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Original subtitles

Era uma coisa que n�o acontecia quase nunca.

Duas ou tr�s vezes ao ano.

E aquela deve ter sido exatamente a terceira.

Em vez de pegar o carro na garagem, fui at� a pra�a e peguei o �nibus.

Pare, motorista! Uma mulher quer subir.

Notas de 500 liras n�o funcionam.

Ponha uma moeda de 100 liras.

Ah!...tenho s� esta.

Tome.

Obrigada.

Quer que...

Est� bem.

Mas, depois...

Como fa�o para devolver-lhe?

S�o apenas 100 liras...

Obrigada.

Sim, mas considero como um empr�stimo.

Sim, sim.

Obrigada.

Era uma ter�a-feira, dia de mercado na pra�a grande.

Havia um pouco de neblina...

A primeira neblina daquele inverno terr�vel.

� voc�, Nino?

- Ol�. - O que tem nesse embrulho?

O que voc� comprou? Outra vez mostarda?

Sim, mostarda.

Acredita que lhe faz bem toda essa mostarda?

O que acha que me causa a mostarda?

Domingo passado, disse o Doutor,

Voc� n�o sabe como se metabolizam os alimentos.

O �lcool, por exemplo...

se transforma em gordura

e com a alimenta��o errada que usamos

A gente se lamenta porque...

Eu n�o me lamento...

porque trazem infarto, �lcera, reumatismo...

Vamos, aqui h� um marido em forma...

jovem e belo como o sol.

Sim, sim, quero ver quando tiver...

Sabe quem far� a palestra de domingo?

Sim, Monsenhor Ditroti.

Outra vez ele?

Mas, ele n�o fala h� mais de dois meses.

Ah! sim. Creio que menos.

E qual � o tema?

Os exerc�cios espirituais de Ignacio de Loyola.

Ah, bem interesante.

Tudo bem.

Eis a mostarda para o guloso...

Com que quer com�-la?

- Ofendi-lhe? - Sim.

Deveria estar mais ofendido. Voc� atende?

N�o. Pode atender. Deve ser para voc�, certamente.

Al�!

Ol� Loredana, Sim.

Bom este queijo. De onde �?

De Medallani.

Ainda deve ser para voc�...

N�o! Basta! Se for para mim, diga que n�o estou.

Se v�o telefonar-me a toda hora do dia e da noite...

Ent�o, voc� n�o est� para ningu�m?

Para ningu�m!

Nem para o Monsenhor?

Nem para ele.

Al�!

� o Dr. Nino Monti?

Sim, sou eu. Quem fala?

Sou a do �nibus.

Do �nibus?

Sim, lembra de mim? N�o tinha as 100 liras da passagem e...

Sim, recordo-me muito bem.

Diga-me, como fa�o para lhe devolv�-las?

Voc� est� brincando comigo?

Verdadeiramente, Nino...

voc� n�o me reconheceu?

Perdoe-me ...

Estou t�o diferente...

Ou�a, senhorita...

Sou Nino Monti, Conselheiro Comercial.

Talvez voc�...

Sou Ana...

Ana o que?

Ana Brigatti.

Sei que estou diferente do tempo em que n�s...

Mas, voc� n�o.

Imediatamente o reconheci.

Voc� quase n�o mudou.

Ana...

Estou surpresa!

Nino, quem �?

Estou... muito contente por hav�-la visto.

Nino, Nino.

E as 100 liras?

Poder� devolver-me na pr�xima vez. N�o se preocupe.

Sim, na pr�xima vez que nos vermos...

Posso saber quem era?

Ah!, Era uma cliente...

Conheci-a quando da venda de uma casa...

Disse-lhe para procurar-me amanh�, no escrit�rio.

Estas chamadas na hora do jantar...

Francamente, voc� se esqueceu de mim

e tamb�m das pastas.

N�o se tem um pouco de paz nem para jantar!

Ah! A prop�sito, Esta manh� me encontrei com a Cose...

Em uma esp�cie de parque ambulante.

No c�rculo de debates sobre os problemas nas escolas.

Ela teve a coragem de dizer-me que

n�o entende essas coisas porque n�o tem filhos.

Compreende? Como se n�o ter filhos a impedisse de

entender os problemas dos j�vens...

N�o sei por que minhas amigas me invejam...

por ter me casado com um homem mais jovem que eu.

Sim, Loredana quer concorrer � presid�ncia...

Prepotente! E ao se eleger poder� fazer tudo o que quiser e

como as coisas v�o... Gra�as a Deus

n�o me submeto �s ordens de ningu�m.

Como?

Sim, Loredana � a �ltima a chegar ao nosso c�rculo...

E j� quer ditar regras.

Veja Nino, estou caindo de sono...

Quase, quase... vou para a cama.

Deixo tudo assim, porque amanh� vem a mulher e organiza tudo.

E voc�, o que vai fazer?

Acho que vou para a cama, tamb�m...

antes vou ao escrit�rio, pegar um livro.

E na minha lembran�a Ana...

estava sempre bela, como naquele tempo...

E gra�as �s lembran�as dela e das horas passadas juntos

tenho sido capaz de tocar Teresa com toque selv�tico

imerso num destino de esquecimento pleno de suor...

Excitava-me a lembran�a de Ana...

Mas, agora...

n�o ser� mais assim.

Agora que a vi mudada...

Velha, transformada...

Irreconhec�vel.

Bom dia, doutor.

Bom dia, Rita.

Novidades?

Est� na recep��o o Sr. Ralloniero.

Tem chamadas da C�mara de Com�rcio e da Intend�ncia de Finan�as.

Tem chamada tamb�m do Dr. Bianchi.

Anotei tudo na sua agenda.

Bom dia, doutor.

Bom dia.

Voc� est� muito p�lido. O que voc� sente?

Realmente n�o estou bem.

D�i o est�mago?

- N�o. Tenho um pouco de gastrite. - Ent�o, vai para casa.

Obrigado, doutor.

De nada.

Ralloniero, em um minuto estarei contigo.

Est� bem. Fique tranquilo.

Rita.

Sim.

Que moeda � aquela?

S�o 100 liras.

Sim, vejo que s�o de 100 liras. Mas, quem a deixou aqui?

Talvez a mulher da limpeza. Teria encontrado a moeda no ch�o e...

Sim.

Sim, certo.

- N�o chegou ningu�m esta manh�? - N�o, n�o... ningu�m.

- Fa�o entrar o senhor Ralloniero? - Sim, fa�a-o entrar.

N�o, n�o espere! Primeiro quero ver a correspond�ncia.

Vou eu atr�s contigo, assim entra a Teresa. N�o precisa gritar.

- Teresa, volte em breve. - Sim.

Boa palestra e cumprimente por mim o Monsenhor.

Est� bem. Tchau!

Chegou o trio da primavera.

