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A mentira � apenas outra forma de dizer a verdade.
Paravadin Kanvar Kharjappali
Os textos que acompanham as pr�ximas imagens
s�o excertos do di�rio de Vivian Barrett.
Finalmente, hoje consegui falar com o L�on ao telefone.
Antes de o fazer,
pus o batom de que ele tanto gosta.
Sinto a falta das m�os dele,
da minha cabe�a sobre o seu peito,
dos dedos dele a acariciar-me o cabelo,
do riso,
de ouvirmos discos juntos...
Acho que tiveram problemas na fronteira ontem,
mas ele n�o quis entrar em pormenores.
Ele disse-me que se sente muito mais seguro
quando est� sozinho a milhares de metros de altura
do que rodeado por pessoas e com os p�s assentes no ch�o.
Ele tamb�m me disse que por vezes,
quando voa,
sente-se como uma folha
que quer embater brutalmente contra o ch�o
mas que n�o consegue.
Quando o tio Paul nos deixou esta casa,
imaginei-nos imediatamente, o L�on e eu com cinco ou seis filhos,
todos a brincar felizes no jardim.
Na altura eu n�o sabia que n�o podia ter filhos.
N�o sabia que a minha barriga era como a de um homem,
t�o est�ril quanto a terra �rida.
O galho seco da �rvore.
Acabei de perceber que n�o escrevo desde setembro.
Tem sido muito dif�cil nos �ltimos nove meses, desde o acidente.
Mas o L�on est� a recuperar a pouco e pouco.
Ontem fomos fazer o check-up do L�on.
O problema de audi��o dele n�o tem solu��o.
Disseram-lhe que ele nunca mais vai poder pilotar um avi�o.
Foi a primeira vez que o vi a chorar.
Vamos para Fran�a na quinta.
Vamos visitar um amigo do L�on que � farmac�utico.
Ele quer falar com ele sobre uma proposta de neg�cio que tem em mente.
O Jacques prop�s-lhe sociedade numa empresa
que vai comercializar um medicamento apenas.
Uma p�lula que ser� feita de uma planta
que s� existe junto do vulc�o Popocatepetl.
Na ter�a fui ao s�t�o e encontrei uma caixa com coisas do tio Paul.
Fiquei impressionada com um livro vermelho sem t�tulo.
� de um certo Paravadin Kanvar Kharjappali
e foi publicado no M�xico em 1919.
Na primeira p�gina diz:
Deus tamb�m duvida da sua exist�ncia.
Comecei a l�-lo e estou fascinada.
Diz, por exemplo:
O problema de uma multid�o que grita � que � quase imposs�vel saber
se cada indiv�duo est� a gritar porque os restantes gritam
ou se gritariam tamb�m caso estivessem sozinhos.
O v�nculo mais pr�ximo que existe entre seres humanos
nasce do �dio que sentem por um inimigo comum.
� por isso que n�s, misantropos, gostamos uns aos outros.
Na guerra, o combatente mais radical de um dos lados
parece ignorar
que se tivesse nascido e sido criado do outro lado
ele seria igualmente radical,
mas em defesa do oposto.
Espanta-me tanto o facto de n�o passarmos o dia inteiro a matar-nos,
quanto o facto de n�o passarmos o dia inteiro a fazer amor.
Os primeiros ensaios cl�nicos correram bem.
Se passar nos testes finais,
Lovedyn come�ar� a ser vendido muito em breve.
O Dexamyl � um forte competidor,
mas o L�on acredita que podem venc�-los.
� a primeira vez que nos damos t�o bem desde o acidente.
Muito bem mesmo.
Quase toda a gente chegou
e a casa � perfeita.
A Olivia e o Peter chegaram hoje.
O Peter est� horrorizado com toda a ideia do Lovedyn.
N�o percebo porqu�.
Para mim a felicidade,
seja artificial, tempor�ria ou enganadora,
� sempre bem vinda.
Como diz Kharjappali,
vivemos em busca de formas que nos fa�am esquecer a nossa vulnerabilidade
se n�o for atrav�s de Lovedyn,
tequila, manteiga, um amante, Deus ou guerra.
Ontem tocamos os Assobiadores Antigos.
Perguntaram ao L�on se ele era ego�sta.
Ele disse que n�o.
