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A ARTE DA ALEGRIA
� verdade.
Eu roubei.
Roubei sempre a alegria que desejava.
De tudo e de todos.
H� demasiada luz agora? Queres que feche um pouco?
Quantas vezes me apaixonei?
Sempre que foi necess�rio.
Mais escuro?
Ol�? Menina?
Os corpos da m�e e da irm� estavam na casa.
Algu�m as trancou num quarto
e n�o conseguiram fugir, coitadas.
Virgem Maria, que cruel...
O Dr. Milazzo visitou-a e disse que foi abusada.
- Virgem Maria! - Chega, calem-se! Calem-se!
Nada se compara a 1909...
Acontecem coisas terr�veis que nunca aconteceram na Idade M�dia.
Porque pessoas tementes a Deus deixaram este lugar.
Estas pessoas �mpias... Sabem quantas j� vi? Montes delas.
- Inspetor! - Excel�ncia, desculpe.
N�o podemos lembr�-la, ela s� precisa de esquecer.
Em nome de Santa �gueda, a rapariga foi martirizada. Pare de a torturar.
- Como se chama a rapariga? - Chama-se Modesta.
Modesta...
Venham, vamos continuar a conversa l� fora.
Encontraram roupa de homem queimada, mas n�o encontraram o corpo dele.
Ela fica connosco esta noite.
Depois decidimos para onde a levamos. Na verdade...
- Pe�o desculpa mais uma vez. - Oi�a-me.
Tem de voltar amanh�, por favor, n�o a podemos manter aqui.
Est� bem.
Ela vai acabar num orfanato.
Modesta.
Modesta.
Tiraste o gelo da montanha?
- E os ovos? - Cala-te.
Traz-me os ovos.
- H� dois. - S� dois?
E o terceiro? J� o comeste?
Est�o apertados!
Anda c�!
Est�o a magoar-me, est�o apertados.
A Tina tem tudo, at� sapatos para a comunh�o.
Tira as m�os do vestido.
Vamos, vai l� para fora e leva a cabra contigo.
Est�o a magoar-me, est�o apertados.
Modesta, a cabra!
Est� a chover!
Ouvi dizer que a v�o levar para o orfanato Filhas de Maria.
Coitada, est� cheio de insetos.
Mas os c�es comem melhor do que aqueles pobres �rf�os.
Vou buscar a toalha.
A maior n�o est� aqui.
Eu vou busc�-la.
O que est�s a fazer? Anda c�! Aonde vais?
Anda, vamos cobrir esta vergonha.
V�, Ilaria. Continua a tocar.
Desculpe-nos, Madre Leonora, n�o quer�amos incomod�-la.
Esta pequenina est� a dar connosco em doidas.
Tamb�m est�s aqui.
Deixa-me em paz! Leva tuas coisas!
Estrela gorda!
Estrelinha!
Estrela do Tuzzu.
Modesta, desce da�! A diabinha levou o vestido!
- A menina � t�o voraz. - Precisamente.
Com licen�a, madre.
Vem comigo. Vem.
Rosalia. Incoronata.
Esta rapariga n�o pode comer connosco no refeit�rio, � indecente!
- Felizmente, parte amanh�. - N�o se preocupe, Irm� Costanza.
Faca! Garfo!
- Ensinem-na a comer como gente. - Est� bem.
- Mas eu "nu" sei. Tenho fome. - Aqui n�o falamos em dialeto.
Pronto. Come.
N�o. Toma.
Assim.
N�o vais dar gra�as?
Virgem Maria, reza ao meu anjo e fala com o Esp�rito Santo.
Cozinha-me coisas deliciosas, boa noite.
Virgem Maria, ajuda-nos.
Menina!
V� l�, despacha-te.
S� um animal de est�bulo faria uma coisa destas.
� uma vergonha!
Madre Leonora.
Irm� Incoronata, lave estas coisas
e leve a menina para a sua cela.
Vamos, Ilaria.
Que vergonha, madre.
- Vamos. - Quem � esta freira?
� a Madre Leonora, a abadessa, que decide tudo.
Modesta! Modesta, para! Santa Maria...
O que est�s a fazer? Deixa-a! Tens de a deixar!