Veja que chegaram as mulheres do Sagrado Cora��o.

Voc� n�o vai � confer�ncia do Monsenhor, naturalmente.

N�o, obrigado. N�o consigo digerir o Santo Ignacio.

Sei. Prefere sair com amigos, como Luciano, aquele playboy...

Vamos, Luciano viajou.

Ent�o, o que vai fazer? Ficar em casa... ir ao cinema?

N�o. Ficarei em casa. Lerei um pouco.

Tchau, homem solit�rio.

Diz ao Monsenhor que a palestra estava muito interessante...

mas que tive que sair antes do final.

Est� bem.

Tem me chegado ao ouvido...

uma voz t�mida e incerta...

que n�o � muito f�cil escutar.

Num domingo, em uma tarde chuvosa...

uma coisa que tinha um sabor estranho... irreal.

Senti crescer em mim um desejo de voltar l�...

Sim, de ver de novo aquela casa.

A sua casa.

Por onde eu n�o passava h� muito tempo.

Com um pouco de curiosidade pelo velho quarteir�o...

Deveria enfrentar aquela lembran�a...

Buscando o tempo perdido...

e n�o complicar as coisas.

Sempre me fizera sonhar essa quadra da rua estreita...

da Rua Luigi Porta

Com Ana, eu caminhava por essa rua silenciosa...

fedendo a urina nos cantos e cheirando a vinho, em frente a Tratoria.

Uma vez acompanhei-a � sua casa...

e pedi-lhe que me desse um beijo, aproveitando

que n�o nos via nem a m�e nem a zeladora...

Voc� procura algu�m?

N�o.

Nino.

Nino.

Ana.

Nino, � voc�?

Procurando-me? J� n�o moro aqui, h� muito tempo.

Voc� est� toda molhada...

Antes n�o houvesse me deixado molhar.

Perdoe-me.

Voc� veio pelas 100 liras?

Pelas 100 liras? O que diz?

De qualquer forma, aqui est�o. Devolvo-lhe.

Mas, como voc� est�?

Ah! Fa�o qualquer coisa para estar por perto.

Hoje fiquei esperando-o...

� por mim que voc� veio, verdade?

A rua est� como quando a percorr�amos todos os dias.

Era o nosso ref�gio. Lembra-se?

Seria lindo ter a chave daquela porta...

Entrar no jardim.

Sim, lembro-me, lembro-me, mas isto foi h� tanto tempo.

Passou muito tempo, sim.

Mas, acredita mesmo que existe o tempo?

O tempo?

Se existe?

O tempo que nos faz envelhecer...

que nos consome. Este, sim, existe.

Mas, dentro de mim, n�o estou envelhecida...

Sou aquela de antes...

a Ana de sempre.

Beija-me, Nino...

Beija-me...

Suplico-lhe, amor.

Nino, enfim voc� chegou. Venha.

O que aconteceu?

Uma coisa horr�vel.

Ressi!

Doutor... Doutor...

O que aconteceu?

Ressi, pobrezinho, foi testemunha

de um crime. De um crime! - De um crime?

Bem, acalme-se, bebe algo e depois me conta com calma.

Vamos! Coragem!

Eu ia � casa de um amigo. Pessoa muito respeit�vel.

Um advogado.

E a tr�s ou quatro casas antes da do meu amigo...

faz..., n�o sei.., faz uma hora,

passei diante de uma casa.

Olhei dentro. Assim, sem motivo.

E vi...

Vinha como uma b�bada...

E colocou o rosto contra o portal...

Tinha a garganta...

toda cortada.

A garganta cortada, daqui at� aqui.

Uma mulher com a garganta cortada...

Sim, sim. Havia sangue por todos os lados.

Depois...

caiu bem � minha frente.

Mas, onde ocorreu isto? Voc� n�o me disse.

N�o disse.

Na Rua Porta, esquina com Serco Lombano.

A Rua Porta, no Quarteir�o Velho.

- Conhece a Rua Porta? - Sim.

Parece-me a �nica coisa a fazer: ir � pol�cia e contar tudo.

Quer que eu o acompanhe?

- N�o. - Sim, coragem, vamos!

N�o, agrade�o-lhe, j� incomodei-lhe muito.

- Vamos. - E minha m�e! O que dir� minha m�e?

Telefonarei � sua m�e. Nino, acompanhe-o!

Obrigado. Ela � muito gentil.

Tenho medo!

De que?

Das perguntas que me far�o.

Voc� dir� a eles o que sabe, apenas. Vamos.

Perd�o, posso ir ao banheiro?

Sim, v�. Sabe onde �.

- Nino. - Sim?

- Quem � Ana? - Ana?

Veja. Uma Ana Brigatti enviou sauda��es, de Cortina D'Ampezzo.

Em 1963.

N�o � inacredit�vel?

Com raz�o falam mal dos correios. 20 anos de atraso!

� para se divulgar no jornal!

Certo.

Voc� estava sozinho ali, quando ocorreu o fato?

N�o havia ningu�m mais?

N�o, n�o, estava sozinho.

- Pensando bem... - O que �?

Pouco antes pareceu-me ver algu�m sair correndo daquela casa.

Um homem?

N�o vi bem, Chovia e havia um guarda-chuva aberto.

Um rapaz... uma mulher... Vestia uma capa branca.

- Bom dia, doutor. - Bom dia, Rita.

Dei uma olhada nos jornais.

Parece que foi o sobrinho que matou a velha.

Raecie telefonou. Acho que demorar� na pol�cia por...

Zeladora assassinada com um golpe de navalha.

O assassino agiu com f�ria selvagem. Suspeita-se de um jovem sobrinho.

Oh! Que dia, minha Rita. Que dia!

Doutor, cheguei. Bom dia.

Ent�o, como foi?

N�o imagina que perguntas! Indiscretas e mal-educadas.

Uma pergunta atr�s da outra, N�o me deixavam respirar.

Primeiro, o carabineiro, que foi muito am�vel...

Depois, o detetive.

Era um comiss�rio de Avelino. Apesar de ser da baixa It�lia...

foi muito gentil. Mas, os outros, verdadeiramente...

Mas, viu a foto que foi publicada? Pare�o um velho de 50 anos.

N�o. Voc� ficou muito bem.

Verdade?

Asseguro-lhe. O que sabe de novo?

Na verdade, est�o �s cegas. Por�m, suspeitam do sobrinho...

Est�o investigando v�rios ind�cios. Nada me disseram, naturalmente.

Tamb�m h� um fato importante.

Qual?

Encontraram um guarda-chuva aberto, na �rea do crime.

Era o primeiro domingo de novembro...

Era a data marcada para o jantar dos sobreviventes...

Como dizia Luciano, que organizava estes encontros peri�dicos.

S� restaram quatro, daquele curso do Liceu Hugo F�scolo.