Depois puseram-no perante o seguinte dilema:
Imagina-te que tu ou a Vivian
tinham de saltar de um penhasco
para salvar a humanidade.
Deixarias a Vivian saltar ou saltavas tu?
Ele disse:
Daria a m�o a Vivian e saltava com ela.
H� um momento quando estou a esquiar muito depressa na pista
em que sinto que n�o h� um fim.
Parece que eu podia continuar por ali abaixo sem parar
at� perder o mundo inteiro de vista.
� noite sinto algo de semelhante.
Mas por raz�es diferentes.
Tenho o mesmo pesadelo vezes e vezes sem conta.
Uma coruja gigante fixa-me da porta do quarto.
Procuro desesperadamente um lugar para me esconder,
mas o quarto est� completamente vazio.
Eu quero sair, mas a porta transforma-se numa parede.
De repente, apercebo-me que n�o tenho sa�da.
E ent�o acordo encharcada em suor.
Todos bebemos demais ontem
e a Rita contou-me uma hist�ria que me perturbou muito.
Parece que a Kati teve uma irm�, a Eva,
que morreu no bombardeamento de Schaffhausen.
Foi no dia 1 de Abril de 1944,
no anivers�rio da Rita.
Foi um erro.
Os Americanos pensaram que estavam a bombardear a Alemanha.
Podem ter havido Alem�es
que pensaram estar a bombardear a Am�rica.
O barco de L�on est� terminado.
Amanh� sa�mos pela primeira vez.
Eu n�o gosto muito do barco
Mas � a primeira vez que vejo o L�on t�o entusiasmado
como quando ele voava.
� maravilhoso v�-lo assim.
Vamos passar as f�rias todas no barco.
Passou uma semana e j� quero ir para casa.
L�on est� continuamente obcecado com o barco e a c�mara.
Estou farta que ele s� me olhe atrav�s da lente.
� como se ele estivesse a apontar-me uma arma
e fosse disparar contra mim a qualquer momento.
Pedi ao L�onque me ensinasse a conduzir o barco.
N�o s� gosto de conduzir,
como tamb�m n�o enjoo quando o fa�o.
O problema � que o L�on quase n�o me deixa faz�-lo.
Tamb�m me ensinou como funciona a c�mara.
Mas eu prefiro escrever.
Acho que filmar �
uma das melhores formas de auto-ilus�o.
� tamb�m uma luta desesperada contra a solid�o.
E uma bela forma de desaparecer
e se tornar um animal ou Deus.
Se filmas, n�o tens de viver.
Nem tens de dar explica��es.
Eu j� n�o sei
se filmamos o que fazemos
ou se fazemos o que fazemos porque o filmamos.
O mesmo acontece com o L�on quando filma e quando conduz.
Isso satisfaz um desejo sexual,
e ele sente que est� a desafiar a morte.
De acordo com Kharjappali, as propor��es de cada elemento
variam conforme a criatura e as suas circunst�ncias.
Vimos um belo porco preto junto ao mar hoje.
Bem, eu vi-o.
O L�on filmou-o.
Ele continua obcecado.
Esta noite, h� uma festa em toda a ilha.
O L�on vai filmar o fogo de art�ficio a partir do mar.
Ontem pela primeira vez beijei um homem que n�o o L�on.
Fui atra�da na sua dire��o sem pensar e sem for�a de vontade.
Ele � Mexicano, mas vive em Maiorca.
Chama-se Leonardo.
Bem, eles chamam-lhe Leo.
� seguro dizer o nome dele nos meus sonhos.
Sinto-me culpada por n�o me sentir culpada.
N�o posso evitar sentir-me feliz.
Devia sentir remorsos.
Devia mesmo.
Mas prefiro seguir o conselho de Kharjappali:
O desejo n�o deve ser desperdi�ado.
Enviei-lhe uma carta.
J� nem me lembro do que possa ter projectado.
Nem mem�rias nem desejo.
Is that death or is it freedom?
Quando voltarmos a casa, o L�on vai aos EUA por um m�s.
O Lovedyn foi bem recebido l�
e eles querem expandir os pontos de venda.
Eu disse ao L�on
que tenho medo de fazer uma viagem t�o longa de barco
e que irei depois de avi�o.
� mentira.
Vou a Maiorca ver o Leo.
S� penso que v�-lo de novo.
Hoje parto para Nova Iorque para ver o Leo.
Isto �, o L�on.