Ilaria, para.
Est� bem.
Eu compreendo.
Vem comigo.
- Esta � a sua casa? - Bem, � aqui que estudo.
Senta-te.
Recorda-me o teu nome.
Como te chamas?
Modesta.
Modesta.
Que nome t�o bonito.
A Irm� Costanza falou-me um pouco de ti.
Para onde est�s a olhar?
Para Santa �gueda?
Sabes a hist�ria dela?
A �gueda era uma rapariga de 15 anos
de cabelo dourado.
Ela dedicou a sua vida a Deus e fez um voto de castidade.
Mas o governador da Sic�lia queria-a
e ela rejeitou-o.
Ent�o, ele mandou tortur�-la.
Queimaram-lhe a carne.
Queimaram?
Espancaram o seu corpo.
No auge da f�ria,
arrancaram-lhe os seios com umas pin�as enormes.
Seios...
Ela morreu?
O corpo dela morreu.
Mas a alma dela est� no C�u
e ela tornou-se santa.
Isto assustou-te?
N�o?
Ainda bem. Coitada, com tudo o que passaste...
Podes dizer-me quem estava contigo em casa
quando a casa ardeu?
A minha m�e e a minha irm�.
Sabes que a tua m�e e a tua irm�
voltaram para casa do Senhor?
Sim.
Tamb�m havia um homem?
Ele fez-te mal?
Podes contar-me.
Ele pegou fogo � casa?
Ele zangou-se porque estavam sempre a falar, nunca se calavam.
J� chega.
Agora que est�s aqui connosco,
est�s segura.
Senta-te.
Que olhos t�o grandes.
Este � o olho lindo
e este � o irm�o.
Esta � a pequena igreja
e estes s�o os pequenos irm�os.
O nariz � o sino que faz dlim-dl�o, dlim-dl�o.
Sua est�pida, porca e filha de um c�o bastardo.
Levaste o vestido da tua irm�.
S� podes ficar num instituto, num orfanato, a comer p�o e �gua.
�s �mpia. N�o tens respeito por nada.
Anda.
- Olha para a Tina, que linda. - Bom dia.
- Ol�. - Ol�.
Como est�o?
Um p� aqui. Ajuda-a.
Ajuda-a ou o vestido vai sujar-se.
O vestido, por favor.
J� se sentou. Linda menina.
� um dem�nio, como sempre.
Tuzzu...
Sempre problemas.
- Gr�cia? - Atenas!
- Imp�rio Otomano? - Constantinopla!
- Egito? - "Cairone!"
Cairo.
Peru?
Lima!
- Bravo! - Bravo!
Ela parece uma macaquinha amansada.
H� tr�s meses, Deus enviou-nos esta menina.
Aliment�mo-la, lav�mo-la e educ�mo-la.
E continuaremos a faz�-lo.
A Modesta vai ficar connosco at� ser maior de idade.
E, se Deus quiser, ser� esposa dele, como n�s.
Que generosa.
Mimmo.
Posso ficar aqui para sempre!
Queres andar �s cavalitas?
Vai!
Madre Leonora, sabe que as fam�lias das nossas novi�as n�o v�o gostar.
Este convento � frequentado
pelas filhas das melhores fam�lias da Sic�lia h� 200 anos.
Apenas fam�lias nobres.
H� 200 anos que a nossa miss�o � a caridade.
O nosso dever � ajudar os pobres e humildes
e eles n�o t�m culpa de serem ignorantes.
Cristo mostrou-nos o caminho.
"Deixai vir a Mim as criancinhas.
Dos que s�o como elas � o reino de Deus."
Leonora, est� a cometer um erro.
Vamos arrepender-nos.
�s tu, Deus?
Deus � bondade.
Ele est� em tudo o que � bom. Deus est� em tudo o que nos rodeia.
Ent�o, tamb�m est� em coisas m�s?
Ilaria, ouviste o que ela disse?
Acontecem coisas m�s porque o homem cai em tenta��o.
- O homem � mais forte do que Deus? - N�o.
Deus � todo-poderoso e est� acima de tudo e todos.
Quando fores mais velha, estudar�s Teologia
e todos estes mist�rios ser�o revelados.