O encontro, como sempre, era no "Vecchio Mondo".

- Bom dia, senhor Nino. - Ol�, M�rio, sou o primeiro?

O senhor Luciano est� l� dentro. Disse-me que esperava dois colegas.

Ol�, Luciano!

Nobre doutor! Como est� a presidente?

Bem, bem.

As mulheres v�o sempre bem. S�o os maridos os que sofrem.

N�o me afeta, porque sou solteiro.

Nada me faz chorar, nestes �ltimos tempos.

Ah!, enfim...

- Que tens de bom, envenenador? - "Ervet Campione". Gosta?

� res�duo de petr�leo.

N�o, � raro, senhor Luciano.

Sim, raro como o prefeito de Agrigento.

- Qual � o primeiro prato? - Risotto com r�.

Vai bem pelo risotto, ent�o.

- Eis o laborioso habitante do Condado! - Ol�, Nino!

O que n�o vai bem, no campo? Chove pouco ou muito?

"Chove" impostos.

Esperam o professor Arnaldi ou...

Sim, esperamos. Mas, comemoraremos de qualquer modo.

A prop�sito Nino. Disseram-me que viram voc� num �nibus.

Sim, em um �nibus. � in�til olhar-me com esses olhos espantados.

� verdade ou n�o?

O que lhe disseram, que economizo gasolina?

Boa resposta.

Eu respondi que algu�m do seu tipo, um importante empres�rio e cidad�o,

n�o se incomoda nem com a gasolina nem com 100 liras.

Fatias de presunto...

Viram o que aconteceu ontem?

No Duping.

O que �? Um cabar�?

Sim, mas n�o � como os do nosso tempo...

Recordam da "Porta d'Oro"?

Como n�o? Iamos l� todas as noites.

Pois sempre havia uma por��o de belas mulheres.

A prop�sito dos nossos tempos, sabem quem vi, parecida com uma m�mia?

Quem?

Ana Brigatti.

Lembra-se dela?

Qual Ana Brigatti? Uma bela jovem de olhos azuis, loira...

Sim... que voc� tamb�m assediou e que o recusou.

Voc� n�o a via desde ent�o? Sim.

Mas, como uma m�mia?

Era uma garota com...

uns peitos e uma bunda que eram o fim do mundo.

Mas, deveriam ver como est� agora.

N�o pude reconhec�-la.

Foi muito constrangedor.

Parecia uma velha: toda enrugada, p�lida, magra.

Al�m disto, vestida como...

Mas, o que? O que aconteceu?

Parece ter estado muito doente.

- Ol�, desculpem-me. - Ol�!

A cl�nica, n�o podia deix�-la.

Era um caso muito s�rio...

Tamb�m aqui fal�vamos de um caso muito s�rio.

Uma pobre mulher que fora noiva de Nino.

Como voc� disse que estava a Ana Brigatti?

Disse-lhes, pobrezinha... um desastre... irreconhec�vel.

Senti-me mal..

E pensar que era uma garota t�o bonita!

Qual Ana Brigatti?

A que era minha noiva, aquela de olhos azuis, cabelos loiros.

Sim, mas quando a viu? Faz quantos anos?

Como quantos anos? Encontrei-a outro dia, no �nibus.

Ana Brigatti?

Ana Brigatti est� morta!

Morta?

Com raz�o lhe pareceu uma m�mia... era um defunto.

Vamos Maur�cio, est� seguro do que diz?

Penso que sim. Fui eu quem fez o diagn�stico.

Seu marido, o Conde Zighi di Sondrio, meu amigo...

Trouxe sua mulher porque...

Mas, entendeu qual Ana? Brigatti.

Sim, aquela que era sua noiva. Aquela que vivia na Rua Porta...

que ia sempre ao rio. Como n�o lembrar-me dela?

Depois, casou-se em Sondrio...

Escute, Nino. Est� certo que era ela, ou algu�m semelhante?

N�o sei. Certamente seria uma que se parecia com ela.

Melhor que se lembre dela como ela era.

Como era outrora.

Certo, voc� tem raz�o.

N�o pense mais, Nino. Come... bebe...

Vamos rapazes, viemos para nos divertirmos, n�o?

M�rio, anima o restaurante.

Nino,

Por que n�o conta tudo?

Tudo o que?

N�o sei. O que seja. V�-se bem que algo o preocupa.

Coisas do trabalho? N�o. Est� tudo bem. Dorme tranquila.

Viu, doutor, uma carta do suposto assassino?

Qual assassino? M�rio Luqui, o sobrinho da zeladora assassinada.

O que a pol�cia est� procurando.

Escute-me, voc� n�o tem o que fazer no escrit�rio,

al�m de se preocupar com este crime?

Tem raz�o, desculpe-me.

Est� bem, leia.

O suposto monstro da Rua Porta escreve ao nosso jornal:

Este � o t�tulo.

Os jornais t�m escrito muitas coisas sobre mim que n�o s�o verdade.

Porque a verdade � outra e conhe�o-a muito bem.

Minha tia era uma mulher insens�vel, mas n�o merecia morrer assim.

N�o me apresentei � pol�cia porque na It�lia se sabe

quando se entra na delegacia, mas n�o quando se sai.

Que desaforado, mas ele tem raz�o.

Quando tiver decidido voltarei e explicarei tudo.

Darei minha vers�o, que � a verdadeira, assustadora e inacredit�vel.

Mas, h� uma pessoa que conheceu a verdade e talvez possa ajudar-me.

O que pensa, doutor?

O que voc� quer ouvir? N�o sei nada a respeito.

Ent�o, h� novidades sobre o crime?

Qual crime?

O da zeladora assassinada.

Ah sim, est�o procurando o sobrinho,

porque apesar da carta de explica��o, parece ser o assassino.

Mas, qual teria sido o motivo?

Quem sabe? Podem ser tantos os motivos.

Certo � que o crime foi atroz.

Raiva, �dio, enfurecimento.

E... h� outros suspeitos?

N�o, por enquanto n�o.

Havia um guarda-chuva que parecia uma pista.

Um guarda-chuva?

Sim, aberto... bem no local do crime.

Mas, n�o acrescentou nada.

S� se apurou que foi vendido em Mil�o, h� 3 ou 4 anos.

Por outro lado, para complicar mais...

tempos atr�s ela realizava abortos clandestinos.

Mas, agora era uma velha.

- Desculpe-me. - � vontade.

Boa cantora. Mas, n�o deveria descuidar-se da conversa.

De fato, est� organizando um recital...

de Brani Colodel, grande dramaturgo e grande crist�o.

H� um livreto sobre Colodel que gostaria tanto que voc� lesse, Teresa.

E gostaria de ler. Quem � o autor?

Eu n�o sabia. Certo que o lerei.

O risotto, chegou o risotto.

- J� cumprimentou o Monsenhor? - Sim, sim.

