All language subtitles for The.Third.Lover.1962.1080p.BluRay.AAC.x264-SLiZOBEDLA-Portuguese

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Original subtitles

Eu usava o nome Albin Mercier, mas chamo-me André Mercier.

Sob o nome de Albin, assinava os meus artigos e livros.

Era escritor, mas tão menor que quase só eu sabia disso.

Não há muito tempo, estive na Alemanha, na Baviera, perto de Munique,

enviado por um modesto jornal parisiense.

Eu devia escrever artigos sobre a vida quotidiana na Alemanha,

nosso inimigo de ontem, nosso aliado de amanhã.

Pagavam-me mal, mas que importa?

Eu não podia queixar-me.

Ofereciam-me alojamento, mas eu pagava à mulher da limpeza.

Eles tinham-me provido.

- Uma cortina, seis guardanapos. - Três chávenas.

- Uma mesa, uma toalha de mesa… - Quatro cadeiras.

- Quatro pratos de sopa, seis pratos… - Um tacho, uma base…

- Três panelas, três panos da louça. - Uma colher de pau, uma taça…

- Seis pares de talheres. - Um ferro, um fogão.

- Uma chaleira. - Uma bacia, um frigorífico…

… um armário de cozinha…

Uma tábua do pão.

Não era sumptuoso, mas adequado.

Triste como a morte.

Quatro almofadas, um colchão.

- Uma colcha, uma mesa de cabeceira. - Dois cobertores.

Um candeeiro.

- Um naperon rendado, um cinzeiro. - E outra imagem de um santo.

Um cadeirão.

- Quatro lençóis. - Uma cadeira.

Duas cortinas duplas, duas cortinas de renda.

Um roupeiro com espelho.

Sentia-me amargo e contente.

Se bem que… mais amargo do que contente.

Passei os dois primeiros dias a deambular pela aldeia.

Era um microcosmos agradável,

alguns operários, agricultores, muitos proprietários.

Pessoas de Munique que vinham passar férias.

Belas casas de fachada aberta, para que os passantes as admirassem.

Eu sentia-me só.

Ninguém me olhava, nem falava comigo.

Tinha a impressão de estar num deserto.

Eu odiava aquelas casas.

Sentia-me um prisioneiro.

Eu disse que falava alemão para conseguir o trabalho,

mas não era verdade.

Eu não falava uma palavra.

Eu era deplorável.

Apenas uma coisa me atraía.

Era um belo muro que protegia a intimidade de um casal.

Descobri junto da minha empregada da limpeza

que o muro albergava o famoso Dr. Hartmann.

Hartmann! O mais brilhante escritor da sua geração,

a esperança da Nova Alemanha.

Aproximei-me para ver aquela ave rara.

Tens o meu chapéu?

Sim, querida, aqui tens!

Sim, foi. Caminhámos e cantámos.

Um palhaço.

Mas parecia ser simpático.

Perguntava-me como podia vir a conhecê-lo.

Enquanto isso, tinha de justificar o salário miserável.

Tudo me aborrecia, eu escrevia à toa.

A mulher da limpeza algaraviava as suas queixas.

Resmungava sem parar.

Faltava-lhe sempre algo para a cozinha e eu não percebia nada.

Tive de fazer de palhaço nas lojas.

Um diálogo de surdos interminável.

Até ao dia em que a sorte me sorriu.

Ela falava francês.

Ela era francesa.

Eu devia ter adivinhado, era a mulher do Hartmann.

Tive astúcia que chegue para me fazer convidar.

Ela chamava-se Hélène.

Um nome bonito.

Avisaram-me da sua presença, senhor…

Mercier, Albin Mercier. Como assim?

Todas as aldeias são parecidas.

A chegada de um forasteiro…

Pensei que ninguém reparara em mim.

Vá lá, o senhor foi observado.

- Só falamos do senhor. - Que honra!

Com licença.

Espere.

- Já está. - Magnífico!

Sabe, sou um grande admirador do seu marido.

É muito amável.

Estou certa que ele adorará conhecê-lo.

- Céus! Porquê? - Também escreve, não é?

Sim, como sabe? Não me diga que leu os meus livros.

Não li, mas estou certa que são excelentes.

Venha tomar café esta tarde.

Estou confuso.

Não esteja. Se o convido, é porque seria um prazer.

Se não quiser vir, pode recusar o convite.

Estou impressionado.

Para mim, seria um grande prazer…

- Uma honra? - Uma honra.

Não sei como lhe agradecer.

Às 14 horas?

- Posso deixá-la nalgum lugar? - Não, obrigada.

Gosto muito de caminhar. Adeus, até logo.

Eu conseguira.

Sem problemas, muito naturalmente, eu ia entrar na vida deles.

Olhar… ver.

Com naturalidade, fui a casa deles,

como uma visita habitual, um velho amigo.

Diverti-me imenso, dado que tive de improvisar.

Eu nunca lera um livro do Hartmann.

