e ficaremos juntos.

Querida Tânia, entre imediatamente com um recurso...

para que eu possa ser colocado numa cela sozinho.

Estou em uma cela com mais doentes do pulmão.

O tribunal especial me condenou à reclusão...

não à tuberculose.

Um par de meias, nozes e biscoitos.

Esta, para mim, foi uma grande alegria...

que fez explodir o meu coração.

A coisa mais importante, para mim...

é ficar isolado numa cela.

A vida em comunidade atinge meu sistema nervoso...

causando-me convulsões.

- Não escreveu nada? - Não, senhor.

- Mas sabe escrever? - Sim, senhor, mas a quem?

Se aqueles que conheço estão todos mortos?

Vão embora! Vão embora!

Quem acabou tem de entregar as canetas também!

O tempo está chegando ao fim.

Além disso, ficando sozinho poderei conseguir papel e tinta...

para me dedicar a um trabalho que me interesse.

Entreguem! Entreguem! O tempo acabou. Vamos!

... sabão, pasta de dentes, um pente e cigarros.

E mande umas palmilhas de feltro para poupar as meias.

Um abraço carinhoso.

Acordem! Em pé!

Isso, já sabia... Dói desde ontem à noite.

De pé, ou vão perder a saída! De pé!

- Tenha cuidado com isso! - Mas que fedor!

É a palha dos colchões mais o suor...

Sim, mais toda a merda do balde.

- Parece moribundo. - Esperemos que morra logo.

É melhor não tê-los. Tive dois na prisão.

Quando morreu o segundo, disse chega.

Olha como treme, coitadinho.

Nem água ele quer.

Na prisão não duram.

- Não resistem. - Não resistem mesmo.

- Mas por quê? - Assim...

são feitos assim. Um belo dia estão mortos.

Antonio Gramsci, pegue o colchão e junte suas coisas...

vai ser transferido.

Para onde vão te levar?

Pedi para ficar em uma cela sozinho.

Veja, morreu.

- Você é sardo, não é? - Sim, de Paulinangelo.

Eu sou de Ghilarza.

Eu sei.

O outro sapato.

Está bem.

Venha até aqui.

- O que é? - Um caracol do meu filho.

- Como? - Um caracol do filho.

Mostre.

É a esposa?

Não.

- A cunhada. - Vai mostrá-lo quando voltar.

Não. Fique com ele.

Mas... eu pensava...

Para tê-lo é preciso pedir uma autorização especial.

- Mas eu sei como fazer... - Tania, não.

A ideia do processo me dá náuseas.

Para mim já basta tê-lo visto.

Não se preocupe, eu cuido disso.

Sim, sei. Você sempre pensa em tudo.

Com essa mentalidade da sociedade protetora dos animais.

Desculpe-me.

Tem noticias deles?

Estão bem, não?

Na última carta que lhe escrevi, não talvez na penúltima...

mandei-lhe umas fotos.

Há quatro meses que a Giulia não escreve! Quatro meses!

E não diga que vai escrever. Já me disse muitas vezes.

- Ouça, deveria procurar... - Eu escrevi.

Ainda que fosse sempre mais difícil.

Escrever assim...

é como atirar pedras no escuro e não gosto disso.

- Ouça... - Eu preciso...

- A Giulia não é o escuro! - Mas não percebe...

que preciso sentir que estou falando com alguém?

Com quem?

Com você é diferente, sabe...

Eu não consigo pensar em você distante da Giulia.

Vocês são muito parecidas.

Não deve dizer isso. A Giulia é muito mais bonita do que eu.

Foi sempre lindíssima.

Você me ajuda muito...

E você...

Bem eu estou aqui para...

pela Giulia. Faço o que posso.

É como se a Giulia estivesse aqui. Faço isso para substitui-la.

Não queria dizer isso, tomar o lugar dela.

De qualquer jeito...

te deram as fotos? São lindas. Estão bem, viu?

As fotografias não chegam.

De Delio, não sei nada. O Giuliano nunca escreveu.

- Escreva você! - E vou escrever o quê?

Não posso falar de mim. Esconderam-lhes que estou preso.

Mas como dizer às crianças?

E se os meus filhos souberem antes por outros?

Quando eu era criança, eu ficava ofendido...

quando descobria uma mentira de minha mãe.

A Giulia vai escrever...

e você lhe dirá que tem que contar tudo às crianças.

O Delio irá para a escola.

Vai ver, lhe escreverá todas as cartas que você quer.

E viveram todos felizes e contentes.

Os que estão aqui há 5, 10 anos, ouço-os falar...

e tenho medo por mim.

Não imagina como se pode ficar mesquinho aqui dentro.

Mas eu estou aqui, não?

Gosto muito de você, sabe disso.

SEREBRJANYJ BOR (MOSCOU), 1922

Sabe, quando criança, queria mudar o mundo.

Com a música.

Eu estudava violino.

Violino.

Para que serve?

Para nada.

Aqui estou, Giulia Schucht, violinista sem futuro.

Precisa aprender a contar até 10 mil...

antes de falar bobagens. Sabe que eu estou aqui.

Eu preciso de você.

- Você fala como se... - Não! Não como se.

Mas por que de modo tão definitivo?

- Sem deixar espaço para mais nada? - Espere.

Ouça. Quero lhe contar uma história tão patética...

que se torna engraçada.

Sobre um rapaz muito, muito pobre...

que sou eu.

Sabe, está quase sempre doente...

não cresce como as outras crianças...

e em certo momento...

começa a pensar que os pais não gostem dele...

que o suportam.

Em casa sente-se um intruso.

Então o que faz?

Se convence de que ninguém pode amá-lo.

- De verdade? - Não.

Decide que é preciso...

mostrar as unhas para se salvar...

talvez até destruir tudo.

Por dentro, começa a se rebelar contra os ricos.

Ele é bom. Na escola só tira dez...

mas é pobre e não pode estudar...

enquanto o filho do prefeito ou...

do farmacêutico podem ir para a escola.

Mas como conseguiu estudar depois?

Ele tinha um irmão mais velho que o ajudou.

É mesmo?

Depois vai para a universidade...

e se vê numa cidade cheia de indústrias...

de operários...

de lutas...

mas por dentro ele não mudou. Para as moças, faz teatro.

- Sim? - Sim, e não se sai mal.

É claro, o que lhe importa?

Pode enganá-las facilmente!

Até que...

Até que ele se pergunta...

se é possível ligar-se às pessoas...

aos outros, nunca tendo gostado de alguém.

Se é possível amar uma coletividade...

sem nunca ter amado de verdade.

Entende, Giulia?

Antonio!

Como está?

- Então, como está? - O coração, a asma, a nefrite...

O partido...

o partido resiste...

eu nem tanto.

Francesco Lo Santo...

nascido na Catania em 1870...

deputado do extinto partido comunista da Itália.

Condenado a oito anos de prisão...

por conspiração contra os poderes do Estado.

Devido às suas condições cardíacas...

deve ter sido tratado duramente aqui nestes anos.

Precisamos recorrer.

Giovanni Usai, nascido em Cagliari em 1904...

marceneiro, um presidiário esperto e refinado...

consegue fingir tão bem que engana o médico...

que controla as condições de saúde.

Condenado pelo Tribunal Especial...

a 7 anos, 6 meses de reclusão.

Mais a proibição perpétua de trabalhar no serviço público.

Nós, sardos, somos mais perigosos do que os outros, não?

Angelo Locchi, nascido em Viterbo em 1909.

Operário, condenado a seis anos de prisão...

por propaganda subversiva e ofensa à Corte.

Não aceitando o princípio de autoridade...

reage gritando e cantando músicas sediciosas.

Cuidado, por essa saudação, pode ficar dois meses na solitária.

Na prisão de Bari, me encheram de pancada...

porque um desgraçado queria que eu fizesse a saudação fascista.

Eu me recusei. Sou comunista.

Arrebentaram a minha cara!

Nós precisamos denunciar estes abusos!

Temos que fazer confusão, camaradas!

Um protesto nosso, é só isso que estão esperando...

para nos privarem de livros e da possibilidade de estudar.

Estamos nas mãos deles, entende ou não?

Mas não é justo.

Temos que sair inteiros daqui.

Sem dobrar as costas.

Quer continuar trabalhando para o Partido?

Claro.

A prisão nos proporciona a possibilidade de estarmos juntos.

Milão...

e agora Turi.

Conseguiram nos azucrinar...

Enrico Tussi, nascido em Brescia, em 1898. Jornalista.

Condenado a 13 anos...

pela refundação do Partido Comunista.

Irredutivelmente contrário ao regime e às instituições.

De caráter perverso, capaz de praticar qualquer infâmia.

Bem, somos muitos. Haverá trabalho a fazer.

Têm noticias do Partido?

Para os canalhas as coisas vão mal, até que enfim.

Houve greves.

As pessoas não aguentam mais.

- Estão furiosas. - Como sabe disso?

Athos Visa, de Luca onde nasceu em 1890, mecânico.

Condenado a nove anos e dez meses de prisão...

por propaganda da teoria, dos programas...

e dos métodos de ação do Partido Comunista.

Subversivo perigoso...

fervoroso agitador da insana doutrina que professa.

- Então, como sabe disso? - Soube nas transferências.

Temos que nos preparar.

Com licença.

Aqui estão. Serão expostos em todas as celas...

depois da Concordata.

É uma ordem do Ministério.

- Perdoe-me pelo incômodo. - Não me incomoda.

Se eu estou aqui dentro, Ele também pode ficar.

Sim.

E você acolheu Cristo com...

com civilidade.

Portanto eu vim trazer...

o conforto que você...

Claro, em 20 anos, 4 meses e 5 dias...

precisarei de alguns momentos de conforto.

Então entendeu o que eu queria dizer com conforto...

E então por que leva tanto tempo...

para entregar os livros que chegam para mim?

- Mas... - Você não os inspeciona?

O diretor confiou-me essa tarefa... difícil.

Mas quanto você lê! Pacotes e pacotes...

Eu não estou acostumado.

Roubariam minhas horas de sono, sabe?

Quer algo mais?

Não.

Não...

A minha ação para obter permissão para escrever...

tem cinco meses. Quanto tempo ainda terei que esperar?