Todos gostaram do concerto. Temos recebido muitos elogios.

- Traga-me um pouco de risotto? - O que?

Nino, pedi o risotto Poderia trazer-me um prato...

antes que acabe. - Sim, � claro.

Meu Deus! Ultimamente voc� est� sempre distra�do...

nervoso, tenso. O que est� acontecendo?

Nada. Absolutamente nada.

- Algu�m aceita? - Obrigada.

- E voc�, Nino? - N�o, obrigado.

- Um pouco de risotto, Monsenhor? - Agradecido, meu secret�rio j� vai trazer-me.

Nino, � voc�, n�o? Nino Monti?

Boa noite, Dom Gaspare. Quanto tempo sem nos vermos.

O que voc� faz? Onde vive?

Bom, o usual, o trabalho.

E voc�, continua mergulhado nos seus livros?

Eh, sim, sempre, sempre mais...

Estou terminando uma biografia, de Nicolas Flamel.

O grande alquimista.

Estou tamb�m traduzindo Coleridge. Conhece a Balada do Velho Marinheiro?

N�o.

Rosa eram seus l�bios, Atrevido era seu olhar...

e seus cachos loiros como o ouro...

Branca era sua pele como a de uma leprosa...

Ela reunia vida e morte...

Que faz gelar o sangue do homem.

Eu a vi, acredita?

O que voc� viu?

Esta p�lida dama da qual fala Coleridge.

Pequena, magra, com a pele arruinada.

Uma morta... em suma.

Nino Monti, venha visitar-me quando voc� voltar!

Voltar de onde? N�o devo partir.

- Um pouco de risotto, Dom Gaspare? - Grato.

- Nino. - Sim.

Quero falar-lhe sobre a infeliz Loredana.

Mas, infeliz por qu�?

Ela teme estar enferma.

Gravemente enferma.

Mas, ela s� confia em seu velho m�dico e pediu-me para acompanh�-la,

porque seu m�dico n�o mora aqui em Pavia.

E onde mora?

Em Sondrio.

Em Sondrio?

Sim, � longe e n�o � uma viagem confort�vel.

Nino, desagradaria a voc� levar-nos?

Mas, n�o podem tomar um taxi?

Voc� brinca! Um taxi daqui a Sondrio?

- Est� bem, vou acompanh�-las. - Obrigada.

Loredana, como est� passando?

Bem, obrigada.

Chegando a Sondrio darei um telefonema.

Pedirei desculpas a ele. N�o tive o prazer de conhec�-lo...

Falo com o Conde Zighi? O marido de...

Sou um amigo do Professor Arnaldi... Se eu puder ver-lhe.

Voc� � o marido de... ou o vi�vo de...

Preciso falar-lhe, porque t�m acontecido...

certos fatos misteriosos. N�o, voc� n�o me conhece.

Eu conhecia bem sua esposa, Ana. Ela n�o falou sobre mim?

Oh sim, n�s nos am�vamos, em certa �poca, muito mesmo.

E confesso que ainda a amo. Est� viva a Ana?

Est� muito doente? Diga a verdade, est� morta?

Quantos carros! Terei que esperar muito.

- Vou dar uma volta, talvez. - Sim, mas n�o muito demorada.

N�o, digamos uma hora.

Caf�, por favor.

- Desculpe-me, h� um telefone? - Ali..

- Al�! � da casa do Conde Zighi? - Sim, quem fala?

- Posso falar com o Conde? - N�o est� em casa. Quem fala?

N�o, n�o me conhece... Era para... N�o tem import�ncia.

Como venho de Pavia... Chamo-me Monti, Giovanni Monti.

- Nino! � voc�? - Sou eu, Ana. Ana.

- Ah!, ent�o... - Nino, isto sim � uma surpresa.

O que faz em Sondrio? Temos que nos ver imediatamente.

Sim, bem, mas diga-me onde?

N�o me diga que est� aqui a trabalho.

N�o. Deixe tudo e venha encontrar-me.

- Venha ver-me. - Sim.

Depois de tanto tempo! Dou-lhe o endere�o.

- Sim. - Onde voc� est� agora?

Estou em um bar.

Desculpe-me.

Uma caneta.

Agora, sim. Encontrei-a. Diga-me.

Com licen�a.

Nino.

Finalmente!

Voc� est� linda!

T�o linda como antes!

O que voc� diz?

Estou cheia de cabelos brancos.

Mas, n�o os vejo. Talvez haja alguns, mas ficam-lhe bem.

Tamb�m voc� est� bem. Quase nenhuma mudan�a.

S� um pouco.

Mas, que linda id�ia voc� teve ao ligar-me, Nino.

Era hora de saber se estava vivo, n�o?

Certo, faz muito tempo que quero vir v�-la.

Mas, diga-me, o que voc� veio fazer em Sondrio?

Bem...

N�o, n�o diz nada. Vou fingir que veio especialmente por mim...

Em um certo sentido � verdade. Aproveitei a primeira oportunidade.

Ana... Eu n�o sabia quanto a amava!

Sua lembran�a me persegue.

E a lembran�a do nosso grande amor.

N�o, n�o zombe...

Nino, Nino, agora sou uma mulher casada.

Ent�o, voc� deve se comportar bem. Sim.

Tamb�m est� casado? Sim, estou casado.

Eu a conhe�o?

N�o, n�o creio. Ela chegou a Pavia pouco depois que voc� partiu.

Foi bom para mim, naquele momento encontr�-la...

Ajudou-me...

E eu disse para mim: assim come�o uma nova vida.

E assim poder esquecer-lhe.

Ent�o, casou-se por minha culpa, ou por m�rito meu, se preferir.

Acredit�vamos que construir�amos algo s�lido. Uma fam�lia.

Os filhos n�o chegaram.

Os anos se passaram e agora vivemos como dois velhos amigos.

Oh! meu Deus. Isto est� beirando o pat�tico.

Sim, voc� tem raz�o.

Falemos de voc�.

Est� feliz com seu marido?

Ele me quer bem.

� um homem muito s�rio... afetuoso tamb�m.

D�-me tudo o que quero.

Uma vida tranquila... provinciana.

Tens uma casa muito bonita. Importante.

- Venha, vou mostr�-la. - Sim.

Esta � a sala de jantar. Mas, quase nunca a usamos.

Durante o dia meu marido fica na cidade e, para jantar, saimos sempre.

Vem.

Este � o quarto do meu marido.

Dormimos em quartos separados, como v�.

Depois de anos de vida em comum deseja-se um pouco de liberdade.

- Este era meu quarto. - Era?

Sim, �. Disse, � meu quarto.

O banheiro e o quarto que deveria ter sido dos filhos.

Mas, n�o tivemos filhos e muito menos os desejamos.

- Posso oferecer-lhe uma bebida? - Sim, por que n�o?

