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Original subtitles

VOC� AINDA N�O VIU NADA!

Al�?

-Al�? -Sim?

-Lambert Wilson? -Sim, sou eu.

Chamo o senhor para coloc�-lo a par de uma triste not�cia.

O que aconteceu?

Seu amigo, Antoine d'Anthac acabou de morrer.

Ah, n�o, n�o � verdade...

Antes de sua morte, ele me deixou instru��es precisas a seu respeito.

Ele lhe pede que fa�a uma viagem urgente a Peillon, a sua resid�ncia

a fim de presenciar � abertura de seu testamento

e � cerim�nia funeral que se seguir�.

Tenho certeza de que vai atender ao seu �ltimo pedido.

Al�? Pierre Arditi? -Sim, sou eu.

Chamo o senhor para coloc�-lo a par de uma triste not�cia.

Seu amigo, Antoine d'Anthac acabou de morrer.

-Al�? -Al�? Anne Consigny?

Sim, sou eu.

Chamo a senhora para coloc�-la a par de uma triste not�cia.

Seu amigo, Antoine d'Anthac acabou de morrer.

Al�? Mathieu Amalric?

Sim, sou eu.

Chamo o senhor para coloc�-lo a par de uma triste not�cia.

Al�? Anny Duperey?

Sim, sou eu.

Chamo a senhora para coloc�-la a par de uma triste not�cia.

Al�? Michel Piccoli?

Sim, sou eu.

Chamo o senhor para coloc�-lo a par de uma triste not�cia.

Al�? Michel Vuillermoz?

Chamo o senhor para coloc�-lo a par de uma m� not�cia.

Seu amigo, Antoine d'Anthac acabou de morrer.

Al�, Hippolyte Girardot?

Sim, sou eu!

Al�? Jean-No�l Brout�?

Sim, sou eu.

Chamo o senhor para coloc�-lo a par de uma triste not�cia.

Al�? Michel Robin?

Chamo o senhor para coloc�-lo a par de uma triste not�cia.

Al�? G�rard Lartigau?

Chamo o senhor para coloc�-lo a par de uma triste not�cia.

Al�? Jean-Chr�tien Sibertin-Blanc?

Sim, sou eu.

Chamo o senhor para coloc�-lo a par de uma triste not�cia.

Al�? Sabine Az�ma?

Chamo a senhora para coloc�-la a par de uma triste not�cia.

Seu amigo, Antoine d'Anthac acabou de morrer.

Antes de sua morte, ele me deixou instru��es precisas a seu respeito.

Ele lhe pede que fa�a uma viagem urgente a Peillon, a sua resid�ncia

a fim de presenciar � abertura de seu testamento

e � cerim�nia funeral que se seguir�.

Tenho certeza de que vai atender ao seu �ltimo pedido.

Sim.

Antoine sempre teve casas maravilhosas.

Era uma doen�a, segundo ele.

Quando um lugar o agradava, ele precisava comprar uma casa ali.

Envelhecendo, seu estado se agravou.

Ele acabou crendo que a compra de uma nova casa

era capaz de resolver outras dificuldades.

Gosto era a �nica �rea em que pod�amos confiar totalmente em Antoine.

O sistema de Antoine e de seus diferente im�veis

era baseado num princ�pio de compartimentaliza��o absoluta.

Quando, ap�s algumas aventuras amorosas desastrosas

que o fez propriet�rio de um pequeno hotel em Versailles,

de um castelo em P�rigord, uma vila em Cannes

e, o que � mais original,

de um catamar�, no Sena,

ele, enfim, se decidiu por aquela jovem, 25 anos mais nova,

subitamente, ele sentiu necessidade de altitude.

Quando aquela jovem o deixou, no ano passado,

o estado geral de felicidade pareceu acabar.

N�o achou bom adquirir outro lugar, para o que lhe restava de tempo de solid�o.

Pobre Antoine!

Chorei todas minhas l�grimas, quando soube de sua morte.

Agora, tenho os olhos secos. Para o resto de minha vida.

Sabine.

Que casa extraordin�ria!

Parece-se com ele.

Pobre Antoine...

Limpando seu fuzil de ca�a,

sozinho, �s 05h, ao alvorecer.

Ele conhecia bem as armas.

Eu n�o duvido jamais que tenha sido um acidente.

A �nica coisa que me chocou

foram as ordens formais que recebemos, os empregados e eu mesmo:

n�o avisar ningu�m,

enterr�-lo primeiro,

s� ent�o chamar Paris.

Az�ma vai me gritar...

Oh, Piccoli!

Chamaram voc� tamb�m?

O que houve? Como vai?

Como um bom mestre de cerim�nia,

o mordomo distribuiu os quartos e ofereceu um lanche.

Ent�o, pediu aos convidados que fossem para a sala de estar.

Sentamo-nos em qualquer lugar?

Vou me sentar aqui.

Pegue um cachorro

corte-lhe a cabe�a e o rabo e ter� um banquinho.

De que est�o falando?

Pegue um cachorro, corte-lhe a cabe�a e o rabo e ter� um banquinho.

Quando eles atravessaram a ponte, os fantasmas vieram-lhes ao encontro.

Estamos aqui, em resposta a um desejo sagrado de Antoine,

que nos queria todos presentes,

para colocar a l�pide sobre sua �ltima morada.

Mas antes disso, Antoine queria se dirigir diretamente a voc�s.

Que estranho...

Meus queridos amigos,

obrigado por terem respondido ao meu convite.

Todos voc�s, no passado,

em idades e momentos diferentes da vida,

apresentaram minha pe�a Eur�dice.

Com o passar dos anos, muitos de voc�s interpretaram v�rios pap�is.

Misteriosos fantasmas...

Obrigado.

Obrigado, Sabine Az�ma, minha primeira Eur�dice.

Eu a revejo de outra maneira,

um pouco p�lida, tr�mula e vibrante.

Estou certo de que est� triste, mas o preto lhe cai bem.

Obrigado a Anne Consigny, minha outra Eur�dice,

dilacerada por suas contradi��es.

Anny Dyperey, m�e intransigente m�e de Eur�dice.

Pierre Arditi, Lambert Wilson,

voc�s que se sucederam no papel de Orfeu.

Obrigado, encantadores vener�veis.

E Michel Piccoli,

formid�vel e pat�tico, pai de Orfeu.

Obrigado, Hippolyte Girardot,

empres�rio preocupado,

e Mathieu Amalric, o f�nebre sr. Henri.

Muito obrigado.

Jean-Chr�tien Sibertin-Blanc, discreto funcion�rio.

Jean-No�l Brout�, um amante inconsol�vel,

e Michel Vuillermoz, um ator tr�gico imperial.

Obrigado, G�rard Lartigau, gerente de palco desolador,

e Michel Robin, um gar�om � Tcheckov.

Obrigado por terem vindo a este encontro bizarro, ao qual n�o estarei presente.

Hoje, volto-me a voc�s com a maior das insist�ncias

para serem meus executores testamentais.

Deixem-me explicar. H� algumas semanas,

uma empresa jovem de atores, a Compagnie de la Colombe,

contatou-me pedindo-me autoriza��o para encenar Eur�dice.

O diretor me enviou uma filmagem dos ensaios.

Dadas as circunst�ncias,

ser�o voc�s que julgar�o a validade do pedido.

Marcellin, sua vez.

H� mais de 2 mil anos,

os gregos se deleitaram com as aventuras de um m�sico, Orfeu,

e de sua companheira, Eur�dice.

Esta noite, gra�as a Antoine d'Anthac,

n�s propomos que assistam a hist�ria deles, novamente.

PRIMEIRO ATO

-Meu filho? -Papai?

Espera que seu velho pai v� mendigar em um restaurante da esta��o?

Toco para mim mesmo.

Um restaurante de esta��o, com um s� cliente, fingindo que n�o escuta.

Como o tempo passa...

No auge do meu tempo,

quem diria que seu pai iria tocar harpa nos terra�os dos caf�s?

Quem diria que ele acabaria reduzido

a implorar com um pequeno pires?

Mam�e.

Cada vez que voc� for�ava sua demiss�o.

-Voc� continua, hein? -Isso o incomoda?

Isso me confunde. 8 vezes 7.

56.

-Tem certeza? -Sim.

Como � engra�ado. Eu esperava ser 63.

Afinal, 8 vezes 9 � 72.

Sabe que s� nos resta um pouco de dinheiro?

Sim.

� tudo que tem a dizer?

Sim, papai.

Est� bem, j� estou acostumado.

8 vezes 7?

56.

56. N�o deveria ter dito de novo!

Comemos bem hoje, por 12,75 francos.

N�o, papai.

Bem, se voc� tivesse escolhido melhor, um pouco menos de tantos legumes,

voc� poderia ter trocado todo seu legume por uma segunda sobremesa.