À primeira vista, a casa agradou-me.

Senti-me em casa. Achei tudo tranquilo e à vontade.

Era tudo de um gosto requintado.

Andréas Hartmann.

Li um dos seus livros. Muito interessante.

Tínhamos o mesmo nome,

mas o meu subterfúgio impedia-me de o confessar.

Com prazer, querido.

O André sugere tomar o café lá fora.

Muito bem!

Quanto mais eu estava com eles, mais à vontade eu ficava.

Tratavam-me como um velho amigo.

Isso quase me incomodou.

Ficas feliz por poderes falar francês melhor do que comigo?

Sim.

Ele fica feliz por eu poder falar francês consigo.

Ele não tem muito jeito.

- A sério? - Sim.

Terrível!

Obrigado.

Elsa, um instante!

Álcool, conhaque?

- Conhaque, por favor. - Traga-nos conhaque, por favor.

Um conhaque?

Eu adoraria, meu amor.

Conhaque…

Conhaque… conhaque!

Francês.

Espantava-me a capacidade magistral

daquele homem e daquela mulher de repartir as tarefas da conversa.

Um milagre da inteligência!

Tiravam partido de problemas linguísticos que se tornavam um jogo.

Completavam-se, sorriam constantemente,

felizes por viver, por viverem juntos naquela casa.

Por estarem ali, comigo, a falar de coisas que lhes interessavam.

Tratavam-me com uma enorme cortesia,

o que me dava o prazer de partir à descoberta deles.

Tinha ali uma imagem espantosa da felicidade,

tão rara e tão preciosa,

que ao meu próprio prazer se misturava sinuosamente um desconforto,

uma tensão de todo o meu ser.

Estou num ponto em que não sei que palavra há de seguir a anterior.

Mas o que importa é que seja útil à causa europeia.

Eu agradava-lhes, isso era certo.

O André pensa que é a melhor técnica para abordar tal tema.

Sim.

Despedimo-nos só no fim da tarde, ainda cheios de riso,

prometendo muitas mais visitas.

Mas uma catástrofe iria ensombrar aquele dia agradável.

A mulher da limpeza, aquela idiota…

Não teve o bom senso de desligar a água.

Tive de fazê-lo eu.

Ela só tinha que limpar agora.

Olá! Olá, Sr. Mercier.

- Tudo bem? - Sim.

Adeus!

Olá, Sr. Mercier.

Via-os de longe, um pouco todos os dias. Às vezes ela, às vezes ele.

Trocávamos algumas palavras amáveis.

Devo ter causado boa impressão, pois voltaram a convidar-me.

Para jantar, desta vez.

Apareci com um imponente ramo de flores, no limite do excessivo,

mas sem ser excessivo.

Elas são realmente magníficas.

Escolheu admiravelmente bem.

Devo confessar que não fui eu que as escolhi.

Não, mas escolheu quem as escolheu.

O André dir-lhe-á que é a mesma coisa.

Meu Deus, que teoria terrível!

Ele sabe.

E o que é que eu sei?

Hartmann decidira ser ele a cozinhar o jantar.

Sem dúvida para me mostrar que, apesar de famoso, era simples.

Mas eu achei-o ridículo.

A mesma coisa.

O jantar foi simples e delicioso.

E foi um pouco depois,

sentado num maravilhoso sofá da sala,

a degustar o seu delicioso conhaque,

que tive pela primeira vez o sentimento monstruoso

que iria guiar a minha vida a partir daquele momento.

Sou um falhado, talvez. É a minha opinião,

mas ninguém me pode acusar de me iludir a mim mesmo,

de viver de sonhos impossíveis, de mentir a mim próprio.

Desde o instante em que o senti, consegui analisar esse sentimento

com uma perfeita lucidez.

Não eram ciúmes, pois isso não entrava no meu coração,

nem qualquer sensação de injustiça ou amargura.

Era mais…

… uma espécie de inveja,

mas tão completa,

tão total, tão absoluta e imersiva,

que eu sabia que ela me levaria à violência.

Assim, eu percebi claramente

que o meu objetivo era penetrar no universo deste casal,

de me integrar nele, de me fixar nele como uma trepadeira na parede.

De me colocar, se necessário, no lugar daquele homem,

de tomar aquele lugar,

o do homem que tinha o mesmo nome que eu.

E de o tomar completamente,

inteiramente,

de preencher aquele lugar até aos mínimos recantos.

E sabia também que esse objetivo

era impossível de alcançar,

mas que usaria todas as minhas forças.

Decidi ali mesmo que iria intensificar o contacto,

vê-los continuamente, tornar-me indispensável.

Mas eu também tinha de pensar

em como me tornar indispensável num universo tão completo,

tão perfeito.

Tão perfeito e harmonioso,

que era essa a verdadeira razão da minha obsessão.

O Andréas derrotou-me nessa noite, sem dificuldades, claro.

Ele ficou radiante.

A partir de então, esforçava-me por vê-los regularmente.