Ah, aqui está.

O que lhe dizia?

Da prisão de San Vittore...

em setembro de 1927...

você enviou ao Ministério uma ação para escrever...

- mas a permissão foi negada. - Como assim?

É um precedente. Pode ser levado em conta no processo.

Fui condenado à prisão, não à paralisia do cérebro.

Sente- se. Se dependesse de mim...

lhe daria todo o papel e toda a tinta que quer...

mas há um regulamento.

Para o regulamento somos todos iguais, todos mesmo...

até eu que sou o diretor.

Mas sim, caro Novelli.

- Excelência... - Ah!

Nunca sairão!

Ou se sairão, será daqui a 30, 40 anos...

Serão uma coisa do passado e não farão mais sentido.

E sempre poderemos apreender esses cadernos, não é?

Excelência, mas ter sempre à disposição papel e...

Ouça bem...

se um detido quiser se corresponder...

clandestinamente com o exterior...

o fará com caneta ou sem caneta.

Talvez até com as unhas dos pés.

Mas isso talvez o favoreça.

Hum... o favorece...

Eu diria que o dissuade.

Se fosse descoberto, o nosso Gramsci perderia muitos privilégios.

E ele não é estúpido, sabe quais são os riscos.

A prisão para doentes, a cela individual, os livros...

e agora também a permissão para escrever...

e de receber roupa e viveres da família.

Da família...

Uma família de certo modo confusa...

com uma cunhada que age como sua esposa...

uma esposa que fica toda feliz na União Soviética...

Mas, Sr. Musilli, por que não pede aos guardas...

que cuidem um pouco desta fonte?

Isso me aflige.

Não é preciso muito...

e, no entanto, olhe isso.

Sinto a obrigação de insistir.

Gramsci recebe muitas visitas da Schucht na prisão.

É fácil, nestes casos, receber um bilhete...

- Certo. - É só estender a mão.

Se Gramsci estendesse a mão para a Schucht...

seria por um motivo bem diferente.

Há quantos anos ele não vê uma mulher?

Desde a sua prisão, passaram quase três anos.

E depois de três anos fechado na prisão...

você me entende, não?

Excelência.

Deixemos o Gramsci escrever...

que acabará como os outros caindo na masturbação...

literária, é claro.

Melhor, façam circular discretamente...

que o estamos tratando com regalias...

e que aqui ele não enfurece ninguém.

Minha convicção sempre foi neutralizá-los e só.

Eles têm que pedir perdão.

Aliás, o que os camaradas vão achar disso tudo?

- Do quê, Excelência? - Anote.

Recusar qualquer outro pedido para escrever.

Ah!

Sim, recusar qualquer outro pedido para escrever.

Para ele sim, para os outros não.

Escreva à vontade...

Pensei em muitos argumentos, muitos...

o que já é sinal que não consigo me concentrar.

Sobre os intelectuais italianos se poderia fazer...

um livro extraordinário que ainda não existe.

Quanto mais se acham livres...

e a serviço de seu hipotético gênio...

mais desempenham o papel de empregados do poder...

antes a serviço da Igreja, depois a serviço das Cortes...

ligados a outros intelectuais por privilégios econômicos...

corporativos, de classe.

É uma reflexão sobre o presente, mas servirá de futuro.

Querida Tania, agora que posso escrever...

gostaria de fazer alguma coisa para sempre...

como dizia Goethe.

É uma ideia que me persegue...

TURIM - 1920 agora que os anos mais importantes...

A OCUPAÇÃO DAS FÁBRICAS estão sendo desperdiçados.

Venha. Precisa dizer alguma coisa aos camaradas.

De acordo, todos no 15.

Se o Antonio se recusar a comer...

nós também recusaremos.

E os anarquistas não comem, com ou sem o Antonio.

E assim, esses malditos fascistas ficam ferrados...

eles e a esmola da comida especial de 28 de outubro.

Eu vou receber a comida...

farei xixi nela e depois a devolverei.

Que o Benito a coma, a comida especial.

Não se exalte!

O Antonio já nos disse.

Não vai nessa.

Nós insistimos: "os camaradas estão dispostos a tudo".

E ele?

- Não disse nada. - Claro.

Vá por mim, ele é sardo.

Não respondeu por que, para ele, o discurso está fechado.

Eles nos mantêm encarcerados para nos dobrar...

até fisicamente.

O que significa a greve de fome?

Que somos antifascistas?

Mas se já estamos na prisão por isso!

Deixemos para lá esses heroísmos inúteis.

Eu não estou nessa.

E nem vocês devem estar!

Estão chegando.

Levaram-no.

O Gennaro?

O Nannaro...

veio até aqui de Paris!

Há 7 anos, não 8...

que os fascistas o surraram.

Era a mim que procuravam e você pagou por isso.

Não quis mais saber de lutas políticas...

Não é permitido trocar sinais de entendimento...

entre o preso e o visitante. Vire-se para o outro lado.

Dez horas por dia, 9 liras por mês...

e à noite chorava escondido porque me doía tudo.

Mas você que trabalhava comigo...

era grande e robusto, me ajudava.

É o Centro que me manda.

Professor, é proibido.

- Não me cause problemas. - Sim, sim.

Sente-se.

Não te via há sete anos...

Sem noticias...

sem uma linha, sem cumprimentos...

Não foi fácil, sabe?

Pedi permissão há cinco dias e aqui estou eu.

Há problemas em família.

Os três expulsos, primeiro do Serviço Politico...

depois do Comitê Central e agora do Partido.

Tresso dirigia a organização...

Ravazzoli, o trabalho sindical...

- E Leonetti, a imprensa. - Leonetti?

Traidores do Partido da classe operária...

é esse a motivação.

E, com eles, os outros também.

Foi o Palmiro que me encarregou de vir lhe dizer.

De lhe perguntar se concorda.

COLONIA - 1930 PALMIRO TOGLIATTI (Ercoli)

REUNIÃO DO COMITÉ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DA ITÁLIA

Contra eles há somente a luta aberta... sem tréguas.

A mobilização de todas as forças do Partido e da classe...

como merecem os traidores do Partido e da classe.

Nossa diretriz é simples: Mandá-los embora...

desmascará-los como desagregadores...

e desprezá-los como traidores.

Essa é somente uma repetição de fórmulas.

Traidores por quê? O que significa?

Hoje, na Itália amadurecem rapidamente...

os elementos de uma situação revolucionária.

As bases populares do fascismo se fragmentam.

Só um oportunista, ou pior, se recusaria a perceber...

que as perspectivas da revolta...

da insurreição armada, da guerra civil...

contra as classes dirigentes capitalistas estão abertas.

Assim é fácil.

É um jogo consigo mesmos com cartas marcadas...

talvez sem acreditar nisso. Mas quem pagará, depois?

Não é possível controlar os camaradas.

Se a revolução estiver na ordem do dia...

vão querer voltar para a Itália a qualquer custo.

É só uma questão de meses, de semanas!

A bandeira vermelha voltará às praças.

Assim escreveu o jornal do Partido.

Quantos erros de ortografia você cometia ao escrever!

Bem, console- se, sua filha Edmea...

me manda cartas com rasuras em cada linha.

Professor, tem um fósforo?

Bem, na realidade, não é permitido...

Pegue, pegue mais, você também é sardo.

Sim, mas há 12 anos que viajo pelo continente.

Eu também.

Turim, Paris, Bélgica...

Chegaram os piemonteses...

e nós estamos fadados a viajar pelo mundo.

E pode agradecer se encontrar outro sardo.

- Obrigado. - Se sua filha escreve tão mal...

a responsabilidade deve ser de alguém, não?

Escreve, como todos escrevem em Moscou.

E o Comintern?

Diacho! Foi o Comintern que disse!

A crise econômica será catastrófica.

O capitalismo está para morrer...

sepultado pela ditadura do proletariado.

Os socialistas e os social-democratas...

para defender a burguesia...

se transformaram em social-fascistas.

Em suma, o Comintern escreve...

que são as prostitutas do fascismo.

A social-democracia...

representa a ala moderada do fascismo.

O fascismo é a organização de combate da burguesia...

que se serve da ajuda ativa da social-democracia.

Fascismo e social-democracia não são inimigos, mas gêmeos.

DIRIGENTE DA INTERNACIONAL COMUNISTA

As organizações socialistas...

são de verdade o que nós chamamos de fascismo.

Benito Mussolini não começou com o fascismo puro...

mas com o socialismo.

Os socialistas italianos...

que ficam em Paris tomando sol no Caffé della Rotonda...

e esperam que os industriais os chamem para...

salvar a situação...

se esforçam em dar todas as provas possíveis...

de que se tornaram reacionários de verdade...

que estão dispostos a tomar o poder...

a mantê-lo com armas...

e a fuzilar os operários...

como faz o primo deles Mussolini.

Imagine, após as decisões da Internacional...

Deve ter havido um debate na Internacional...

alguns dos nossos devem ter dito algo...

Sim, sim, os três... e os expulsaram.

Nino, não é mais assim.

Lá em cima mudou tudo.

Bukharin foi eliminado da Internacional...

Trotsky foi expulso da União Soviética.

Se você fizer oposição, estará acabado.

Em suma, o Partido é pela virada.

Esqueci alguma coisa, vou lembrar...

Os Comitês Regionais transferidos para a Itália...

têm que ter sedes fixas...

para acolher e dar trabalho aos camaradas do aparelho...

até por períodos longos.

Temos que preparar ambientes seguros e cômodos...

para reuniões e convênios com camaradas e simpatizantes.

São necessários espaços equipados para a imprensa...

armazéns para o material...

Falta só a placa na porta...

e uma bandeira vermelha na varanda.

Quer se opor? Aqui da prisão?

O que está fazendo?

Não estou de acordo com nada...

nem com as expulsões, nem com a linha.

Mas tem noção do que está falando?

Não se preocupe, foi muito claro.

- Mas o que devo lhes dizer? - O que quiser.

Não entendo, mas por quê?

Professor...

já está aqui 10 minutos além do tempo.

- Está bem... - Sim.

Mande apenas umas linhas sobre a Edmea e o resto, tá?

Fique descansado.

Não se esqueça de escrever. Dê noticias.