Voc� notou, filho,

nos comemos melhor hoje, por 12,75 francos,

do que ontem, por 13,5 francos.

� verdade. Tinham guardanapos de pano...

Verdade. Tinham guardanapos de pano, ao inv�s de papel.

� o tipo do estabelecimento

� o tipo do estabelecimento que queria parecer melhor, mas n�o conseguiu.

Uma vez, meu filho...

Uma vez, filho, fui convidado ao Chez Poccardi,

no bairro dos italianos.

Eles me trouxeram o prato...

Voc� j� me contou 10 vezes, papai.

Est� bem, n�o falo mais!

Sabe, � muito triste o que toca.

Meu pensamento tamb�m � triste.

Em que voc� pensa?

Em voc�.

Em mim? E pensa o qu�?

Penso que depois que mam�e morreu...

Penso que depois que mam�e morreu, eu o sigo aos caf�s, com meu violino.

Eu o vejo debater-se com suas contas.

Eu o escuto falar de card�pios, de pre�os fixos,

depois eu me deito e me levanto no dia seguinte.

Quando voc� tiver minha idade, ver� que assim � a vida.

Algumas vezes, sonho que nos separamos.

Vamos, vamos, n�s nos damos t�o bem.

Ah, Santo Deus, voc� me faz rir! Na sua idade, achava a vida magn�fica.

Vou sair um pouco para a plataforma.

Falta 1 hora para o trem.

Desculpe-me, senhor

era aqui, que algu�m tocava violino?

Desculpe-me, senhor

era aqui, que algu�m tocava violino?

Desculpe-me, senhor

era aqui, que algu�m tocava violino?

Sim, senhorita.

Era meu filho. Meu filho, Orfeu.

Como era lindo o que tocava.

Sim, senhorita. Era meu filho. Meu filho, Orfeu.

Como era lindo o que tocava.

Como era lindo o que tocava.

Eur�dice!

Voc� est� a�!

Ah, faz um calor!

Tenho horror de esperar nas esta��es.

Outra turn� mal organizada, como sempre!

O gerente deveria se certificar que tiv�ssemos que esperar pela conex�o.

S� h� um trem, mam�e.

N�o � culpa do gerente.

Ah, voc�. Sempre apoia os imbecis!

Acha que devemos beber algo?

Agora que est� sentada, seria melhor. Um caf�.

Mantenha a postura.

Como pode voc� n�o estar com Mathias?

Ele parece uma alma perdida.

N�o se preocupe com ele.

Voc� adora exasperar o rapaz. Ele a adora!

Voc� errou, primeiro, em faz�-lo seu amante.

Isso eu lhe disse na �poca,

mas o que foi feito, est� feito.

Minha pobre Eur�dice, uma m�e � uma confidente,

sobretudo quando...

Sobretudo quando ela tem sua idade. Quero dizer, quando � uma m�e t�o jovem.

Vamos, diga-me, o que ele lhe fez?

Vamos, diga-me, o que ele lhe fez?

Sente-se direito.

Nada, mam�e.

Nada, mam�e.

Nada, mam�e.

"Nada, mam�e" isso n�o quer me dizer nada.

Uma coisa � certa, que ele a adora.

E que talvez seja por isso que voc� n�o o ame.

N�s somos sempre as mesmas. N�o mudamos.

O caf� est� bom?

Eu lhe dou. N�o o quero.

Voc� n�o o ama mais?

Quem?

Mathias!

Voc� perde seu tempo, mam�e.

Ah, voc� tem raz�o, � preciso seguir seu instinto, acima de tudo.

Eu sempre segui meu instinto, como um verdadeiro animal de teatro que sou.

Mas voc� n�o � grande artista.

Sente-se direito!

Ah, eis Vincent!

Meu querido tem um ar de aborrecido.

Minha querida amiga, eu a procurei por todos os lugares.

-Eu estava aqui, com Eur�dice. -Esse pequeno gerente � imposs�vel.

Parece-me que devemos esperar mais uma hora aqui.

Vamos, mais uma vez, ficar sem jantar.

A tempestade de ontem � noite, n�o foi sua falta.

Eu gostaria de saber por que voc� defende esses pequenos imbecis.

Um menos. Ele � um menos.

Por que Dulac mant�m algu�m t�o sem pr�stimos?

Aonde vai, minha querida?

Sair um pouco, mam�e.

Ol�, Mathias.

Onde est� Eur�dice?

Ela acabou de sair.

Pobre rapaz. Ele � louco por ela.

O que h�? Esse idiota sempre rangendo o violino? � aborrecido.

Ele espera o trem.

N�o � uma boa raz�o.

Voc� se lembra do Grand Cassino, em Ostend?

Ah, voc� estava t�o bonito!

Voc� se lembra do primeiro dia?

"Senhora, gostaria de me acompanhar nesse tango?"

"Mas senhor, eu n�o dan�o tango."

"N�o h� nada mais simples, senhora."

"Eu a seguro."

"S� tem que se deixar ir."

Ah, como voc� me disse aquilo!

Voc� me apertou tanto ao dan�ar

que meu vestido deixou uma marca vermelha, em minha pele.

Ah, o incerto, o perturbador primeiro dia.

A gente se procura, sentimo-nos e adivinhamos, n�o nos conhecemos ainda,

mas j� sabemos que vai durar por toda a vida...

Por que nos separamos um dia depois?

Eu n�o sei.

N�o me lembro mais.

Era voc�, tamb�m, que tocava h� pouco?

Sim, era eu.

Como voc� toca bem!

Acha mesmo?

Como se chama, aquela can��o?

N�o sei. Eu a compus...

Eur�dice! Voc� est� a�!

Sim!

Acabei de me encontrar Mathias. Ele a procura, minha filha.

Sim!

Seus olhos...

s�o azuis claro.

Sim.

N�o sei a cor dos seus.

Eles dizem que depende do que penso.

Neste momento, s�o verdes escuro.

Eles dizem que � quando estou muito feliz.

"Eles" quem?

Os outros.

Eur�dice!

Sim!

N�o se esque�a de Mathias!

Sim.

Acredita que me fez muito infeliz?

N�o creio.

N�o tenho medo de ser t�o infeliz, como sou neste momento agora.

Machuca,

mas, ainda assim, � t�o bom.

Tenho medo de ser infeliz e s�

quando voc� me deixar.

Jamais irei deix�-la.

Jura?

Sim.

Pela minha vida?

Sim.

Adoro quando voc� sorri.

E voc�, nunca sorri?

Nunca quando estou feliz.

Pensei que estivesse triste.

Ent�o voc� n�o compreendeu nada.

Que hist�ria!

N�s dois metidos nisto

parados aqui, esperando tudo que vai nos acontecer

e j� tudo perto de nossas costas.

Acredita que nos acontecer�o

muitas coisas?

Todas as coisas. Cada coisa que acontece entre um homem e uma mulher na Terra,

uma a uma.

Os engra�ados, os doces

e terr�veis.

A vergonha,

a sujeira tamb�m...

Vamos ser muito infelizes.

Que felicidade!

Voc� v�, minha bela amiga,

nesta a terra onde tudo nos quebra, nos decepciona, ou nos fere,

� um consolo maravilhoso pensar que n�s ainda temos amor.

Ah, meu grande gato..

Muitas vezes nos enganamos no amor, sempre nos machucamos,

sempre infelizes, Lucienne,

mas amamos.

E quando estamos � beira da sepultura, voltamo-nos, olhamos para tr�s e dizemos

"Sofri muito, enganei-me algumas vezes, mas eu amei.

Fui quem venceu,

e n�o meu prot�tipo criado pelo meu orgulho e meu enfado!"

Muito bem, meu gat�o, muito bem!

-Foi de Musset? -Sim, meu gato.

Fa�a com que se calem, eu lhe suplico, fa�a com que se calem.

Fa�a com que se calem, eu lhe suplico, fa�a com que se calem.

Senhor, senhora,

voc�s podem n�o compreender minha atitude,

ela pode parecer-lhes estranha, muito estranha mesmo,

senhora, � preciso que saia.

Que n�s saiamos?

Sim, senhor.

-Est�o fechando? -Sim, senhor. Para voc�s.

Mas, de fato, senhor...

Ele n�o trabalha no estabelecimento. Eu o reconhe�o. Ele toca violino.

� preciso que desapare�am, imediatamente!

O que est� acontecendo agora � muito s�rio.

O rapaz � louco!

Enfim, senhor, isso � loucura, esse caf� � para todo mundo.

Agora n�o mais.

De fato, isso � demais!

Gar�om, por favor!

N�o, n�o o chame. Saiam. Eu pagarei pelo que gastaram.

Vamos, ent�o. D� para ver que ele n�o est� em seu estado normal.

