All language subtitles for Werner Herzog Eats His Shoe _ Les Blank _ 1980 _ pt-BR

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Original subtitles

Werner Herzog Come Seu Sapato

Um Filme de Les Blank

Se ligamos a televis�o, vemos que ela � rid�cula e destrutiva.

Ela nos mata. Os talk-shows nos matam, matam nossa l�ngua.

Por isso devemos declarar uma guerra santa ...

... contra o que vemos todos os dias na televis�o, an�ncios e. ..

Acho que deveria haver, deveria haver uma guerra real ...

... contra os an�ncios, uma guerra real contra os talk-shows,

guerra real contra Bonanza e Rawhide e tudo isso.

Em homenagem � estr�ia de "As Portas do c�u", na quarta-feira 11 de abril,

Werner Herzog comer� seu sapato. Ao vivo, no palco do Teatro UC.

Estou convencido de que cozinhar � a �nica alternativa a fazer filmes.

Talvez haja outra alternativa, que � sair para caminhar.

Vamos colocar um pouco de alho em cada um.

Est� bastante picante.

Descobri recentemente que isso me aborrece muito porque...

quando parei pra pensar depois de muito trabalho feito,

dei-me conta que em quase um ano n�o tinha preparado refei��o alguma.

E... um homem adulto como eu n�o deve passar...

... nem uma semana sem ter preparado uma grande refei��o.

E isso me aborrece muito ...

... ent�o eu deveria me importar mais em cozinhar.

O que voc� est� colocando?

Gordura de pato para amolecer.

- Acho que voc� deveria colocar um pouco mais de romeiro. - Sim

Vai ficar saboroso... J� tem bom aspecto, n�o �? Olhe aqui...

- Isso � suficiente? - Sim. Devemos colocar mais �gua,

e cozinhar durante duas horas.

Ent�o, temperamos esta coisa diab�lica.

E colocamos isso em cima.

Deve ser como p� de porco,

que... acho que s�o um pouco parecidos com couro de sapato,

e servidos com coisas como feij�o, chilli e cebola salpicada por cima ...

... e um pouco de alho cru, e especiarias como or�gano ou romeiro.

Sim, h� muito alho l� dentro,

e cebola, com o chilli. - Colocou sal?

Chilli e feij�o... Esquecemos o sal, certo.

CINCO HORAS MAIS TARDE

- Ei, eu quero o meu sapato de volta!

- Puxe bem alto para que o vejamos. Puxe bem alto.

- Bonito sapato.

- O que era...? O que � isso? - � um sapato feito de a��car.

N�o � de alca�uz, como o de Charlie Chaplin.

Werner disse: "Eu duvido! N�o acredito que tenha coragem."

"Mas se fizer isso, virei a Berkeley e comerei o sapato...

... na estr�ia do filme".

Estimulado, na manh� seguinte, Errol chamou-me pelo telefone...

... e perguntou se eu conhecia algum c�mera ou gente que tivesse equipamento...

... e que gostaria de rodar com ele algo sem dinheiro ou inten��es comerciais.

Eu lhe dei o nome de um c�mera muito bom e eles foram filmar, e em dois dias ...

... ele se tornou um diretor com tanta confian�a que despediu o c�mera ...

... e depois contratou outro c�mera e tamb�m o despediu ...

... e um terceiro com quem ficou e aos poucos aquilo se tornou um filme ...

... que ele mostrou ao comit� do Festival de Nova York ...

... e estreou em outubro passado no Festival de Nova York.

Depois o exibiu no Festival de Cinema de Londres, onde ...

... o American Film Magazine escreveu que foi o melhor filme.

Depois, o mostrou no Festival de Berlin e h� pouco no Festival de Los Angeles,

e � claro que � um dos melhores filmes de estr�ia norte-americanos da d�cada,

de modo que voc�s devem ficar e v�-lo.

E Werner ligou na segunda-feira e, para a nossa surpresa e horror ...

... disse que viria comer o sapato.

E aqui est�. N�o sei at� onde devemos deix�-lo seguir com isso.

Ele cozinhou o sapato aqui e... vai tentar com�-lo.

Eu iria sugerir que o partisse em pedacinhos e o ajud�ssemos, mas...

Podem dar as boas-vindas a Werner Herzog.

Eu n�o tinha a inten��o de comer o sapato em p�blico.

O meu prop�sito era com�-lo em um restaurante ...