Porqu� quando for mais velha? Quero saber agora!
Acabaste de aprender a ler e a escrever. Ainda n�o compreendes.
O conhecimento vem devagar...
- Meu Deus, um terramoto! Madre... - Modesta!
Madre!
� ela. � a montanha.
Sentes o teu cora��o a bater depressa, menina?
Cresci e mudei.
A voz gentil da Madre Leonora,
os seus olhos azuis
e o mexer da sua roupa
faziam-me voar por aqueles corredores escuros para chegar a ela.
Para estar sempre com ela.
Da boca dela, roubava palavras, notas musicais,
conceitos que nunca ningu�m me tiraria.
Esposa de Cristo.
No convento, eu bordava, estudava, aprendia, tocava m�sica
e comia todos os dias como se fosse domingo.
Os len��is cheiravam a am�ndoas doces.
Mas passar a minha vida toda l�?
Dobra o dedo.
Ilaria, por favor...
O teu desejo foi realizado.
Mas agora vou ficar sozinha. J� n�o estar� l� para me confortar.
N�o sejas tonta, nunca estar�s sozinha.
Agora, �s uma esposa de Deus.
Na verdade, visto que j� n�o �s novi�a,
podes estar perto das outras irm�s.
Desculpe, madre, d�-me licen�a?
For�a, Modesta. Bem-vinda.
Irm�.
Madre, obrigada por me receber e por me deixar viver ao seu lado.
Modesta.
Mais depressa, sen�o, arrefece.
Eu aperto-as um pouco.
Eu fa�o isso.
Pronto.
- Est� muito apertado? - N�o.
Minha m�e, eu quero casar
Minha m�e, eu quero casar
Minha m�e, eu quero casar
Filha minha, a quem te entregarei M�e, decide tu
Se te entregar ao carreteiro
Ele vai, ele vem
Sempre de chibata na m�o
Se lhe passar pela cabe�a
Ele solta o burro e aparelha-te a ti
O que te fizeram?
Amarraram-te como a um c�o sarnento.
�s assim t�o m�, filha?
N�o, ela bateu-me.
Deixaram-te aqui a secar como um tomate.
Santa M�e, eu vou cuidar de ti.
Minha m�e, eu quero casar
Minha m�e, eu quero casar
Minha m�e, eu quero casar
Filha minha, a quem te entregarei M�e, decide tu
Tenho uma filha linda.
Queres ver a minha casa?
Santo Agostinho converteu-se quando era adulto.
Mas nunca ningu�m rezou com os mesmos remorsos
pelo que ele definiu como "inf�mias antigas".
Gostaria de vos ler umas linhas de Pierre de Labriolle
em "Amor Verdadeiro". Posso, madre?
"A mem�ria de ter amado ainda est� viva dentro dele.
A gra�a ef�mera dos corpos,
o brilho da luz, a do�ura dos c�nticos mel�dicos
e a deliciosa fragr�ncia das flores.
Os membros feitos para o coito da carne..."
Obrigada, Modesta. J� chega.
- Quem quer continuar? - Eu gostaria de dizer...
O coito. Que Deus nos proteja.
A gra�a ef�mera dos corpos. Que Deus nos salve e liberte.
O desejo. Que Deus nos fulmine.
Elas tinham Deus.
Eu desejei vida.
Opunham-se � vida com palavras
como "mal", "inferno", "obedi�ncia", "pecado".
Eu repetia-as diligentemente.
Mas s� para ser aceite.
Para ser a escolhida da Leonora.
- N�o podes amar ningu�m al�m de Deus. - � isso mesmo, Irm� Ilaria.
As palavras ditas pelos l�bios dela eram redondas como ma��s.
Tens de ter mais cuidado, Modesta. A intelig�ncia pode ser perigosa.
Mas assim que as provavas, vias logo que estavam podres.
- E pode fazer-nos cair... - Na armadilha do pecado, eu sei.
Pecado.
Mas eu quero aprender e tornar-me culta.
A tua fome de conhecimento quase me assusta.
Al�m disso, de que te serve?
Uma mulher nunca chegar� � sabedoria de um homem.
Mas � mulher e aprendeu, madre.
Quero ser como a madre.