Bem, vou reclamar com o chefe da esta��o!

Eles eram feios, eles eram feios, n�o eram?

Eles eram feios e t�o est�pidos.

N�o fale mais deles.

Quando estava tocando violino, passei por algu�m. Eu n�o a conhecia.

Agora, tudo mudou.

Eu a conhe�o.

Eles eram feios, eram feios, n�o eram? Eles eram feios e t�o est�pidos.

N�o fale mais deles.

Quando estava tocando violino, passei por algu�m. Eu n�o a conhecia.

Agora, tudo mudou.

Eu a conhe�o.

Jure-me que n�o me abandonar�.

Eu juro.

Oh, mas jurar isso � t�o f�cil!

Espero que n�o tenha a inten��o de me deixar.

Se voc� quiser que eu seja feliz,

jure que nunca ter� vontade de me deixar,

mesmo mais tarde, mesmo por um minuto,

mesmo se a mais linda das mo�as olhar para voc�.

Eu o juro, tamb�m.

Veja como voc� � falso!

Voc� jurou que, mesmo se a mais bela do mundo o olhasse, n�o me abandonaria.

Mas para saber que ela o olha, � preciso que voc� tamb�m olhe para ela.

Oh, meu Deus, como sou infeliz!

Voc� nem come�ou a me amar

e j� est� pensando em outras mulheres.

Jure para mim,

que voc� nem vai not�-la, meu querido, aquela idiota.

Serei cego.

Mesmo que ela se pare�a comigo?

Mesmo assim.

Eu serei cauteloso.

Jura de bom grado?

Sim, de bom grado.

Est� bem.

E pela minha vida?

Pela sua vida.

N�o se esque�a que quando juramos pela vida de algu�m,

isso quer dizer que a outra pessoa morre

se voc� n�o cumprir o juramento.

N�o quebrarei.

Est� bem. Acredito em voc�.

Eu sou t�o f�cil de ser enganada, t�o confiante.

Estou bem. Isso me basta.

N�o sei porque, mas tenho medo de ser machucado. De repente.

Mathias a aguarda na sala de espera.

Se voc� n�o quer mais problema,

seria melhor que fosse l�, filha!

-Quem � esse Mathias? -Ningu�m, meu querido!

Ent�o, por que ele a procura?

� um rapaz da trupe. N�o � ningu�m.

Ele me procura, sim, ele me procura. Talvez tenha algo a me dizer.

Quem � Mathias?

Ah, eu n�o o amo, meu querido, nunca amei.

� seu amante?

� t�o simples resumir tudo em uma simples palavra.

Mas � melhor lhe dizer a verdade, de uma vez.

� preciso que tudo seja claro entre n�s.

Sim, ele � meu amante.

N�o, n�o recue.

Queria poder lhe dizer:

Sou uma garotinha,

eu o esperava.

Foi sua m�o que me tocou pela primeira vez."

Gostaria de lhe dizer que...

� idiota,

mas me parece ser assim.

Faz tempo que ele � seu amante?

N�o sei mais.

6 meses, talvez.

Eu nunca o amei.

Ent�o, por qu�?

Por qu�? N�o me fa�a essa pergunta.

N�s n�o conhec�amos ainda t�o bem,

e quando n�o sabemos nada um do outro, as quest�es podem ser armas terr�veis.

Por qu�? Eu quero saber.

Por qu�?

Ele estava infeliz.

Eu estava aborrecida. Sozinha.

Ele me amava.

E antes?

-Antes, meu querido? -Antes dele.

Antes dele?

N�o teve outros amantes?

N�o. Nunca.

Ent�o, foi...

foi ele quem a ensinou a amar?

Responda.

Por que n�o diz nada?

Foi voc� quem disse que s� haveria verdade entre n�s.

Sim.

Meu querido, eu tento feri-lo o menos que posso.

Ser� ele que o ver�, talvez,

ou outro, h� muito tempo,

a quem nunca conhecer�...

Vou tentar nunca pensar neles.

Sim, meu querido.

Vou tentar nunca imaginar

o rosto deles, perto do seu, seus olhos em voc�,

as m�os sobre voc�.

Sim, meu querido.

Vou tentar n�o pensar que eles j� a tiveram.

Agora, tudo recome�a.

Sou eu quem a tem.

� t�o bom estar em seus bra�os.

� como uma casinha, bem fechada

onde ningu�m jamais poder� entrar.

Neste caf�?

Neste caf�.

N�s seremos vistos por um homenzinho em sua modesta capa

que fingir� n�o nos ver

mas tenho certeza que ele nos v�.

� preciso que me deixe. Tenho algo a fazer.

N�o me pergunte nada. Saia um minuto.

Entre, Mathias.

Voc� me viu?

Eu o beijei.

Eu o amei.

-O que quer? -Quem � ele?

N�o sei.

Voc� � louca.

Sim, sou louca.

Fugiu de mim, a semana toda.

Fugi, sim.

Mas n�o foi por causa dele. Eu o conheci h� uma hora.

O que est� me dizendo?

Voc� o sabe, Mathias.

Voc� o sabe, Mathias.

Eur�dice, sabe que n�o posso viver sem voc�.

Sim, Mathias.

Mas eu o amo.

Prefiro morrer

a continuar sem voc�.

Eu o amo, Mathias.

N�o pode falar outra coisa?

Eu o amo.

Basta.

Mathias!!

Tente entender.

Eu gosto de voc�, s� que eu o amo.

Mathias!!

Tente entender.

Eu gosto de voc�, s� que eu o amo.

O trem foi anunciado, filho. Plataforma 2.

Voc� vem?

Eu n�o parto, papai.

N�o vou pegar esse trem, papai.

� um trem novo.

Repare, papai,

eu gosto muito do senhor.

Sei que precisa de mim, que vai ser duro,

mas teria que acontecer um dia. Estou indo embora.

O que est� dizendo?

Entendeu bem, n�o me fa�a repetir, para armar uma cena muito pat�tica.

N�o segure o f�lego, para empalidecer.

N�o comece a tremer! Conhe�o todos seus truques. Um a um.

N�o me pegar�o mais.

Eu quero ir, papai.

Estou velho, Orfeu...

Papai, n�o posso fazer nada. V� pegar seu trem.

Antes, voc� me dizia que n�o me abandonaria!

Antes, sim. Agora, eu posso.

Pegue seu trem. Apresse-se.

Eu o amaldi�oo.

Vai lhe custar caro.

Para B�ziers, Montpellier, S�te e Palavas-les-Flors,

o trem entra na esta��o.

V� r�pido.

Estou feliz, sabe, papai.

Eu a amo.

Vou escrever para voc�.

Fique contente por mim.

N�o posso carregar tudo sozinho.

Estou contente, papai.

Isto vai me matar!

R�pido, r�pido, papai!

R�pido!

Pronto.

Est� feito.

Para mim, tamb�m est� feito.

Pe�o-lhe perd�o.

Ele � um pouco rid�culo.

Era meu pai.

N�o precisa pedir perd�o.

Aquela senhora que gorgolejava sobre o amor, h� pouco tempo,

era minha m�e. N�o quis lhe dizer.

Estou contente por voc� ter sentido vergonha tamb�m.

� um pouco como se f�ssemos

dois irm�ozinhos.

Para Toulouse, B�ziers, Carcassonne, plataforma 7.

O trem entra na esta��o.

Feche a porta.

Pronto.

Estamos sozinhos, no mesmo momento.

Passageiros para Toulouse, B�ziers, Carcassonne, plataforma 7.

O trem entrou na esta��o.

Algu�m se jogou sob o expresso. Um jovem!

N�o pude fazer nada.

Eu o amo, e eu n�o o amava.

Ele se jogou sob a locomotiva. Morreu na hora.

Que horror!

N�o.

Ele escolheu um bom jeito.

O veneno leva tempo e causa muito sofrimento.

Depois, vomitamos, contorcemo-nos, sujamo-nos.

� a mesma coisa com barbit�ricos. H� quem pense que dormir�. Que bobagem.

� uma morte com solu�os e cheiro ruim.

Creia-me, o mais f�cil, quando se est� muito cansado,

quando se vive muito tempo com a mesma ideia fixa,

� se escorregar na �gua, como num leito...

Voc� sufoca por um segundo, com uma pletora de imagens,

e depois adormecemos. Finalmente.

Acredita que ele n�o sofreu quando morreu?

Ningu�m sofre para morrer, senhorita.

A morte nunca faz mal. A morte � doce.

O que faz sofrer, com certos venenos, com algumas les�es dif�ceis

� a vida. � o que resta da vida.

Devemos confiar na morte, como num amigo.

Um amigo com a m�o delicada e forte.

N�o tivemos escolha. N�s nos amamos.

Sim, eu sei. Eu sempre os escuto.

Mas n�s n�o o conhecemos, senhor.