Fique descansado, Nino.

O que querem de mim?

Sim às expulsões...

sim a uma política que faria sentido...

apenas diante de uma onda revolucionária em movimento.

Mas onde?

Quando?

Aceitar por disciplina...

Que disciplina?

A execução mecânica de uma ordem...

e a acolhida passiva de uma instrução...

não são disciplina...

são...

constrição...

sujeição...

rendição.

Se o poder que ordena a disciplina...

é democrático...

e não um arbítrio...

não uma imposição...

a disciplina é um consenso...

é um momento de liberdade.

Com Lênin era.

Moscou, 1924.

Lênin está morto.

Ao lado de seus despojos...

estão os mais altos dirigentes...

e os mais zelosos.

Mas o Comitê Central Bolchevique decide por maioria...

manter em segredo o testamento de Lênin...

e não levá-lo em conta.

Ele contém a recomendação de afastar o Stálin...

da secretaria do Partido pela sua brutalidade.

No últimos ano de vida...

Lênin havia lutado desesperadamente...

contra a burocracia, que tinha em Stálin...

Secretário Geral, o maior apoio.

A maioria do Comitê Central Bolchevique...

não acolhe as indicações de Lênin.

O Partido já está profundamente dividido.

Dois anos depois, em 1926, ficaria ainda mais dividido...

quando a oposição, unida a Trotsky...

denuncia perigos e contradições...

na política da maioria.

O camponês rico pode alugar legalmente a terra.

Milhões de proletários agricultores...

trabalham, assim, para um patrão.

Nos centros urbanos, os operários a serviço do capital privado...

são mais de um milhão.

Nas estradas, nas lojas, o comércio privado especula...

aumenta seu volume de negócios.

Nas estruturas do Estado...

nos Comissariados do Povo...

na direção das novas fábricas e, sobretudo, no Partido...

prolifera o burocrata.

Ele pretende e conquista seus primeiros privilégios...

a autoridade, o bem estar, o prestígio.

Contra o camponês rico...

contra o burocrata...

a oposição chama à luta para um aumento do poder operário.

Pede, sobretudo, que o aparelho ferreamente dirigido por Stálin...

seja reorganizado quanto aos seus privilégios...

e colocado em condições de não impedir...

a vida democrática no Partido.

Não! A minoria é anti-leninista...

não respeita a disciplina...

quer comprometer as relações entre camponês e operário...

quer destruir a aliança deles.

Deixemos prosperar as propriedades agrícolas...

dos camponeses ricos. Não representam um perigo.

Basta à demagogia operária!

Trotsky nos joga na aventura...

quer forçar os ritmos da industrialização socialista...

à custa do mujique.

Acusa dezenas de milhares de honestos servidores...

que trabalham no Partido e no Estado...

de se tornarem perigosos para a revolução.

Nega que poderemos construir totalmente...

o socialismo no nosso Pals...

se a revolução não se estender a outras partes do mundo.

Mas a União Soviética...

saberá construir o socialismo sozinha.

Stálin o assegura, o teoriza, o impõe.

Os chefes da oposição são atacados...

não mais como camaradas em desacordo...

mas como cúmplices da ideologia burguesa...

instrumentos do inimigo de classe.

Nos jornais de todo o mundo...

saem notícias, comentários.

O poder soviético está em crise.

O grupo dirigente da revolução se despedaça.

São assim lançadas as primeiras bases...

dos que serão definidos os anos de Stálin.

O Partido Comunista da Itália...

ou melhor, o que dele ainda sobrevive...

desafiando o terror fascista...

observa os acontecimentos soviéticos...

com a respiração suspensa.

ROMA - OUTUBRO 1926 Antonio Gramsci propõe...

ao Escritório Político do Partido Comunista...

da Itália que intervenha.

Mas lá de cima nos poderiam responder...

Isso, deixam que os fascistas queimem suas casas...

são obrigados a se fechar em adegas como ratos...

e ainda têm a pretensão de nos dar conselhos...

a nós!

É verdade, os fascistas estão nos colocando algemas...

mas, justo por isso, o que pensamos adquire...

um significado mais profundo. Um peso maior.

Mas foram os russos que pediram ao Comintern...

que não discutisse as questões russas...

e não falar delas.

Dizem que é algo que diz respeito só a eles.

O Comintern aceitou, e nós?

Nós diremos aos camaradas russos...

que julgamos essencialmente justa...

a linha politica de Stálin e de sua maioria...

Era isso o que eu dizia!

Mas tudo isso não basta. Não basta dizer...

"As oposições estão erradas, vamos organizá-las."

O problema é mais grave.

Hoje ocorre uma cisão no grupo central leninista...

que dirigiu a revolução...

o Partido, a Internacional.

É a respeito disso que precisamos intervir...

antes que seja tarde demais.

MOSCOU - OUTUBRO DE 1926

Não se podia escrever nada pior.

O seu Gramsci coloca todos no mesmo caldeirão.

Repreendendo todos!

Nós, o Partido...

e um degenerado oportunista como o Trotsky...

e os seguidores dele.

Chama-os de mestres.

O seu Gramsci tem mesmo uns belos mestres.

Mas a carta contém criticas bem precisas à oposição.

- Que perdem todo o valor. - Mas...

"Achamos nosso dever chamar à ordem todos os camaradas...

do Partido Comunista Soviético?"

Todos.

"Camaradas, hoje estão destruindo a sua obra...

degradando e correndo o risco de anular...

a função de comando que o Partido Comunista soviético...

havia conquistado pelas mãos de Lênin?

"Esquecem que seus deveres de militantes russos...

possam e devam ser cumpridos...

só no quadro do interesse do proletariado internacional."

Tem noção?

Mas o documento tem que ser julgado no seu conjunto.

Camarada Togliatti, esta carta...

é toda a favor de Trotsky e da oposição.

Estão afundando. Nós os combatemos.

O Partido os combateu.

E vocês tentam salvá-los...

afastar deles a merecida derrota.

"Queremos ter certeza que a maioria do Comitê Central Russo...

não pretende ganhar muito dinheiro."

E, com essa frase de filisteu...

nos manda dizer que teme justo o contrário.

A Secretaria do Partido foi informada da existência dessa...

carta, da qual tomou conhecimento.

Então, camarada Togliatti...

vamos considerar esta carta como não escrita, concorda?

Vamos tentar explicar que não agradou.

Caríssimo Antonio...

há um grave perigo no que escreve.

De agora em diante...

a unidade da velha guarda leninista...

não existirá mais...

e nós temos de nos acostumar a manter a calma...

e manter também a dos camaradas da base.

Caríssimo Palmiro...

todo o seu raciocínio está viciado de burocratismo...

A questão da unidade do Partido Russo...

e do núcleo leninista...

é de importância absoluta em âmbito internacional.

Do ponto de vista de massa...

é a questão mais importante neste período histórico.

Seríamos revolucionários bem piedosos e irresponsáveis...

se deixássemos passivamente os fatos ocorrerem...

justificando sua necessidade.

Caríssimo Antonio...

quando se concorda com a linha...

do Comitê Central Russo...

é preciso se exprimir essa adesão sem qualquer reserva.

Não foi a unidade do seu grupo dirigente...

que deu ao Partido Soviético...

a condução do movimento revolucionário.

Foi, em vez disso, a conquista do poder...

e a sua manutenção.

Caríssimo Palmiro...

nove anos após a Revolução de Outubro...

não é a tomada de poder por parte dos bolcheviques...

que pode revolucionar as massas no ocidente...

mas apenas o fato político...

que o grupo dirigente bolchevique...

esteja unido e lute unitariamente.

Sua observação, portanto, é inerte e sem valor.

Tenho aqui a resposta do camarada Gramsci.

Ele confirma o que escreveu.

Pede que as cartas dele, ainda que rejeitadas, sejam arquivadas.

Sim, o camarada Gramsci pode ficar tranquilo.

Claro, vamos arquivá-las.

Isso seria feito mesmo que não tivesse pedido.

Em 8 de novembro de 1926...

Antonio Gramsci é preso pela polícia fascista...

e enviado ao Tribunal Especial...

para a Defesa do Estado.

Há quatro anos...

a luta do Partido soviético...

a luta do Partido soviético para destruir a oposição...

com todos os meios.

Hoje a aventura do social-fascismo.

Abrir a discussão...

em toda a parte, a qualquer custo.

Mesmo aqui dentro...

na prisão.

Superior.

Superior!

O balde.

Criticar o Comintern...

os métodos de Stálin.

Criticar o Partido.

Quando o partido é repressivo...

funciona burocraticamente...

enrijece...

transforma-se numa cega massa de manobra.

Giulia...

as crianças...

na União Soviética.

Ser expulso e sepultado como um dossiê num arquivo...

sem o apoio dos camaradas... que ajuda a sobreviver.

E al?

Mas quem paga por isso?

Hoje os comunistas chamam os camaradas à luta.

Chamam-nos para combater nas estradas...

armados.

Temos que passar à ação geral revolucionária.

Revolução, revolução! Revolução proletária!

Quantas vezes repetimos isso como uma fórmula mágica?

A revolução não está atrás da esquina nos esperando...

já prontinha para a pegarmos e levá-la conosco.

Mas os reformistas nos diziam essas coisas!

Sim, mas eles se esqueciam de dizer que na Europa...

as condições para uma revolução...

existem pelo menos há 50 anos...

e que o objetivo é só a conquista violenta do poder...

a ditadura do proletariado.

É isso mesmo que nos distingue deles...

a conquista violenta do poder, ditadura do proletariado.

Mas não chega repetir isso para ser revolucionários...

não chega gritar isso nos comícios...

quando ainda podíamos fazê-lo...

na taberna ou na prisão!

Temos que recomeçar do inicio!

Mas é o que estamos fazendo.

- Por isso estamos aqui. - Sim, é verdade.

Hoje estamos de calças curtas.

Nenhum protesto é legal...

greves, reuniões...

não há jornais, Partido, sindicatos...

Os fascistas venceram, por quê?

E o que nos resta fazer?

Como poderemos sair desta situação?

Mas os camaradas lutam, até arriscam a pele.

É verdade, arriscam a pele...

mas nós estamos sempre menos dispostos...

a aceitar os golpes da verdade.