�s uma menina maluca.
Olha. Pus ali o telesc�pio que o meu pai me deu.
Ele ensinou-me os nomes das estrelas que te vou mostrar esta noite.
Qu�o grandes v�o parecer atrav�s deste telesc�pio?
Tamb�m vamos conseguir ver as crateras da Lua?
Coitadinhas, molharam-se.
Anda, vamos voltar para as nossas celas.
- Anda aquecer-te. - Sim, obrigada.
Modesta, quero certificar-me de que te sentes sempre segura.
Apesar das tuas origens.
Mas sinto-me segura aqui, consigo.
� assim que deve ser.
Decidi arranjar-te uma pens�o.
- Vital�cia, para quando eu morrer. - Madre, n�o diga isso.
N�o me assuste, ainda � nova. N�o quero pens�es.
N�o tenhas medo.
Quando acontecer, daqui a muito tempo, olharei por ti l� de cima
e estarei sempre perto de ti.
Vai mudar de roupa, est�s toda molhada.
O que foi?
Tens medo da tempestade?
Sabes o que vamos fazer?
Podes dormir comigo esta noite e confortamo-nos uma � outra.
Toma. Veste isto.
O que foi? Tens vergonha?
N�o te preocupes. Eu viro-me.
Vira-te tu tamb�m.
� um pouco grande.
Um pouco.
Voltaremos a faz�-lo, madre?
Voltaremos a olhar para as estrelas?
Claro.
Na verdade, fico feliz por teres interesse nisso.
Quando era pequena,
costumava inventar os nomes das estrelas.
Subia para o telhado,
deitava-me
e olhava para o c�u.
Estrela gorda.
Gorda...
Estrelinha.
Estrela do Tuzzu.
Tuzzu?
Tuzzu.
Tuzzu.
Tuzzu.
O que fazes a� especada feita parva? Est�s a olhar para as moscas?
Come�aste a fumar?
H� dois dias. J� era altura.
E onde deixaste a tua irm�?
A Tina � in�til.
Come e faz barulhos, est� sempre a gritar.
Ouve esta desgra�ada. � tua irm�.
- � est�pida, mas � tua irm�. - Feia, gorda e cheia de merda.
O que est�s a fazer, tonta? Adormeceste?
Deixa-me olhar-te nos olhos.
Para perceber como � o mar.
For�a, n�o te impe�o.
Se queres assim tanto saber como � o mar,
fica � vontade.
Agora que olho para eles, tens uns olhos lindos.
Nunca tinha reparado.
Parecem mel.
- Espera. - O que foi? Tenho de ir trabalhar.
Porque me apetece acariciar aqui quando estamos t�o perto?
- Por onde sai o chichi. - O que est�s a dizer? �s uma peste.
Achas que sou est�pido? Sou homem e, se n�o me deixares, eu tomo-te.
- E vamos fazer porcaria. - Vamos a isso.
Eu n�o tenho medo, tu � que tens. Olha, est�s a tremer.
Agora tenho de parar, sua atrevida.
Tu enlouqueceste-me. Mas n�o te quero arruinar. V�, vai.
Madre?
Est� na hora das Laudes.
Descal�a.
O teu peito entre as folhas, os meus l�bios, a tua respira��o.
O meu pesco�o, o teu suor...
Am�m.
- A Leonora nem comeu. - Levaste-a para a cela?
N�o, cheguei tarde. Ela j� estava de sa�da.
- Para ir para Cat�nia? - N�o sei.
Madre!
Eu levo a sua bagagem para a carruagem.
- Bom dia, Modesta. - Bom dia.
Vai-se embora e n�o me disse?
Sim, recebi uma carta esta manh�.
Vou para Cat�nia, assuntos de fam�lia.
- Para Cat�nia? T�o longe? - � um dia de viagem.
- Deixe-me ir consigo. - N�o.
- Posso fazer-lhe companhia. - N�o � poss�vel.
Tens de ficar aqui. � mais seguro.
Podes n�o saber, mas estamos em guerra.
Acontecem coisas terr�veis, alma minha.
Madre? Ouvi dizer que vai embora.
Espero que volte em breve.
- Posso ser �til? - N�o, obrigada, Ilaria. Podes ir.