Eu os conhe�o. Fiquei muito contente com esse encontro.

V�o partir juntos?

N�o h� mais que um trem, hoje � noite. Para Marselha.

Meu amor.

Meu querido amor.

-Meu amor. -Meu querido amor.

Nossa hist�ria est� come�ando.

Tenho um pouco de medo.

Voc� � bom? Voc� � mau?

Qual o seu nome?

Orfeu. E voc�?

Eur�dice.

FIM DO PRIMEIRO ATO

� estranho!

-� engra�ado. -� muito bom.

E agora?

� t�o diferente do que fizemos.

O que vai acontecer agora?

Devemos continuar?

Sim.

SEGUNDO ATO

Isso n�o teria acontecido,

se voc� tivesse virado � direita e eu, � esquerda.

Estaria tocando violino num terra�o de Perpignan, com papai.

E eu estaria representando "As Duas �rf�s", num palco de Avignon.

Mam�e e eu somos as �rf�s.

Nessa noite, eu pensei nesse garotinho e na garotinha, que n�o se conheciam,

um belo dia, anos depois,

naquela esta��o de trem...

E se tiv�ssemos enganado o dia, ou de esta��o?

Ou ainda nos encontramos muito pequenos

com pais que poderiam for�ar nossa separa��o?

Mas, felizmente, n�o nos enganamos. Oh, n�s somos muito fortes!

Sim, meu querido.

Agora temos as lembran�as, para nos defender.

Agora temos as lembran�as, para nos defender.

Uma tarde inteira,

uma noite inteira,

um dia inteiro... Como somos ricos!

Ontem, n�o sab�amos nada

e entramos neste quarto, por acaso,

observado por aquele terr�vel rapaz, que sabia que far�amos amor.

E come�amos a nos desnudar rapidamente,

em p�, um em frente ao outro.

Permanecemos um longo momento em p�

sem ousar dizer nada,

sem ousar nos mover...

�ramos muito pobres e t�o nus

E seria injusto arriscar tudo de uma vez.

At� que essa brusca ternura por voc�

me apertou a garganta.

Depois tudo ficou t�o f�cil.

Parecia que t�nhamos nos deitados nus, sobre um sonho

e minha ternura, como uma mar� montante, cobria a nudez dos corpos deitados.

Meu querido, voc� pensou tudo isso e me deixou dormir.

Voc� me disse muitas coisas em seus sonhos, que eu n�o podia responder.

Eu falei?

Sempre falo, quando durmo. Voc� n�o escutou, espero.

Sim.

Viu como � traidor?

Ao inv�s de dormir, como eu, voc� me espia.

Como posso saber o que digo, quando durmo?

Eu s� entendi duas palavras.

Voc� deu um suspiro profundo, sua boca fez um pequeno trejeito

e voc� disse,

"� dif�cil."

� dif�cil?

� dif�cil...

O que � t�o dif�cil?

Eu n�o sei, meu querido.

Eu sonhava.

O senhor chamou?

N�o.

Pensei que o senhor tivesse chamado.

Desculpe-me, senhor.

Ele n�o parece t�o nobre como nosso rapaz da esta��o, ontem � noite.

Asseguro-lhe que esse � mais misterioso.

Sim, muito. N�o gosto de gente misteriosa.

Ele me assusta um pouco. Voc� n�o?

Um pouco. Mas n�o ousei lhe dizer.

Oh, meu querido!

Vamos nos segurar forte. Felizmente, somos em dois.

J� temos muitas personagens

em nossa hist�ria.

2 rapazes...

em 2 caf�s.

E o empregado da esta��o.

-O gago! -Sim, o ador�vel gago.

Era t�o pequeno e gentil.

Mas o outro era t�o bruto, o controlador...

Ah! O idiota.

Foi ele quem n�o compreendeu que havia uma

uma passagem para Perpignan, outra para Avignon e quer�amos ir a Marselha.

Ah, foi ele quem fez isso, foi ele!

Nosso primeiro personagem ign�bil.

Nosso primeiro traidor.

Haver� outros, voc� vai ver. H� sempre um traidor numa hist�ria.

Ah, sim! Mas aquele, eu recuso.

N�o quero tal imbecil daqueles, em minhas lembran�as com voc�.

� muito tarde, minha querida.

N�o temos mais direito de demitir ningu�m.

Ent�o, pelo resto de nossa vida,

aquele grande, sujo, orgulhoso homem

far� parte de nosso primeiro dia?

Exatamente.

Ent�o, fa�amos uma suposi��o...

se n�s j� vimos muitas coisas feias em nossa vida,

eles permanecer�o para sempre?

Sim.

Todas as imagens sujas,

todas as pessoas,

mesmo aqueles a quem odiamos, mesmo aqueles de quem fugimos?

Todas as tristes palavras ouvidas, voc� cr� que se guarda no fundo de si?

E todos os gestos que fizemos,

as m�os ainda se lembram, voc� acredita?

Sim.

Voc� tem certeza...

que mesmo as palavras que dissemos, sem querer,

e que n�o pudemos segur�-las est�o em nossos l�bios, quando falamos?

Mas sim, minha louca.

S� um segundo. N�o me beije.

Explique-me melhor. Voc� tem certeza do que diz,

ou apenas voc� quem pensa.

Tenho certeza.

Ent�o, nunca estamos sozinhos,

com tudo que nos circunda.

Nunca somos sinceros,

mesmo quando tentamos com todas nossas for�as.

Se todas as palavras est�o aqui,

todo riso sem alegria,

se todas as m�os que nos tocaram est�o coladas � nossa pele,

nunca poderemos ser outra pessoa?

Mas o que est� falando?

Creio que � melhor n�o dizer nada.

Ou, quando tudo for simples, como por n�s, ontem,

voc� diz tudo, claro, como eu.

Chamou, senhor?

N�o.

Perdoe-me.

Devo lhe dizer, senhor, que a campainha n�o funciona.

Ao inv�s de tocar, o senhor deveria chamar.

Est� bem.

As cortinas duplas

funcionam.

J� notamos isso.

Em outros quartos, a campainha funciona,

mas as cortinas duplas, n�o.

Contudo, se o senhor quiser us�-las mais tarde e elas n�o funcionarem,

o senhor dever� tocar a campainha...

Bem, chamar, porque, como acabei de lhe dizer, a campainha...

� nosso primeiro personagem estranho.

Teremos outros.

Voc� n�o notou que ele me olha o tempo todo?

Voc� est� sonhando.

Desculpem-me.

Eu me esqueci de lhe dizer, que � esperado l� embaixo

para completar sua ficha.

H� alguma coisa que falta. Devemos envi�-la esta noite.

Desceremos imediatamente.

Sim, senhor. Se o senhor puder.

Est� bem, indique a dire��o.

Uma carta para a senhora. Deveria entregar-lhe pessoalmente.

N�o h� ningu�m no escrit�rio. Eu menti.

S� h� um andar. Tem 1 ou 2 minutos para l�-la.

N�o jogue na lixeira!

-Quanto tempo se conhecem? -Um dia.

Normalmente, o melhor tempo.

Normalmente, sim.

Ainda est� aqui?

N�o, senhor, estou de sa�da.

N�o havia ningu�m l�.

N�o se preocupe, senhor, ser� s� por esta noite.

O que ele fazia aqui?

Nada.

Ele me dizia

todos os casais que ele viu se definirem neste quarto.

� bom!

Ele disse que algumas vezes, parece que os v� todos juntos.

Que o quarto ferve.

E voc� escutou essas besteiras?

Talvez n�o sejam besteiras.

Pois voc� quem disse que...

todas as pessoas que conhecemos, continuam vivas em nossa lembran�a.

Talvez o quarto se lembre tamb�m.

Todos que j� passaram por aqui

ao redor da gente, se abra�ando.

Minha louquinha!

A cama est� cheia deles.

As a��es podem ser t�o feias.

Des�amos para jantar. Comeremos num lugar que cheire a alho,

com copos onde mil bocas j� beberam

onde mil bundas gordas, j� se sentaram nos banquinhos

num pequeno lugar, onde voc� ficar� muito bem. Vamos.

Voc� ri, voc� sempre ri. Voc� � t�o forte.

Vamos, deixemos este quarto.

Para mim, n�o � bom mais.

Como foi curto...

O que h�? Voc� est� tremendo.

Sim, eu tremo.

Est�o t�o p�lida.

Sim!

Nunca a vi assim.

N�o me olhe!

Eu olho para voc� desde ontem.

Voc� � um traidor.

Voc� co�ou minha cabe�a gentilmente.

Eu ronrono.

Eu durmo.

Ent�o voc� diz, "� dif�cil."

Meu amor!

O qu�?

Tenho medo que seja muito dif�cil.

O qu�?