Quando não me convidavam, era eu que os convidava.

É claro, não podia levá-los a lugares requintados.

Eles deviam saber que eu não era abastado.

E eu não fazia qualquer esforço para parecê-lo.

Eu era alegre, simples, franco,

honesto, de trato agradável…

Acho que nunca agi de forma tão simpática na vida.

Mas eu sofria horrivelmente,

pois fazia poucos progressos.

Eu via-os cada vez mais,

mas sentia que não tinha controlo sobre eles,

que eu mal tocava na superfície da felicidade deles.

E talvez por causa disso, tornei-me presa

de pequenas obsessões que eu tinha de satisfazer.

Por exemplo,

quis conhecer o primeiro piso, o quarto e a casa de banho deles.

Teria sido fácil pedir-lhes uma visita guiada.

Ter-mo-iam mostrado com prazer.

Mas eu quis visitá-lo em segredo. De certa forma, enganá-los…

- Eu tinha um estratagema… - Albin.

Parece pensativo… e triste.

- Desculpem. - É a chuva.

Nós somos mediterrânicos. A chuva deixa-nos tristes.

- Não estás triste, pois não? - Não.

A Alemanha é um país verde,

todo verde.

Nos mapas geográficos, é verde.

É graças à chuva…

… que há tanta verdura.

- É lindo. - Sim, peço desculpa.

Na verdade, gosto da chuva.

Sou tão desastrado!

Magoou-se!

É doido! Vou buscar um penso.

- Dói-lhe? - Não, pode continuar.

Vou buscar um lenço.

- É o vosso quarto? - Sim.

- É bonito, não é? - Deslumbrante.

Eu sorria, estava feliz,

porque eu conseguira aquilo que queria.

Através de um ardil.

Mas no dia seguinte, tive um choque.

Eu suspeitava de algo. Aproximei-me.

Era o que eu pensava.

Tinham visitas e não me convidaram.

Divertiam-se, prescindindo da minha presença.

Só me viam como uma distração.

Mercier, o escritor menor, era o bobo do grande autor,

do ilustre Andréas Hartmann.

Eu estava furioso.

Decidi ser um desmancha-prazeres.

Subtilmente, é claro.

Com tacto.

Albin Mercier.

Peter Ublik.

A minha mulher.

- O francês é o senhor? - Sim, senhora.

Vou desligar isto, com licença.

Pode ajudar-me?

Obrigada.

Olá, Albin!

Olá.

- Você escreve? - Sim.

A Nova Europa, é isso?

Sim, artigos e contos, pequenas histórias para a educação.

- O André deve estar horrorizado. - O André é hostil.

O André não é hostil, seu bode velho. Ele é realista.

Um dia destes, ele explica-lhe isso.

Decidimos ir nadar ao lago esta tarde.

Quando o André acabar o trabalho. A água está ótima.

Não me convence. A água teria de estar excelente.

Não lhe convence? Então beba um copo.

Isso, com prazer.

- Um uísque? - Sim, por favor.

- Vou buscá-lo. - Vai lá.

- Conhece a Chichka? - Sou eu.

É jugoslava.

Tem mais problemas do que você com as línguas.

Ela não percebe alemão e já não se lembra do jugoslavo.

Então, ela fala francês.

Faz muito sucesso com os nossos amigos americanos.

- Não é, Chichka? - Sim.

É verdade!

Eu estava surpreso, receberam-me bem.

Ela não se admirou por me ver aparecer sem convite.

Como se fosse normal, como se eu fosse sempre bem-vindo.

Perguntei-me se o André se portaria da mesma forma.

Vamos nadar.

We go swimming.

Nós vamos nadar.

Albin, entra no barco.

- Estás bem? - Sim, estou.

Um mergulho fantástico!

Meu pequeno Albin…

Meu querido pequeno Albin, não faça essa cara.

Albin, para francês, não é muito galante.

Fica parado no seu canto. Isso não é muito simpático.

"Suplico-vos, ó horas sublimes,

uma pausa no vosso voo temerário…

Suspendam o vosso curso…

Deixem-nos saborear os prazeres fugidios

…dos nossos

…dias mais felizes!"

- Venha lá, Albin! - Venha.

- Venha, pequeno Albin! - Não, obrigado.

A água está maravilhosa.

- Não. - Vá lá.

Venha lá, Albin.

Entre na água.

- Vá lá! - Albin.

- Sim! - Sim!

- Não, não quero. - Sim!

Sim!

Larguem-me!

Eu não sei…

Porque não o disse?

Naquele instante, odiei-o.

Considerei-o responsável por tudo.

Ele humilhara-me, e eu queria humilhá-lo a ele.

Congeminei uma pequena vingança à minha maneira.

Dar-lhe o troco na mesma moeda,

mas sem renunciar ao meu objetivo.

Queria reparar aquela afronta para bem do meu orgulho.

Fomos fazer um piquenique.

Hélène…

… por favor, vem cá, querida.