Este � o olho lindo
e este � o irm�o.
Esta � a pequena igreja
e estes s�o os pequenos irm�os.
E este � o sino
que faz dlim-dl�o, dlim-dl�o.
- Deixe-me ajud�-la, madre. - Bom dia, Mimmo.
- Boa viagem. - Obrigada.
Adeus.
Minha m�e, eu quero casar
Os coelhos ficam aqui.
- E tamb�m temos uma cabra, mas... - O que aconteceu?
A Tina fica aqui quando chora e faz barulhos.
Sim, ela chora. Eu sei que a Tina chora.
Esta � a mesa onde comemos.
Temos aqui p�o, ovos e azeitonas.
Comes muito?
Estou sempre com fome.
� a cama da m�e, onde dorme a Tina. E eu durmo aos p�s dela.
J� isto tem as minhas coisas.
Sabes o que vamos fazer agora? Vou lev�-lo para Cat�nia.
- Para Cat�nia? - Sim, Cat�nia.
Anda c�. Anda.
�s um bot�o de rosa.
Cat�nia � uma cidade maravilhosa.
- Tem mar? - Claro que tem mar.
Ten um porto, tem navios. E os navios s�o muito grandes.
E h� edif�cios lindos e altos,
cheios de luzes.
Levas-me l�?
Se te portares bem, levo-te desta Chiana del Bove.
- Para veres o mundo. - O mundo?
N�o acredito que est�s aqui.
Est�s a� ou n�o?
Est�s a� ou n�o?
Est�s a�?
Que boca t�o doce.
O que fazes aqui?
- Deixa-a em paz. - Ela estava ao sol, amarrada.
Tratas assim a minha filha? Corto-te a m�o.
Deixa-a em paz. Pega nas tuas coisas e vai-te embora.
Sen�o, chamo os Carabinieri.
Os Carabinieri? Isso � treta. Onde os encontras? Atr�s da porta?
Vai procur�-los pela Chiana, chama-os!
Modesta, vem c�.
Vem c�.
Trouxe-te dinheiro, olha.
O que foi? N�o consegues chegar-lhe?
V� l�, sua tesa. Queres dinheiro? Toma.
- Para! - Sai daqui, coisa nojenta!
Deixa-a ou eu mato-te!
- Modesta, anda c�. - Quero ficar com ele.
Vai-te foder, ela quer ficar com o pai!
- Eu mato-te! - O que est�s a fazer?
- O que est�s a fazer? Desgra�ada! - Deixa-a em paz!
- Parto-te o pesco�o! Fica a�. - Deixa-a!
- Modesta! - M�e, j� chega.
- N�o te preocupes, estamos a brincar. - M�e, j� chega.
Fizeste bem, ela merece.
V�s? Temos o mesmo sangue. Vem c�.
�s a minha gatinha.
Gatinha
Menina, gatinha
O que foi?
Ficaste vermelha como uma rom�.
Minha linda.
Diz-me.
Como queres ir para Cat�nia?
A p� ou a cavalo?
A cavalo, mas n�o sei montar.
N�o te preocupes, eu ensino-te.
Mas n�o sejas t�o dura.
Porque te afastaste? Est�s com medo?
N�o, s�o elas, est�o a enervar-me.
N�o lhes d�s ouvidos.
Que prazer...
Que prazer olhar para ti.
N�o tenhas medo.
Vamos deitar-nos juntos.
N�o te preocupes.
Anda c�.
�s uma d�diva.
�s uma d�diva.
Gostas de estar aqui connosco?
Claro, no in�cio, t�nhamos saudades dos nossos pais aqui no convento.
Tenho de me habituar a estar sem a minha m�e e irm�s.
De onde �s? Qual � o teu apelido?
Somos os Chiaromontes de Ragusa, mas cresci no pal�cio de Cat�nia.
- E tu? - Sou a Marquesa de Altavilla.
Este ano, realizou-se o baile de debutantes em Cat�nia?
N�o, desde que a guerra come�ou,
n�o houve mais casamentos, bailes ou noivados.
Todos os jovens se alistaram. Que triste!
De onde �s tu?
� uma senhora privilegiada.