Talvez pensou que eu fosse diferente.

Mas quando viu do jeito que sou...

Desde ontem eu olho seu rosto. Eu ouvi voc� falar, enquanto dormia.

Sim...

Mas eu n�o disse muito.

E se esta noite eu dormir e falar tudo?

Tudo, o que tudo?

As velhas palavras, as velhas hist�rias.

Ou se qualquer um dos personagens lhe disser...

Mas o que eles podem me dizer? Agora eu a conhe�o melhor do que eles.

Voc� acha?

Sim, meu amor.

Voc� est� certo.

� bem uma mulher para voc�.

Senhorita Eur�dice, sua esposa,

Eu a sa�do!

Consinta-me, enfim, um jantar?

Acenda as luzes agora.

Claridade por todos os lados!

L�mpadas acesas! Sa�da dos fantasmas.

Meu querido.

Eu n�o queria ir ao restaurante, ver pessoas.

Se quiser, eu des�o,

compro algumas coisas

e comeremos aqui.

No quarto, onde tudo ferve?

Sim.

Agora, n�o importa mais.

Ser� divertido. Descerei com voc�.

N�o.

Deixe-me ir sozinha.

Vai me dar prazer, fazer seu mercado, uma vez,

como uma pessoa decente.

Ent�o, compre muita coisa.

Sim.

Vamos fazer um festival de pasta.

Sim, meu amor.

Como se tiv�ssemos dinheiro.

� um milagre, que os ricos nunca compreender�o.

Sim, meu amor.

Compre flores, tamb�m, para o jantar. Muitas flores.

N�o comemos flores.

� verdade.

Vamos coloc�-las na mesa.

Ah, n�s n�o temos mesa. Compre flores, assim mesmo.

E compre frutas!

P�ssegos! Grandes e suculentos p�ssegos.

Corra, estou morto de fome.

Adeus, meu amor.

Voc� disse "adeus" como em Marselha?

Sim.

Eur�dice!

Ela acabou de descer.

N�o se lembra de mim?

N�s nos encontramos ontem, no restaurante da esta��o,

quando ocorreu aquele acidente.

Somos vizinhos de quarto. Estou no 11.

Eu dirigi a palavra ao senhor, um pouco livremente, mas...

voc�s dois estavam t�o tocantes, l�, naquele sal�o deserto.

Uma bela decora��o, n�o? Vermelho e sombrio

com a noite caindo, e os barulhos da esta��o...

O pequeno Orfeu e a senhorita Eur�dice...

N�o � todo o dia que temos uma sorte assim.

Normalmente, n�o converso com ningu�m. Por que incomodar?

-Voc� � m�sico? -Sim.

Eu amo a m�sica.

Amo tudo que � doce, feliz.

Na verdade, eu amo a felicidade.

Meu querido, h� 2 ra�as de seres.

Uma ra�a que � numerosa, f�rtil, feliz

uma grande massa a confeitar,

que come sua salsicha, gera filhos,

trabalham, contam dinheiro,

ano a ano, a despeito das epidemias e das guerras,

at� o limite da idade.

As pessoas para viver todos os dias,

as pessoas que n�o podemos imaginar mortas.

E h� os outros.

Aqueles que podemos imaginar bem, deitados, p�lidos,

um furo vermelho na cabe�a.

Isso nunca o tentou?

Nunca. E esta noite mais do que nunca.

� uma pena.

N�o se deve crer exageradamente na felicidade.

Senhor, h� um cavalheiro que pergunta pela senhorita Eur�dice.

Eu lhe disse que ela saiu, mas ele pareceu n�o me crer.

Ele insiste em v�-lo.

Posso deix�-lo subir?

Eu j� subi.

Onde est� Eur�dice?

Ela desceu, para comprar nosso jantar.

Ela pode ter descido para comprar seu jantar,

mas ela deveria se juntar a n�s na esta��o, para pegar um trem.

Quem � o senhor?

Alfredo Dulac!

Empres�rio de Eur�dice.

Onde ela est�?

-O que o senhor quer? -E o senhor?

Eur�dice � minha amante.

Desde quando?

Desde ontem.

Ela era a minha, tamb�m. H� um ano.

O senhor mente.

Ela se esqueceu de lhe dizer?

Eur�dice me disse tudo.

Ela foi amante daquele rapaz, que pulou ontem sob o trem.

N�o acha que ele foi um idiota?

N�o � porque esteve nesse leito, onde dormiu.

� uma crian�a, meu velho.

Em uma garota como Eur�dice, temos que reparar em seus caprichos.

Ela tamb�m esteve com o imbecil, que se matou ontem.

O senhor, ao menos, eu compreendo.

Tem olhos bonitos.

� jovem...

-Eu amo Eur�dice e ela me ama. -Ela lhe disse?

Sim.

Uma garota extraordin�ria.

Que bom que a conhe�o.

E se eu a conhecer melhor?

-Desde ontem? -Sim, desde ontem.

Escute, n�o sou muito esperto, mas h� 2 coisas que conhe�o bem:

primeiro, meu trabalho

E Eur�dice?

N�o, n�o. N�o tenho essa pretens�o.

Serei bem mais modesto: as mulheres.

E Eur�dice � uma garota estranha, como lhe disse,

mas, cada um a seu jeito, viu como ela foi constru�da

ent�o h� de convir que ela ainda � uma mulher.

O senhor mente.

Eur�dice nunca foi sua.

O senhor foi seu amante? Eu tamb�m.

-Quer que eu a descreva? -N�o.

Ela � como, a sua?

Dif�cil de acordar de manh�?

Sempre com seus livros policiais e cigarros?

Sempre com um cigarro preso � boca, como um pequeno bandido?

E suas meias, ela as encontrou, suas meias, esta manh�?

Vamos, seja franco.

Aposto que sua blusa estava no arm�rio, seus sapatos na banheira,

seu chap�u embaixo da cadeira e sua bolsa, em lugar algum.

Eu lhe comprei 7.

-Est� mentido. -� verdade, camarada.

Eur�dice � um ser raro, bem entendido, claro.

Mas ela � como todas as outras pequenas mulheres.

N�o � verdade!

Nada � verdade para o senhor. Que estranho!

-H� quanto tempo ela saiu? -20 minutos.

-Enfim, isso � verdade? -Sim.

-Insistiu em sair s�? -Sim.

Isso a divertiu. Sair sozinha e comprar nosso jantar.

-Isso tamb�m � verdade? -Sim.

Escute, eu lhe mandei uma carta 5 minutos antes,

convocando-a para a esta��o.

Ningu�m lhe entregou uma carta.

Eu n�o a deixei um instante, desde ontem.

Tem certeza?

O que dizia, em sua carta?

Que eu a esperava no trem. Estava seguro que obedeceria.

Mas ela n�o foi.

Verdade, n�o foi.

Mas a minha Eur�dice est� sempre atrasada. N�o me preocupo.

Deu � sua muitas coisas para comprar?

Flores e frutas.

E disse que ela saiu h� 20 minutos?

A sua Eur�dice tamb�m se atrasaria?

Eu vou � esta��o!

Come�ou a crer que ela poderia se juntar a n�s, hein?

Ficarei aqui.

Se ela estiver na esta��o, eu estava certo.

Voc� n�o ter� mais nada a lhe dizer.

Eu lhe direi que ela n�o � como os outros creem,

que ela � como eu sei que ela �!

Muito complexo para explicar numa esta��o.

V� r�pido, espante a este burgu�s. Traga-a aqui.

Dentro de 1 minuto ela vai nos dizer, quem ela �.

Senhor...

O que foi?

H� aqui um sargento com a caminhonete da pol�cia...

O que ele quer?

Ele pergunta se h� algu�m aqui que � parente da garota.

Porque ela sofreu um acidente, senhor, no �nibus de Toulon...

Ela est� ferida?

Ela est� l� embaixo?

O que ela fazia no �nibus de Toulon?

N�o saberemos jamais o que ela ia fazer.

Ela n�o est� ferida. Ela est� morta.

Saindo de Marselha, o �nibus colidiu com um caminh�o.

Os outros passageiros s� sofreram ferimentos leves.

Eu a vi, deitado ao fundo da caminhonete.

Ela s� tinha um pequeno ferimento na t�mpora.

Dir�amos que ela dorme.

Pode pedir que fechem minha conta? Eu parto esta tarde.

Pode pedir que fechem minha conta?

Eu parto esta tarde.

TERCEIRO ATO

Onde estamos?

Voc� n�o reconhece?

N�o posso mais andar...

N�o posso mais andar!

Voc� vai descansar.

Onde estamos?

O que aconteceu desde ontem?

Ainda � ontem.

Voc� me prometeu!

N�o se levante.

Descanse.

Diga-me onde estamos.

Voc� me disse que n�o tinha medo.

N�o tenho medo.