Quero que traduzas uma coisa.

O que foi? O Andréas quer falar comigo?

Sim, ele quer que eu traduza o que vai dizer.

Entendo.

Parece-me um tanto solene.

O André é sempre solene quando está sério.

Hélène, diz-lhe o seguinte, por favor.

Eu refleti muito na vida.

Ele refletiu muito na vida.

E acho que resolvi quase todos os meus problemas.

E ele pensa ter resolvido quase todos os seus problemas.

Sou um homem feliz.

Ele é feliz.

No outro dia, reparei que ele não é feliz.

E, no outro dia, ele reparou que você não é.

No outro dia, quando ele mergulhou involuntariamente no lago.

Sobre aquele mergulho…

Estou certo que ele tem uma memória terrível daquela experiência.

Ele pensa que você ficou com uma má recordação.

Mas gostaria de saber se ele percebeu…

Ele gostaria de saber…

… que a culpa foi dele.

Que a culpa foi sua.

Ele consegue ver isso?

Ele pergunta…

… se você tem noção disso?

Não tem importância.

É de uma importância fundamental.

Não se esquecem incidentes sem importância.

Ele compreende isso?

Não, estou certa que não compreende.

O que dizem?

Ele diz que é de enorme importância

e eu disse-lhe que não, que você não deve ter noção disso.

É claro que não.

Ele só tem de dizer que não sabe nadar.

Não teria acontecido.

Ele diz que só tinha de dizer que não sabia nadar.

Nesse caso, nada teria acontecido.

Mas ele não se atreveu a dizê-lo.

Mas você não se atreveu.

Ele queria ser como os outros.

Você quis ser como os outros.

Há povos inteiros corrompidos por tais complexos.

Há nações inteiras corrompidas assim.

Um complexo semelhante causa todas as atrocidades humanas.

É desse sentimento que nasce toda a torpeza humana.

Guerras, Albin… Há guerras causadas por isto.

Guerras, Albin… Há guerras que nascem desse sentimento.

Eles dizem que a guerra é absurda.

Dizem que a guerra é absurda.

Mas não é verdade.

Tudo tem uma causa, uma razão.

Tudo tem uma razão, um móbil.

A causa da guerra é não querer compreender quem somos.

A razão da guerra é não querer reconhecer o que somos.

É por isso que um besouro aprisionado voa precipitado contra a parede.

- É por isso que um besouro aprisionado… - Até se matar.

… se atira contra a parede.

Ele compreende agora?

- Você compreende? - Sim.

A guerra quebrou-me.

- A guerra quebrou-me. - No fim, estava vazio e exaurido.

Saí dela vazio.

- Absurdo. - Absurdo.

Durante 15 anos, bebi para esquecer a guerra.

Durante 15 anos, bebi para esquecer.

Trabalhava e ganhava dinheiro.

- Eu trabalhava… - Mas estava um trapo.

Mas fiquei um trapo, Albin.

As pessoas não reparavam. Fingiam não reparar.

Achavam-me um tipo estranho e absurdo.

Eles achavam-me absurdo e pitoresco.

Mas na verdade, eu não era nada.

- Na verdade, não era nada. - Um trapo.

- Um trapo! - A Hélène, ela salvou a minha vida.

Como sempre, é o amor que nos salva.

E agora somos uma unidade, entende?

Uma unidade extraordinária e inseparável.

O nosso amor é mais belo do que…

Mais belo do que qualquer coisa anterior.

Eu não pedi nada.

Ele foi obsceno, ao dizer-me aquilo.

Era muito óbvio. Ele não precisava de mo dizer.

Eu gosto de si.

Albin, você é um péssimo nadador, mas um excelente condutor.

Eles irritavam-me com a sua alegria e felicidade.

E ele chateava-me com as suas filosofias de romancista famoso.

Aquele dia fora um verdadeiro pesadelo.

Mas um pormenor animava-me o coração.

No dia seguinte, o Andréas ia partir para ir a conferências.

Conferências!

Sobre a arte de encontrar a felicidade, aposto.

De qualquer forma, convinha-me.

Sugeri passarmos a noite na cidade, num cabaré.

O Hartmann estava muito contente.

A seguir à sua lição de moral, vinha a de História.

Munique, o berço do Nazismo.

Destruída pela guerra, reconstruida como foi outrora.

Aquele homem era obcecado com a guerra, com Hitler, com o militarismo.

Era tão convincente que cheguei a ter medo daquela cidade.

No entanto, eu era indiferente às ideias dele.

As Noites de Paris.

Ao estilo de Munique, ali estava um espetáculo que dava que pensar.

Eu tinha de avançar e sentia

que aquela viagem me daria a ocasião perfeita.

Do bom amigo que era, de companhia muito estimada,

eu tinha de passar a ser íntimo.

Eu era tão simpático, tão gentil, tão solícito.

Mas eu podia sê-lo ainda mais.