A verdade é revolucionária, tão revolucionária...

que atinge e deixa marca, pior que um soco no olho.

Mas aqui tem gente que lutou contra o fascismo...

e que agora está na prisão!

A verdade será menos dura que o fascismo e a prisão, não?

Às vezes é até mais incômoda.

Fascismo e prisão nos são dados pelo inimigo de classe...

a verdade nos obriga a acertar as contas com nós mesmos...

e pode chegar a ser intolerável.

- Para nós comunistas, não. - Isso, para nós, não.

- Deveria. - Mas como não é?

Agora está exagerando.

Sabe-se lá por que, ele está com a macaca hoje.

Se cutucarmos um pouco os camaradas...

desaparece o comunista e surge o tagarela.

Batemos a cabeça contra uma realidade da qual não gostamos?

Medo não! Começamos logo a pregar a revolução...

vomitando contra a burguesia, os oportunistas, os covardes.

Repetimos as injúrias de sempre.

Violentas, mas inócuas, que não ajudam a entender...

não explicam por que arrebentamos as cabeças.

Mas afinal, Antonio...

a luta de classes é uma arma ou não?

Sim, se o levar à critica, ao conhecimento.

Concretamente, onde erramos?

A revolução com que sonhamos à noite...

a fazem os homens...

milhões de homens, classes inteiras.

Mas como pode nascer hoje esta vontade coletiva...

aqui na Itália?

Não somente do operário! Há também o camponês!

7 milhões de camponeses frente a 4 milhões de operários!

Como falar, hoje, ao camponês?

Está ligado à Igreja desde sempre...

fez a guerra que deixou meio milhão de mortos.

Queria terra e as esquadras de choque aterrorizaram suas vilas.

Ai chegamos nós...

e lhe falamos de revolução proletária...

de ditadura do proletariado. O que nos responderia?

Que o camponês tem fome de terra!

Mas depois das experiências de 10 anos atrás...

se fechou em uma obstinada desconfiança.

Pode fazê-lo entender que é justo se livrar do rei...

que o rei é um parasita...

mas como convencê-lo a recomeçar logo...

para se livrar do rei e do patrão?

E com a Igreja que o mantém na coleira?

Para isso serve o acordo entre Vaticano e fascismo...

uma coleira no pescoço.

E temos o pequeno burguês.

Em 1922, ele se ilude que fará a própria revolução.

Mussolini o incita, martelando em sua cabeça...

a ilusão da superioridade em relação ao povo.

Como nos responderia ele, que de uniforme...

ou com o emprego do Estado...

se sente senhor, acredita ser instruído?

Esconde as dívidas, a roupa remendada...

e pobreza do dia-a-dia...

Mas tentemos falar com ele de revolução...

Seria pior que ser mordido por uma cobra.

Ele, burguês, com o diploma no bolso...

confundido com a ditadura dos que morrem de fome?

Talvez seja melhor se aliar com os carabineiros.

Antonio, a crise econômica está levando à ruina...

a classe média, artesões, camponeses...

E acredita que essa gente pode ser convertida assim? De repente?

Milhões de miraculados!

O socialismo não é o milagre de São Genaro.

Ou pretendemos conquistar o poder só com as vanguardas?

Sem infantaria, deixando para trás milhões de homens...

com o risco de perdê-los e reencontrá-los do outro lado?

Falamos sempre de Lênin...

dizemos lutar por um bloco operário e camponês...

mas esse bloco deve ser construído com paciência...

dia após dia...

senão o Partido continuará quebrando a cabeça!

Há quem jure que a queda do fascismo é questão de meses...

da ditadura de Mussolini, um salto ao poder proletário.

Isso é um circo! É uma aventura!

Para quem vamos deixar os camponeses?

Mesmo os mais atrasados, da Sardenha, da Basilicata?

Como transformar seu mal estar em ação revolucionária?

O sul é um paiol, mas sem liderança nunca explodirá!

- Antonio, a terra! - A terra, certo, a terra!

Amanhã, na sua terra, os camponeses...

organizam um protesto, você o que faria?

- Diria para dividirmos a terra. - Errado.

A primeira a coisa a fazer é chegar nos patrões...

tirar-lhes as armas, armar os camponeses...

e depois dividir a terra...

senão seriam todos mortos, como fizeram os fascistas.

Mas não é fácil!

Claro, não é fácil convencer os camponeses...

a pegar em armas...

e não é fácil com o pequeno burguês.

Ele não quer o socialismo hoje...

mas pode ser convencido a lutar...

pelas liberdades ameaçadas pelo fascismo.

Liberdades concretas: Ocupação, trabalho...

pão, aposentadoria decente.

Todos esses aliados têm que ser conquistados com paciência.

Pode parecer um trabalho pequeno...

pouco heroico, chato...

mas não chega a dizer "Somos seus guias revolucionários" para ser.

Temos que achar palavras de ordem novas...

Vamos parar de achar que somos pouco revolucionários!

Hoje, contra o fascismo, temos que lutar por uma República...

por uma Assembleia Constituinte.

É a palavra de ordem dos antifascistas e burgueses!

- Não percebeu? - Sim, é a mesma!

Até os outros partidos antifascistas...

afirmam querer a Constituinte.

Mas nunca serão capazes de lutar até o fim pela democracia.

Desculpe, mas assim é você que combate a favor deles.

Indo atrás de quatro burgueses que fingem conspirar contra os fascistas!

Faça isso e se tornará um social-democrata.

Como se a Constituição fosse, para mim, a solução de tudo.

Mas para mim é só um momento...

para falar às massas, mesmo as mais distantes...

arrancá-las dos outros partidos...

- empurrá-las para o poder. - Sim! Mas como?

Submetendo a uma critica feroz...

todos os projetos de reforma parcial e pacifica dos outros.

Desmascarando-os.

Está falando há quatro dias...

e nunca lembrou a linha do Partido...

a União Soviética, nunca, nem por engano.

Aceitar compromissos...

fazer acordos até com organizações desmoralizadas...

Com todo o respeito, acho que está baixando a cabeça.

Amanhã vou lhe dizer.

Ouça, eu e...

Bem, acho que se vai corromper...

naquela espécie de labirinto que é a democracia burguesa.

Mas quem lhe disse que República e Constituição...

são, para mim, a solução do problema do Estado...

de forma diferente daquela da democracia operária?

Então acha que eu quero guardar no sótão...

a critica marxista do Estado?

Jogá-la lá entre as velharias...

e caírem depois na sacola de Benedetto Croce?

Que mascarou o Estado parlamentar da burguesia...

em um principio eterno, indestrutível.

Mas se até nós começarmos a pregar a Constituinte...

acabaremos por criar uma nova ilusão...

justo para as massas.

Não a criaremos, a destruiremos.

Enrico, é só o inicio...

o inicio de uma luta revolucionária.

Todos os desejos, as rebeliões...

a vontade de milhões de indivíduos...

que reformistas e democráticos nunca conseguirão satisfazer...

nós os empurraremos para essa Constituinte...

e depois a derrubaremos...

a deixaremos atrás das costas...

vencida!

Só assim...

a alternativa revolucionária deixará de ser...

um fantasma...

um sonho de bêbados ou de presos.

Mas terá músculos e sangue para lutar...

pés para caminhar...

mãos para pegar firmemente o poder.

Todos na mesma panela.

Há 10 anos, queriam a Constituinte:

Social-democratas, republicanos, padres...

maçons, a Associação dos Combatentes...

e por dois meses até Mussolini.

Assim acabarão não nos distinguindo mais...

justo agora que o capital está de joelhos...

e a União Soviética está cada vez mais forte.

Como pode falar assim? Você e os outros...

não sabem o que são os camponeses...

nem os pequenos burgueses que se ligaram ao fascismo.

Como pode pensar que amanhã...

poderemos passar à ditadura do proletariado, assim?

- Deixe de bobagens. - Não fique ouvindo.

Você está se passando por papagaio?

Somos comunistas.

Não temos nenhum Papa para defender.

E então? Estão procurando problemas?

É o que querem.

Foram condenados por atividade subversiva...

e, em vez de trabalhar, ficam só falando.

E você? Sabe que é proibido.

Mas quem estava falando? Eu só repetia os verbos em francês.

Eu estudava. Não é proibido.

Saiam daqui! Por ali, vão, vão!

Vá se danar, você e o maldito do Mussolini.

Babacas.

A ditadura do proletariado é um domínio de ferro...

contra a velha classe, buscando atingi-la mortalmente...

destruir-lhe os centros de poder...

anular-lhe toda a capacidade de resistência.

Mas a classe operária não pode dominar somente.

Para dobrar seu inimigo histórico, precisa de aliados...

e com estes a relação precisa ser diferente.

Hegemonia significa isso mesmo...

classe e Partido impõem a sua força ao inimigo...

mas procuram consenso, ajuda, apoio...

em outras camadas sociais...

encorajando-os...

protegendo seus interesses...

orientando-os...

porque a classe operária tem que se ocupar...

em vencer duradouramente...

em vencer para sempre.

Deve criar a própria história...

edificar a própria cidade.

- Ele pensa... - Fale baixo.

Ele pensa, mas estes...

de tanto que estão presos têm o cérebro enferrujado.

Quem sabe se ainda são capazes de reagir?

De defender uma ideia revolucionária?

Então, vou te dar um soco no nariz, como ele o chama.

Que bobagem é essa?

É um discurso que começou há seis anos.

Eu trabalhava no jornal.

Lembro-me do que escrevia sobre a crise Matteotti...

e as relações dele no Comitê central...

...senão ficaremos aqui de noite. Venha outro!

Sempre os mesmos, hein?

Venha você. O que aconteceu contigo hoje?

Não está convencido. Não são balelas!

Além disso, com algumas exceções, concordo com ele.

É uma ratoeira e está caindo nela.

Uma ratoeira? Qual ratoeira?

Então... é um provocador.

Bem intencionado.

E os bolcheviques em 1917?

A Rússia era um pais atrasado, não esqueça.

Aqui no ocidente temos de lidar...

com um desenvolvimento maior do capitalismo.

Então as condições são mais favoráveis, mais maduras.

Mas os obstáculos são maiores...

as resistências mais duras.