Deixe-me saber se j� chegamos.

Sim, chegamos.

Onde?

N�o reconhece?

Seja paciente.

Reconhece, agora?

-O restaurante da esta��o? -Sim.

Mas, voc� mentiu, n�o foi?

Sente-se. N�o.

N�o grite.

Por que foi ao meu quarto?

Eu estava em minha cama desarrumada, sofrendo.

Estava quase feliz,

chafurdando em minha dor.

Eu n�o tinha mais coragem de ouvi-lo sofrer.

Eu depus minha mala e tentei acalm�-lo

e como nada o acalmava, ent�o, eu lhe fiz aquela promessa

para que se calasse.

Estou calado agora.

Voc� ainda n�o acredita em mim.

Gostaria de acreditar...

mas n�o creio. N�o.

Voc� chora, geme e sofre, mas n�o quer crer.

Odeio a dor!

Logo, cabecinha, n�o chorar� mais.

Voc� parar� de se perguntar se deve crer, se n�o deve crer.

Ela vem?

Ela j� est� aqui.

Nesta esta��o?

Ela est� morta!

Eu os vi, carregando-a.

Quer compreender, pequeno homem?

Voc� colocou sua m�o, sem tremer, entre as minhas,

voc� me seguiu, mesmo sem perguntar quem eu era,

sem diminuir seu passo, tarde da noite,

e ainda quer compreender?

N�o.

Eu quero v�-la. � tudo.

N�o est� mais curioso que isso? Eu o trago � porta da morte

e voc� s� pensa em sua garota, pequeno homem.

Voc� tem raz�o.

Vou lhe confiar um segredo.

A morte...

tem uma qualidade que ningu�m conhece.

Ela � boa, terrivelmente boa.

Ela tem medo de l�grimas, de dor.

Cada vez que ela pode, cada vez que a vida lhe permite,

ela vem rapidamente.

Mas a vida se obstina, se comporta t�o pobremente,

mesmo quando ela perdeu a partida,

mesmo se um homem n�o pode mais se mexer, mesmo desfigurado,

mesmo se ele continua sempre sofrendo.

A morte, sozinha, � uma amiga.

Com a ponta do dedo, ela entrega, ela acalma.

Mas eu preferia Eur�dice desfigurada,

sofrendo, velha!

Ah, a amiga...

ela me roubou Eur�dice.

Com a ponta de seu dedo, ela secou Eur�dice.

Eur�dice jovem, Eur�dice feliz,

Eur�dice sorridente...

Ah, eu lha devolvo.

Quando?

Agora mesmo.

Mas escute-me bem...

Sua felicidade, de qualquer modo, havia acabado.

Aquelas 24 horas, aquele pobre dia,

foi tudo que ela reservou,

ao pequeno Orfeu e � pequena Eur�dice, a vida. Sua querida vida.

Hoje, n�o choraria, talvez, pela morte de Eur�dice,

mas choraria por Eur�dice, que fugiu.

N�o � verdade. Ela n�o foi encontrar aquele homem.

N�o, mas ela n�o voltou ao seu quarto tampouco.

Ela pegou o �nibus para Toulon sozinha. Sem dinheiro, mala. Para onde ela fugia?

Eu quero v�-la.

Adeus.

Eu a devolvo.

Ela est� l�, na plataforma,

no mesmo lugar onde voc� a viu ontem, pela primeira vez. Ela o espera.

Voc� se lembra da condi��o?

Sim.

Repita. Se voc� se esquecer, n�o poderei fazer mais nada por voc�.

-N�o posso olh�-la no rosto. -Isso n�o ser� f�cil.

Se eu a olhar na face, uma s� vez, antes da manh�, eu a perco.

E voc� n�o pergunta nem por qu�, nem como, cabe�a dura?

N�o.

Est� bem.

Adeus.

Pode come�ar tudo de novo.

N�o me agrade�a.

Voc� est� aqui?

Voc� est� aqui?

Voc� est� a�...

Sim, meu amor. Voc� demorou tanto.

Sim, meu amor. Voc� demorou tanto.

Eles deixaram que eu viesse a voc�.

S� n�o posso olh�-la ao longo do dia.

Voc� est� aqui?

Sim, meu amor. Voc� demorou tanto.

Eles deixaram que eu viesse a voc�. S� n�o posso olh�-la, ao longo do dia.

Sim, meu querido, eu sei. Eles me disseram.

Venha...

Esperaremos a alba aqui.

Quando o gar�om chegar para o primeiro trem,

no come�o do dia, estaremos livres.

N�s pediremos um caf� bem quente e algo para comer.

Voc� estar� viva.

Voc� n�o sentiu frio?

Oh, sim. Foi a pior coisa. Um frio terr�vel.

Eu n�o posso falar de nada.

S� posso falar do motorista, sorrindo-me, pelo espelho

e do caminh�o chegando como uma besta louca!

Depois,

N�o pude mais falar.

Voc� est� bem?

Oh, sim!

�s suas costas.

� bom voltar � vida...

� como se tiv�ssemos nos encontrado, pela primeira vez.

Voc� � bom?

Voc� � mau?

Qual o seu nome?

Orfeu.

E o seu?

Eur�dice.

Desta vez, est�vamos prevenidos.

Eu lhe pe�o desculpas.

Voc� deve ter tido medo.

Sim.

No come�o, � uma for�a ma�ante, que nos acompanha,

que nos fixa, por tr�s,

que nos escuta falar.

Depois, se lan�a como um animal selvagem.

Primeiro, � um peso sobre os ombros

depois, isso muda,

come�a a pressionar a nuca, estrangulando.

Voc� olha os outros, que est�o calmos.

Os outros

que n�o t�m a besta sobre as costas, que n�o t�m medo

e que dizem: "Oh, � normal,

ela, talvez, perdeu o transporte, ela, talvez, parou para conversar."

E a besta come�a a gritar, agora!

E mergulha em sua omoplata.

Perdemos o transporte, na vida real?

N�o.

Corremos para alcan��-lo. Andamos.

Olhamos, antes de atravessar.

N�s paramos para conversar, na vida real?

N�o.

Ficam loucos, s�o sequestrados, ou fogem.

Felizmente, o rapaz entrou para me avisar, com um ar preciso no rosto.

Quando eu a vi atr�s, deitada, naquela caminhonete,

tudo parou e n�o tive mais medo.

Eles me colocaram numa caminhonete?

A caminhonete da pol�cia.

Eu estava horr�vel?

Voc� s� tinha um pequeno sangue na t�mpora. Parecia dormir.

Dormir?

Se voc� soubesse, como eu corria.

Eu corria sempre � frente,

como uma louca.

Voc� deve ter sofrido.

Sim.

Perdoe-me.

N�o precisa.

Eles me levaram de volta ao hotel

por causa da carta que eu lhe escrevi

no �nibus, antes de partir.

Eles a entregaram?

N�o. Devem ter guardado, na delegacia.

Voc� acha que a ler�o?

Se poss�vel.

N�o podemos det�-los?

� muito tarde.

Foi para voc� que eu a escrevi.

� como estar nua, perto de outro homem.

Talvez eles n�o tenham rasgado o envelope.

Mas eu n�o a colei.

Estava fazendo isso, quando o caminh�o nos atingiu.

E deve ter sido por isso

que o motorista olhou para mim.

Eu estava com a l�ngua de fora,

o que o fez sorrir.

Eu sorri tamb�m...

Voc� sorriu tamb�m, como pode sorrir?

Mas n�o. Eu n�o podia sorrir. Voc� n�o compreende nada!

Eu escrevi aquela carta, para lhe dizer que o amava.

Eu estiquei a l�ngua,

para molhar a cola do envelope.

Ele disse algo engra�ado, como todos os meninos dizem...

Oh, n�o � como estou contando.

� dif�cil. Tudo isso � t�o dif�cil.

O que fazia no �nibus para Toulon?

Estava fugindo.

Voc� recebeu a carta desse... Dulac?

Sim, por isso estava partindo.

O que ele dizia?

Que ele mesmo me perseguiria.

E foi por isso que fugiu?

Sim, n�o queria que voc� o visse.

-Voc� foi sua amante? -N�o.

Ele lhe disse que eu fui?

Sabia que ele diria e que voc� n�o acreditaria em mim.

Eu tive medo.

Por que n�o me disse ontem?

Eu nunca fui sua amante.

Eur�dice, � melhor dizer tudo agora.

Mesmo que seja dif�cil diz�-lo. Aquele homem falou a verdade?

N�o!

Ele mentiu!

-Voc� nunca foi dele? -N�o.

Se neste momento voc� est� me dizendo a verdade,

� f�cil de saber.

Seu olho � claro como uma po�a de �gua, � noite.