Podia sê-lo infinitamente mais,

graças à minha amizade com a Hélène

e à minha admiração sincera e profunda pelo grande Andréas Hartmann.

Enquanto isso, nem aquele espetáculo os deixou pouco à vontade.

Eles não mostraram desdém, nem lhe foram indiferentes.

Estavam simplesmente ali.

Juntos, e tudo passava à margem deles.

E ocorreu-me a ideia de cometer um crime, nessa mesma noite.

Um crime… muito menor.

Contra o carro deles.

Sou um homem paciente.

Esperei que adormecessem. Depois, avancei.

- O que estás a fazer? - Não podemos fazer isto.

Não podemos fazer isto.

- Paul, já chega! - Como assim?

Larga-me. Seu porco!

- O quê, sou um porco? - Para. Vão ouvir-nos.

Eles ainda não voltaram.

Estou a dizer-te que voltaram!

Que disparate, não te preocupes. Vamos, dá-me a chave.

Paul, eles vão ouvir-nos.

Que disparate! Não vão nada.

Vês? Eles estão em casa.

Vou andando.

Adeus, minha querida. Até amanhã.

Paul!

Saí de lá como entrei e fui para a cama.

Eles deviam partir às 9 horas.

Eu estava a pé desde as 7 horas, para me acalmar.

O meu plano devia funcionar sem percalços.

E funcionou.

Eles tentaram ligar o carro.

Mas não conseguiram, claro.

O Andréas tentou levantar o capô, mas não encontrou nada.

Não era grande mecânico, o grandioso Hartmann.

Ele impacientava-se.

O que é isto? O motor não arranca. Eu tenho de…

Aproximei-me, como por acaso.

Que se passa?

Não conseguimos ligar o carro.

Esperem, eu ajudo-vos.

Tenho de mandar inspecionar o carro.

Ele vai perder o avião.

Não consigo ver o que é, mas receio que demore a arranjar.

Acho que é melhor ser eu a levá-lo.

Albin, é muito amável, mas…

Não, é um prazer para mim, em troca da vossa gentileza.

Não me deixe mais confusa do que já estou.

O Albin está a oferecer-se para te levar ao aeroporto.

Obrigado, Albin. Obrigado!

Ele estava a gostar daquilo, sentia que eu estava em dívida.

Vou levá-los ao carro.

É tarde!

Volto daqui a três dias. Amo-te. Pensa em mim!

Amo-te. Obrigado, Albin.

Deixo a minha mulher ao seu cuidado na minha ausência. Adeus.

O que disse?

Disse que me deixa ao seu cuidado.

Será isso prudente?

Ele acha que sim.

A minha pequena estreia no crime resultara numa vitória.

Mas eu estava algo incomodado.

Não sabia bem o que fazer.

Havia muito em jogo

e, porém, sentia-me cada vez mais confuso no interior.

Não obstante, a viagem de regresso foi muito agradável.

Tive a surpresa de descobrir uma Hélène muito diferente do que imaginava.

Esforçava-me por me deixar à vontade,

da forma mais encantadora e subtil possível.

Albin, acho-o fascinante.

- Fascinante? - Sim, acho-o misterioso.

Falei disso com o André na outra noite.

Por exemplo, perguntámo-nos qual seria a sua idade?

- A minha idade? - Sim, a sua idade.

Há alturas em que parece muito jovem,

e outras parece muito velho.

- A esse ponto? - Sim.

Então, que idade tem? Vinte ou quarenta?

Na verdade, tenho 30 anos.

Bem, não parece ter 30 anos.

Parece ter 20 ou 40.

Eu não queria dizer nada, mas afinal tenho 75 anos.

Hoje é o meu aniversário e convido-a para almoçar.

Com todo o prazer.

Graças a ela, tudo me parecia fácil.

Éramos velhos amigos.

Ofereci-me para reparar o carro

e dormi uma pequena sesta, à sombra do motor.

Albin, esses pés são seus?

Parece-me que são meus.

Já terminei.

Quer um chá?

Certamente, e acho que o mereço.

Acho que já funciona.

Fantástico! Eu não acreditava que conseguisse.

Você é cada vez mais misterioso.

Não há nada de misterioso.

Sempre tive uma queda para a mecânica.

Sentemo-nos.

Mas estou nojento.

O trabalho nunca nos desprimora.

Posso preparar-lhe um banho, mas depois.

Vamos comer primeiro.

Sujei a porcelana.

A porcelana não se suja.

Em todo o caso, essa chávena não é de porcelana.

Eu tomei banho

e vesti o roupão do Andréas, que ela gentilmente me oferecera.

Finalmente, eu tornara-me íntimo deles.

Jantámos em casa, quero dizer, na casa da Hélène.

Algo ligeiro, pois nenhum tinha muita fome.

Deixei-a cerca das 23 horas.

Ela voltou a agradecer e eu disse:

Até amanhã!

Voltei para casa muito lentamente.

Fora um bom dia.