... mas fui pressionado um pouco, e at� certo ponto faz sentido ...

... porque deveria ser um est�mulo para os que querem fazer filmes ...

... e est�o muito assustados para come�ar e n�o t�m coragem.

Assim voc�s podem acompanhar um bom exemplo.

E acho que tamb�m deveria ... Tamb�m fa�o isso em p�blico porque ...

... quero ajudar o filme de Errol, que ainda n�o tem distribui��o ...

... e que deveria ser distribu�do por um dos grandes est�dios,

... o que me faria feliz. E por isso estou aqui.

E n�o devem se preocupar, porque o cozinhamos por 5 horas, mas ...

... ainda est� mais duro que antes, por isso eu trouxe ...

... trouxe umas tesouras para aves e facas afiadas.

Voc�s podem ter a mesma experi�ncia sempre que quiserem ...

So t�m que ir a um Kentucky Fried Chicken.

Sobrevivi a tantos ... Sobrevivi a tantos Kentucky Fried Chicken ...

... que isto n�o me far� mal algum.

� verdade que jurou se jogar sobre um cacto ao final de ...

"Tamb�m os an�es come�am pequenos"?

Isso foi uma hist�ria diferente.

Notei o perigo em que esteve um deles quando foi atropelado pelo carro.

O carro passou por cima dele e o mesmo an�o pegou fogo ...

... quando molhamos os vasos de flores com gasolina e ateamos fogo ...

... e ele pegou fogo e eu apaguei com meu corpo, atirei-me em cima dele ...

... e quando apagou, eu lhe disse: "Vou me jogar em um cacto, se todos sobreviverem"

Ent�o, me diverti tirando fotos, e filmando em super-8 esse material.

Voc� se machucou muito ao se atirar no cacto?

N�o, n�o foi para tanto.

Era um horr�vel, com grandes espinhos.

Alguns ainda est�o no meu joelho.

N�o pode extra�-los da�, simplesmente ainda est�o a�. Mas n�o d�i.

Werner, voc� � um homem de palavra quando faz promessas de autodestrui��o.

N�o, n�o � autodestrutivo atirar-se em um cacto.

Foi somente uma forma de diverti-los um pouco ...

... mostrar-lhes que eu estava consciente dos problemas que eles tinham ...

... e dando-lhes um pouco de divers�o em troca.

Talvez possamos fazer algumas perguntas enquanto ele o prepara.

Como Errol conseguiu o dinheiro para fazer o filme?

Ainda � um mist�rio, pediu emprestado de todas as maneiras, robou ...

N�o sei como fez, mas essa � uma maneira de faz�-lo.

Se voc� quer fazer um filme, roube uma c�mera, roube filme ...

Invada ... Invada um laborat�rio e o fa�a.

Est� tudo bem.

D� uma mordida aqui.

Acho que n�o comerei as solas, porque est�o muito pegajosas.

Quando se come um frango, deixam-se os ossos.

N�o est� mal, tem um agrad�vel sabor de alho.

Comerei o outro sapato quando a 20th Century Fox ou a Columbia ...

... ou a Warner Brothers distribuir o filme.

Assim, vamos conservar o outro.

N�o se sabe a posi��o dos EUA depois do Discurso Sobre o Estado da Uni�o.

Mas depois de ver este filme, voc� ir� conhecer.

"N�o � um filme sobre cemit�rios de bichos de estima��o."

� um filme sobre uma fam�lia por tr�s disso ...

... com todos seus fracassos, todos seus sonhos, todos seus dramas.

� o �nico filme aut�ntico sobre o amor, as emo��es e o capitalismo tardio ...

... e talvez seja o �nico filme aut�ntico sobre o vazio emocional e sobre a perda ...

... a distor��o dos sentimentos, a degenera��o dos sentimentos.

� um filme muito, muito triste e muito puro, � um filme muito puro e muito maduro.

Esse cara veio e fez o seu primeiro filme ...

... e � pr�prio de um cineasta muito maduro ...

... e eu realmente gosto muito.

Cena exclu�da de "Portais do C�u" Um filme de Errol Morris

O trof�u mais importante que ganhei foi na Calif�rnia.

Recebi um colar de notas de 1 d�lar. Havia cerca de 600 d�lares colados ali.

N�o tinha id�ia de que havia ganhado.