O burguês não criou somente o próprio estado repressivo...

mas uma sociedade civil.

Tem centros de consenso...

mecanismos de corrupção, de persuasão...

uma escola de classe refinada.

Pensem nos privilégios corporativos...

às aristocracias operárias.

O Estado não é mais que uma trincheira avançada.

Por trás dele há todo um campo entrincheirado.

E quer fazer o quê? Atacá-lo sozinho de baioneta?

Ouça, Antonio, no ocidente, na Itália...

a burguesia fará tudo o que está dizendo...

mas se no momento certo não tivesse se refugiado

entre as pernas dos fascistas...

estaria perdida.

Quem estancou a revolução?

Os fascistas? A guarda real? Os carabineiros?

No momento certo eles também estavam lá.

Mas, antes, quem tinha se oposto a nós?

TURIM - SETEMBRO DE 1920 OCUPAÇÃO DAS FÁBRICAS

Saiba que os caras do sindicato são criminosos...

dizem para ocuparmos as fábricas...

sem preparar absolutamente nada...

nem um pouco de defesa, armas, munições...

E olhe que são pagos.

Pagos para nos representarem!

Lênin teria mandado fuzilá-los.

Bem, para começar, criem meios de defesa.

Têm tudo nas mãos. É preciso criar meios de defesa.

Defesa, defesa! Olhe lá, Antonio, olhe...

Para nos defendermos até que temos bastantes armas...

Sim, se alguém nos atacasse, conseguiríamos resistir...

mas a ideia é diferente.

Diga que está pensando em outra coisa!

É claro e tenho que fazer e você também, ele e todos.

Não estamos ocupando uma só fábrica...

senão seria a enganação sindical de sempre!

Não, no sindicato nos dizem...

"Ocupem todas as fábricas metalúrgicas na Itália. 600."

Um milhão de pessoas tomam 600 fábricas.

Mas assim vamos atacar a propriedade privada...

não é brincadeira!

Assim, cria-se um problema de poder, mas daqueles...

Pior que as pendências sindicais!

Então você quer só se defender?

Não nos iludamos, o Partido não se mexe.

Mas eles, estão fazendo o quê?

Fotografias, que o jornal quer.

No lugar.

Mas é preciso se fazer entender, diacho!

- Prontos? - Não pode ficar assim!

Ou se segue em frente e se toma o poder...

Prontos?

Ou o jogam para trás, mas de verdade.

Parados assim!

Parados! Parados!

A burguesia sente a tormenta...

e se levar novamente a melhor...

nos oferecerá uma bela policia branca ou preta.

Tentará com um golpe de Estado, uma ditadura de ferro.

Então vamos, que o primeiro passo foi dado!

E o segundo quem fará, se o Partido não se mexe?

- Nós de Turim? Sozinhos? - Não! Não sozinhos!

Tomamos a iniciativa e o Partido e o Sindicato nos abandonam.

Com o traseiro em cima do muro, chicoteado pelo Patronato.

Mas é porque incomodamos o Partido e o sindicato.

"Grupo de extremistas...

irresponsáveis, aventureiros", foi o que disseram e escreveram.

Para nós queriam uma Comissão de Inquérito, não se lembra?

Claro...

a burguesia persuadiu os socialistas...

- levou-os a trair. - Não é tão simples.

A hegemonia da classe burguesa...

naqueles anos funcionou, fez seu papel.

Circulava em toda parte...

nos sindicatos, no vértice do Partido...

no grupo parlamentar, paralisava, convencia.

Foi uma captura indolor. Por isso os social-democratas...

reivindicavam a honra de ter impedido uma explosão revolucionária.

- E os socialistas? - Não sabiam para onde ir...

paralisados até a impotência...

diante do labirinto que a burguesia construiu para se defender.

Impotência cultural, politica, moral...

Repetiam: "A hora se aproxima"...

e adiavam. Só souberam adiar.

Só adiar, até a marcha sobre Roma.

E os grandes jornais de opinião...

o "Corriere della Sera"...

que defendia os algodoeiros e a liberdade.

E ainda o "La Stampa" de Agnelli, de Giolitti...

repleto de soluções razoáveis, democráticas.

Todos estes bons burgueses jogavam à mesa das reformas...

faziam discursos comoventes...

"Chega de greves, trabalhem, vamos salvar o Estado."

Esse Estado que, em 1922, passou a vestir a camisa preta.

Nojentos! Deram-me 11 anos...

Porque ofendia a democracia! Eu!

Abram!

Depressa! Depressa!

Acham que vão abrir?

Oh! Vão abrir, ou não?

- Droga! - Nojentos!

É inútil!

Malditos, canalhas!

Chove? É culpa dos comunistas!

Era comunista D'Annunzio, quando amotinava os oficiais generais...

contra o governo legitimo?

Eram comunistas os incendiários do "Avanti"...

de Milão e de Roma?

Era comunista Cadorna, quando em 1917...

preparava a ditadura militar?

São comunistas os industriais...

especuladores que tomaram a riqueza nacional...

e a levaram para o exterior?

Enquanto o governo nunca foi capaz...

de impedir o êxodo dos capitais.

Esta é a reação italiana...

que cada governo solicitou...

ajudou mais ou menos abertamente.

A delinquência reacionária nunca foi atingida pelos tribunais.

É um delito incendiar um jornal socialista? Não.

Os culpados, conhecidos, confessos...

não foram nem detidos...

aliás, puderam organizar outras empresas.

É um delito matar um membro da classe operária? Não.

Os assassinos...

os cúmplices dos assassinos...

os mandantes, nem sequer foram molestados.

E se alguns deles acabavam diante dos juízes...

logo havia, para eles, insuficiência de provas...

ou o adiamento do processo...

o Supremo Tribunal, que suspende as investigações...

ou as transfere para as sedes mais domesticadas.

E, assim, o povo italiano viveu anos em pleno terrorismo.

Porque o terrorismo goza da impunidade...

que o Estado lhe concede.

Mas a Direita precisa agradecer...

também aos grupos que deveriam ter guiado...

as massas de modo revolucionário...

e não o fizeram...

aliás, fizeram justo o contrário.

Entendeu com que fios finíssimos...

amarraram Gulliver?

Os fascistas chegaram por último...

- Ele é bom, sabe falar. - Vai acabar encantado!

É preciso ir a fundo nas coisas...

para não se perder com todas aquelas frases!

O que diz sobre os fascistas é verdade.

Sobre esses é fácil, mas e sobre os social-democratas?

No 1º. De maio passado, na Alemanha...

um ministro alemão social-democrata...

mandou ou não atirar contra operários...

deixando 19 mortos?

Tem razão, também na Alemanha há o perigo dos fascistas.

Segundo ele, os comunistas deveriam se aliar aos social-democratas...

para se matarem melhor.

E, no entanto, estão sozinhos fazendo frente a Hitler.

Eles vão ver como isso vai acabar.

E então vamos abrir os olhos.

Para exercitar o domínio...

a burguesia nem sempre precisa da coerção...

da violência legal, do terrorismo de Estado...

como na Itália, hoje.

Para prender milhões de cabeças...

usa armas mais sutis.

Persuadiu-nos durante séculos...

e nos persuade todos os dias...

de que seus valores são absolutos.

Família, educação, relações de trabalho...

métodos de luta política.

A ideologia burguesa tem uma resposta pronta para tudo...

e é uma resposta capaz de convencer...

de garantir o consenso, digamos, espontâneo...

justo dos que são explorados...

e que são também enganados nos sentimentos...

e nas ideias, a ponto de darem sustentação ao domínio...

de seus próprios inimigos.

A hegemonia da classe burguesa...

nós a respiramos mecanicamente...

como o ar, ela se tornou senso comum...

na consciência de milhões de indivíduos.

Al está o porquê, antes de conquistar o poder...

antes, e não depois, uma classe revolucionária...

tem que se tornar classe dirigente...

tem que exercer sua hegemonia...

para subtrair da classe burguesa...

todo um bloco de forças sociais.

Como?

Arrancando aos poucos das massas...

mesmo das mais atrasadas...

velhas ideias, preconceitos, temores seculares.

A confiança e reverência para com os grupos dominantes...

o estado parlamentar acima das classes...

o princípio sagrado da propriedade privada.

É este o cimento usado pelo burguês...

para prender milhões de cabeças.

Mas esse processo, de que você fala de hegemonia...

quem o faz?

- Na prática, quero dizer. - Hoje?

Todos os que estão na direção das fábricas...

nos bancos, na imprensa...

e agora também na rádio...

Os cientistas, os padres...

para impor às massas ideias e princípios...

que convêm às classes dirigentes.

Enfim, os intelectuais.

Os intelectuais, essa corja de vendidos.

Se tivesse esperado os intelectuais...

Lênin continuaria esperando.

Mas como se permite?

Os intelectuais devem ser servidos de luvas...

Eles têm sempre uma "mãe santissima" por trás.

São todos da mesma raça dos patrões!

Mas onde vamos achar os intelectuais?

Estão todos lá em volta das botas do Mussolini.

E nós, para fazer a revolução, vamos esperar que eles parem de lamber?

Sem uma nova classe de intelectuais...

a situação histórica ficará como está...

e não encontrará uma saída revolucionária.

O útero bichado da velha sociedade continua resistindo.

Está bem. Os intelectuais são necessários...

mas só no curso da revolução poderão estar conosco.

A revolução são os operários e o Partido.

Mas quem serão esses intelectuais?

Onde acham que vão encontrá-los?

Os intelectuais da classe operária...

são os militantes...

as vanguardas...

o Partido como intelectual coletivo.

- Os intelectuais são vocês. - Nós?

Claro, terão de ser. Intelectuais de novo tipo.

O oposto dos velhos intelectuais...

porque não têm medo de sujar as mãos...

na vida prática e suas lutas.

Bem, hoje o Partido não tem estes militantes...

e os poucos que tem, nós, por exemplo...

ainda estamos distantes das capacidades necessárias.

Você nos fala de tudo, caro Antonio...

de cultura, intelectuais, hegemonia, etc.

Mas o poder se conquista com armas.

Vamos esperar que eles se instalem?

Não digo só os fascistas, mas os patrões!