Se voc� mentir

ou se n�o estiver segura de si mesma, um c�rculo mais escuro

que vai se estreitar, ao redor de suas pupilas.

O dia vai nascer em breve.

Em breve, meu querido,

-voc� poder� me olhar. -Sim.

Sim, at� o fundo de seus olhos, como um corpo na �gua.

A cabe�a primeiro, at� o fundo de seus olhos!

E que eu fique ali! E que eu me afogue ali!

Segure-se forte, contra mim.

Um calor, sim.

Um outro calor, que n�o dela. Isso � algo de muito seguro.

N�o se pode ser exigente.

Amanh�,

voc� poder� se voltar.

Voc� me beijar�.

N�o fale mais. N�o pense mais.

Deixe sua m�o

vagar sobre mim.

Deixe-a ser feliz sozinha.

Tudo ser� t�o f�cil, de voc� se permitir ser feliz...

Sou t�o gentil e carinhosa sob elas.

N�o lhe pe�o nada, a n�o ser estar aqui.

N�o me pe�a nada tampouco.

Aceite ser feliz.

Por favor...

Eu n�o posso!

Aceite, se me ama!

N�o posso!

Ent�o, cale-se, pelo menos.

Eu n�o posso! Algumas palavras devem ser ditas.

Devemos dizer todas as palavras. Uma a uma. E h� muitas delas!

Meu querido, cale-se. Eu lhe suplico.

Temos sido assolados por palavras, desde ontem!

Preciso olhar para voc�, agora.

Espere. Espere!

Por favor!

O que � preciso

� que a noite acabe. Logo ser� manh�. Espere.

Tudo voltar� ao normal.

V�o nos trazer um caf�, p�o fresco,

Est� muito longe, esperar pela manh� est� longe. Esperar at� ficar velho!

Por favor, meu querido, n�o se volte!

Deixe-me viver!

Voc� me sente, n�o sente?

Estou aqui. Eu sou suave.

Eu sou quente e eu o amo.

Ah, eu lhe darei toda felicidade que eu puder lhe dar.

Mas n�o pe�a mais do que eu possa dar. Seja feliz.

Por favor...

Por favor, n�o se volte!

Deixe-me viver! Eu lhe pe�o!

Eu quero tanto viver!

Viver...

Viver..

Como sua m�e e seu amante?

Com momentos ternos,

boas refei��es, um pouco de amor, e tudo estar� bem?

Eu a amo muito, para viver.

Esse homem, ele a segurou contra si?

Ele a tocou, com sua m�o, cheia de an�is?

Sim.

H� quanto tempo � sua amante?

H� um ano.

� verdade que esteve com ele, anteontem?

Sim.

A v�spera do dia em que encontrei voc�.

Ele veio me buscar, no teatro, ap�s o espet�culo.

Ele me chantageou.

Ele me chantageava, todas as vezes.

Admita que aquele dia voc� me seguiu de boa vontade, pequena mentirosa.

De boa vontade?

De boa vontade?

Eu cuspia, cada vez que me beijava.

Sim, minha pombinha.

Assim que voc� me deixasse, eu fugiria.

Eu me desnudava em meu quarto, eu me lavava e me trocava.

Voc� nunca soube disso!

Que louca!

Por que voc� tuteia esse homem?

Eu n�o o tuteei.

Viu?

Isso � t�pico dela, jovem.

Eu lhe disse que se enganou.

Perdoe-me, meu querido,

mas todo mundo se tuteia, no teatro.

Vicent tuteia mam�e.

Eu o tuteio, sim.

Eu n�o o tuteio por ser sua amante. Eu o tuteio

porque todos se tuteiam.

� t�o dif�cil...

� t�o dif�cil, sempre ter que explicar tudo.

Voc� disse que eu a chantageei aquela tarde, como todas as tardes.

Que chantagem?

A costumeira.

Voc� acreditou naquela chantagem durante todo o ano, pequena mentirosa?

Viu? Voc� admite t�-la feito por um ano!

Como ele a amea�ava?

Ele amea�ava me demitir, senhor, todas as vezes,

de meu cargo de gerente.

� um cretino! Ele perde tudo, sempre!

N�o quero um cretino assim, em minha trupe.

Entende, meu querido, esse pequeno � s�. Ele cuida de seu irm�o de 10 anos.

Ele quem sustenta os dois para viver.

O senhor entende? Eu tenho que cuidar de todas as malas, todos os cen�rios

Tudo sozinho.

N�o consigo nunca.

N�o consigo nunca.

Ele � um idiota.

Est� decidido. Vou deix�-lo em Ch�tellerault!

Eu juro que ele prestar� aten��o. Por favor, Dulac, eu juro.

Se eu n�o o despedir,

voc� ser� gentil?

Sim.

E foi assim que se passou, todas as vezes.

Perdoe-me, meu amor.

Eu fui covarde.

Mas, ent�o, eu n�o o amava.

N�o amava ningu�m.

E ele n�o havia ningu�m para defend�-lo.

Sempre a verei, com as m�os daquele homem sobre voc�.

Eu sempre a verei como ele a descreveu.

Sim, meu querido.

Ele nem estava com ci�me, procurando-a.

Ele estava rindo:

"Uma garota como Eur�dice tem seus caprichos."

Ele disse isso?

"Como � a sua?

Dif�cil de acordar. Sempre com seus livros policias. Seus cigarros."

Ele sabia que voc� era covarde.

Se ele veio por voc�, n�o deveria ficar comigo.

Sim, meu querido.

Defenda-se, ao menos. Por que n�o se defende?

Como voc� quer que eu me defenda?

Mentindo para voc�?

Estou desordenada, � verdade.

Sou pregui�osa, sou covarde...

� muito dif�cil.

Voc� v�?

� melhor que eu morra novamente.

Se voc� me amasse, por que partir?

Pensei que n�o conseguiria jamais?

O qu�?

Faz�-lo entender.

O que eu n�o entendo, � por que essas crian�as pensam que tudo � triste.

Depois de tudo, meu gat�o,

fomos amantes passionais, mas isso nos fez triste?

De jeito algum!

� como eu sempre digo:

Um pouco de amor, um pouco de dinheiro, um pouco de sucesso,

e a vida � boa!

Um pouco de amor? Muito amor!

Essa menina pensa que ele inventou tudo com seu pequeno violinista.

Mas n�s tamb�m. N�s nos ador�vamos.

N�s tamb�m quer�amos nos matar, um pelo outro.

O que aconteceu � que nos amamos tanto, que isso poderia ter nos matado,

Mas n�s n�o morremos.

Voc� � uma pobre idiota, que poderia ter escutado sua m�e!

Deixe, mam�e, n�o temos mais tempo.

Voc� v�, meu querido, n�o precisamos reclamar.

Tentando ser feliz, poder�amos ser como eles.

Que horror!

Como, que horror?

Por qu�, que horror?

Por que n�o admitiu tudo no primeiro dia?

No primeiro dia, eu poderia, talvez, ter compreendido.

� muito dif�cil, meu querido.

Estou confusa novamente.

E n�o tenho mais tempo.

Perdoe-me.

N�o se mexa.

Quem � o senhor?

Sou o secret�rio do comiss�rio de pol�cia, senhorita.

Ah, � o senhor, ent�o, que est� com minha carta...

devolva-a, senhor, por favor, devolva-a.

Imposs�vel, senhorita.

Mas o senhor comiss�rio n�o a ler�.

Eu a tenho aqui.

Eu a leio todos os dias.

Para mim, � uma coisa.

"Meu querido,

Eu estou no carro, enquanto voc� espera em nosso quarto

e eu sei que n�o voltarei.

Eu me vou, meu querido.

Desde ontem, fiquei com medo,

pois voc� me ouviu em meu sono.

"� dif�cil."

Eu queria que fosse belo, meu querido.

Quero dizer, belo moralmente.

Eu nunca teria conseguido.

Especialmente agora que aquele homem est� chegando.

Ele me mandou uma carta.

Eu n�o lhe disse sobre ele, mas foi meu amante tamb�m.

N�o pense que eu o amei.

Voc� ver�, n�o se pode am�-lo.

� por isso que eu me vou, querido.

Sozinha.

Estou partindo

porque estou corada de vergonha.

Vou-me embora, meu capit�o, eu o deixo

precisamente porque voc� me ensinou, que eu era um bom soldadinho.

Perdoe-me, Eur�dice.

N�o � necess�rio, meu querido.

Sou eu quem lhe pede perd�o.

Eu devo partir.

Eur�dice!

Bom dia, senhor.

N�o faz calor, esta manh�.

Posso lhe servir algo?

Sim.

O que quiser. Um caf�.

Muito bem, senhor.

Voc� est� aqui, filho?

N�o peguei o trem para Perpignan. Estava lotado.

T�o lotado, meu caro.

E aquelas animais queriam que eu pagasse um complemento.