A pequena Marquesa de Chiana del Bove.
Nunca ouvi falar dessa linhagem. De onde vem?
N�o conheces?
Fica no Chiana dell'Etna, rodeado de lava e lama.
� um s�tio bonito. H� muitas cabras, vacas e galinhas.
O que est� a fazer?
N�o conheces Chiana del Bove?
O Grande Reino de Chiana del Bove. Nunca ouviste falar?
Merci.
"S� penso em ti, alma minha.
Nos teus olhos, na tua boca.
Mal posso esperar por estar contigo e fazer-te sentir como gosto de ti.
Um abra�o caloroso."
Bom dia, Modesta.
- Pareces muito feliz hoje. - E estou. A Madre Leonora voltou.
Prometeu levar-me a ver as estrelas, esta noite.
Nunca a vi gostar tanto de uma de n�s.
O que est�s a dizer?
A madre tem um grande cora��o. Ama-nos a todas da mesma forma.
Tens raz�o. Eu � que cometi o pecado do ci�me.
Desde que chegou, a Madre Leonora floriu de novo.
Nenhuma de n�s subiu � torre com a Madre Leonora.
Mimmo.
Ent�o? O que est�s a fazer? Sai.
J� n�o �s uma menina e eu estou a ficar velho.
Disse-te para teres cuidado! Tem cuidado.
Afasta-te do po�o.
Estas �guas escuras atraem almas atormentadas.
N�o sou uma alma atormentada. S� queria ver como sou.
Sei que n�o tens espelhos.
N�o sei como s�o a minha boca ou os meus olhos.
N�o sei se sou bonita ou feia. Era isso que estava a tentar ver.
Tu, feia?
Pareces uma princesa.
Nem imaginas o quanto as mulheres que falam mal de ti
gostariam de ter a tua passada real,
a tua pele lunar, o teu pesco�o de cisne.
Lembra-te, mesmo tendo nascido na Chiana,
�s a mulher mais nobre de l�.
Se eu fosse uma abelha...
...voaria por cima destes l�bios de rosa.
O que faz a abelha?
Aterra em mim.
O que est�s a dizer, pequenina?
Pare�o-te uma abelha? Desaparece.
Pobre Mimmo. Ele era t�o bom.
E eu, impune, atormentava-o
porque estava feliz, talvez demasiado feliz.
A Leonora tinha voltado.
"Alma minha", tinha-me escrito.
E eu estava num estado incr�vel de exalta��o.
De pura alegria.
Aquela � a Ursa Maior.
A Sirius est� um pouco mais acima, a mais brilhante do firmamento.
Firmamento...
Que palavra bonita.
Cuidado!
� inst�vel.
Perdoe-me.
E a madre?
Como era a sua vida antes de fazer os seus votos?
Eu era outra pessoa.
Vim de um mundo onde a palavra de Deus n�o era ouvida.
Costumava usar vestidos de organza com cord�es e croch�s rid�culos.
Arranjava o cabelo todos os dias.
Gostava de a ter conhecido nessa altura.
N�o. N�o digas isso, pequenina.
Permitir-se ser tentado por coisas mundanas � pecado.
Prometeram-me a um oficial de cavalaria.
Um nobre alem�o que j� tinha matado tr�s pessoas
por raz�es triviais relacionadas com honra mundana.
Que Deus o perdoe.
S� o vi uma vez debaixo da minha varanda.
- Com o esquadr�o dele. - E como era ele?
Alto e moreno.
Reencontr�mo-nos num baile.
Ele convidou-me para dan�ar.
Enquanto dan��vamos,
ele apertou-me e eu assustei-me.
Os homens sempre me enojaram.
A ideia das m�os deles
a tocarem-me na pele ou at� debaixo da roupa...
Mas tudo � diferente entre n�s.
Certo?
Ouvi-a na outra noite.
Antes de ir embora.
O que ouviste?
Quando se estava a tocar.
Eu queria tocar-lhe...
Como te atreves?
- Vai-te embora! - Madre...
Vai-te embora! Que Deus te perdoe! Vai!
� minha culpa, minha t�o grande culpa!
M�e?
M�e?
Tradu��o: Cl�udia Pereira
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