Deve ter o licor de nozes das tias.

Sim, tem um pouco.

Quer?

Sim.

Obrigado.

E voc�, n�o bebe?

N�o.

- Sa�de! - Obrigada.

Voc� n�o sabe quantas vezes pensei em telefonar-lhe...

E estive a ponto de faz�-lo.

Mas, n�o telefonou. Por qu�?

Ah!

- Medo da esposinha. - N�o.

- Ou de que meu marido atendesse? - N�o, o que pensa?

E voc�, n�o voltou a Pavia.

Para que deveria voltar?

L� n�o tenho nem parentes nem amigos.

Para que ir?

Para ver-me, por exemplo.

- Para ver-lhe? - Sim.

�.. por que n�o?

Ana, � �timo hav�-la encontrado.

� t�o lindo!

N�o deveria...

Estes �ltimos dias t�m sido uma experi�ncia ruim...

N�o deveria contar isto, me envergonha...

tenho passado momentos terr�veis por sua causa.

Por minha causa?

Disseram-me coisas tremendas de voc�.

Que...

em s�ntese: que voc� havia morrido.

N�o pode ser.

E quem lhe deu essa bela not�cia?

Arnaldi, um m�dico amigo meu que disse hav�-la atendido.

Que evidentemente confundiu-a com outra pessoa.

Agora o enigma foi explicado, Voc� est� aqui.

Encontrei-a e n�o a deixo mais, nunca mais.

Morta! Isto sim que...

Ah! Agora compreendo por que no telefone...

voc� perguntou pelo meu marido.

Queria dar-lhe os p�sames.

As coisas que falam.

As pessoas falam qualquer coisa. Falam, falam sem saber.

E de que havia morrido?

De uma doen�a terr�vel.

Uma hist�ria divertida... para se morrer de rir.

E voc�, como reagiu quando lhe contaram?

Voc� pode imaginar.

Teria dito: ah! pobre e velha Ana Brigatti.

Ah, sim. Depois de tudo, talvez seja verdade, estou morta.

Tenho uma linda casa, sou a Condessa Zighi...

algum amigo de meu marido tenta seduzir-me...

algum jovem me prop�e um banho noturno no mar...

Os camionistas assoviam para mim nas ruas.

Mas, no fundo � verdade, absolutamente certo...

Mas, o que diz? O que � verdade?

Que o matrim�nio � uma tumba. E eu estou morta.

Ana. Ana querida...

N�o. N�o, Nino...

Nino, n�o me julgue mal. Eu n�o sou...

o tipo de mulher insatisfeita, que aproveita a aus�ncia

do marido, para engan�-lo.

Nunca o fiz, nunca.

Oh! que dias maravilhosos passamos juntos...

Quantos anos se passaram!

Pensei muito e ainda penso...

em nosso primeiro encontro, naquele velho barco de Porto Passo.

- Lembra-se? - Sim.

O rio, o barco e n�s, que �amos fazer amor...

atr�s dos arbustos.

Ana.

Voc� foi meu �nico amor, s� agora percebo...

Agora sei, a desejo...

N�o.

- Por que n�o quer? - N�o desta forma.

Imploro-lhe!

N�o.

Que estranho, Ana. Encontrarmo-nos depois de 20 anos...

Por que nosso amor terminou assim, sem motivo?

Terminou? N�o para mim.

Meu amor por voc� n�o morreu.

Eu sou uma mulher viva.

E as mulheres constroem como ningu�m, cultivam, conservam...

N�o me esqueci de tudo o que vivemos.

Recordo-me de tudo, especialmente de voc�...

Tenho tudo dentro de mim.

Sabe que tenho ainda suas cartas?

Antes se usava escrever...

N�o � como agora... um telefonema e pronto.

Suas cartas s�o bonitas, cheias de amor e de promessas.

Gosto tanto de rel�-las...

- E as minhas, est�o guardadas? - Sim. claro.

N�o sou organizado como voc�, mas as tenho. E tamb�m as fotos.

Mas, diga-me, Nino, depois de tantos anos,

o que o motivou a vir a Sondrio. � porque queria me ver?

Como j� lhe disse...

Ocorreu uma s�rie de fatos curiosos.

Encontrei uma mulher estranha, de aspecto doentio.

E me disse, imagina, que era voc�.

Pode descrev�-la melhor?

Sim.

Era um pouco menor que voc�.

Bem grisalha, de olhos tristes...

E uma capa de chuva grande, velha e suja.

Sei quem pode ser.

Uma velha amiga que se parecia comigo e que tinha ci�mes de mim.

Ela era feia e eu, ao contr�rio, era linda.

Ultimamente perdi-a de vista.

Soube que sofria de dist�rbios nervosos bastante graves.

Claro, � o que me disse o professor Francchineti, o psiquiatra.

Pobrezinha, como a encontrou?

A primeira vez, foi h� poucos dias, em um �nibus.

Dei-lhe dinheiro para a passagem.

100 liras.

Sim, 100 liras.

A segunda vez, estava diante da casa dela, justo na noite do crime.

O da zeladora assassinada?

Sim.

Li as �ltimas not�cias, parece que foi o sobrinho quem a matou.

Um certo M�rio...

Mario Luqui.

Conhe�o bem os dois... bastante antip�ticos.

Sabe que M�rio Luqui estava meio louco?

Ah! sim.

Tenho a impress�o de que jamais o encontrar�o.

De qualquer forma, o importante � que voc� est� aqui.

Que finalmente nos reencontramos.

Adeus, meu amor!. � melhor voc� ir agora.

Ver-nos-emos.

Sabe onde me agradaria v�-lo? Junto ao rio, como nos bons tempos.

Sim, ent�o lhe telefono?

N�o, n�o, n�o... � melhor eu lhe ligar.

Que arroubo! Tenha um pouco de paci�ncia.

Um dia, talvez n�o se lembre, mas...

no momento de deix�-la voc� me ofereceu os l�bios...

para o �ltimo beijo. Por�m, n�o percebi no momento.

Compreendi logo depois. Entretanto... voc� j� tinha ido.

N�o me parece importante.

N�o. Mas, aquele beijo que voc� queria...

e que me esqueci de dar-lhe...

� como uma d�vida que tenho com voc�.

Apesar de haver te dado muitos beijos depois

n�o fico em paz por aquele que me pediu e n�o lhe dei.

Agora que a fa�o rir,

prova que sou um pouco louco.

N�o rio, Nino. Mas, � fato que voc� � meio louco.

Voc� disse-me algo muito caro.

Quisera que aquele beijo voc� me desse junto ao rio.

Tentava controlar meu desejo de correr junto para ela.

Talvez esteja me olhando... O que fa�o? Viro-me?

Sinto-me leve... inebriado...

Com seu calor, seu perfume de mulher.