Senão, daqui a cinquenta anos, em 1980...

ainda estaremos esperando. Entende, Antonio?

Armas... as encontra...

fabrica, rouba, arranca do poder...

enfim, consegue conquistá-las de qualquer jeito...

Senão sempre nos deixarão de joelhos!

Entende? Voltamos à hegemonia.

Sem a ajuda e o apoio da massa dos soldados...

como quer que seja possível uma insurreição vitoriosa?

É a politica de massa que decide.

Com complôs e aventuras...

nunca conseguiremos ter uma presença armada...

capaz, adestrada, em cada atividade do Estado.

Mas o exemplo não conta?

Claro, se for seguido por um milhão de homens.

Senão é aventura. Neste terreno não se brinca...

se não quiser cair nas ciladas da provocação.

Policia, carabineiros, tribunais só querem isso...

um complô de subversivos para usarem...

a fim de justificar a violência do Estado.

E, se ninguém cai nessa, eles mesmos providenciam.

Agora lhes dei um belo soco no olho.

- É mesmo. - Está bem, está bem.

Temos que recomeçar do inicio.

- Claro. - Agora cabe a vocês refletir.

Então, nos coloca perante uma escolha?

Sim, refletir, discutir, é sempre uma escolha.

A prisão nos oferece todo o tempo.

Mas como? Uma escolha significa agir! No Partido!

Mas afinal o que quer de nós?

Hoje o Partido é obrigado a caminhar de cabeça para baixo.

É preciso recolocá-lo sobre as pernas.

Por isso temos que lutar...

e arriscar... também.

Não, não, não! Eu não vou nessa.

Athos! Athos!

Conseguiu me chatear.

Eu não aguento!

Não tem sentido, minha nossa!

- Mas quem é? - Em nome de quem fala?

Ele nos abate, mas temos que responder.

Tem razão.

Não se trata só de ideias, é o Partido, a disciplina...

Mas não me convenceu.

Aqui não se discute só ideias, ele quer muito mais.

O Antonio tem razão, mas estes...

É um cheque em branco.

Mas o que nós sabemos do que o Partido decidiu?

Muitos concordam com o Antonio...

mas todos nos recusamos...

a trabalhar politicamente pelas ideias dele...

antes de conhecer as decisões do Partido e da Internacional.

Não podemos escolher na prisão, não é?

Pessoal, isso pode significar quebrar a disciplina do Partido.

De acordo, então de acordo.

Comprometer-nos como presos é absurdo.

Temos que falar isso para ele.

Isso! Para que nos dê outro soco nos olhos!

- São piores que chacais. - Vocês o criticam feio.

Eu sei. Pegue isso, eu não posso comer.

Dizem que com seus discursos...

arrisca a corromper os camaradas mais jovens.

Dizem que não estão na sua...

porque não querem desagregar o Partido.

Vamos, caminhem!

- Antonio? - Sim.

- Os camaradas discutiram. - Falatório, fofoca, eu sei.

Está enganado.

A preparação politica de muitos de vocês é infantil.

Decidi suspender todas as discussões.

- Mas estamos todos de acordo. - Não!

Você está mal informado. Não são fofocas.

Nós nos recusamos por disciplina.

Não queremos destruir o Partido.

Vocês são só uns tagarelas.

E se todo o Partido tivesse uma linha diferente da sua?

Se é assim, fundaremos outro movimento.

O Antonio está totalmente de acordo com vocês.

- Teve ocasião de lhe explicar? - Sim, claro, já falei com ele.

Sobre tudo?

Sim, disse: "Diga-lhe que concordo com tudo."

Disse assim mesmo.

Bem.

Mas, como está?

Envelheceu, está assim... na prisão, não?

- Enfim, como está? - Acho que tem algo dentro.

Está pálido, e até inchado.

É uma sensação, posso estar enganado.

Vamos falar com a Tania. Não lhe faltará nada.

Não se preocupe...

receberá tudo o que lhe for necessário. Fique tranquilo.

A conta, por favor.

Lá longe no Arizona

Terra de sonhos e quimeras

O bandoleiro cansado

Bom dia.

Na Pianosa, dava para se lavar?

Nos banheiros coletivos, havia tantos piolhos.

Quando você se ensaboava, eles saltavam em cima.

Temos uma coisa para te dizer.

Já dissemos tudo.

- No Coletivo parecia... - Não, decidiu!

O Coletivo decidiu que seu pedido aos camaradas...

de divulgar ao Partido e às massas as suas ideias politicas...

se contrapõe às normas de disciplina do Partido.

- É tudo? - Não, não é tudo.

E ai?

Os camaradas exigem que respeite o estatuto do Partido.

- É tudo? - Sim.

Agora, tenho mais o que fazer.

Antonio, espere, queria lhe dizer...

- eu me abstive. - Tenho mais o que fazer.

Sempre acreditei que camaradas têm que estar de acordo.

Você é um bobo. O Partido...

não é uma sociedade de socorros mútuos.

Com eles não estou de acordo, mas...

mas entendo você cada vez menos.

E você ai, não vai se lavar?

Não senhor. A água machuca os ossos.

Foram grosseiros, não é?

Droga...

Já cansei de matar piolhos! Já matei tantos...

Minha nossa!

Afastem- se!

Não fiquem em cima dele, levantem- no!

Levante- o!

Vamos levá-lo à enfermaria!

Força!

Ajudem!

- Guarda! - Abra!

- Guarda! - Guarda!

- Guarda! - Abra!

Abra, guarda!

- Abra! - Está morrendo e não abre.

- Todos iguais! Nojentos! - Tem um coração de pedra!

- Abra, droga! - Vai abrir ou não?

- Abra. - Não posso abrir.

- Droga, abra! - Não posso.

- Ele está morrendo. - Não sou sargento, não posso.

- Abra! - Sem chaves não posso abrir.

- Abra, ele está morrendo, guarda. - Não posso abrir...

Nojento.

Queriam que pedisse perdão ao Mussolini!

Mas vão todos se danar!

E o que isso importa? Covarde!

Digam-lhe que peça o perdão. Por que espera?

É uma provocação. O Partido não permite.

Para sair e viver, não para morrer.

Digam-lhe que o peça.

É maligno como todos os corcundas.

Antes Lo Santo por que está doente, depois...

mas ele também está doente, não?

Entendem, agora, por que quer que peça o perdão?

O Antonio diz que são os fascistas...

que têm que se envergonhar por pedir que assine.

E você fique quieto! Nós sabemos quem tem que se envergonhar!

- Parem! - Deixem para lá!

Isto é o que eles querem!

Posso?

Não, obrigada, não fumo.

Você é estrangeira.

Sim.

Vejamos se adivinho. Húngara.

Como?

Você é húngara.

- De Budapeste. - Não, sou russa.

Vai visitar a Catedral de Conversano?

- Não, descerei em Turi. - Em Turi? Mas não tem nada...

Tem, sim.

Meu cunhado.

Está preso.

É um politico.

Ah!

- Vou visitá-lo. - Entendo.

Documentos, por favor, senhora.

Documentos, por favor.

Obrigado.

Documentos.

Documentos, por favor.

Senhora, por favor.

Senhora... Obrigado.

Documentos?

Desta vez não vai me olhar no rosto.

Para quê se chatear? Fiz isso por ele, não?

Naturalmente, não entenderá nada. Teimoso.

Sem um pouco de generosidade.

Está bem, errei...

Mas não ser para nada mesmo.

Deveria ter lhe falado logo da Giulia...

Mas por que não lhe disse?

Eu, preocupado pela Giulia e você calada.

- Peço-lhe... - Os seus cuidados...

A Giulia está mal e vem piorando há três anos.

Eu podia prever os golpes dos adversários...

mas não os que me atingiram de onde menos esperava!

Mas ela lhe escreveu sobre isso, não?

Como não se lembra?

Sim... há dois anos.

- Não, há três anos. - E então?

Mas falava de depressão.

Nervosa.

Nervo!

Mas depois disse que estava melhor!

Mas agora está numa clinica.

Para doentes...

Para doentes de...

Aqui está.

Olhe.

Oh! Meu Deus. O que fizeram? Lamento.

Quiseram controlar e a esmigalharam.

Lamento porque ela é boa.

Lamento, quiseram controlar.

SEREBRJANYJ BOR (MOSCOU), 1922

Os doentes, as enfermeiras, os camponeses...

todos ali me ouvindo tocar.

Eu tive medo, não reparou nisso?

Não, mas percebi... - Camarada Schucht...

a direção do sanatório lamenta...

esta noite não temos quartos livres.

Como é possível?

O meu concerto era previsto.

Até lhes mandaram um telegrama.

Sim, camarada, nós recebemos.

Infelizmente estavam previstas algumas partidas...

que foram adiadas pelo mau tempo.

Contamos com o seu espirito de colaboração.

Colabore, camarada Schucht, vá dormir sobre o piano.

Por que não? É de cauda, para mim sobra espaço.

Não, eu vou cuidar de você.

É mesmo?

Colabore, camarada Schucht, venha dormir na minha cama.

Uma bela ideia, não acha?

Sozinha ou a dois?

Tem medo? Disseram-lhe: "Cuidado é um sardo!"

Meio assaltante, meio bandido...

pode até esfaquear!

Ora, ora...

Não tem medo de mim?

Não.

Em você confio quase cegamente.

E então por que ainda se esconde nesse casaco?

Mas o que é?

São mochos.

Está com frio e nem percebe.

Vamos, agora precisa dormir.

Amanhã de manhã vai partir cedo.

Não acho que conseguirei dormir.

Precisa tentar me entender.

Eu não quero que fique de pé toda a noite.

Quero que durma um pouco, você também.

- Sim? - Sim.

Portanto...

pensei...

que você...

que...

- que você poderia... - Ah! Quer dizer...

- como dois irmãos. - Sim.

Não está dormindo?

Não.

Não sou eu, por acaso, que... Quero dizer que...

- Por estar acordado... - Não.

Eu sinto que você...

Eu sinto muitíssimo que você esteja aqui perto.

Estar perto de você é tão bom.

- E quero também dizer que... - O que devo fazer?

Ficar assim...

ou então deixar-se abraçar.

Não. Não.

É culpa minha.

Eu quis demais.