Eu tinha vendido mais ap�lices naquele per�odo que qualquer outro ...

... e representavam cada ap�lice com um d�lar, por isso ganhei um �timo b�nus ...

... mas n�o podia andar com ele. N�o me atreveria a exp�-lo aqui.

Mas era um trof�u bonito. Levei 4 horas para retirar a fita de cada d�lar.

Gosto de Errol Morris. Conheci-o como um estudante ...

... que tinha visto alguns dos meus filmes.

E encorajei-o a fazer um filme porque ele tinha feito um monte de coisas.

Era violoncelista e desistiu, abandonou sua carreira como cientista ...

... e ele era escritor.

Mas tinha milhares e milhares de p�ginas do material mais incr�vel ...

... que eu tinha visto na minha vida.

Mas ele n�o tinha acabado seus livros, por isso eu lhe disse: "Voc� � um homem ...

... que deveria fazer filmes, e vai faz�-lo agora."

E ele disse: "Bem, n�o tenho dinheiro e ningu�m vai me dar nenhum."

E eu disse: "Dinheiro n�o faz filmes. Apenas fa�a, tome a iniciativa.

Eu vou comer meu sapato se voc� terminar este filme."

E agora chegou o momento.

Na verdade, estes s�o os sapatos que eu usava quando fiz a promessa a Errol.

Eu tinha de trazer estes sapatos. Poderia vir com t�nis lights de corrida ...

... mas isso n�o faria sentido, n�o gosto de covardes.

Bem, eu acho que dever�amos deixar Werner comer o resto do sapato em paz.

Est� ficando melhor ou pior?

Melhor.

- Rasgue essa parte ai. - Sim.

Werner, pode nos falar do uso social de seus filmes?

Qual � o valor dos filmes para a sociedade?

N�o fa�a perguntas que n�o est�o � sua altura.

Quem � a sociedade? Eu n�o sei.

Eu fico imaginando ...

... desde que estou em contato com o p�blico ...

... pergunto-me sobre o valor dos filmes.

E acho que... n�o sei, proporcionamos um "insight".

N�o mudam o pensamento das pessoas, n�o originam revolu��es, n�o � isso ...

... mas os filmes podem mudar nossa perspectiva das coisas,

... e em �ltima inst�ncia, a longo prazo ...

... podem ser valiosos, mas t�m muito de absurdo envolvido tamb�m.

Como voc� pode ver, eu me tornei um palha�o.

E isso acontece com todo mundo. Veja Orson Welles ou veja ...

at� mesmo pessoas como Truffaut tranformaram-se em palha�os.

Seria em raz�o da publicidade?

N�o, � porque o que fazemos como cineastas � imaterial ...

... � s� uma proje��o de luz, e fazer isso toda a sua vida ...

... converter-lo-� num palha�o, e � quase um processo inevit�vel.

Sinto o mesmo sobre a fotografia.

Sim, se parece um pouco com isso. � um trabalho de ilusionista.

E � embara�oso ser cineasta e sentar aqui assim, quero dizer ...

... gra�as a Deus n�o tenho que sentar aqui por um de meus filmes ...

... estou sentado aqui por um filme feito por um amigo.

O dia depois de comer o sapato.

Isso nos d� uma �tica das imagens.

N�o temos �tica das imagens, nossa civiliza��o n�o possui �tica das imagens.

Acho que a nossa civiliza��o est� condenada, morrer� como os dinossauros ...

... se n�o desenvolver uma �tica da linguagem ou uma �tica das imagens.

Trata-se de uma situa��o dram�tica.

Por exemplo, descobrimos que os s�rios problemas enfrentados pela civiliza��o ...

... como a energia, o meio ambiente, o poder nuclear, a superpopula��o ...

... mas geralmente n�o compreendemos que um problema igualmente grande ...

... � a falta de imagens adequadas. E � nisso que estou trabalhando,

uma nova gram�tica das imagens.

Errol trouxe um bom exemplo. Ele � um ponto de refer�ncia agora ...

... e estou orgulhoso por isso.

Estou orgulhoso por ele e orgulhoso por mim,

que o empurrei um pouco para isso.

Ent�o, comer um sapato � um ato est�pido, mas valeu a pena.

Acho que de vez em quando temos de ser est�pidos o bastante para fazer coisas assim.

Mais sapatos, mais botas, mais alho.

Legendas portugu�s-Brasil: Pedro Miranda

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