Como � poss�vel encontr�-la assim, depois de tantos anos.

Aquele beijo, aquelas car�cias pronta a fazer amor.

� quest�o de pouco tempo, talvez uma semana ou menos.

E como foi? Muito bem, n�o tenho nada, estou saud�vel.

Alegro-me. O m�dico disse para n�o me incomodar mais.

Sentem-se, senhoras.

Sabia que tudo estaria bem. Este � um grande dia!

E voc�, o que fez de bom, Nineto? N�o me colocou chifres, certo?

Hospital? Senhorita, me liga com o Profesor Arnaldi, por favor?

Sou Nino Monti, obrigado.

- Ol�, Nino. - Estou ligando porque

n�o posso esperar para lhe contar. Sabe com quem me

encontrei em Sondrio h� dois dias?

- Com quem? - Ana, Ana Brigatti.

A esposa do Conde Zighi, que voc� disse estar morta!

Est� viva e bonita como nunca.

Al�, voc� ouviu-me?

Sim, ouvi. Por�m, voc� tem certeza? Onde a viu?

N�o importa os detalhes. Vi-a e ponto.

Ent�o, n�o diz nada? Admite haver se equivocado?

Escute-me, Nino, � melhor falarmos pessoalmente.

E de que devemos falar? � tudo o que t�nhamos a dizer.

Quero consultar meus arquivos. Venha visitar-me mais tarde.

Com prazer, os hospitais s�o t�o alegres. At� mais tarde. Tchau.

Estava muito ansioso pelo pr�ximo encontro com Ana.

Prometeu ligar-me, mas quando?

Passaram-se 3 dias.

Ent�o, decidi-me telefonar para ela.

Al�! Al�!

O que aconteceu?

- O Professor Arnaldi, um infarto. - Morreu? Sim.

Como aconteceu?

Eu estava aqui fora.

Ouvi um grito como... algu�m com falta de ar.

Um grito de medo.

- Como de medo? - �, caro Monti, quando chega o momento...

ningu�m escapa de um certo terror angustiante.

Bem vindo, meu filho, esperava-o.

Bom dia, Dom Gaspare.

Sou o �nico, no mundo, que descifrou as Cent�rias de Nostradamus.

Nostradamus, o bruxo.

Bruxo? Por qu�? Para as pessoas ignorantes

e para a Igreja.

N�o para os iniciados.

Tem raz�o, Dom Gaspare, sou um ignorante nesses assuntos...

Mas, justo por isto, noutra noite, quando me disse que eu devia partir...

Ah! ent�o � por isto que nosso Nino veio...

Porque quer saber, quer perguntar, tem medo.

Medo? N�o, n�o tenho medo.

O medo, o medo, os c�ticos s�o medrosos e os ignorantes...

A ignor�ncia conduz ao ceticismo, e � ingenuidade tamb�m...

Isto � certo.

O ing�nuo desconfia...

Mas, o astuto, ao contr�rio, cr�.

N�o vim interrog�-lo, Dom Gaspare. Vim fazer-lhe uma visita de amigo.

Amigo!

Est� aqui pela morte do Dr. Arnaldi.

Uma morte estranha, verdade?

Inquietou-lhe, assustou-lhe,

N�o! Doeu-me, isto sim.

Mas, assustado, n�o.

Quero apenas entender por que

fiz uma viagem, digamos, ao passado...

Quando me disse... Eu n�o sabia.

S�o muitas as coisas sobre a terra e no c�u, Hor�cio...

e quantas sua filosofia n�o poder� explicar!

Mas, estes mitos, estas lendas populares...

Como lhe interessam tanto?

Como padre voc� deve ter um conceito do al�m mais...

como dizer... mais alto.

Primeiramente, sou um padre renegado...

e mais, o al�m n�o � uma coisa t�o distante e indecifr�vel.

Est� aqui, entre n�s, caro Nino.

A morte � outra forma da vida...

Um dia tamb�m n�s a viveremos...

ou talvez j� a tenhamos vivido.

Veja!

Isto n�o � meu. Emprestou-me uma senhora que faz curiosos experimentos.

Com este equipamento registrou as vozes dos defuntos.

O qu�?

Sim, � um procedimento j� velho.

En 1961, um homem que deixou o gravador ligado no jardim...

durante a noite, para gravar o canto dos p�ssaros noturnos...

Pela manh�, constatou que havia gravado a voz de sua falecida m�e.

Mas, como � poss�vel?

Desde aquele momento este sistema se difundiu amplamente.

Escute.

Voc� sabe onde estou... de onde lhe falo.

Al�!... Al�!

Mas, quem �?

Aqui se ouve...

N�o, n�o atende.

Pode ser para mim. Deixei avisado que viria aqui.

Nino, n�o atende!

Al�! Al�!

Nino!

Ana, meu amor. Esperei tanto esta chamada...

Como v�, liguei-lhe. Devemos nos ver.

Certo, quando?

Amanh�.

Amanh�, sim.

Com quem voc� est� falando?

Onde?

No rio.

Sim, no rio est� bem?

Encontramo-nos na torre da ilha, por volta das 10 horas.

Mas, com quem est� falando?

Ana, se voc� soubesse quantas... Al�... al�!

N�o vai, Nino.

- Ol�! - Ol�!

Luisin. N�o se lembra de mim?

Oh! Senhor Nino, como vai?

Bem, bem. Faz muito tempo, verdade?

E.. ficamos velhos.

Voc� tem um barco? Quero dar um passeio.

Sim, tenho tr�s.

- Qual tomo? - Aquele l�.

Ei, voc� quer atravessar?

Nino.

Aonde est� me levando?

Adivinha. Ao �ltimo para�so. Lembra-se?

Hav�amos batizado-o assim.

Sim, com areia branca e um bom perfume de erva silvestre.

� l� que faz�amos amor.

N�s dois, neste barco. Como em um velho filme rom�ntico.

Como em uma foto congelada no tempo.

A foto de dois antigos amantes de passagem pela vida.

Mas, sempre unidos e sempre fi�is.

Fi�is?

Sim, com uma fidelidade que perdura no tempo.

Profunda, espiritual.

Sim, est� certo, mas...

Eu n�o falava disto. Pensava sobre um tempo atr�s...

Sobre M�rio Luqui...

M�rio Luqui.

Sim. Disse-me que o conhecia.

Assediou-me, sim, j� tinha dito.

Portanto...

Portanto, o qu�? Parece oportuno falar sobre isto?

Sim, voc� tem raz�o. Deixemos assim.

Contudo, quero falar.

Ele estava loucamente enamorado de mim...

e muito enciumado de voc�.

O que houve entre voc�s?

� algo muito remoto.

Sim, est� bem, concordo. N�o tem import�ncia.

N�o, melhor voc� saber a verdade. De uma vez e para sempre.

Talvez n�o nos vejamos mais.