Que história maravilhosa...

terá para contar amanhã às suas amigas.

Não sente as gargalhadas?

Claro... é corcunda.

É também ridículo.

Todo deformado.

Não é verdade.

Eu não tenho amigas...

e não me importa mesmo que você...

Não entendo por que o choro.

Eu não quero que pense isso de mim.

Eu queria...

ficar um pouco com você.

Queria conhecê-lo um pouco melhor.

Mas...

o fato que você seja...

o que quer que importe?

De verdade?

Sim.

E por que queria me conhecer melhor?

Porque sim.

Giulia...

as cartas que lhe escrevo...

são censuradas pela direção da prisão...

enviadas ao Ministério do Interior.

Nas minhas condições quero estar perto...

mas é preciso que você me ajude...

que me ensine o modo melhor de ajudá-la.

As cartas que lhe escrevo...

analisadas pela polícia para revelar a tinta invisível...

A nossa maior desgraça...

foi termos ficado muito pouco tempo juntos.

As cartas que te escrevo, copiadas palavra por palavra...

cartas ao Partido...

A impotência de fazer qualquer coisa real...

eficaz para ajudá-la.

Há 5 anos...

na Trattoria dei Liberti, na Appia Antica...

havia mais camaradas, estávamos partindo para Moscou...

o primeiro curso da escola leninista...

Sim, Pietro Laurin, é vêneto se não estou enganado.

Está certo, sou de Verona.

Há quantos anos o...

14 anos, mas quem se importa...

em poucos meses estaremos todos livres.

Sabe, aqui dentro chega pouco ou nada.

Noticias vagas, imprecisas.

Enfim, como está tudo?

Eu voltei para Itália em junho, de Paris...

Sim, isso depois.

O Partido?

Bem, comecemos pela virada.

O Partido entendeu finalmente que estamos diante...

de uma situação diretamente revolucionária.

O fascismo está em frangalhos.

Agora, o murro nos olhos vai para o Antonio. Que cara!

De social-democrata, aliás, de social-fasc...

Ssshhhh, minha nossa!

Quando se está fora da linha do Partido...

se acaba mal.

Nós tornamos traidores, olhe o Trotsky...

não concorda?

O nosso Togliatti diz que na Itália...

não é possível seguir outro método, senão o proletário.

O método plebeu.

O método democrático burguês está excluído.

Sabem o que lhes digo? Ele está gastando saliva.

Não.

Mas o Antonio está com as costas na parede.

Sim, sim, ele já sabe.

Desculpe, quantos operários trabalham em Paris...

no Centro Exterior?

Quatro ou cinco.

Poucos, não é? Por que o Partido não assume outros?

É difícil encontrar quem se disponha...

a deixar o trabalho, a família.

Mas como obrigar os camaradas?

Depois, quanto volta para Itália é preso...

acaba num Tribunal Especial, ou acaba como o Sozzi...

que a policia matou para obrigá-lo confessar.

E é preciso gente de confiança, segura.

- É muito difícil, não é? - É, sim.

Então não é uma questão só de meses, não acha?

Assim, foram mandados para Itália...

para organizarem o Centro Interno. Quanto durou?

Menos de um mês. Fomos traídos.

Um dos nossos, tínhamos encontro marcado...

e, em vez dele, encontramos uma matilha de policiais.

Não é a primeira vez.

E neste mês o que viu?

Como os operários pensam?

Sim, no Piemonte...

e falo do Piemonte porque trabalhei lá...

há muita insatisfação, salários baixos.

Na província de Biella me chamaram...

para uma reunião de 30 camaradas.

- Você os viu? - Não.

- Fui preso antes. - Ah!

O nosso informante em Turim falou de protestos na FIAT.

- Protestos como? - Bem, protestos...

Em Alessandria, me falaram de uma greve dos chapeleiros...

- Quando? - Para os salários.

Quando?

Voltou. O que quer dizer?

Quais são as forças do Partido no Piemonte?

Uma centena de camaradas.

Mas, com os simpatizantes, multiplique por dez.

E talvez estejamos abaixo.

E você, com uma centena de camaradas, quer fazer a revolução?

Quer desencadear a luta contra a policia...

a milícia fascista, o exército...

na esperança de vencer?

Disse a esperança. Não digo a certeza.

O que lhe tínhamos dito?

Sim, entendi. Não está de acordo.

Mas não é que tenha me dito.

Entendi pelas perguntas que me fez.

Oh! Laurin, acorde!

Você é do Centro Interno.

Você pode lhe dizer:? Não!?

"A linha do Partido é esta...

e quem não está de acordo, está fora."

Com você usou de vaselina...

- conosco não. - Droga, é verdade.

- Por que não lhe enfrentou? - Porque não me pareceu...

- com ele... é o chefe, não é? - Justamente!

Pense a responsabilidade que assume diante do Partido!

Você tem que informar o Partido.

Camaradas.

Vou ser operado. Parto amanhã de manhã.

Ficando aqui, morro.

Indo para ser operado, também morro.

Mas vai escrever, sim ou não?

Não, o Antonio está doente. Pegou 20 anos, 20!

- Nenhum de nós pegou... - O que tem isso?

Nós é que vamos fazer a carta!

Vamos saber do Lo Santo.

- Ouça. - Sim.

Preciso te falar de Antonio.

Nós achamos que seja conveniente escrever ao Partido.

O Partido precisa sempre ser informado.

Está bem. Então vou escrever.

Camaradas, o Francesco Lo Santo não morreu.

Foi assassinado.

Quer ser curado? Quer viver?

Nós o trouxemos para uma clinica...

mas antes tem que assinar.

Assinar sob o pedido de perdão exigido por Mussolini...

em troca da vida. Uma bela troca, não é?

Ele escolheu morrer entre os piolhos...

a dois passos do balde e lá a esposa não estava...

e nem sequer um camarada.

Mas perto dele, que morria, estava o Partido.

Ele nunca esqueceu o Partido.

Procurarão apagar o nome dele...

mas a história fala uma linguagem...

que os assassinos nunca dominarão.

A história tem leis...

que os assassinos, os fascistas...

- não podem esperar... - Dispersem! Mexam-se!

Dispersem!

- Mexam-se! - Mas o que acha?

- Que basta fazer cara de... - Explique-me, o que quer?

É você que tem que explicar.

Queria que aquele pobre velho pedisse perdão?

Cava, cava, e sob o figurão encontra o tagarela...

mesmo entre comunistas, mesmo entre nós.

Bem, você arrisca a ser comunista por pouco tempo.

Mandamos uma carta ao Partido.

Sim, o Laurin a escreveu.

Mas saiba que estávamos todos de acordo...

até o Lo Santo.

- O que escreveu? - Nada, poucas linhas.

Tinha medo que a mensagem acabasse nas mãos da policia.

Disse só que você está em desacordo...

com a linha do Partido.

Depois perguntei o que deveria fazer.

- Por que não me disse? - Mas quando?

Está sempre sozinho...

e, se alguém se dirige a você, parece que fica contrariado!

- Entre você e os camaradas... - Isolaram-me completamente.

Mas não devia ter permitido!

Você tinha, tem ainda a autoridade...

para quebrar este clima terrível.

Aqui tem gente que diz ser comunista e não é.

Antonio, aqui cabia a você e a mais ninguém.

Mas o quê? Trocar o cérebro dos inconscientes?

Mas sabe do que me acusam? Você sabe?

De ser um legalista ferrenho...

de ter privilégios.

Imagine que privilégios, previstos pelo regulamento.

Portanto, sejamos francos.

Eu quero continuar a estudar, a escrever...

e o farei.

Nunca, em caso nenhum, entende?

Nunca darei chance para que os tirem de mim.

Por isso respeito o regulamento.

Dizem: "Quer mais cuidados, uma comida melhor..."

Claro, é natural.

Eu trabalho, estudo. Não faço fofoca.

Eles também estão doentes, não sabe?

Os nervos explodem em todos.

Você tem que se aproximar dos camaradas.

Antonio, aqui é preciso mudar tudo!

É preciso sair desta maldita confusão.

Bastaria que você recomeçasse as lições.

Dê-me um pouco de tempo...

quero pensar nisso.

Enquanto isso, escreva outra carta ao Partido...

anulando a primeira.

Mesmo curta, não tem importância, mas logo.

Sim, mas você...

É você quem precisa escrever ao Partido!

Nunca o fez. Por quê?

Enquanto isso, você escreva a sua...

e então, com calma...

escreveremos outra juntos... depois.

TURIM - SETEMBRO DE 1920 A OCUPAÇÃO DAS FÁBRICAS

São os Conselhos de Fábrica...

que amedrontam o Partido e o pessoal do Sindicato.

Os Conselhos, como se nós os quiséssemos.

Porque com estes Conselhos...

com a participação direta de todos...

não só dos filiados ao Partido e ao sindicato...

Entendeu? Com esta participação direta...

de todos os operários que decidem...

adeus à tutela do Partido e do sindicato sobre as massas!

- Está bem. Para onde vamos? - Atrás da mesa, não?

- Da mesa do Agnelli? - Sentados. Sentados.

Ah! Vou guardar esse fotografia para os filhos!

Bem, um dia eles chegarão lá de verdade.

Com os Conselhos.

Porque o medo dos patrões é exatamente este.

Arranca-lhes das mãos a máquina mais importante...

não esta, vocês!

Ouçam, hoje, na fábrica o operário é nada.

Com os Conselhos quer se tornar tudo.

Parados. Disse parados!

Está bem. Mas agora, vamos fazer o quê?

Aonde chega? Para obter o quê?

Mas como conquistar o poder?

Responda.

Bem, agora...

a única coisa que nos resta a fazer...

é lutar pelos nossos Conselhos de fábrica.

É a única coisa concreta que podemos fazer hoje.

- Mas não chega. - Antonio, os Conselhos, sim.

Mas os Conselhos sem o Partido...

Ou com esse Partido ai...

Sozinhos não chegam lá!

Já pensou? Estar num Partido...

onde tem que se precaver das traições dos seus?

Droga, esse não é mais um Partido.

Mas que cheiro de piolhos assados!

Olhe, que o Antonio nunca escreverá ao Partido.

Fez só com que anulasse a carta.