Foi dif�cil despedir-me do Leo.
Mas tamb�m sinto falta do L�on.
E agora o remorso � impar�vel, e cresce implac�vel por dentro.
Eu nunca entendi o desejo de subir ao topo de uma montanha,
mas sempre entendi o desejo de algu�m se afastar de todos.
A tenta��o de desaparecer sem deixar rasto.
Um dia o meu tio Paul disse � mulher
que ia dar uma voltinha
e estaria de volta para o jantar.
Voltou 40 anos mais tarde.
Quando a mulher abriu a porta e viu-o,
disse apenas isto:
O teu jantar arrefeceu.
Instru��es do L�on:
Primeiro finge que n�o me v�s.
Depois olha para mim e sorri.
Eu percebi ontem que nunca haver� ningu�m
que sabia absolutamente tudo sobre mim.
No in�cio, fiquei confusa,
depois senti uma esp�cie de al�vio
e por fim invadiu-me uma profunda ansiedade.
Depois pensei numa frase de Kharjappali que eu adoro:
A lucidez faz-te mergulhar na escurid�o absoluta.
Esta cidade maravilhosa n�o � uma ilha
mas podia ser uma.
As vendas de Lovedyn continuam a subir.
Quase n�o existem efeitos secund�rios
portanto o Dexamyl est� prestes a desaparecer.
Fico feliz pelo L�on.
� a primeira vez que o vejo em ac��o
e descubro qual � o seu trunfo quando vende.
Como um sedutor inseguro, ele recorre a lisonjas excessivas.
E lisonjear algu�m � a arma de defesa mais eficaz.
Acabei de encontrar uma nota que Leo tinha escondido na minha bolsa.
Quero esquecer toda a gente, incluindo eu pr�prio, menos tu.
O L�on conseguiu!
O Lovedyn ser� o patrocinador oficial do Mille Miglia deste ano.
O Leo prop�s-me que eu fosse viver com ele.
N�o durmo h� v�rias noites.
Penso que tomei uma decis�o
mas custa-me a aceit�-la.
Vou morar com o Leo depois do Le Mans.
Sobre as decis�es que tomamos, Kharjappali diz:
Evitar transgress�es por temor a deus
n�o demonstra bondade
mas cobardia.
Quanto ao sofrimento, ele diz:
A eternidade de um instante de dor
dura muito mais
do que a eternidade de um instante de prazer.
Tanto eu quanto o L�on estamos a tentar seguir normalmente.
Fazemos o poss�vel para evitar o assunto.
Mas estamos ambos devastados.
Em vez de dormir, especulo em v�o at� � exaust�o.
E se n�o tiv�ssemos, e se em vez de, e se naquele dia, e se aquele homem, e se
Isto tamb�m nos separou.
Pela primeira vez prefiro a liberdade do esquecimento
� escravid�o da mem�ria.
O L�on insiste para que eu fique com o Lovedyn,
mas eu n�o quero.
Sinto-me zangada e triste em igual medida.
E penso que a ira pode mover
tantas montanhas quanto a f�.
Mesmo que n�o as leve para lugar nenhum.
K. sobre a morte:
Quando confrontados com a morte
n�s, os curiosos, temos uma vantagem adicional.
E:
Se a natureza humana implicasse viver para sempre,
todos os nossos esfor�os concentrar-se-iam
em descobrir como morrer.
Hoje eu encontrei a �ltima carta de Leo numa gaveta.
Aquela que nunca me atrevi a abrir.
Continua por abrir. E na gaveta.
N�o consigo abri-la
nem deit�-la fora.
Pergunto-me como estar� ele.
Se ainda � vivo, se se lembra de mim.
N�o sei se me arrependo de n�o ter ido com ele.
Como seria a minha vida se ...?
O lago congelou.
Parece um sonho, um conto, uma pintura de Bruegel.
A �ltima vez que aconteceu foi em 1929.
No domingo abri uma caixa que n�o devia ter aberto.
Havia uma pulseira dentro,
igual � que o L�on me ofereceu no anivers�rio.
A Olivia veio c� esta manh� para levar uns documentos.
Trazia a pulseira.
Assim que ela saiu,
Espreitei para a gaveta e vi que estava vazia.
�s vezes procuro por sinais que sugiram se as coisas v�o correr bem ou n�o.