Isto depende s� de voc�.

Mas, veja como de repente voc� mudou...

Voc� tornou-se fria, distante...

Ent�o, saiba, Nino, que foi por causa dele...

de M�rio Luqui, que abandonei voc�.

Como? Sua m�e mudou-se para Novara

e voc� sumiu, assim, de um dia para outro.

N�o foi uma mudan�a, foi uma fuga, lhe disse...

Voc� estava fugindo.

Sim, era uma fuga, mas era dele que eu fugia, n�o de voc�.

Ent�o, naquela noite era por ele que voc� chorava?

E eu acreditava que...

M�rio Luqui e sua tia

arruinaram minha vida.

Mas, explique-se Ana, explique-se melhor.

� justo que fossem castigados. Os dois mereciam.

N�o entendo nada. Castigar por qu�?

M�rio era... um tipo violento, vulgar...

que me violentava.

Que sujava tudo o que tocava, compreende?

Quis humilhar-me e engravidou-me.

Oh! Nino, voc� n�o podia saber. N�o podia contar-lhe.

E a velha, quando soube, arrastou-me at� a portaria...

e disse que me denunciaria que eu poderia ser presa...

e que ele nunca se casaria com uma...

uma puta como eu.

Depois a asquerosa fez o resto.

Buscou uma mulher que fazia abortos e me fez abortar.

Como obrigou-lhe? Evidentemente voc� permitiu?

Nino, h� certas pessoas que t�m um poder...

um poder sinistro...

ao qual n�o se pode resistir.

A este tipo de gente...

� que me submeti.

Eu sempre me submeti.

N�o espontaneamente, mas...

n�o podia me opor.

Mas, dentro de mim crescia

a raiva e preparava a vingan�a...

Sabe, h� certas coisas que nunca s�o esquecidas.

que n�o s�o perdoadas...

Por�m, os dois pagaram. Ela degolada...

e ele...

E ele?

Ele, desaparecido.

mas, pergunto: quem a matou, quem � o assassino?

Sim, � o que perguntam.

Bem, agora chega, n�o falemos mais disto.

N�o acreditava que voc� fosse capaz de tanto rancor,

de tanto �dio.

Sei odiar porque sei amar, sem limites.

Vamos parar aqui?

- Nino, encoste ali. - Est� bem.

Quero fazer amor.

- Nino. - Sim.

Olha-me, olha-me nos olhos.

- Voc� me deseja? - Sim, Ana.

Desejo.

Deseja-me tanto como eu o desejo?

Sim.

Nino.

Ana!

Ana!

- Aceita um caf�? - Sim, obrigado.

- Oficial, ent�o? - Nada.

- Aceita? - Obrigado.

Sr. Monti, a senhora residia aqui em Pavia?

- N�o, em Sondrio. - Mas, estava em Pavia.

N�o, veio diretamente de Sondrio.

Ela deixou o carro na torre da ilha, assim ela me disse.

Passamos por l� e n�o vimos nenhum carro.

- Agente, viu um carro na torre da ilha? - N�o, oficial.

- Posso usar o telefone? - Sim, a vontade.

Al�!. Teresa, sou eu, Nino.

Nino? Onde voc� est�? Parece longe.

Estou fora da cidade. E agora devo ir � Pol�cia.

- � Pol�cia? Mas... - Depois explico. Aconteceu...

depois explico.

- Algo grave? - Escute, fa�a-me um favor.

Telefone ao Luciano, encontre-o e conte tudo.

E fa�a isto com urg�ncia. Compreendeu?

Mas, Nino, o que aconteceu?

N�o posso explicar agora. Encontre Luciano e r�pido. Tchau.

Desculpe-me, sei que o incomodo, mas n�o sei como...

n�o sei onde deixei meu carro.

Ah!, nada, nada. Se n�o nos ajudamos entre amigos...

- E Teresa, o que disse? - J� sabe tudo.

Em uma cidade pequena as not�cias correm...

especialmente se s�o ruins.

Quem era?

Esquece.

Casada?

Sim.

S�o coisas que acontecem.

Eu realmente sempre evito as mulheres casadas...

para n�o ter problemas desse tipo.

Tire as botas porque elas sujam o tapete.

Penso que tomar� um banho. Na cozinha tem alguma coisa quente.

N�o tenho fome, obrigado.

Preparei sua cama no escrit�rio.

Sim, querida.

Obrigada, eu sei.

Voc� � muito am�vel. Tchau.

Posso pelo menos saber quem era?

� importante?

N�o, pois se n�o sei quem era, sei o que era.

De que est� falando?

Bem, voc� tem raz�o, n�o aconteceu nada...

Por que falar?

Com licen�a.

O que deseja?

Conde Zighi?

Sou eu.

Sou Nino Monti.

Desculpe-me ter entrado assim, mas encontrei a porta aberta...

Fique a vontade.

Vim de Pavia com o prop�sito...

Obrigado.

Para falar-lhe, ia telefonar, mas...

me senti na obriga��o de vir e explicar-lhe pessoalmente.

Foi uma fatalidade, uma conjun��o de fatos ruins...

Estou ainda desconcertado...

Mas, quero que saiba imediatamente...

e digo como cavalheiro...

Ana e eu �ramos apenas velhos amigos.

Tivemos um encontro inocente...

Apesar de...

no passado eu a amava muito, sim, muit�ssimo.

Quer�amos recordar momentos do passado...

Voc� dir� que isto n�o est� correto...

e com raz�o...

E por isto vim aqui me desculpar.

Fiz aquilo que... mas,

ela caiu assim, de repente. Desapareceu sob meus olhos.

Tudo num instante.

Desculpe, mas n�o compreendo.

O que n�o compreende?

O que voc� est� falando.

Mas, ent�o...

ent�o, voc� parece n�o estar informado...

n�o sabe que sua esposa, Ana,

se afogou ontem.

Se afogou... est� morta.

Sr. Monti! O que quer de mim?

Que diabos est� dizendo?

Eu... vim cumprir com meu dever... explicar-lhe que...

Minha esposa Ana morreu h� 3 anos.

Senhor Conde...

Ontem estive com Ana, em um barco.

� in�til esconder.

Eu a vi aqui, faz uma semana.

Retire-se!

Falei com ela aqui em sua casa!

V� embora!

Desculpe-me. Creio... voc� vive aqui?

Sou a camareira do Conde Zighi.

Acabo de falar com o Conde Zighi, porque queria...

O que voc� queria?

Faz muito tempo que voc� trabalha aqui?

12 anos.

Ent�o... Voc� conheceu a senhora Ana?

Pobre Condessa, claro que a conheci...

vivia aqui com ela.

E a Condessa morreu?

Morreu sim, h� 3 anos.

Eu tamb�m a conhecia.

Posso pedir-lhe um favor? � coisa de 10 ou 15 minutos.