Era o que queria.

Mas diga, por que não a escreveria?

Foi uma ideia dele, não?

Se ele escrever ao Partido, vou cortar meus testículos...

corto-os com uma lata enferrujada!

Nestes dias não dá nem para se aproximar dele.

Está muito nervoso!

A esposa não lhe escreve, dos filhos não sabe nada...

é uma família um pouco estranha.

Mas estão na Rússia, na Rússia!

Lá eles cuidam de tudo...

até mandam sua esposa para uma clinica.

E nós, então...

que não têm ninguém para pensar nas nossas famílias?

Isso, a família...

ainda bem que minha companheira na Rússia...

ainda bem que eu disse sim quando ela quis abortar.

A família, sim. Nós também a temos...

mas a verdade é que não escreverá...

nem hoje, nem amanhã, nem nunca...

porque ele e o Partido caminham assim.

Ouviu como fala do Stálin?

Não. Mas por quê?

Por quê? Porque até o Stálin o incomoda.

Sem brincadeira! Ele não é o Lênin de hoje.

Enjaulado numa Rússia atrasada...

conservou uma mentalidade nacional.

Quer dizer uma mentalidade muito russa?

Então conhece bem o Pais e o governo.

Stálin é primeiro georgiano, depois russo, depois comunista.

- É preciso ter cuidado. - Não é Lênin, mas é alguém.

- Um sujeito com nervos de aço. - É o que é preciso.

Bem, segundo Lênin, Stálin era arrogante demais.

Stálin tem um poder imenso na mão...

e não estou nada seguro que seja capaz de usá-lo bem.

Se não estou engando, Lênin falou assim mesmo.

Queria também afastá-lo do cargo de Secretário do Partido, mas morreu.

Mas quando o Lênin escreveu isso?

Eu não me lembro.

Não é verdade! É tudo bobagem!

É um documento que o Partido não quis publicar.

- Era um documento de Lênin! - Sim.

- E o mantiveram em segredo? - Sim.

- Por quê? - Por quê?

Eu estou de acordo com isso.

Está bem, vou lhe perguntar...

Então, vá.

Sim, o momento é propicio. Está sozinho e de bom humor.

Vá, vá...

Agora vou lhes contar tudo.

Olá, Antonio, como está?

Mal, obrigado. Minha cabeça está doendo.

Escreveu ao Partido?

Não, mas estou pensando nisso.

Sim, estou pensando.

Trouxe-lhe este livro, é importante, sabe?

Vamos conversar sobre ele depois.

Desculpe, mas estou com dor de cabeça...

Dor de cabeça.

- Viram? - O Laurin foi engolido...

Laurin, para você!

Bastardo!

- O que é? - Bastardo!

Chega! Vou matar você!

Vamos, parados!

Para a parede, já! Para a parede! Fiquem quietos!

Revistem-nos!

Vamos, revistem-nos!

Provocam desordens? Conseguem se socar?

Então não estão doentes.

E estão querendo que eu tenha problemas.

Mas eu acabo com vocês!

Aqui em Turi vão ficar pouco tempo.

Vou colocá-los na solitária!

Todos!

Bem, tem sorte...

- Eu? - Vai embora deste nojo!

Adeus. E juízo.

Soube alguma coisa do Partido?

Sobre o Antonio, responderam?

Não. As cartas não devem ter chegado...

ou a resposta terá se perdido.

Fique tranquilo...

em poucos meses estaremos todos livres.

Antonio, vou embora...

- E queria dizer... - Adeus, Giovanni. Adeus.

- Vá em paz. - Sim.

- Lamento. - A mim não. O que me importa?

Pense que quando me mandaram para cá...

quase chorei...

de felicidade...

"Estarei com o Gramsci"!

Aqui, nada mais vai mudar.

É melhor outra prisão. Há tantas!

Encontram-se novos camaradas...

recomeça-se a conversar sobre politica...

sobre coisas!

Aqui não dá mais para fazer.

- Posso me despedir? - Está bem.

Ai está.

Antonio.

Procure ficar bem...

- e se curar. - Até logo.

- Até breve. - Leia, estude...

Era só uma despedida.

Em 3 de agosto, a uma da manhã...

cuspi sangue de repente.

Ao respirar sentia um gorgolejar por dentro.

Seguia-se um ataque de tosse...

e a boca se enchia de sangue.

A tosse não era violenta.

Uma tosse que aparece...

quando se tem algo estranho na garganta...

ataques isolados...

sem contínuos acessos, sem orgasmo.

Durou até quase às quatro.

Nesse período cuspi cerca 250, 300 gramas de sangue.

Ouça, queria lhe pedir...

Sei que gosta de mim e que quer me ajudar...

Claro.

Não sei se é melhor que você escreva isso para Giulia...

ou se devo escrever eu.

Não entendo. O quê?

Eu quero a separação.

A Giulia pode recomeçar sua vida.

Como?

- Como, tudo isto para... - O que você tem com isso?

Não, não. Não queria... Eu pensava na Giulia.

Está fechada na clinica, começa agora a melhorar...

- não conseguirá... - Mas eu nunca sairei daqui.

- Olhe, eu... - Tania, nunca sairei daqui!

- Você vai escrever... - Mas por que um ser vivo...

tem que ficar ligado a um morto como eu?

Professor, desculpe-me pela intromissão.

Nesse estado, professor.

Diga-lhe também, senhorita.

Ele não pode continuar aqui dentro.

Sim, sim. Entendi. O pedido de perdão.

Bela forma de suicídio! A pior!

Nino, mas não vê que todos dizem o mesmo?

Não é por maldade. Até na sua terra o dizem todos.

Não é por maldade. É ignorância.

O que está dizendo?

Por favor, escreva para Giulia.

Não é a mim que deve escrever...

É a ela e só a ela que deve escrever. Entendeu?

Entendeu?

Para onde o levam?

Para a cela mortuária, onde tem o depósito de feno.

Mas há tantos colchões!

Vão colocá-lo lá para ficar no mais macio.

- Quantos anos cumpriu? - Quem sabe? Talvez 40.

Nem ele sabia.

Antonio, é verdade que vão mandá-lo para uma clinica?

Eu?

Tanto, já estou tramado.

PARIS, MARÇO DE 1933 Nada mais.

A última vez que o vi foi há seis meses...

antes de sair da prisão e de fugir para cá.

Ah, sim. Soube também...

que a cada novo camarada que chegava a Turi...

fazia o relato do pensamento dele...

as criticas, os erros do partido...

Sim, ele os chama assim... e todo o resto.

Também escrevi isso no relatório que entreguei.

Nada mais?

Não.

Soubemos que ele está mal.

Sim.

Em Turi, os camaradas pensavam que ele não aguentaria.

Chega. É tudo.

Já o lemos.

O Partido obriga-o a não falar disso com ninguém.

- Ninguém. - Está bem.

Sobre tudo, está claro?

Entendi, um momento. Excelência, é Turi na linha.

Então...

esse Gramsci?

Excelência, examinei os cadernos...

conceitos desconexos, nebulosidade, contrassenso...

até alguns erros de ortografia.

Eu já sabia.

Peças da arteriosclerose.

Peça aos carabineiros...

para que providenciem uma escolta especial.

Policia, por medidas especiais de segurança...

em todas as estações de trânsito.

Para a Schucht, dobrar o serviço...

por meio de agentes à paisana.

Todos casados.

É uma santinha na qual é melhor não confiar.

A todos os chefes de policia interessados...

vigilância ininterrupta, adequada à importância, etc.

E assim, Gramsci conseguiu.

Não assinar o pedido de perdão?

Sim.

E nós não vamos libertá-lo.

Vamos mandá-lo morrer em outro lugar.

Guarda.

Cada dia se despedaça um novo fio...

das minhas ligações com o mundo passado...

e é sempre mais difícil atar tantos fios quebrados.

Não ter relações com ninguém...

ser esquecido por todos, esquecer tudo.

Ter uma vida de animal na sua toca...

enovelar-me sobre mim mesmo...

tornando-me mais arisco que um porco-espinho.

Descarregar a bagagem.

Cumprimente.

Bem, o que é isso? O que estão fazendo aqui?

Não há nada para ver. Sumam!

As hierarquias sociais estão despedaçadas...

os valores históricos estão subvertidos...

as classes executivas, as classes subalternas...

viraram classes dirigentes.

A classe operária se colocou na liderança de si mesma...

encontrou em si mesma os homens que transformarão...

um agregado elementar e mecânico...

em uma criatura viva.

Tudo isto faz torcer de raiva os escritores da burguesia...

os crentes na investidura divina da classe burguesa.

Estamos construindo a primeira célula histórica...

de um destino diferente.

26 de abril de 1937, 15º. Ano da era fascista.

Fonograma...

Da Polícia de Roma à divisão dos negócios gerais...

e reservados do Ministério do Interior, 1ª. Seção...

10h25.

O célebre Antonio Gramsci...

em decorrência de um ataque de hemiplegia...

encontra-se em condições gravíssimas.

Ele deve falecer.

27 de abril de 1937, 15º. Ano da era fascista, 11h.

Em relação à mensagem de ontem...

comunica-se que Antonio Gramsci...

faleceu esta manhã às 4h.

Será organizada uma atenta e rigorosa vigilância...

para evitar quaisquer manifestações subversivas.

28 de abril de 1937, 15º. Ano da era fascista...

22h10.

Em relação à mensagem de ontem...

comunico que esta noite, às 19h30...

ocorreu o cortejo fúnebre...

do notório comunista Antonio Gramsci...

seguido por apenas dois familiares.

A carruagem procedeu a cavalo até Verano...

onde o corpo ficou depositado...

aguardando ser cremado.

"TODAS AS SEMENTES MORRERAM, COM EXCEÇÃO DE UMA QUE AINDA...

NÃO SEI O QUE É, MAS QUE PROVAVELMENTE É UMA FLOR...

E NÃO UMA ERVA DANINHA." ANTONIO GRAMSCI

FIM

AS PERSONAGENS DOS CAMARADAS DE CÁRCERE DE ANTONIO GRAMSCI...

foram livremente inspiradas em fatos e episódios ocorridos na...

PRISÃO DE TURI, ENTRE 1929 E 1933.

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