Sinais como n�meros, cores, formas, palavras ou a��es.
Por exemplo, hoje embarcamos no Queen Mary em Southampton, rumo a Nova Iorque.
E eu penso:
Se o primeiro n�mero que vir for �mpar, vai tudo correr bem.
A primeira coisa que vi foi o n�mero 10.
Depois digo a mim pr�pria s� pra ter certeza:
Se eu der nove passos sem ouvir um c�o a ladrar,
isso significar� que tudo vai correr bem
e chegaremos a Nova Iorque s�os e salvos.
E continuo assim at� conseguir enfiar um paralelo
num buraco redondo.
Um dia pensei:
Se quando olhar pela janela vir um p�ssaro a voar,
significa que todos os sinais sobre o neg�cio s�o mentira.
E olhei pela janela e um p�ssaro passou a voar.
Ainda n�o tive oportunidade de dizer ao L�on que sei da Olivia.
Mas sempre que me lembro
sinto que vomito fumo negro quando falo com ele.
E quero ser nova de novo e estar com o Leo.
Lugares no meio do nada.
Lugares sem cora��o.
Lugares que esquecemos enquanto ainda l� estamos.
Lugares que n�o respiram.
Lugares que n�o se movem.
Lugares que n�o cheiram, nem sangram, nem mordem, nem falam.
Lugares que podem passar por ti sem te tocar.
Apesar do sucesso do Lovedyn,
O L�on n�o recuperou totalmente do facto de j� n�o ser piloto.
E acho que nunca recuperar�.
Sempre que entramos no cockpit para dizer ol�,
os pilotos olham para n�s com algum p�nico.
Acho que estamos a come�ar a parecer tolinhos.
Na Ilha Molokai, um homem idoso morreu sem nunca ter visto o mar.
A ilha tem cerca de 600 km2.
Morar numa ilha t�o pequena e nunca ter visto o mar, fascina-me.
Acredito que todos vivamos em Molokai
rodeados de um mar que nunca vimos.
Porque � que � t�o dif�cil para mim dizer-lhe que ele me magoou?
Est� a devorar-me.
Eu sempre preferi desejar do que ser desejada.
E considero ambos igualmente f�teis.
Mas agora preciso que o L�on me deseje.
Parece que est� a tentar redimir-se pela sua falta de desejo
com uma aten��o excessiva.
E isso chateia-me.
Hoje lembrei-me do que � para Kharjappali a doce morte:
quando tudo se move � tua volta
e tu adormeces.
Pessoalmente, �s vezes, acontece-me o oposto:
Sou a �nica que se move,
e tudo � minha volta desaparece.
Em cada ilha h� algo de violento que eu aprecio.
Tive um sonho estranho esta noite.
Sonhei que sei que vou morrer no dia em que o Papa morrer.
Soube da sua morte em Veneza.
No in�cio, n�o quero saber.
Mas de repente ganho consci�ncia,
sinto-me aterrorizada
e embarco numa jornada para enganar a morte.
Subitamente, reparo que a morte se aproxima.
Acabando por encontrar-me.
A av� do Leo disse-lhe uma vez:
N�o conseguimos ver a morte
porque a morte est� sempre em movimento.
O telefone tocou h� uma hora atr�s.
Era o doutor Baumann.
Disse-me que o cancro est� num est�gio avan�ado
e que n�o h� nada a fazer.
Levou uma eternidade a dizer-me
que tenho dois ou tr�s meses de vida.
O L�on quis surpreender-me e trouxe-me a...
Maiorca.
Algo mexeu dentro de mim
e sinto-me incapaz de voltar a coloc�-lo no s�tio.
Tento amparar-me das mem�rias,
mas sinto as m�os a arder e devo largar.
J� n�o entendo nada � minha volta
e isso faz-me sentir desapego, longe de tudo e de todos.
Leviat�.
Assim que resolvo uma incerteza, surgem mais umas centenas.
O que me lembra do epit�fio de Kharjappali:
Obrigado por tudo, Senhor.
Mas n�o percebi nada.
Vivian Barrett morreu na Su�ca em 1969.
L�on Barrett morreu no M�xico em 2010.
Lovedyn foi retirado do mercado em 1971
quando se descobriu que era um placebo.
Em 1983, descobriu-se que os textos do Guru Kharjappali
eram pl�gios de excertos de obras de outros autores.
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