Tão bom que a minha excitação me impedia de adormecer.

Por dormir tarde, acordei tarde e obriguei-me a trabalhar até às 12h.

Mas nessa manhã, a minha prosa, que quase nunca me agradava,

era de uma mediocridade sórdida.

Acabei por desistir e fui até lá.

O carro não estava lá, a Hélène não estava lá!

Ela foi a Munique?

- Munique? - Sim, foi a Munique.

Para fazer compras.

O dia todo.

O quê?

Fazer compras.

Presentes!

Que presentes?

Não percebo.

Vai dar uma curva.

Eu não percebia nada, estava furioso.

Ela não me falara de nada.

O que está a fazer? Quer comer?

Quer que eu coza uns ovos?

Cala-te, sua velhadas!

Até a Elsa se fora embora. A cabra divertia-se à grande!

Adeus.

Ela voltou cerca das 22 horas.

Os presentes não deviam pesar muito, ela vinha de mãos vazias.

Eu estava transtornado. Sentia que ela escondia algo,

que ela tinha um segredo.

Que ela não era quem parecia ser, que ela mentia.

Decidi bater à porta dela na manhã seguinte,

para esclarecer aquilo.

Cheguei a pensar em pedir-lhe explicações, mas isso seria ridículo.

Decidi ser amável, um pouco triste, um pouco diferente,

para intrigá-la.

Olá, Hélène.

Olá, Albin.

Ontem dormi até tarde.

Quando passei por cá, já tinha saído.

Sim, fui a Munique. Tinha coisas para fazer.

Foi graças a si que pude ir.

- Graças a mim? - Sim, arranjou o carro.

Sente-se aqui.

Não, obrigado, não vale a pena.

Você parece pensativo.

Sim, estou um pouco triste.

Há dias assim, em que o ar da montanha nos deixa abatidos.

Acontece-me muitas vezes.

Se não se importa, sento-me no chão.

É claro.

Não a deixei minimamente intrigada.

Ela simplesmente sintonizava.

Se eu estava alegre, ela também estava.

Quando eu me punha melancólico, ela tornava-se melancólica.

Um camaleão, uma máscara.

Ou melhor, uma sucessão de máscaras, todas elas convincentes.

Todas para deixar o interlocutor à vontade.

- Hélène. - Sim?

Desculpe se estou triste hoje.

É o ar da montanha.

Não, acho que não.

Acho que é a Hélène.

Eu? Porquê eu?

Você não fez nada. A culpa é toda minha.

É a minha forma de ser.

Não posso responsabilizá-la pelo que sou.

E o que é você?

Um pobre idiota, acho eu.

Porque diz isso?

Você é encantador.

Encantador…

Vou confessar-lhe uma coisa.

Eu sou pobre, nasci pobre.

Eu também.

O meu pai morreu quando eu era jovem.

- A minha mãe… - Albin, dê-me um cigarro.

Não está interessada.

Claro que estou, mas não quero que se torture.

Não me estou a torturar.

Pelo contrário.

A minha mãe esforçou-se para me criar, trabalhando duramente.

Eu era tudo para ela. E eu era feliz com ela.

Eu adorava-a.

Ela morreu?

Sim, ela morreu.

Mas não se trata disso.

Quando ela era viva, era um bom filho para ela.

Mas… como hei de dizer…

Eu não era bom aluno, entende?

Não lhe dava satisfação.

Contei-lhe a minha vida, esforçando-me para ser sincero.

Não por amor à sinceridade, mas porque precisava de convencê-la.

Pensei que se fosse sincero, ela mostraria a sua verdadeira face.

Sim, é verdade, menti muito pouco,

só naquilo que me pareceu útil.

Eu estava tão desamparado

e aquela mulher era tão boa, tão terna,

tão compreensiva.

Entende? Foi a minha primeira experiência amorosa.

Nunca conheci outra mulher, nem amei outra.

Só a minha mãe, essa mulher…

… e você.

Como se chamava ela?

Ela chamava-se…

… Marcelle.

Foi muito gentil em contar-me tudo isto.

Eu amo-a, Hélène, loucamente. Juro-lhe!

Só penso em você.

Albin, você é muito gentil

e eu gosto muito de si.

Não está muito calor.

Este vento é muito fresco.

Vamos entrar. Pode ser?

É claro.

Como é que ela conseguia?

Como é que uma mulher consegue rejeitar-nos tão gentilmente,

sem que tenhamos a possibilidade de sentir dor,

se a quiséssemos sentir u aparentar isso?

Eu nem sequer estava triste.

Era, como sempre com ela, harmonioso.

Cheguei a recear ter queimado as minhas hipóteses.

Mas não, no meu sofá, naquela sala,

redescobri a calma das coisas familiares,

fossem emprestadas ou roubadas.

Percebi que aquele incidente não me custara um centímetro de terreno.

Eu continuava a ser amigo dela, amigo deles.

Foi só um passo em falso.

Albin!

Como se diz "castanholas" em francês?