Ent�o, eu desci.

Quer um caf�?

Sim.

Sim.

Tamb�m quero um.

Passei a noite na sala de espera.

Ent�o, o que decidiu, filho?

Agora que pensou bem.

Voc� vem comigo?

Sim, papai.

Sim, papai.

Eu sabia que voc� n�o abandonaria seu velho pai.

Vamos celebrar sua decis�o

com um bom desjejum, em Perpignan.

Eu lhe digo, meu caro, que conhe�o l�, um pequeno pre�o fixo.

Vinho, caf� e digestivo. Sim, meu caro.

E se voc� tiver 2 euros a mais,

Pode comer lagosta, ao inv�s de arenque.

A boa vida, meu filho.

Sim, papai.

Sim, papai.

A boa vida, meu filho, a boa vida.

Sim, papai.

QUARTO ATO

� um "merveillitas"?

Sim.

Um charuto assim, vale muito.

Sim.

Voc� n�o fuma?

N�o.

Precisa se recompor, meu filho! Precisa se recompor.

D�-lhe um "merveillitas".

Se voc� n�o o acabar, eu o fumo.

Quando estou triste, um bom charuto...

Precisa se levantar, Orfeu.

Precisa se levantar, Orfeu.

N�o � mesmo? Eu me mato de lhe dizer.

N�o.

Ele jamais escuta seu pai.

Precisa se levantar e reassumir a vida, onde voc� a deixou.

Somos esperados em Perpignan.

Cale a boca!

Disse que nos esperam em Perpignan. N�o falei nada de mais.

Nunca voltarei com voc�.

Por que n�o voltaria com ele?

Acho seu pai encantador.

Depois, voc� o conhece. Isso conta muito.

Voc� pode lhe dizer para calar-se, ou caminha com ele, sem falar.

Imagine seu calv�rio, sem ele.

Os companheiros de mesa que falam de seus gostos,

velhas senhoras que o questionam com interesse afetuoso...

� bom voltar para sua vida, com seu pai.

Ele far� diariamente seus coment�rios

sobre os tempos dif�ceis, e sobre os card�pios de pre�o fixo.

Vai mant�-lo ocupado.

Falando de pre�o fixo, o "Jeanne-Hachette" � muito bom.

Voc� o conhece? � muito popular entre seus colegas.

N�o.

Eu conhe�o

um bom menu "Jeanne-Hachette" com um bom charuto.

Voc� vem comigo a Perpignan, filho?

N�o, papai.

Mas est� errado, filho, est� errado.

� verdade, Orfeu, voc� est� errado. Deveria escutar seu pai.

Ser� no restaurante "Jeanne-Hachette", que voc� esquecer� melhor Eur�dice.

N�o estou afirmando que � um exagero. Mas... mas comemos bem, hein?

Voc� n�o vai encontrar l� o fantasma de Eur�dice, n�o �?

nesse restaurante "Jeanne-Hachette", em Perpignan.

Voc� deve correr l�, Orfeu.

Voc� acha que eu quero esquec�-la?

� necess�rio, meu velho.

Vamos.

Levante-se. Siga seu pai.

Voc� ainda tem uma bela carreira entre os vivos.

A vida est� aqui. O que voc� quer? � preciso viv�-la.

A vida est� aqui.

A vida est� aqui, Orfeu.

Escute seu pai.

N�o sou daqueles, que se consolam de um mal dizendo: "� a vida."

O que voc� quer que isso me fa�a, que seja a vida?

Que um milh�o de gr�os de areia sejam esmagados, ao mesmo tempo que eu?

S�o seus irm�os, como dizem.

Eu os odeio. Todos. Um por um.

Ent�o, n�o tente transformar a multid�o numa irm� amorosa.

Somos sozinhos. Totalmente sozinhos.

� a �nica coisa certa.

Voc� est� sozinho, porque perdeu Eur�dice.

Lembre-se do que a vida, sua querida vida, lhe reservou...

ficar um dia s�, sendo Eur�dice ainda viva.

N�o.

Sim, um dia ou outro,

dentro de 1 ano, em 5 anos, em 10 anos,

talvez, sem cessar de am�-la,

voc� veria que n�o quer mais Eur�dice e Eur�dice n�o quer mais voc�.

N�o.

Seria t�o est�pido assim.

Seria voc� a trair Eur�dice.

Jamais.

Por que grita tanto? Por voc�, ou por mim?

Ent�o, imagine, se preferir,

que talvez voc� queira tra�-la. N�o � melhor.

Al�m disso, ela pode ter abandonado voc�, primeiro.

N�o.

Por que n�o? Porque ela o amava ontem?

A ternura pode ser idiota, voc� sabe.

Ou talvez haja uma maneira se doar a voc�,

antes de ir ao encontro de seu amante, t�o am�vel, t�o gentil,

que voc� poderia, quase, ser um pouco feliz. � verdade.

N�o, n�s n�o.

Voc�, como os outros; voc�, mais que os outros.

Com seu jeito de ser terno, voc� seria dilacerado at� o fim.

N�o!

Teria durado para sempre,

at� que ela envelhecesse perto de mim, at� que eu morresse aos p�s dela.

Mas a vida n�o deixou que voc� chegasse at� l�. N�o, pequeno homem.

Voc�s s�o todos iguais.

Tem sede de eternidade e, do primeiro beijo, voc� est� verde de terror

porque sente, obscuramente, que isso n�o poderia durar.

Quando eu digo que a vida � magn�fica!

Mas a vida n�o lhe deixou Eur�dice.

Mas, Eur�dice, talvez, possa voltar para voc�, para sempre.

Voc� escutou seu pai falar sobre a vida, agora mesmo.

Foi grotesco, n�o foi? Foi lament�vel.

Mas essa farsa, esse absurdo melodrama, � a vida.

Eu lhe ofere�o uma Eur�dice intacta

uma Eur�dice com uma imagem verdadeira, que a vida jamais lhe ofereceu.

Voc� a quer?

Seu pai ronca, Orfeu.

Olhe bem seu jovem pai

e pense em Eur�dice, esperando-o.

Onde?

Voc� sempre quer saber tudo, pequeno homem.

Mas agora, isso vai terminar.

Voc� vai ver como tudo vai ficar puro, iluminado, l�mpido.

Um mundo para voc�, pequeno Orfeu...

O que preciso fazer?

A noite est� fresca.

Saia da cidade, pela estrada que est� diante voc�.

Quando as casas se espa�arem,

voc� chegar� numa colina, perto de um pequeno olivedo.

� l�.

� l�, o qu�?

Que voc� tem um encontro, com sua morte.

�s 09h.

Est� quase na hora, n�o a deixe esperando.

Eu reverei Eur�dice?

Imediatamente.

Adeus...

homenzinho.

Entre.

Ele aceita?

Ele aceita!

Sim, ele aceita.

Meu querido...

Por favor, volte logo.

Meu amor, por favor, volte logo.

Ele est� a caminho.

Ele n�o vai ficar mal, vai?

Ele n�o vai sofrer, vai?

Voc� sofreu?

Se o senhor me permitir, vou fechar as cortinas.

Ouvi o senhor falando. Tenho receio de o incomodar.

Estava falando sozinho.

A mim tamb�m, isso acontece.

Pode preparar minha conta? Partirei esta noite.

Ontem o senhor disse...

Eu pensei. Desta vez, eu parto.

O senhor j� acabou com Marselha?

Sim.

Que horas s�o agora?

Exatamente 21h, senhor.

Eis que chega.

Ele poder� me olhar?

Sim, agora sem medo de perd�-la.

Meu querido, como demorou!

Enfim, Orfeu est� com Eur�dice.

FECHAM-SE AS CORTINAS

Ora...

Meus queridos amigos,

Todos voc�s conhecem o mise-en-cene de palco de Antoine

e de seu amor pelo golpe de teatro.

Antoine! Voc� n�o est� morto?

N�o, n�o estou morto.

Embora, segundo meus m�dicos, nunca estive t�o pr�ximo.

Mas acalmem-se, tenho pouca f� nos seus progn�sticos.

Desculpem-me por esta pequena farsa, mas permitiu-me reuni-los.

Voc�s sabem, no dicion�rio sou classificado como autor dram�tico,

mas eu tenho um fraco por grandes efeitos.

Queria saber se depois de todos esses anos, voc�s ainda me amam um pouco,

e se minha Eur�dice ainda vale a pena ser encenada.

Claro que amamos.

Espere at� que digamos a Zambo!

Ele � t�o bobo!

Desaparecimento brutal do dramaturgo Antoine d'Anthac

Ele pode me olhar?

Sim, agora sem medo de perd�-la.

Orfeu est� com Eur�dice...

Finalmente.

FIM

Tradu��o da legenda para o portugu�s: Lu Stoker

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