Bom, est� bem.

Aquela l�, veja.

Pobrezinha...

Venho todas as semanas.

Troco as flores e limpo a l�pide.

Veja, veja como mudou, pobrezinha.

Esta � a �ltima foto, antes de morrer.

O mundo desabou!

A �gua, a terra... cada um por seu lado.

Estou arrasado.

Sim, sim, falhou-me o c�rebro? Ou n�o?

Eu estava sozinho no lago? Estava sozinho?

Andava de pijama sujo, comendo tangerina e biscoitos � beira lago?

Mas, n�o, n�o. Deve haver outra raz�o mais forte.

� preciso raciocinar, encontrar a explica��o deste absurdo.

H� um ponto obscuro com a v�tima do acidente.

A senhora afogada, cujo corpo...

ainda n�o foi encontrado.

Exato.

- Voc� conhecia a senhora? - Sim.

E disse que se chamava... Ana Brigatti Zighi.

Conhec�amo-nos h� 20 anos e...

e nos encontramos, por acaso, novamente...

Mas, o comissariado de Sondrio informa que deve haver um erro.

Eis aqui: Brigatti Ana etc, casada com Zighi etc,

morreu h� 3 anos.

De c�ncer, eu sei.

Como sabe?

Sr. Juiz, pensar� que...

que Nino Monti est� louco. Porque quem brinca com os mortos

� certo que n�o pode estar bem.

Imagino que n�o creia em fantasmas...

porque, como eu, teria recebido uma educa��o laica.

Ent�o, devo dizer-lhe toda a verdade,

nada mais que a verdade.

Sr. Juiz, a verdade � outra. Digo para o Juiz e ainda mais para o amigo.

Voc� � meu amigo ou n�o? Responde?

Claro.

Ent�o, entre homens, ou seja...

como amigo, poder� compreender-me.

Tenho mentido. Inventei tudo sobre a pobre mulher morta...

apenas encontrei-a na rodovia...

onde ficam aquelas senhoritas...

ela entrou no carro e era elegante, n�o parecia uma prostituta.

Disse-me que se chamava Ana...

Ent�o, quando aconrteceu a desgra�a...

ou melhor, o sinistro, como dizem... o sinistro,

eu, para n�o passar por "putaneiro",

disse que ela se chamava Ana Brigatti.

Compreende-me, verdade?

Pensa que terei problemas com a justi�a?

Voc� provocou uma grande confus�o e uma not�vel perda de tempo...

Sim. Somos homens e pecadores.

Teremos de consertar esta pequena confus�o...

Ser� necess�rio interrogar as senhoritas que andam pela �rea...

Al�! O que foi?

Ah!, muito bem. Onde?

Encontraram o corpo.

Como?

Encontraram o cad�ver no rio e est�o retirando-o.

- Vem comigo? - Sim, claro.

Vou primeiro.

Que se passa? N�o, nada.

Devo estar um pouco nervoso.

Encontraram o cad�ver. Bem, estou contente.

Bom dia, Sr. Juiz.

- Onde o encontraram? - Ali mesmo, atolado ali.

Vejamos.

Alberti.

- � um homem! - Sim senhor, � M�rio Luqui...

Seu documento est� indecifr�vel.

Est� na �gua h� pelo menos uma semana.

Uma semana? Mas como � poss�vel?

- Se h� apenas dois dias... - Como?

Nada.

Dizia que... nada.

Tudo normal, n�o? O que h� de estranho?

Ele estava morto e eu o vi. Tudo sob controle.

Tamb�m ela estava morta e eu a beijei.

Os fantasmas existem senhoras e senhores.

Voltam da morte e matam, porque s�o tamb�m vingativos.

Mas, � necess�rio perdoar. Piedade por eles e por n�s.

Piedade por quem ama.

Pergunto-me o que ter� passado nessa cabe�a aloucada...

degolar sua pobre tia e depois ir atirar-se no rio.

Seguramente sofria de uma paran�ia depressiva.

Escute-me, pare. Quero descer.

N�o, eu o levo at� sua casa.

N�o, n�o. Vou a p�, quero tomar um pouco de ar.

O que faz? Espere eu parar!

Voc� est� muito perturbado. Obrigado, Sr. Juiz, nos veremos.

Com licen�a.

Ana!

Com licen�a, vou descer.

Ana!

Ainda me seguindo, Nino. Voc� tem necessidade de ver-me

porque me amar�s sempre, eu sei.

Sim, � verdade.

Amei-a sempre e a amo ainda.

Mas, agora n�o � mais voc�.

N�o � mais voc�, Ana.

Voc� � uma pobre criatura que n�o encontra paz.

Que voltou s� para se vingar.

� voc� que tem me chamado.

Seu amor me atraiu novamente.

Eu me extraviara...

Encontrava-me na escurid�o, como um barco sem dire��o...

e voc� � a luz que me atrai, que me chama...

que me faz compreender tudo.

N�o... de minha parte h� s� amor, nada de �dio...

mas voc� ainda n�o aprendeu a perdoar.

Por enquanto estou aqui.

N�o consigo separar-me de voc�, n�o consigo lhe deixar.

Quisera afastar-me de voc� para sempre.

Quisera que me dissesse adeus Ana, eu a esquecerei...

desapare�a!

Est� bem. Agora lhe digo adeus, voc� desaparecer� e eu...

n�o a esquecerei.

N�o a esquecerei nunca, Ana.

Ent�o, nos separamos para sempre...

N�o quer dar-me um �ltimo beijo?

Ana!

Ana.

Nino!

Nino, estou de partida. Vou por uns dias � casa de mam�e...

Ser� melhor para n�s dois. Teresa.

Veja, caro senhor?

Tudo o que falam do al�m e do lado de c�, s�o s� hist�rias.

Porque somos sempre n�s.

Estamos vivos e estamos mortos, ao mesmo tempo.

N�o cr� em mim?

Eu sei, � dif�cil de explicar, mas, � assim.

Eu a conheci, a amei loucamente...

Experimentei horrores e paix�es.

E ela se foi...

desapareceu no rio, definitivamente...

Mas, � assim.

N�o, olha... Vou contar-lhe em segredo...

ela n�o desapareceu.

Est� sempre ao meu lado...

Porque ela me disse: voc� necessita de mim para viver...

Como... como da luz uma mariposa noturna...

Enquanto eu viver... ela viver�.

Compreende?

Porque o amor...

� a vida eterna.

� a vida e a morte.

Mas... ningu�m...

cr� em mim quando digo esta simples verdade.

Inclusive aqui, estas boas e estudiosas pessoas que nos orientam...

os professores...

eles me escutam, escrevem tamb�m...

mas... percebo muito bem pessoas que n�o acreditam em mim.

Eles...

Desculpe-me, mas agora devo ir-me, me chamam.

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