Castagnettes.

Castagnettes!

Eu estava algo preocupado por estar com o Hartmann.

Se ela lhe tivesse contado, e eu receava isso…

A minha situação era delicada.

Albin, gostou destes últimos três dias? Divertiu-se?

Não percebi.

Ele pergunta como passámos os últimos três dias.

Foi maravilhoso!

Só havia duas razões possíveis para aquele olhar.

Ou ela não queria que eu falasse da minha confissão da véspera…

Mas porque falaria eu disso?

Ou ela não queria que eu falasse da ausência dela no dia anterior.

E tive um instante de clareza.

Veio-me uma certeza que me encheu de raiva.

A Hélène enganava o marido.

O almoço está servido.

A felicidade, a harmonia que eu tanto invejava,

não passavam de mentiras e engano.

Segui-la era para mim uma necessidade e uma satisfação.

Por um lado, procurava confirmação.

Por outro, eu saboreava o prazer incomparável

de triunfar sobre o Hartmann ao menos num aspeto:

o da lucidez em relação à mulher dele.

A Hélène tornava-se mais próxima de mim do que dele,

mais minha mulher do que dele.

Eu não a largava. Conhecia todas as suas atividades.

Às vezes, ia ver amigos, a Chichka ou outros.

Eu podia dizer exatamente em que dia da semana

e durante quanto tempo.

E o que ela fazia depois.

Doutras vezes, ela fazia longas caminhadas sozinha,

enquanto o Hartmann trabalhava.

Não me atrevia a segui-la então porque respeitava a sua solidão,

mas sobretudo por ter medo que me descobrissem.

Duas vezes por semana, ela ia a Munique.

Lá, tinha ainda mais medo de a seguir.

É nas cidades que sentimos que há alguém atrás de nós.

E eu tinha medo, talvez, de ser confrontado com a verdade.

Eu passava quase todos os serões em casa deles.

Mas eu sabia que aquela atmosfera harmoniosa

que eu tanto invejara, era falsa.

Ela tinha um amante em Munique.

O objetivo que eu perseguira vinha até mim agora.

Mas não reparei que ele já não era o mesmo,

que não passava de uma má caricatura do que eu entrevira.

Quanto ao Hartmann, ele só pensava no seu livro.

A Nova Europa.

Falava dele com profundo entusiasmo.

Todos unidos… contra isto, contra aquilo.

Nunca a favor.

Queria incluir nele todas as suas ideias e experiência.

Guerreiros velhos!

Corno idiota!

Ela tinha um amante em Munique, eu estava certo.

Eu estava a enlouquecer.

Eu chegara a um impasse.

Agora, eu tinha de me descobrir.

À prova de ardileza, devia seguir-se uma prova de força,

e eu sentia-me a afundar.

Como uma criança que não sabe nadar, atirada à água.

Decidi segui-la na sua próxima viagem a Munique.

Até ao fim. Até ao Inferno, se necessário.

Corri todos os riscos.

Foi um milagre ela não ter reparado em mim.

Era uma Hélène totalmente desconhecida.

Muito diferente de todas as versões que ela me mostrara.

Impaciente… e feliz.

Como eu nunca a vira antes.

E reconheci aí a sua verdadeira face.

Aquilo pareceu-me interminável.

Até ao Inferno, pensei…

Era um Inferno estranho.

BEM-VINDOS À OKTOBERFEST

Então, era ele. Era aquele!

Um bonitão, um medíocre. Um vadio!

Ela procurava-o como a mulher de um burguês de província,

que estava entediada.

Muito simplesmente, muito estupidamente.

Que desperdício!

Convidaram-me para jantar nessa mesma noite.

As minhas ideias, as memórias que eu criara ao segui-la

e o seu resultado sórdido deprimiam-me.

Cheguei a casa deles com um humor lastimável.

Obriguei-me a sorrir.

A Hélène também.

Quanto ao Hartmann, estava feliz, tranquilo, amável.

Era o mais feliz dos três.

Pensei na peça de Labiche que faz o elogio do corno.

E apesar do meu desespero,

comecei a rir sozinho, nervosamente.

Desculpem.

Albin, o que lhe deu?

Nada. Desculpem.

Eu sofria como um pobre diabo.

Sentia-me tão enganado como o Andréas.

E tive então a revelação do que eu ia fazer.

Sem admiti-lo, eu sabia o que fazia e aonde me podia levar.

Por Deus!

Não procuro uma desculpa, mas eu não aguentava mais.

Aquelas pessoas que instilaram em mim aquela inveja, aquele ódio,

aqueles fantasmas que me consumiam, elas não iriam ficar impunes!

Demorei uma semana a reunir tudo aquilo de que precisava.

Agora estava tudo pronto.

E tudo se desenrolou a seguir numa questão de horas.

Infelizmente…

Como sempre, segui-a.

Era um daqueles dias de caminhadas solitárias.

Eu estava decidido, firme, sem remorsos.

Estava exaltado.

Preparei-me para tudo.

E podia ser importante para o resto do plano

que a Hélène não me pudesse seguir.

Hélène!

Albin?

O que faz aqui?

Eu segui-a.

Eu receava qualquer coisa do género.

Não, estou certo que se engana.

Tanto melhor.

- Albin… - Espere, não fale ainda. É inútil.

Está com uma cara tão estranha.

O que se passa consigo? Está a tentar intrigar-me?

Não tome esses ares superiores.

Desculpe?

Digo-lhe que não tome esses ares superiores.

Está completamente louco, não está? Bebeu?

Sim, isso seria um alívio para si.

Ouça, Albin, não sei o que se passa consigo,

mas peço-lhe uma coisa: deixe-me em paz.

- Quer que a deixe em paz? - Sim.

- Quer continuar a caminhada sozinha? - Sim.

Gosta de longas caminhadas solitárias no bosque?

Sim, gosto de longas caminhadas solitárias no bosque.

Mas também gosta de multidões, das cidades, das festas.

Não, gosto do campo, da calma, da solidão.

Pois sim.

Gosta da populaça, do suor, dos odores fortes, da brutalidade.

Gosto da ternura.

Mas também da violência, da brutalidade.

Não o negue, Hélène, é inútil.

Eu sei de tudo.

Veja.

Veja!

Estou a ver.

O que é você?

Um chantagista?

Não, não sou um chantagista.

Acha que a chantagearia?

Então o que quer?

Será que sei o que quero?

Quero que deixe o Andréas.

Não vos quero voltar a ver juntos.

Não aguento mais ver-vos juntos.

Quero que o deixe.

E quero que venha comigo.

- Meu pobre Albin… - Não me chame "meu pobre Albin"!

Se quisesse, podia obrigá-la a dormir já aqui comigo.

Ouviu-me? Quero que deixe o Hartmann esta noite.

Não, Albin, eu nunca o deixarei.

Eu ordeno-lhe.

Vá lá, acalme-se.

Então, vou mostrar-lhe as fotos.

É inútil.

Veremos.

Pobre idiota! O Andréas já sabe.

Não é verdade.

Você julga os outros com base em si mesmo.

Nós somos diferentes de si, Albin.

Não nos fazemos de vítimas.

Nunca poderá entender o que une o Andréas e eu.

- Está a mentir! Vejo-o nos seus olhos. - A sério?

Vou-me embora. Veremos.

Espere, ouça-me por um instante.

Quando conheci o André, ele estava à beira do suicídio.

Não tinha gosto por nada. Não acreditava nele nem em ninguém.

Eu também não. Estava tão em baixo como ele.

Salvámo-nos um ao outro.

Somos a vida um do outro.

Um não pode existir sem o outro.

Certo… E aquele tipo, onde é que ele encaixa?

Isso não lhe diz respeito.

- Anda a dormir com ele? - Sim.

- E o Hartmann sabe e finge ser feliz? - Sim, ele sabe!

Não acredito em si.

- Vamos embora juntos. - Não.

Então, vou eu dizer-lhe!

Mas não serve de nada!

Não posso recuar. Fui longe demais.

Albin! Suplico-lhe, não faça isso!

Albin!

Albin, não vá!

Suplico-lhe! De que lhe serve isso? Albin!

Chamo-me André Mercier!

Albin é um pseudónimo.

Onde está o Sr. Hartmann?

Ele está a trabalhar.

- Não percebo! Onde está ele? - A trabalhar.

Albin!

Que surpresa, que prazer.

Não te canses. Trouxe-te algumas fotos de recordação.

A felicidade é frágil.

Só me restava esperar agora.

Meu Deus!

Não, André, não!

Meu amor!

Não, não é possível! Hélène, meu amor!

Meu amor… meu amor!

Andréas, a culpa é minha.

Fui eu que o fiz. Fui eu que a matei.

A culpa não é sua.

Não me interessa nada.

Ouça-me! Suplico-lhe!

Sou um monstro, não sou digno de viver.

Deixe-me dizer-lhes que fui eu que a matei.

Tenha piedade de mim! Compreenda-me.

Não me interessa nada.

Estou?

Eles levaram-no ao raiar do dia.

Tentei explicar-lhes que eu era o único culpado.

Mas eles não me quiseram ouvir.

Eles não percebiam, não acreditavam em mm.

Tenho pena de ti, Albin.

- O que disse ele? - Disse "tenho pena de ti".

Telefonei ao jornal a dizer que queria voltar.

Eles recusaram.

Então, apresentei a demissão.

Fui para o campo, mas não resultou.

Eu nada mais podia fazer.

Só podia contar esta história, mas todos lhe eram indiferentes.

Não posso evitar contá-la,

mas ninguém acredita em mim.

Não me compreendem.

Perguntam-se porque é que um jovem tão simpático como eu

tem prazer em se ultrajar.

FIM

Legendas: Joana Lima Martins

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